terça-feira, 20 de setembro de 2011

Aconselhamento ao jogador

1. No jogo contra o Man. United (o “Náite”), já tinha ficado com uma leve impressão: duas ou três hesitações nas saídas aos cruzamentos que ainda não lhe tinha visto deixaram-me de pé atrás. Mesmo no lance do golo de Giggs, houve ali qualquer coisa que me disse “podias ter feito melhor, malandro”. Não estou, como é óbvio, a culpar Artur pelo golo sofrido nem a dizer que podia sequer não o ter sofrido; estou a sugerir que Artur pode não ter estado no sítio ideal no momento do remate do galês (julgo que foi Neno que disse, um dia, algo do género: “os grandes guarda-redes fazem grandes defesas; os melhores guarda-redes também, mas fazem-nas menos vezes porque estão mais vezes no sítio certo”).

Essa impressão, muito discutível – eu próprio a discuti comigo mesmo, vezes sem conta, “lá estás tu a deitar o guarda-redes abaixo, qualquer dia acaba no Saragoça!”, “tu é que és sempre o mesmo crédulo, só vês o erro quando ele já não dá para emendar!” -, ganhou contornos de preocupação com o golo sofrido diante da Académica. Uma vez mais, o caminho aberto de que Danilo dispôs deve ser tido como a principal razão para que o golo acontecesse como aconteceu. Mas Artur estava no sítio errado: demasiado longe dos postes, demasiado longe do avançado, na terra de ninguém, aquele sítio onde estar ou não estar significa mais ou menos o mesmo. A sua reacção ao lance ainda demonstrou bons reflexos; já a sua palmadinha carinhosa numa bola rápida como aquela soou a desperdício de esforço.

Não estou a contestar Artur nem, tão pouco, a tentar beliscar-lhe o estado de graça. Tenho todo o gosto em vê-lo na baliza do Benfica e sinto-me bem mais descansado desde que o lugar é dele. Só quero que o Artur saiba, quando ler este texto, que estou atento e que irei sempre apontar-lhe os erros para que os possa corrigir e tornar-se um cada vez melhor guarda-redes, para que consiga ser seleccionado por Mano Menezes como tanto deseja.

2. Foi também contra o Náite que a apreensão fez questão de surgir: Matic, jogador em quem tanto apostei na pré-época (as minhas notas dizem assim: “notável pé esquerdo, com elevada capacidade técnica”, “forte no choque, implacável no tackle”, “imponente no jogo de cabeça”, “a bravura de um latino a atacar a bola misturada com o sangue frio de um eslavo a guardar posição” – não sei o que andava a ler na altura, mas estava claramente inspirado – eu, não o Matic), entrou muito mal contra os ingleses. Pouco esclarecido em relação aos espaços a ocupar, foi sempre muito precipitado e/ou hesitante na abordagem aos lances. Resultado: poucas recuperações e muitas perdas de bola, maus passes – mesmo os curtos – e um buraco no meio-campo no sítio onde antes existia a segurança de Aimar ao lado de Witsel.

Na altura, dei desconto (e continuo a dar). Tendo vindo do Chelsea, é natural que o Náite o intimidasse um pouco. Já o jogo contra a Académica, no qual ainda me pareceu mais perdido, sobretudo na primeira parte, tenho mais dificuldade em compreender. O nervosismo não se justifica e aquela ansiedade em mostrar serviço só pode prejudicá-lo – até porque o dono daquele lugar é um senhor que prima pela tranquilidade e pelo acerto, nunca perdendo a calma.

Como disse, tenho Matic em alta conta e estou seguro de que se trata apenas de uma consequência de estar com nervos. Também só escrevo isto para que o Nemanja, quando ler, sinta que lhe presto atenção e encontre aqui uma ou outra dica para melhorar e, então sim, jogar como verdadeiramente sabe.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dragon Ball

Pareceu-me ser um título suficientemente parvo e, em simultâneo, claramente alusivo ao clássico supremo, que irá parar muitos corações um pouco por todo o país na próxima sexta-feira. Provavelmente, não poderá dizer-se que eu tenha primado pelo bom gosto na escolha atrapalhada dessa miserável anime (nunca vou entender os cerca de 98% dos leitores que, tendo entre os 25 e os 35 anos, sentem algum desconforto quando me refiro ao Dragon Ball como “miserável anime” – aquilo era muito mau; dêem-me uma Ana dos Cabelos Ruivos, um Marco Polo, umas Aventuras de Tom Sawyer, aqueles do Bocas e do Ted; se quiserem comover-me e prender-me à televisão, avancem com uma edição de luxo de Vento nos Salgueiros ou, evidentemente, aquelas aventuras do Tsubasa, em que ele demorava sete episódios a ir de uma a outra área; agora, se o objectivo for aborrecer-me, ofereçam-me meia-hora do Dragon Ball ou, em alternativa, três minutos de Power Rangers) para designar o post que ora escrevo e para o qual ainda não defini muito bem um rumo nem um objectivo (ignorem o que está entre os parêntesis anteriores e passem à frente se quiserem compreender a frase, que começa lá em cima, no início do texto, praticamente).

Contudo, não deixa de ser possível construir analogias entre essa epopeia tragicómica japonesa e o jogo que se aproxima. Há a questão das bolas, do poder, do Dragão – aha! -, dos super-heróis, das artes ocultas, da concentração, da honra, da solidariedade e, a meu ver, o Mestre Kame faz lembrar o Pinto da Costa irmão do Pinto da Costa (aquele que faz autópsias). É tudo muito análogo. No entanto, preferia não ir por aí.

Não percas o próximo episódio.

domingo, 18 de setembro de 2011

Se o Granada for campeão, ignorem tudo o que está escrito abaixo

O Barcelona fez o terceiro golo e eu disse para um amigo, que também aprecia desfrutar da paisagem de fim de tarde às portas da Típica, "isto hoje vai aos oito". Esta frase ficou-me na cabeça. Não tanto por ter acertado no resultado final, mas sobretudo por dois motivos: primeiro, pela reacção do meu amigo - nem olhou para mim, aceitou a profecia com uma naturalidade gélida, como se a minha frase fizesse todo o sentido do mundo; segundo, não me parece que fosse difícil adivinhar "aquele" resultado - se não fossem oito, teriam sido nove ou sete ou dez. Em última análise, o que importa é que uma goleada de oito a zero num jogo do campeonato da primeira divisão da segunda melhor liga do mundo que envolva Barcelona ou Real Madrid não só não causa espanto, como é encarado com uma tremenda naturalidade. Tornou-se uma espécie de "faz parte" ou de "pois, estava-se mesmo a ver". E eu vejo as loas e elogios que se tecem aos dois portentos - sobretudo ao Barcelona - e não vejo uma só pessoa a entrar em pânico pelo facto de a liga espanhola se resumir ao resultado do confronto directo entre os dois grandes rivais, apimentado pelo concurso a ver quem faz mais golos (por jornada ou por atacado) e por qual dos dois craques é o melhor do campeonato e, por conseguinte, o melhor jogador do mundo, sabendo-se à partida que se um deles marcar menos de 50 golos no decorrer da temporada, a coisa é capaz de ser vista como um fracasso.

Se em Espanha um campeonato com 20 equipas serve apenas para tirar teimas entre o poderio de duas, não passando as restantes 18 de simples figurantes, em Inglaterra não é muito diferente. Há o United e, depois, mas bastante depois, o irrequieto intruso londrino de Chelsea. Os outros londrinos são uma sombra deles próprios - o Arsenal está desfeito e, de há alguns anos para cá, tornou-se definitivamente na terceira ou quarta força do campeonato. O Liverpool abdicou há 20 anos de lutar pelo campeonato, contentando-se com os quartos lugares que dão acesso à Liga dos Campeões, prova que levavam bastante mais a sério. Entretanto, nem à Champions chegam. O City não passa do mais forte concorrente a Bitch of the Year da próxima jantarada da OPEP. Ou seja, a questão deixou de ser se o United consegue ser campeão. A curiosidade prende-se mais com o grau de dificuldade com que o fará. A avaliar pelo arranque da época, a FA colocou a prova em "very easy".

O caso inglês é muito semelhante ao português. A questão "será que o Benfica consegue ser campeão?" surge-me muito depois da outra, "quando será a primeira vez que o Porto perde pontos?". O nosso campeonato nacional só poderá ter alguma emoção se o Benfica não cometer o mínimo deslize E vencer os portistas em pelo menos um dos confrontos directos. De outro modo, não passam de umas longas e protocolares 30 jornadas para consagrar aquele que já era campeão à partida.

O desequilíbrio começa a tornar-se tão gigantesco e a afigurar-se tão incontornável que o futebol doméstico corre o risco de passar a ser aquele entretenimento de encher chouriços enquanto se espera pela jornada internacional. Qualquer dia, um campeonato nacional terá o mesmo sabor que a vitória no Campeonato de Lisboa tinha na década 30. Estaremos perante uma mudança de paradigma? Se sim, e se for irreversível, aquela ideia elitista da Liga Atlântica começa a fazer algum sentido. Mas valerá sempre a pena tentar perceber que acontecimentos e circunstâncias levaram a este estado de coisas.

Comente você mesmo

Paulo Jorge Santos refere-se, aqui, ao Manchester United - Chelsea de hoje à tarde, da maneira seguinte:

"o duelo entre as equipas que dominam o soccer desde 2004".

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Domingos e domingos de impaciência…

Ultimamente, tenho tido presença assídua no Estádio da Luz. Porém, nem sempre foi assim – e irei falar sobre o assunto, logo que consiga digerir uma passagem absolutamente notável do Fever Pitch de Nick Hornby a propósito do público e do jogo da bola. Esta digestão poderá processar-se, ou não, no decorrer da escrita deste texto. É um dos encantos com que a minha própria escrita me seduz: até a mim surpreende. Traçar um plano narrativo equivale, para mim, a abrir um novo documento em Word. Mas concentremo-nos.

Dizia eu que agora vou muitas vezes à Luz, se compararmos com o que me era normal. Este ano, assisti a três jogos da Europa e a um do campeonato. O ano passado, fui a 15 ou 16 encontros, no total da época. Há uns tempos atrás, era menino para ir meia-dúzia de vezes à Catedral durante um ano inteiro (houve um ano de excepção: na época 2009-2010, não vi um único jogo ao vivo; na primeira metade da época, por circunstâncias pessoais; na segunda, para não estragar uma coisa que estava a correr tão bem – assim, abstendo-me de azarar a equipa, fiz com que o Benfica fosse campeão. Não precisam de agradecer, o título é recompensa suficiente).

Isto de ir ver os jogos europeus é muito giro e muito bom, mas deixa-me uma sensação de que estou a perder algo. Surpreendido por esta impressão inesperada, mesmo após a exibição e o ambiente com o United, indaguei: de onde vens tu, ó ingrata impressão? Só no dia seguinte, ao ver os telejornais, é que cheguei a uma conclusão – não menos surpreendente do que a sensação em si.

Quando eu não ia tantas vezes ao Estádio, via os jogos, quase sem excepção, na Gelataria Típica de Alfama que, ao contrário do que o nome pode sugerir, de gelataria tem a arca da Camy e de típico tem o facto de ser uma tasca do mais charmoso que se pode encontrar, num registo simples e sóbrio (até ao intervalo dos jogos; depois disso, a coisa muda e o adjectivo deixa de poder ser usado com propriedade, a não ser que estejamos a fazer planos para o futuro). No entanto, é absolutamente verídico que se situa em Alfama.

Nestas incursões pelo futebol de balcão, havia vários momentos que eu considerava – e ainda hoje considero – sagrados: o entoar do Hino do Benfica, com a voz de Luís Piçarra diluída nas nossas, antes do pontapé de saída; as flash interviews e as conferências de imprensa no final do jogo. Podemos considerar, se formos muito rigorosos, três momentos, separando as flash das conferências. Para mim, no entanto, vai tudo dar ao mesmo. O meu interesse não é em saber que a equipa fez tudo o que estava ao alcance, que o grupo está unido, que o jogador está contente pelo golo mas o que importa é (sic) os três pontos ou que vão continuar a trabalhar, semana após semana, um jogo de cada vez porque, lamentavelmente, o futebol é assim mesmo e há que levantar a cabeça.

O que mais me importava nos momentos em que os protagonistas se acercavam de câmaras e microfones era mesmo ouvir Jorge Jesus. Jorge Jesus criou todo um novo e admirável léxico dentro do já de si riquíssimo e exótico mundo das palavras futebólicas. Eu ouvi Jesus dizer que viu um lance “nídito”. Isto, já depois de nos ter levado longe na “óroliga”, após termos sido eliminados da “champiõs liga”. Uma resposta de Jorge Jesus, a qualquer que seja a questão, é uma chapada de luva branca a quem perde tempo a discutir se o acordo ortográfico é bom ou é mau: para Jesus, simplesmente não se aplica. A língua muda, o povo escreve e fala diferente. Jesus nem dá por ela – nunca deu.

E eis que é isto que perco enquanto como uma bifana e bebo uma imperial naquele intervalo entre a Ti Rosa e o Manelito. Onde está o meu bom Jesus a encantar-me com suas palavras, tal como os seus discípulos me encantam com os seus passes, as suas fintas e os seus golos? No Estádio há a vantagem de o ver esbracejar e saltar e berrar como alguém que atravessa uma profunda crise de nervos e não se consegue fazer entender porque os jogadores não o ouvem – ou ouvem mas não lhe ligam. Percebe-se: nenhum é português. Porém, não estou seguro de que os jogadores o compreendessem melhor se o sangue que lhes corre nas veias fosse milenarmente lusitano.

Este ano, e apesar de me ter saciado com jogos internacionais frente a Trabzonspor, Twente e Manchester United, não saboreei aquele momento de clímax em que Jesus pronunciou, com a segurança de um Cardozo a bater um livre descaído sobre a direita, “tranzá-espór”, “twenty” – num claro revivalismo futriano – e “náite, máster náite”. Não é perda pouca. Gosto muito de assistir ao vivo à agitação do mister. Mas gostava de estar mais perto, porque não consigo ouvir o que diz. E gostava, sobretudo, de o ouvir discorrer sobre… enfim, sobre assuntos. Em geral. Gostava que a Judite de Sousa ainda estivesse na RTP1 e que Jorge Jesus conseguisse fazer do Benfica campeão europeu só – atentem: SÓ! – para poder ter o prazer de assistir a uma Grande Entrevista com o nosso treinador.

Perdidos, irremediavelmente perdidos, estes momentos de antologia, vejo-me a ficar impaciente pelo primeiro jogo entre Benfica e Sporting. Não é habitual em mim. Tendo, por norma, a desejar que este jogo não chegue – dá-me angústias, dá-me ansiedades, perco o apetite, tenho sonhos maus, fico confuso e stressado. Mas este ano dou comigo em pulgas. E o Benfica até pode ganhar só por quatro ou cinco a um, mas com uma condição: o golo do Sporting tem de ser apontado por Van Wolfswinkel. Só isso. E depois, venha a conferência de imprensa.

Aquela língua suja...

Há, no mundo da bola, personagens que se distinguem pela coerência. Existem outras que se distinguem pela estupidez. Mas apenas uma elite consegue a sua distinção por ser coerentemente estúpida. José António Saraiva é um clássico de cada vez que abordo este tema e, por isso, hoje poupá-lo-ei. A não ser que mude de ideias enquanto escrevo o texto. Há quem fale de Rui Santos quando a temática é esta, mas estou em crer que tal se deve mais a questões de tradição e de hábito do que a conhecimento de causa (sinceramente: quem é que ainda lê o Rui Santos?). Sinto muitas saudades de José António Lima, esse pequeno verme acobardado, habitante de um exíguo enclave algures entre o pretensiosismo intelectual e a profunda ignorância - tanto do futebol quanto das letras. Olímpio Bento, por seu lado e com as suas tenebrosas analogias, deixa perceber facilmente que é de outro campeonato e não deverá ser avaliado segundo parâmetros do mundo civilizado. Miguel Sousa Tavares, quando sóbrio, é uma grande desilusão. Tornou-se simplesmente desinteressante. Resta-nos quem? O leitor mais atento e perspicaz já terá adivinhado. Quantos portistas boçais (descontando o próprio presidente, que, como se sabe, é um prodígio da “fina ironia” e da “bicada ao rival”) conseguem escrever isto [nota: as vírgulas estão transcritas segundo a pontuação do autor]: “mais um capítulo ridículo, de branqueamento despudorado, ao melhor estilo da velha senhora”; “o andor benfiquista voltou e em força”; “o Benfica vai colhendo frutos das benesses das arbitragens”.

Repito: é um portista. Eu toleraria esta revolta, ainda que enganada, a um sportinguista – diga-se a verdade: este ano, o Sporting já foi prejudicado várias vezes. Não me é difícil compreender que um adepto do Sporting se sinta discriminado quando a favor do Benfica se assinalam, no mesmo jogo, três grandes penalidades (sendo que uma, ainda por cima, não existe), enquanto que o seu clube já foi privado de dois golos limpos, entre outras injustiças menores.

Qualquer adepto que não seja muito imbecil conseguirá admitir, apesar de se lhe revoltarem entranhas, que o árbitro esteve bem ao assinalar os dois primeiros penalties e que esteve mal ao assinalar o terceiro (e ao não assinalar um anterior, por mão de Alex a cortar cruzamento de Emerson). Não custa muito, basta olhar para as imagens e ser objectivo. Mas eu nem quero isso – na minha humilde opinião, a vossa opinião importa-me muito pouco, só para ser simpático. O que eu gostava era que o (reparem no desprezo no “o”) - dizia eu que gostava que o Rui Moreira tivesse um pouco mais de vergonha na cara. Mas também não quero pedir o impossível: se não é capaz, que se deixe estar. Cada um vive com o que tem.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Citando Hornby



«Aprendi algumas coisas com o futebol. (...) Aprendi o valor de investir tempo e emoção em coisas que não posso controlar e de pertencer a uma comunidade cujas aspirações partilho de maneira completa e acrítica.»

O irredutível galês

Há certos privilégios que são ainda mais raros do que o “privilégio” regular – já de si disponível apenas a uma elite. Por exemplo: eu já tive o privilégio de ver Ryan Giggs jogar ao vivo. Por duas vezes. A última das quais, jogou em simultâneo e na equipa oposta à de Pablo Aimar. Isto, sim, é um privilégio à séria. É um momento raro.

Há jogadores muito bons, que jogam muito bem, que incendeiam plateias, fazem explodir euforias, levam pessoas ao delírio. E depois há aqueles a que gosto de chamar “masters” – o termo “mestre” não tem a carga de “poder” que a palavra inglesa carrega.

Ser master não é só “jogar muito”. Por exemplo, Cristiano Ronaldo não é um master. É um craque – um super-craque (e bonito e milionário). Mas master é o Messi. O master pensa com agilidade, corre com imaginação, executa com felicidade e sem esforço e faz o jogo depender de si – porque tem esse poder, porque é superior. Não apenas futebolisticamente. Não. É em absoluto superior. Rooney nunca será um master, por melhor jogador que seja. “O” master foi Zidane, provavelmente o maior e mais potente que vi jogar (falamos desta estirpe; continuo a preferir, enquanto jogador, Ronalducho Nazário e Diego Maradona).

Ontem, entre quase 64 mil pessoas, num ambiente inexplicável – nem me vou dar ao trabalho de tentar -, vi no mesmo relvado dois dos raros masters da actualidade. Pablito, o nosso enorme Aimar. E Giggs, um britânico com um tremendo azar geográfico que o destino quis ver confinado a uma das mais pobres selecções da Europa, hoje em dia. Ver Giggs retirar-se da selecção do País de Gales em 2007 provocou-me aproximadamente a mesma sensação que assistir à despedida de Henry do Arsenal. Acabava ali uma era - sem a glória merecida. Mas com muita honra. E é também isso que distingue masters de craques. É esse prolongamento dos pés e da cabeça até ao coração e ao carácter (não estou a pensar em episódios da vida familiar, conjugal ou extra-conjugal, claro; falo apenas de personalidade).

Ontem vi-me deliciado perante a inteligência, a elegância, o toque, a suavidade, a importância daquele senhor dentro do campo. É uma maravilha. À beira dos 38 anos, trocou a sua personalidade de craque dos extremos pela bênção de quem sabe o que faz e o que quer fazer no centro do terreno. Só pela honra que é vê-lo vale a pena ir a um estádio.

PS - Um amigo alertou-me para a tremenda falha deste post: Dennis Bergkamp. Obviamente, Bergkamp é um dos expoentes máximos do ser master. Por estas e por outras é que não tenho como escapar ao Arsenal. Mesmo quando se leva oito do Náite.

Hoje os posts saem ao parágrafo

Vou começar pelo fim, pela discussão que menos importa e que, normalmente, só ocupa a mente e as discussões dos adeptos de equipas que não estão em jogo. Fóruns e blogues, twittéres e facebooks, um pouco por todo o lado se lêem vozes de quem está de fora e não racha lenha. “They didn’t even play with Nolito in the eleven, you fucks”, “What?! Who the fuck is that Brazilian, man? What about Capdevilla?”, “I can’t believe Saviola wasn’t even in the pitch… these guys must be kidding”, “Well, this Jesus guy makes me laugh… Is this for real? Rubem Amorim? Who is he? Is he a real footballer?”… Podia continuar. Aparentemente, os adeptos do Liverpool e do Arsenal, e sobretudo do Chelsea e do City não gostaram de ver Jorge Jesus escolher uma equipa para o jogo de ontem já a pensar no jogo com a Académica. Eu próprio fiquei um pouco surpreendido. Mas não vejo a coisa como uma “falta de consideração” ou um “subestimar o adversário”. Apesar das opções B, Jesus estruturou bem a equipa, que fez um bom jogo e só não ficou com os 3 pontos porque teve algum azar. Oportunidades não faltaram. Essas más línguas são apenas manifestações da azia dos adversários que provavelmente esperavam que o Benfica humilhasse historicamente o United…

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Confiança, rapazes

Um amigo meu, sportinguista, perguntava-me ontem “então, estás com medo, para amanhã?” e eu “não, pá”. Ficou surpreendido. “Como não? É o Manchester!” “O importante é não sobrestimá-los”. Depois fiz aquela expressão assim confiante e sábia, cerrando suavemente os olhos, esticando de modo ligeiro os lábios bem fechados. Calou-se.

Eles fizeram 18 golos em quatro jogos do campeonato. Inclusivamente, marcaram oito ao Arsenal - o Arsenal seria a minha equipa se um cataclismo apocalíptico varresse o Benfica da face da Terra e se, chegado esse inimaginável dia, o Desportivo de Mafra, o Grande Dépor, não tivesse ainda chegado à primeira liga. 18 golos em quatro jogos… é susceptível de causar alguma apreensão. Mas também não exageremos. Podem ter tido sorte.

Eles têm pontos fracos. Têm de ter. Eu não queria fazer uma abordagem xenófoba do assunto, mas... há que considerar, por exemplo, que eles têm um português. Vantagem nossa logo aí.
Não podemos ter medo deles. Não quando em Lisboa há manchesterianos bêbados desde ontem de manhã. Não sei se eles já nascem neste estado ou se simplesmente a Sagres lhes cai mal - não é para meninos. Certo é que cambaleiam como se não houvesse amanhã (que seria hoje, no caso dos que estão neste estado desde ontem). Grupos de dez e de quinze homenzarrões muito brancos e volumosos caminhando incertos pela cidade que maldosamente não pára de se mexer...

Financeiramente falando, eles têm mais receitas sozinhos do que toda a liga portuguesa junta. Ou seja, eles podiam ter o Aimar, se quisessem. Ou o Cardozo. Ou até o Witsel. Ou o Javi. Ou o Maxi. Ou o Nolito, ou o Luisão, ou o Artur, ou o Emerson, ou o Gaitán ou o Garay. Ou todos. Mas não! Em vez disso, têm aqueles gajos. Têm muito dinheiro mas percebem pouco de bola.

Pela minha parte, fiz o que sempre faço: enervar cosmicamente o adversário. Assim, esta semana cumpri uma série de pequenos rituais especialmente dolorosos para o United. Sair à noite? Só para o Liverpool. Comer e beber? Só na Rua do Arsenal. Ir ao Shopping? Só ao City. Há que desmoralizá-los.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Não pensou bem...

Noticia A Bola, à página 12 da edição de hoje, que o meu mui estimado Gabriel, o Pensador, aproveitou a estadia em Portugal para visitar o Estádio de Alvalade - onde assistiu ao Sporting - Marítimo (2-3) - e a Academia leonina. Que fique registado que Gabriel é brasileiro e acabou por tornar-se rapper. Não percebe de futebol, portanto.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

É que há maneiras e maneiras..

Em dois blogues que muito aprecio e frequento com regularidade, deparei-me com textos de polos completamente opostos.

No primeiro, critica-se duramente a política de aquisições do Benfica - isto, numa sequência já longa de críticas deste blogue a quem dirige o clube.

No segundo, elogia-se o planeamento e a construção da equipa para a época que ainda agora começou.

É extraordinário, antes de mais, concluir que os autores estão a referir-se ao mesmo clube, dirigido pelas mesmíssimas pessoas. Mais extraordinário é constatar que se tratam ambos de adeptos fervorosos do Grande Clube que é o meu. Mas notável mesmo à séria é saber que ambos os textos contêm verdades impolutas. Tudo depende agora da maneira como olhamos para elas e queremos interpretá-las.

Para ambos e para os poucos que me lêem, aqui deixo os meus 5 cêntimos, correndo o risco de vos dar aquilo que não vos interessa nem um bocadinho: não sou nem nunca fui partidário de Vieira - sempre mantive espírito crítico relativamente ao presidente da Instituição (e manterei, com ele ou com qualquer outro); não sou de presidentes - nem de treinadores, nem de capitães de equipa, nem de outros jogadores, já agora. Sou do Benfica e isso me envaidece. Mas, pesando factos e argumentos, desta vez - e isto sem qualquer prognóstico, constatando apenas a realidade presente - estou com a direcção do Benfica. A ela, ao presidente, ao Rui Costa e a Jorge Jesus, os meus parabéns. Vocês estiveram bem.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A pena submissa e outros parágrafos


Encaremos este texto como uma espécie de roteiro ou de síntese de uma série de coisas que gostaria de mencionar mas que, por me faltar o tempo, não tenho tido oportunidade de partilhar convosco.

Começo pelas coisas que me aborrecem. Neste caso, enerva-me um pouco, até. Falo de Alfredo Barroso. Sob um discurso aparentemente educado e comedido, leio nas suas crónicas os desabafos de uma personagem escondida e por revelar. A submissão sempre polida e educada ao Porto é deveras enervante. Barroso não é capaz de dizer com todas as letras o que pensa e sente – inveja e raiva? – em relação ao Porto e ao portismo. Disfarça sempre uma espécie de demónio infernal latente com “que me perdoem os meus amigos portistas”, ao que acrescenta uma espécie de chave ideológica que invariavelmente vai de uma de duas maneiras: ou “mas com o Benfica ainda é pior” ou “mas quem diz o Porto, diz o Benfica”. O Benfica, portanto, é o símbolo da iniquidade no mundo e é, por isso, omnipresente no discurso baixinho e invejoso de Alfredo Barroso. Um discurso submisso, fraco e cobardezinho, sempre vergado a esse Porto que ele verdadeiramente não admira: antes inveja e cobiça.

Depois de Barroso, viremo-nos para o mundo civilizado. De futebol, muito se tem falado. Dissecou-se o Benfica – Twente e as partes do Nacional – Benfica que o nevoeiro deixou ver. Tenho para mim que ninguém do Nacional viu, por exemplo, o Bruno César na hora do golo. Ele foi sempre em frente sempre em frente sempre em frente sempre em frente e ninguém lhe saiu ao caminho. Como é que vocês explicam isto? Falta de visibilidade, evidentemente. Estava, até, a ouvir o relato na Renascença e, a dada altura, um jogador do Nacional pergunta a outro “onde é que se meteu a porra da bola, c&$&%$#&?” e a seguir foi golo. Depois o outro respondeu “ah, então por isso é que aquele gordinho passou aqui a correr com tanta pressa”. A sério. E foi pela mesma razão que Bruno César chutou de força: para que a bola fizesse ricochete na rede e, assim, saltasse à vista. Fez bem, mostrou clarividência depois de ter mostrado discrição ao longo de 60 metros. Gostei. Se ele fosse bonito, era dos meus preferidos a esta hora.

Ainda nesse jogo de nebulosa memória, Cardozo, para quem não se lembra, voltou a fazer golo e um jogo de esforço e de combate. Só há um motivo que me impede de trazer para este blogue a discussão sobre o valor (atenção: não falei em qualidade técnica) de Cardozo na frente de ataque do Benfica: é o facto de a discussão ser desnecessária e ridícula. Implicar com Cardozo só pode ser fruto de teimosia.

Por falar em teimosia: Jorge Jesus. Fico agradado por vê-lo ceder e ser menos teimoso. Sentou Saviola e fez muito bem. Eu sou um profundo admirador do Saviola, atenção. Mas não está em forma, parece desmotivado e esconde-se dos jogos, quando dantes assumia a iniciativa de ataque e pedia jogo constantemente. Por outro lado, esta estratégia, com Witsel no meio e Aimar mais solto, oferece uma equipa mais compacta a gerir a bola e a defender, com uma frente de ataque mais móvel e poderosa – Cardozo, nesta espécie de 4-3-3-mais-ou-menos, é um homem novo, solto, agressivo, com iniciativa. Gosto de ver. Neste momento, só é preciso articular melhor a acção dos extremos nas acções defensivas. Gaitán mexe-se pouco; Nolito nem sempre auxilia bem.

Hum, ora, deixa cá ver as notas… Do Artur não vale a pena dizer o óbvio… Ah, o Emerson. Aparentemente, Emerson é o que Maxi Pereira foi quando chegou ao Benfica: ninguém entendia o que é que ele estava ali a fazer. Eu, homem prevenido e com visão de futuro, digo-vos: não preciso de esperar pelo futuro, caramba. Então o homem não joga tão bem? Valha-me Deus… Com o Twente, só não foi o melhor em campo porque lá estavam Witsel e Aimar. Na segunda-feira teve dificuldades, mas esteve bem e na hora H salvou a equipa com rapidez de raciocínio e de execução. Capdevilla tem tudo para eu gostar dele, menos o facto de não ser mulher. Mas, por mim, vai ter de mostrar que merece o lugar.

Acho que havia mais coisas, mas por hoje é tudo. Amanhã a ver se tenho mais de 20 segundos, que isto assim é muito complicado, tudo à pressa, tudo à pressa…

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Uma perda de tempo

Cento e oitenta minutos, dois golos do Nolito e mais um de outra pessoa que não se me recorda agora, para eliminar o Trabzonspor, e vai que os turcos vão à fase de grupos da Champions à mesma. Ok, eu até compreendo... perder com o Benfica não significa falta de qualidade; é apenas sinal de azar por se ter cruzado com o Grande. Por mim, até se podia tirar o Otelul Galati do pote 4 e metia-se lá o Twente. A equipa não é nada má e têm o Ruiz e o Tiendalli, jogadores que não mereciam ter tido que defrontar o Benfica.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A síntese aos seus pés


No futebol, como em muitas outras artes e disciplinas, o poder de síntese é importante. Partindo desta premissa, decidi testar a minha capacidade de sintetizar. Assim, sábado passado a minha ida à Luz foi várias coisas ao mesmo tempo: uma ida à bola – com bifana e coirato incluídos -, uma festa de aniversário e uma homenagem a Cesária Évora. Ou seja, sou poderosamente sintético. Bom, mas, como é hábito, proponho que nos foquemos no que realmente importa: a homenagem a Cesária Évora. Nunca tinha pisado um grande palco descalço. Na verdade, continuo sem ter pisado um grande palco descalço. Mas pisei, pelo menos, a bancada da Luz sem intermediários entre os pés e o betão que tanto estimamos e tão bem nos suporta, semana após semana, época após época. Foi com uma sensação libertadora que entrei na Catedral de chinelos e calções. Senti-me mais próximo da essência divina que a sede física do Benfiquismo materializa. E aqui vos deixo uma nota curiosa: quando o Maxi correu para entregar a Cardozo aquela bola que só podia dar golo, primeiro; e quando o meu anafadinho (quase) preferido, com três pulinhos e três toques, arrumou a questão, depois, pensei para comigo “bolas, esta táctica à Cesária resulta mesmo!”. O meu obrigado à diva de Cabo Verde. Resulta muito melhor do que o meu cachecol da sorte.

Isto dos pés e da síntese tem que se lhe diga. Pessoa sintética por definição, Pablo Aimar personifica, em pouco mais de 165 centímetros de altitude, a excelência da qualidade em quantidade generosa num invólucro de dimensões reduzidas. A cada jogo, Pablito parece aumentar, crescer, expandir-se autenticamente pelo planeta do futebol, pelo universo do Benfica. Quando deixa o relvado sob o aplauso da multidão, no entanto, é possível constatar que é pequeno e magrinho. Depois o público entoa o seu cântico e o enorme 10 agiganta-se de novo, agradecendo com a humildade e a graça de quem só pode ser o maior de todos. E, se pensarmos um pouco, compreendemos o que é óbvio: os pés talentosos de Aimar começam-lhe na inestimável cabeça. Talvez a curta distância entre ambas as extremidades lhe facilitem a vida.

Há, porém, quem tenha bons pés mas seja desprovido de poder de síntese. Saviola é um exemplo claríssimo do que afirmo. Aliás, neste momento, é um dos expoentes máximos da prática da complicação. Se o desacerto pontual se lhe perdoa – como deve perdoar-se a todo quanto é génio –, já a sua infinita capacidade para tornar complexo o que é muito simples complica-me com os nervos. Isso e a sua aversão a partilhar a bola com Cardozo – mais um senhor que, apesar da sua alongada e corpulenta existência física, sintetiza muitíssimo bem na hora de finalizar.

Há casos mais estranhos. Gaitán, por exemplo. Se pés não lhe faltam, poder síntese muito menos: consegue fazer tudo o que tem a fazer em apenas três ou quatro lances por jogo – aqueles em que se digna a fazer parte da equipa e a jogar um bocadinho à bola. Se aquela bola que bateu no poste tivesse terminado no interior das malhas, a situação seria menos grave. Mas não terminou e, assim, para a história fica a lição que Bruno César lhe deixa: podes jogar poucochinho e ser mandrião, desde que metas a bola lá dentro com classe e com estilo.

Por falar em ficar para a história: esta estreia de Capdevilla soube-me a muito pouco. Escondeu-se do jogo, evitou participar nele a não ser nos momentos absolutamente indispensáveis. Fica o benefício da dúvida – creio que o ritmo da super-estrela espanhola ainda é muito baixo. Mas se sintetizarmos a sua produção frente ao Feirense, obtemos apenas dois lances: num, fez uma abertura notável para Nolito, com a bola a chegar direitinha, redonda e ligeira – diria “suave” – aos pés do goleador da extrema-esquerda (futebolisticamente falando, claro); noutro, após uma extraordinária troca de bola ao primeiro toque, em que a defesa e o meio-campo do Benfica tentavam sair a jogar (e bem…), Capdevilla perdeu a bola no centro do terreno num lance que podia ter trazido grande perigo para Artur. Fica a minha humilde sugestão para o ultra-campeão pela Espanha: para a próxima faça como Cesária, jogue descalço. Comigo resultou.