quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Isto são assuntos sérios

Ponto prévio – trata-se de um pedido: leiam o que se segue com espírito aberto e sem preconceitos. A escolha do termo “preconceito” não é inocente. O que se procura no texto que se segue é pensar o assunto.

Racismo. Estamos na segunda década do século XXI, vivemos num país civilizado e temos duas metrópoles multiculturais onde a diversidade de povos, credos, cores e línguas fazem parte da identidade dessas cidades. E, no entanto, a questão do racismo ainda faz notícia. Se me permitem, estranho-o.

Há uns tempos, aconteceu o caso singular de um jogador do Braga que acusou outro do Benfica de lhe ter chamado “preto filho da puta”. Escrevi sobre o assunto, mas fi-lo num tom não muito sério. Não creditei a situação, pareceu-me irrisória e, portanto, inflada. Agora, o tema volta à ordem do dia com as acusações do Manchester City devidas aos cânticos dos adeptos do Porto.

Primeiro, fiquei indignado ao ouvir as declarações de Mancini criticando os cânticos portistas. Diz o italiano que, se calhar, em Portugal o público não está habituado a “lidar com jogadores de fora”. Isto é uma profunda demonstração de ignorância por parte de Mancini acerca da realidade portuguesa, em geral, e do futebol português, em particular: mais de 50% dos jogadores que actuam em Portugal são estrangeiros; suponho ainda que uma percentagem bastante elevada desses não represente o estereótipo do branco caucasiano. Mas, pior do que a ignorância do treinador do City, é o seu preconceito em relação aos portugueses. Portanto, sugere Roberto Mancini que os portugueses são, de um modo geral, racistas? Ou somos apenas estúpidos e não sabemos lidar com quem vem “de fora”?

Estas questões levaram-me a uma que, de tão ridícula, me parece pertinente: e se Portugal, apoiando-se na conferência de imprensa que citei, decidisse acusar Roberto Mancini de xenofobia? É que estas questões de racismo e de xenofobia têm sempre os mesmos ingredientes na sua génese: ignorância e um apetite mórbido pela generalização. Mas, pensando a situação, esta sugestão é absurda, não é? Então, pensemos um pouco.

O público – corrijo: parte do público – presente no Dragão teve um comportamento pouco educado, isso é um facto. Estranho? Não creio. O público “da casa” tem o seu papel num jogo de futebol: puxar pela própria equipa e enfraquecer a equipa visitante. Como não há árbitro nas bancadas, e estando em questão uma massa humana muitas vezes eufórica, em que os indivíduos se diluem num espírito que deixa de obedecer ao racional, as estratégias usadas por esta mole humana são naturalmente desagradáveis para as suas vítimas – e, de outra forma, não fariam sentido. Encontrar nestas manifestações sinais evidentes de racismo parece-me bastante abusivo. Ainda mais, tendo em conta que na relva, do lado do Porto, estavam: Helton, Álvaro Pereira, Rolando, Fernando, Varela… São o quê, brancos? Esperem, querem insinuar que os portistas são racistas selectivos?

Estas acusações de racismo são perigosas, mais que não seja, por serem levianas. Uma coisa são cânticos óbvia e claramente racistas que se fazem acompanhar de outras manifestações e sinaléticas – e, então, estamos perante um problema social e não uma ocorrência num estádio de futebol, já que o contexto se torna indiferente; outra coisa é uma manifestação pontual e bastante tonta de uma parcela de público que, quando esmiuçada, significa aquilo que sempre significou: um insulto inócuo e nada mais que isso. Em nada diferente de 20 mil assobios ofendidos, de três mil apupos exaltados ou de 10 mil pessoas a gritarem “filho da puta” quando o adversário bate um pontapé de baliza. E, se se consideram graves estas manifestações ditas “racistas” por parte do público portista, tenho a dizer que se deve ir mais longe e ser-se rigoroso com tudo: os guarda-redes deste mundo vão ganhar muito dinheirinho só em indemnizações por difamação e atentado ao bom nome de suas mães. Irradiar o racismo do futebol não é isto; isto é apenas palhaçada, fait-divers, entretenimento de mau gosto sustentado em acusações carregadas de má fé.

Posto isto, concluo que as declarações de Roberto Mancini acerca da intolerância do povo português ao que vem de fora são bastante mais ofensivas, porque implicitamente xenófobas, do que os cânticos mal-educados e deselegantes vindos das bancadas do Dragão. A inconsequência dos segundos torna-os toleráveis; a ignorância maldosa das primeiras é indesculpável.

Só mais um pedido: antes de me chamarem “branco de merda” e coisas do género, pensem no assunto e contrariem o exposto com argumentos.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Perfeição e propósito

Ontem estava sem nada para fazer e não me apetecia ver o jogo do Porto e então pus-me a pensar. Ao princípio, não tinha grande tema de pensamento. Li as palavras de Jorge Jesus que diz que é preciso um jogo “perfeito” para ganhar em Guimarães, coisa que me pareceu banal. Mas, depois, meditei um pouco, deixei que a banalidade aparente se espalhasse por mim como um veneno que entra no sangue e tudo foi fazendo mais e mais e mais e mais sentido. Cheguei a um ponto em que “vitória em Guimarães” e “perfeição” se tornaram, para mim, indissociáveis: ganhar nascerá de um jogo perfeito, obrigatoriamente; e resultará, por seu lado, num jogo perfeito, irremediavelmente.

Tudo isto tem que ver com uma questão de propósito. Nunca tinha pensado neste assunto. Aliás, já me tinha ocorrido, mas muito ao de leve, muito sem profundidade. O princípio da vitória, a sua origem: para que serve ganhar? Hoje em dia, ganhar tem uma série de consequências bastante agradáveis, nomeadamente ao nível financeiro. Porém, há 160 anos atrás, ganhar começava e acabava no acto de ganhar, precisamente. Era só isto, não existia mais que isto. Uma pessoa ganhava e, com isso, enfim, era vencedor. Até ao dia seguinte às sete da tarde quando soasse a campainha da fábrica a dar ordem de saída. Então, disputava-se novo jogo para que alguém ganhasse e, com isso, fosse vencedor. Até ao dia seguinte às sete da tarde…

No fundo, ganhar, em si mesmo, não passa disto: é ganhar. Quando penso nestas coisas, fico muito desmotivado, porque há aquele esvaziamento de expectativas, uma espécie de sucção de fé – parece que se conseguiu algo mas, no entanto, não acontece coisa alguma para além desse “algo”. Ganhou-se e isso é suposto ser aquilo que importa. Mas custa-me que tenha havido tanto trabalho e esforço e, no fim, a glória se resuma a um forte aplauso e uns “parabéns” mais ou menos forçados por parte do adversário batido. Tem de haver mais qualquer coisa.

Esta ideia transtornou-me muito porque me fez acontecer aquele fenómeno que sucede quando mastigamos intensivamente uma determinada palavra e, ao fim de um tempo, ela já é só um fonema estranho e irreconhecível, sem significado e sem jeito. Ao fim de um tempo deste raciocínio, concluí: no fundo, é igual ganhar ou perder ou empatar; é efémero e não tem um verdadeiro propósito para além do evento em si. Não há transcendência, existe apenas eventualidade – andaremos a festejar coisas vazias?

Porque o fazemos, então? Porque nos esforçamos por fazer golos e por ganhar? Para demonstrarmos superioridade? Parece-me pouco nobre, próprio de gente com complexos e traumas. Não, tem de ser mais do que isso. E se for para magoar o adversário? Soa-me bem, parece-me honrado! Desmoralizá-lo, tirar-lhe auto-estima, fazê-lo crer que não presta e que não devia dar-se ao trabalho de, sequer, tentar disputar coisas connosco. Ganhar é uma ferramenta da crueldade e é por isso que precisamos de o fazer. Quem não ganha é triste. E cá estaremos para o lembrar de que o é a cada derrota que sofra.

O ser humano é bastante simples na sua complexidade, mas, por sorte, é carregadinho de defeitos no seu jeito previsível de existir. É essa a nossa salvação. Se ao nível da racionalidade o homem é de uma mendicante e embaraçosa modéstia, já no que concerne à iniquidade somos abastados como reis. Ganhar é muito mais do que ganhar. Marcar um golo não é só marcar um golo.

Ganhar é, ainda, fundamental. Mesmo que o meu índice de crueldade fosse reduzido – caso que não se verifica –, ganhar seria essencial para prevenir a vitória de quem me defronta. Eu até podia não fazer questão de subjugar o adversário; mas não poderia permitir, em circunstância alguma, que esse adversário viesse com pretensões a magoar-me o amor próprio. Era o que mais me faltava… Impedir que o adversário ganhe ganhando eu é sempre a solução perfeita.

Agora que releio, noto que talvez esteja a enfatizar em demasia o papel da crueldade no desempenho de um vencedor. Não digo que esteja a mentir – porém não pretendo ficar mal visto. Foquemo-nos, portanto, na importância da desmoralização do adversário. Prefiro ir por aí. Hoje, em Guimarães, é importante desmoralizar o adversário, ganhando. Refiro-me ao adversário verdadeiro, não ao honrado e nobre Vitória. O Vitória é o nosso oponente de ocasião, quis o destino que hoje o tenhamos pela frente. Mas não é o nosso adversário. Esse é outro e espera, em silêncio e resguardo, que o Vitória nos embarace. Para quem espera por isso, aqui fica o meu incentivo à cautela: se hoje ganharmos, será vossa a auto-estima melindrada (e nem sequer precisaram de perder). Para nós, é um cenário perfeito.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Bispos e trivelas

O Benfica só joga segunda-feira, o Rodrigo está melhorzinho, graças a Deus, a Rússia já lá vai e o Porto só joga amanhã. O futebol está deserto, só faltam arbustos secos a rolar ao vento pelas ruas da cidade. Falemos de xadrez.

Teóricos do Belo Desporto encontram pontos em comum entre o xadrez e o futebol. Invariavelmente, referem-se ao pensamento estratégico. Tenho opinião diferente. O xadrez e o futebol têm muito mais em comum. Por exemplo, a finta. Não raras vezes dou por mim a pensar quando um cavalo me dá xeque, pronto a comer-me a torre ao canto, "ah, malandro, que me enganaste". Um teórico pensará "não tens pensamento estratégico". Talvez, talvez. Mas se isso acontece é porque vejo no xadrez a beleza do improviso e do inesperado. Confesso que gosto de surpresas. Deslumbro-me ao olhar para um tabuleiro e pensar "caramba, como é que isto ficou assim?". Dou comigo a achar que o xadrez é um jogo mágico em que as coisas acontecem por uma razão mais ou menos misteriosa.

Se há quem defenda que o futebol necessita da estratégia de um mestre xadrezista, já eu contraponho que o xadrez merece a inspiração de um futebolista de génio. O xadrez só tem a ganhar se for jogado de uma maneira futebolística, com mais pontapé para a frente. De vez em quando, vá, um lance de cabeça. Mas, de um modo geral, gosto de imaginar que as peças se driblam umas às outras. Para mim, é mais anarquia e menos estratégia. Muito me alegra dar um xeque-mate e pensar "olá!, como é que isto aconteceu?". O inesperado de cada lance encanta-me sobremaneira e acho muito disparatado isso de calcular quatro, cinco e seis lances com antecedência. Porque não desfrutar das coisas como elas vêm, deixar que o jogo aconteça? Podem pensar que é infantilidade minha. Eu prefiro chamar-lhe "purismo". Não desvirtuemos o jogo. Se ele é tão belo e perfeito, não podemos descurar o papel que o acaso e o acidente têm no desenrolar de cada partida. Pelo menos, de cada partida disputada por mim.

Sim, perco alguns jogos. Digamos, 80% dos jogos. Ando em baixo de forma, tenho peças em período de adaptação, algumas delas andam desmoralizadas. Caramba, toda a equipa tem altos e baixos. Mas mantenho-me fiel aos meus princípios de jogo: improvisemos. Um jogo pensado em demasia torna-se maçador, enfadonho. Gosto mais de desafios dinâmicos. E, sobretudo, gosto de incitar o factor surpresa. No outro dia, a seguir ao jogo com o Nacional, fui jogar uma partida com um amigo. O lance do Gaitán ainda me estava fresco na memória. Inspirado, ataquei-lhe a rainha com o meu cavalo, aos ésses. E ele vira-se "oh, estás parvo?! O cavalo só anda em él" e eu "então vá, marca a falta". Levantou-se e abandonou o jogo. Eu preferia ganhar com xeque-mate mas, enfim, uma vitória é uma vitória. Deixou-me satisfeito não apenas o facto de ter ganhado mas, sobretudo, a clara demonstração de que um lance daqueles desmoraliza qualquer adversário. Ficou provado que a inspiração e o improviso desequilibram em qualquer modalidade.

Também na saída para o ataque tendo a aplicar princípios do futebol. Quando, por qualquer razão que desconheço, a minha frente de peões desaparece ou se desarruma como uma gaveta de meias de quando eu tinha dezasseis anos, penso logo em Luisão. Não há linhas de passe? Rainha lá para frente, é o chamado "chutão". Quem quiser que apanhe. Nem sempre corre bem. Não tem problema, atiro com um bispo, tipo trivela. Logo se vê. Se não for eficaz, será, pelo menos, bonito e arrojado. O xadrez também pode ser belo!

Gosto é das torres. Aquele jogo simples, directo. Não andam cá a inventar, é tudo muito Maxi Pereira. Sempre em frente até à linha e cruzar para quem aparecer. Às vezes não aparece ninguém: está a recuar, retoma a posição. Tenho para mim que se o xadrez se jogasse com dezasseis torres, era muito mais simples e bonito, como o futebol inglês. Infelizmente, não fui quem inventou o jogo. Mas fica a dica para a federação internacional: mais torres em campo, se faz favor.

Não gosto do rei. É a prima donna. Lento, preso de movimentos, prejudica claramente o desempenho da equipa e só dá chatices. Se pudesse, substituía-o logo à meia-hora de jogo. E só era titular porque é obrigatório. Por mim, nem o convocava. É uma eternidade para subir no terreno, não se desmarca, não pode ir ao choque, não concretiza. Em suma, tem uma equipa toda a jogar para ele e não produz. Pior que isso, fui ao mercado em Janeiro e não há reis em condições, joga tudo igual. Para peça fundamental do jogo, acho muito pobre.

Quem quiser disputar um jogo aberto - nada de jogar para o empate -, é só convidar-me no Chess.com. O nome é diegoarmes. Gostava que vissem o meu xadrez de ataque.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O aforismo

«A língua que é fácil e ligeira, solta e libertina, curiosa e destemida, acaba sempre por encontrar o mais exótico dos sabores: o da incompreensão

-Sabes o que é isto, Pequeno Vermelho?
-Um aforismo, prezado Master.
-Correcto. E que mensagem extrais deste aforismo?
-Queeeee… devemos ter tento na língua…?
-Ah… oh… como tu me desapontas por vezes, poeira de sujidade de Benfiquista…
-Perdoa, Master.
-Pretendes então que um homem, um Benfiquista!, qual domador de caranguejos, chicoteie a própria língua e assim a eduque no caminho do discurso conveniente?
-Não, Master… não reflecti devidamente…
-Sugeres, microscópica substância de matéria Gloriosa que não chega nem para festejar uma vitória por dois a um, que um pensador Benfiquista deve refrear as suas palavras só porque a ordem vigente poderá dar-lhe a provar o supremo dos sabores exóticos?
-Não, Master… A língua deve ser livre. Sempre.
-Sempre. Sempre… Porém, hesitaste.
-Fui um fraco, Master.
-Foste um fraco.
-Não quis ofender-te, querido Master.
-Foste descuidado. Um pensador não deve ser descuidado. O pensamento é a matéria mais preciosa que existe.
-O pensamento é matéria, Master?
-O pensamento é mais que matéria, o pensamento é o pai de toda a matéria. O que seria da matéria se o meu pensamento não existisse, não estivesse cá para lhe dizer “tu és matéria”? Seria um sem-propósito, uma inutilidade, uma criação descabida a flutuar pelo vazio, ao sabor de ventos cósmicos que não seriam coisa alguma porque não haveria pensamento que os designasse e os definisse e tudo seria um caldo caótico e sem jeito e sem nome… O pensamento é a origem e o fim da matéria. Posto isto, parece-me justo que se considere o pensamento como matéria.
-A tua excelência apazigua-me o espírito.
-A minha excelência é humilde mas nunca modesta, porque…
-… a modéstia embacia a excelência.
-Isso… Dispersamos. Voltemos à origem: o aforismo, criaturinha encarnada. O que aprendes com aquele aforismo?
-A língua…
-A língua, precisamente. O que é aquela língua ali?
-A língua… a língua…
-O discurso! A língua é o discurso! É a doutrina, a opinião! A corrente, o pensamento, a ideologia que se comunica, o que se diz! A língua, milimétrica ofensa à Entidade Vermelha…
-É o discurso… sim, Master. A língua é o discurso.
-E como é essa língua?
-É… atrevida.
-Mais. É mais que isso.
-Mordaz.
-E mais, que mais é a língua?
-Independente.
-Mais.
-Independente e brava e corajosa e viril. Vigorosa, pertinente e audaz!
-Isso! Isso, minha minimitude do que se pode ser quando se é do Benfica… isso. Continua… Falta uma coisa. Uma pequeninini… nininha coisa, assim, só um bocadinho maior do que tu…
-E… bom, Master…
-Não tenhas medo. Pressinto-te a acolher a sabedoria. Diz o que pensas.
-E desconfortável.
-Bravo! Bravo! Tivesse Gaitán um centésimo do teu raciocínio…
-Portanto, o discurso… independente e mordaz gera desconforto, logo, está sujeito à incompreensão.
-As tuas palavras têm a precisão de um passe de Pablo Aimar.
-E se… esse discurso estiver errado, querido Master?
-Pequeno Vermelho, num cosmos dinâmico e interdependente, o certo e o errado moldam-se e mudam-se, um ao outro, um com o outro. São como massas viscosas da mesma matéria mas de cores diferentes – sabes como são as cores: hoje na moda, amanhã démodé. Não é o certo e o errado que importam, desde que o pensamento seja honesto, sério e sustentado. Importa, sim, ser-se fiel ao que se pensa, primeiro que tudo; e saber-se os riscos que essa postura comporta, aceitá-los e geri-los com bom senso. Pensa comigo: se um Grande Homem não tivesse pensado à frente de todos os outros, hoje seríamos adeptos do Sport Lisboa e não do Glorioso Perpétuo. Foram a liberdade, a determinação e a independência que nos fundaram e guiaram. E hão-de ser elas a distinguir-nos dos demais, sempre.
-Master, posso lançar-te uma pergunta?
-Questiona-me.
-Dispões-te a suportar a intolerância em detrimento da unanimidade?
-A unanimidade instalada é uma coisa muito aborrecida, Pequeno Vermelho. Sabias que, quando todas as moléculas estão arrumadinhas e absolutamente quietas, a temperatura atinge o zero absoluto?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Experiências genéticas

Se é enteado de um boi e filho de uma coelha, como é que este gajo consegue ser tão porco?

Eu queria escrever mais coisas sobre o assunto mas a ira, o ódio, que o inominável suscita em mim tolda-me o pensamento, tolhe-me as ideias. Os nossos jogadores foram bravos, lutaram honradamente. Dos nossos poucos - e aceitáveis - falhanços surgiram os golos de um adversário que, tendo qualidade futebolística, se mostrou falho nas virtudes humanas. Gente dissimulada e maldosa. Não gostei. De hoje em diante, ficarão no saquinho onde estão a Lázio, o PSV e outros reles que tais. E agora, enquanto escrevo isto, ouço o íncubo dos relvados dizer «tentei jogar a bola» e sinto um tamanho nojo que desisto: vou terminar o texto e amanhã conversamos. A ira não é boa companhia da escrita.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Ontologia e Estética

Filosoficamente, foi uma jornada de nervos. Fui para o terceiro anel e, confesso, eu não era eu: fui a chamar-me Maria (se a Maria me estiver a ler: obrigado pelo bilhete). Ainda o apito inicial não tinha soado e já estávamos perante uma questão hamletiana mas em muitíssimo mais dramático ainda: a de ser mas não ser.

No bilhete diz “Maria no lugar 10 da fila L”. Sento-me no 9. «Ser mas não estar». O drama agrava-se, a trama adensa-se e, ainda por cima, não se vê bem: tenho o varão das escadas mesmo à minha frente. «Realmente, vê-se muito bem do terceiro anel, não haja dúvidas… pena os ferros, mas de resto, é incrível. Tem uma vista deslumbrante se conseguir olhar pelos intervalos dos obstáculos». Foi o Éter quem me trouxe o bilhete. «Eu não disse que se via bem, disse que se via bonito». Dito e feito: Matic marca de costas após assistência de Garay de cabeça, assistido por Aimar de divino e ungido pé direito. «Bonito!» digo eu.

O Ricardo está sentado nas escadas, «da posição 10, não vejo a ponta de um corno» e vem a piada de Estádio «e se o Jorge Sousa se puser em bicos de pés?». Nada como uma gargalhada alarve numa noite fria, a ver a bola e o Benfica a ganhar. Qual ganhar, aquilo não era ganhar, aquilo era desmotivar o adversário. “Ganhar” parecia assumido pelo próprio cosmos, restava saber por quantos e de que modo: à bruta? Com classe? À bombardeiro? À pressa?

Começa então o espectáculo de Aimar. Tenho a dizer que os números estão para Aimar como o Sporting está para o estatuto de “grande”: longe de lhe fazer jus. Exemplo: Gaitán tem muito mais assistências para golo do que Aimar. Como é que isso é possível? Fácil: Pablito oferece golos em quantidades tão absurdas que a displicência se apodera de quem os recebe. Neste jogo, em menos de 20 minutos, deu três golos: o do Garatic, um outro a Cardozo (poste) e ainda outro a Luisão (atraso ao guarda-redes adversário). Nos lances de Cardozo e de Luisão, deixou os colegas sozinhos, diante de um guarda-redes desprotegido e com uma margem de tempo para ensaiar o remate assinalável. Portanto, estas assistências deviam contar. Aimar não tem culpa que os colegas esbanjem o seu talento e a sua bênção.

«Eu não disse que daqui se via bonito?», «opá, bonito, bonito… era um hat-trick do Nolito». Mas sim, estava a ser bonito. Até que começou a ser extraordinariamente bonito. Por esta altura, Gaitán fazia com que os espiões dos 183 maiores clubes da Inglaterra riscassem todos os sinais de “menos” dos caderninhos de apontamentos, substituindo-os pela mensagem simples «Buy. Now!». Que obra de arte! Gaitán faz-me pensar que o futebol 11 podia ser mais como o futsal: podes entrar e depois sair e depois entrar outra vez. Assim, não se desperdiçava tanto tempo de jogo e metia-se o homem em campo só quando ele estivesse sorridente, retirando-o imediatamente a seguir à conclusão da jogada soberba que tinha acumulada nos pés, à espera de rebentar.

Nisto, o Nacional passa do meio-campo. «Filhadapuuuuta!» ouve-se pelo Estádio inteiro. Que coro de assobios! «Boooooooooooooooi» «ga-tu-no! Ga-tu-no!» «chuuuulo!». Olho para o Ricardo «é penalty claríssimo… é que é mesmo tão penalty…» e ele concorda. Completamente penalty, portanto. Os gritos de homenagem continuam «pa-lha-ço! pa-lha-ço! pa-lha-ço! pa-lha-ço!». Duas filas à frente «na telefonia diz que deixa dúvidas, mas que não parece». «Este gajo pá, nem um penalty consegue fazer como deve ser», indigna-se o Ricardo e, assim, acompanhamos a quase grande defesa de Artur que, neste jogo, era precisamente Artur. «Hoje é mesmo ele, sim senhora». Água na fervura ontológica: ser a ser e a estar, confere. Tudo em ordem naquela baliza, portanto.

Antes de chegarmos àqueles monumentais dez minutos que precederam o intervalo, recebo a dica no WhatsApp, «pessoal, está explicado: o André Almeida está a fazer um grande jogo porque é o Witsel». Novamente, o ser que não é. Pior: o ser a não ser e a não estar como deve ser: «o Witsel?! Então e o cabelo?». Tempestade filosófica no sector 6 da Sagres - «chega, preciso de uma cerveja», «só há sem álcool», «foda-se, mas nada aqui é o que parece?».

Nisto, uma quantidade incalculável de jogadores do ataque do Benfica tocam na bola com elegância, destreza, velocidade e alguma malvadez. Rodrigo faz o três a um e as nuvens da desidentidade tornam-se menos densas: não sabemos quem somos, mas sabemos que estamos bem, no bom caminho. «Este Rodrigo é praí… difícil de classificar, não?». «Diria que é ainda pior que isso». Intervalo, vaga um lugar, eu passo para o oito, o Ricardo fica com o nove, que era o meu. «Daqui só não vejo o que se passa na pequena área», diz ele com ânimo renovado. Eu também estou entusiasmado, não é só o jogo do Benfica que faz sentido, o meu novo lugar dá-me alento, o real parece alinhar-se com a expectativa: «isto começa a bater certo: número 8 sentado, confere» - e é nesse preciso momento que Bruno César se levanta para aquecer. «Desisto, não penso mais nestas merdas».

Na segunda parte Jorge Sousa vem disposto a mudar o mundo e a própria vida: «heia, caramba, qu’o homem ‘tá doido… até mostra cartões ao Nacional». O Éter dá «sinal mais para Jorge Sousa». «Hum, isto traz água no bico». O Ricardo não se engana: a partir desta altura, o Benfica é claramente espoliado. Por cada cartão amarelo, perderam-se sete a oito minutos de goleada potencialmente esmagadora. «Será que o homem toma nota dos números por extenso?», «nah, o gajo é perfeccionista, há quem diga que conseguiu as insígnias porque a FIFA ficou muito impressionada com a sua letra bonita».

«Pablo Aimar pelas minhas palavras»

Voltarei mais vezes ao assunto, até porque a ideia ganhou contornos mais nítidos e há quórum. A recolha dos textos já começou. Como não há regras e cada um escreve o que quer onde lhe apetece, agradeço aos interessados que, caso publiquem os textos nos vossos blogues primeiro, tenham a bondade de sinalizar a publicação, com link, através do e-mail pablopablitoaimar10@gmail.com. Se preferirem, enviem os textos para o mesmo e-mail com nome do autor e outros dados que considerem pertinentes (por exemplo, o vosso blogue).

Para já, a prioridade é a recolha dos depoimentos, que não ficará circunscrita à blogosfera (havemos de ir para a rua de gravador em punho...). Agradeço aos bloguéres vizinhos que passem a palavra e partilhem aquele endereço de e-mail, se não for incómodo. Daqui a uns tempos, iniciaremos a fase 2. Mais novidades em breve.

Obrigado

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A história a quem a quiser contar

Em Alfama, bairro onde vivo, passam-se muitas coisas e de muitas maneiras. Por exemplo, nas traseiras de minha casa há dois pássaros numa gaiola que a vizinha deixa à janela – são uma espécie de papagaios pequeninos ou, se preferirem, periquitos grandalhões. Fartam-se de chilrear. Eu e eles já fizemos amizade: quando estou a estender a roupa, as cordas e as roldanas chiam, fazem aquele crriiiii crriiiii; os mini-papagaios, julgando que estou a falar com eles, respondem-me com entusiasmo. Todos eles são vaidade, piam piam piam, num diálogo de t-shirt para ali, chilreio para aqui. Quando termino, piam de saudade, implorando que volte. Então, lanço-lhes da janela um assobio que eles, claramente, identificam como “hum, cheira-me que este não é o gajo com quem estávamos a falar” e calam-se. Não consigo imitar o meu próprio estendal da roupa.

Lá em Alfama acontecem também outras coisas. Por exemplo, há um rapaz, homem ainda jovem, que é quezilento. É corno. Profundamente corno. Vindo do Norte – como faz questão de sublinhar em voz alta de cada vez que se envolve em disputas de garganta em plena via pública, mais concretamente, à porta do Tolan –, saiu-lhe em sorte casar com uma autóctone, mas uma autóctone bêbeda e fadada ao conhecimento íntimo de boa parte da população local masculina. Em suma, uma devassa, uma vadia. Uma cadela, nos vários sentidos do termo. De cada vez que a esposa lhe suja o matrimónio, é certinho que o homem arma escândalo na rua. Mas é escândalo que nunca passa disso: meia-hora, três quartos de hora de “eu fodo-vos a todos, TODOS! Eu não sou daqui, caralho, eu vim do Norte, não sou como estes paneleiros lisboetas! Comigo ninguém goza, puta que vos pariu!”. Isto, mais b menos v, numa algazarra que colhe respostas variadas, entre o sorriso piedoso, a indiferença conveniente ou o grito pontual de uma janela “e se fosses gritar prá cona da tua mãe, ó boi?”. Findo o espectáculo, volta para casa mais aliviado, suponho.

Acontecem muitas mais coisas em Alfama e mesmo estas duas coisas que relatei acontecem de maneira diferente daquela que conto – esta é apenas a minha versão. É legítima, não é mentirosa. No entanto, é curta: Alfama é muito mais que isto. Acontece que, quando, no Natal, conto as minhas histórias em família, naquele momento para lá do jantar em que a animação e um ou dois bushmíis já permitem o recurso ao vernáculo tabernista, desde que seja no registo “ó pai, não fui eu que disse, eu só estou a contar”, acabo por escolher estes dois assuntos. Entretêm e passam uma imagem do bairro que prolonga o mito do pitoresco, popular, feito de arruaça e detalhe castiço. Os meus pais sabem que Alfama não é só aquilo, mas gostam de imaginar Alfama assim, entre mini-papagaios apaixonados por um estendal da roupa e arruaceiros de língua quase tão afiada quanto as próprias armações de testa.

É com estes pequenos relatos, quase lendas, desprovidos de rigor, que se faz aquilo que é a minha história de Alfama. A história depende sempre de quem a escreve, de quem a conta, de quem a interpreta. Ficar na história não depende exclusivamente do actor ou agente, do contexto ou do acto: resulta, fundamentalmente, da vontade, do interesse e do talento de quem o há-de recordar no futuro. E é assim que heróis por nada se tornam ícones, anónimos se tornam mártires e génios se enterram na vala comum do esquecimento eterno, como se fossem iguais aos demais infelizes com quem partilham a cova. Quando os meus pais falam de mim à sua neta, contam a história dos mini-papagaios e do estendal; mas não falam, por exemplo, da imensidão da tarefa de recolher os sacos do lixo de porta em porta, noite após noite, no meio do cheiro do mijo, da cerveja velha, do camião que os transporta e dos próprios sacos que apanham do chão, numa das mais duras profissões urbanas que conheço. O mito é sempre mais gostoso de contar.

A um nível mais sério, a história legitima-se: assenta em factos concretos e documentados, socorre-se de números e datas e testemunhos. Em suma, preserva-se em papéis para poder ser lida e confirmada. Lida e interpretada. Interpretada e questionada. Eventualmente, reescrita. Com outras roupas e outros termos, na distância dos anos, das décadas e dos séculos, acaba por ter o mesmo final que as minhas histórias de Alfama – pois o homem, que nunca conseguirá conhecer em absoluto uma verdade, será sempre incapaz de gravar essa “uma verdade” como cicatriz no tempo. Por mais cadernos de anotações que uma história ocupe. A história é os seus intérpretes e mensageiros a contarem histórias.

Penso na história do Benfica e assusto-me ao observar como ela se esvai, afunilando daqui para a fundação. Os anos 2000 são agora mesmo, os 90’s são ainda há pouco. Dos 80’s, socorro-me de cadernetas de cromos e vídeos e recortes antigos. Dos 70’s falo com o meu pai, que me conta histórias, as suas histórias do seu Benfica, com os seus mitos legítimos. Dos anos 60 o meu pai não recorda tudo, mas o meu avô recordava. Além disso, os 60 têm mitos muito fortes. Quando não têm, vou à Wikipédia. E é na Wikipédia que encontro os 50 e os 40 e os 30… Quase 50 anos de história do meu clube resumidos em meia-dúzia de parágrafos, mil, duas mil, vá, que sejam dez mil palavras. Cinquenta anos de histórias e conquistas, de sacrifícios e glórias, de fazer filhos Benfiquistas e ganhar Voltas a Portugal. Cem mil palavras não chegariam, nunca, para contar esta história, todas essas histórias.

Ontem Pablo Aimar assinou por Nós. O mais nobre, digno e brilhante número 10 do Benfica de que me lembro – da minha história do Benfica, portanto –, aceitou privilegiar-nos a todos com o seu charme de bola e honrar-se a si mesmo com aquele Símbolo no peito por mais um ano. A minha felicidade foi genuína e comovida. Hoje, pensava em Aimar. Em como transmiti-lo aos meus filhos e aos meus netos. Em como garantir que os meus bisnetos o saibam de cor, como assegurar-me de que os meus trisnetos recordam como recebia uma bola lançada a 60 metros. Queria prometer a toda a minha descendência: “vocês vão saber quem foi Pablo Aimar, o que fazia e como o fazia”. Escrever-lhe uma história digna e perene. É o mínimo que posso fazer por ele e pelos meus que estão por vir.

Não quero que Aimar seja, daqui a 30 ou 40 ou 80 anos, uma pequena compilação de dados e factos e números e datas. Não quero que Pablito seja dez páginas de anotações numa sebenta, dez linhas discutíveis nem artigo da Wikipédia. Quero que ele seja história, com todos os detalhes a que um mito, uma lenda, tem direito.

Então, ocorreu-me uma ideia, provavelmente infantil, seguramente megalómana: criar uma história popular de Pablo Aimar. O plano, para quem o aceitar, é simples: escrever um texto sob o lema “o meu Pablito” ou, se preferirem e tiverem algum pudor, “como eu vejo Pablo Aimar”. Depois, juntávamos todos os textos…

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Um brinde!

Um brinde a todos nós Benfiquistas, o momento é de celebração. Comove-me saber que terei o privilégio de ver o Sumo-Master com A Camisola durante mais um ano e meio (pelo menos, pelo menos...). É uma enorme honra tê-lo por cá. Este senhor consegue engrandecer o gigantesco emblema que ostenta.
Obrigado Benfica, obrigado Pablito.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A cadeira

-Querido Master, permites que te dirija a palavra?
-Nunca estiveste impedido de o fazer, poeira insignificante de Benfiquismo…
-Bem sei, mas fui veementemente desaconselhado pela tua nobre pessoa de me dirigir a ti no decorrer de um determinado período. Humildemente, deixei-me guiar pelas tuas palavras.
-Fosse o teu respeito proporcional à tua obediência e viveríamos em pacífica harmonia. Isso que trazes na mão, o que é?
-É… bom, é o número mais recente do Ontem Vi-te no Estádio da Luz
-Ah! Vejo que te educas bebendo de várias fontes…
-Querido Master, sabes que só os teus ensinamentos me constroem.
-Se assim é, porque lês a doutrina de Ricardo?
-Porque “o homem deve conhecer os vários lados…
- … de uma mesma questão”.
-Ele fala sobre Vieira.
-Bem sei. No estrito cumprimento dos meus próprios ensinamentos, também eu leio o que diz.
-E discordas do que diz?
-Fundamentalmente, discordo do modo como o diz.
-Porquê?
-Porque ataca como um ressentido. E “um ressentido perde…
- … clarividência; sem clarividência, perde-se pertinência”.
-Muito bem.
-E o que pensas sobre a sua argumentação?
-Julgo que sustenta o que afirma. Mas fá-lo com esforço e sem paz. As suas palavras nascem de um confronto objectivo entre a sua própria expectativa e uma interpretação parcial do que resulta de Vieira. Isto, causa desequilíbrio.
-É mau?
-Pode ser frágil. Tem, porém, uma virtude: assume inequivocamente a sua posição. É louvável e honrado. Mas a construção de um bem maior carece de mais do que honra, firmeza e decisão. Precisamos de equilíbrio e de serenidade antes de assumirmos o nosso lugar, antes de firmarmos os nossos pés como raízes.
-E encontras-lhe fragilidades?
-Encontro e dói-me dizê-lo. Ricardo é um bom pensador e um bom homem. Mas o ressentimento toldou-o, impedindo-o de ser justo como uma balança de merceeiro. Por exemplo, Ricardo fala da relação entre Rui Costa e Vieira. E fá-lo depreciativamente, apontando Rui Costa como “uma boa desculpa” e um “elo descartável, se necessário” no esquema vieirista.
-E está errado?
-É possível que esteja. E essa possibilidade deveria levá-lo a pensar, a questionar. Imaginemos: e se, ao invés de boa desculpa e elo descartável, Rui Costa for afinal o mestrando do presidente, o seu protegido? Vieira pode perfeitamente ter decidido resguardar Rui Costa, cuja imagem sofreu desgaste após a trágica época que passou. Este resguardo foi, aliás, extensível ao próprio presidente. Não digo que seja precisamente isto ou absolutamente aquilo. Do mesmo modo que não creio que Ricardo o possa fazer. Mas inclino-me mais para a visão de Rui Costa o protegido do que de Rui Costa o descartável.
-E sobre Enzo Pérez?
-Partilho da estupefacção de Ricardo, reajo com a mesma estranheza e, confesso, cheguei a indignar-me com o assunto. Ainda assim, agora que recuperei a calma…
-A calma é a tua identidade, querido Master…
-… agora que recuperei a calma, sou capaz de ver mais do que um lado desta mesma questão. Imagina que se investiu mais de cinco barris de dinheiros neste jogador que não sabemos quem é. Imagina que ele está cá contrariado. Todos os elementos que temos apontam para um erro cometido na hora de o contratarmos. Parece frágil de espírito, mimado, fraco profissional. Contrariado e sem qualquer possibilidade de chegar à titularidade, estamos perante uma tragédia: cinco barris de dinheiros deitados ao fundo do mar. Acompanhas o meu raciocínio, Pequeno Vermelho?
-Sim, Master, todo eu sou atenção e raciocínio. Cinco barris de dinheiros no fundo do mar, sim.
-É só uma metáfora… agora imagina, tu não queres os teus dinheiros a dar de comer aos peixinhos, pois não?
-Pois não.
-É aí que o empréstimo do Enzo aos indígenas surge como tentativa desesperada de salvar nem que seja um ou dois barris, deixando-o jogar e fazendo muitas figas para que alguém o veja e o compre. Isto dos investimentos é uma ciência de muita superstição… Parece-te plausível?
-Plausibilíssimo, querido Master. E em relação ao “mandato desportivo”? Não consideras um fracasso?
-Considero a época passada um fracasso pela míngua de títulos, sobretudo porque nem correspondeu à qualidade que demonstrámos ao longo de grande parte da época. Não considero um fracasso todo o mandato. Conquistámos categoricamente um campeonato e duas Taças da Liga, atingimos uma meia-final de uma competição europeia.
-E achas bastante?
-Não, claro que não. Nós somos o Benfica, Pequeno Vermelho! Quando o último adversário for derrubado, inventaremos um novo troféu para que possamos conquistar mais um título! Todos são poucos.
-Então… como não consideras um fracasso?
-A verdade, Pequeno Vermelho, considerando que existe apenas uma, é que a nossa grandeza existencial e espiritual não tem correspondência terrena: a hegemonia vigente está nas mãos dos demoníacos.
-Ooohhh… todo eu sou espanto.
-É. Custa a crer, bem sei. Há trinta anos que o império do mal vai urdindo uma teia firme e complexa que nos enreda e limita. Se achas que minto, posso assegurar-te que já fomos comidos muitas vezes.
-A vergonha… a vergonha…
-Sim. Mas não quero ir por aí. Foquemo-nos no desporto, no Belo Desporto. Perante uma potência hegemónica vigorosa e recuperando nós de uma prolongada situação comatosa, o mais Nobre Organismo do futebol mundial considerou-se capaz de fazer frente à realidade logo ao primeiro sinal de potência. Porém, na hora certa, as pernas tremeram-lhe e foi o que se viu. Considero que é triste, mas não um fracasso. Foi uma primeira tentativa de assalto ao poder. Falhou. Este ano tentamos de novo, com uma maturidade nova e uma vontade renovada.
- “Um colosso não se derruba de um só golpe”.
-Falaste com a precisão de um falcão peregrino.
-Querido Master, e não consideras que Vieira tem culpas no falhanço desse assalto?
-Com certeza que as há-de ter. Tal como eu as tenho, pois também eu acreditei no que ele disse antes mesmo de ele o ter proferido! A ilusão deturpa-nos os sentidos, pois a realidade divergia das nossas crenças: a conquista de um campeonato não nos devolve a hegemonia.
-E o que tens a dizer, iluminado ser, acerca das negociações dos direitos de transmissão televisiva?
-Tenho a dizer que devemos ser firmes.
-Com a Olivedesportos?
-Preferia que não negociássemos com a Olivedesportos, mais que não seja, por uma questão de princípio – da mesma forma que espero que nunca sejamos patrocinados pela Super Bock. Há coisas que não casam bem com a nossa identidade. Porém, nestas matérias também não estamos sós e existe alguma dependência de um sistema mais complexo do que apenas a nossa vontade. O ideal seria termos a nobreza de, durante um ano, sermos independentes, com todas as transmissões em exclusivo na BenficaTV. No final do ano, far-se-ia um balanço e, com esse balanço, teríamos mais crédito e trunfos para negociar. Penso que Vieira terá de pôr de parte a sua medonha amizade com Joaquim Oliveira e fazer-se firme e forte, subvertendo a lógica do sistema: ele precisa mais do Benfica do que o Benfica precisa dele.
-Hum… olha e fala-se ainda da venda de jogadores. Que tens a dizer sobre o assunto?
-Desagrada-me que a verdade de ontem seja hoje mentira. Mas a verdade de hoje parece-me verdadeira, lógica e sensata: provavelmente, teremos de vender um ou mais jogadores. Não me choca e não me parece dramático. Compreendo o incómodo de Ricardo: há um desdizer do que foi dito e essa palavra dada que volta atrás é sintoma de falta de nobreza.
-Hum… Master querido, gosta de Luís Filipe Vieira?
-Respeito Luís Filipe Vieira, aprecio parte do seu trabalho e aponto-lhe os erros que julgo ter. Mas, respondendo à tua verdadeira questão, quando me fiz sócio a minha intenção era bem clara: ficar-lhe, um dia, com a cadeira!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Crónica do conceito e de um certo preconceito

Estávamos nós com as nossas barbas e os nossos cigarros, sentados quase rente ao relvado, a uns 20 metros dos nossos alter-egos. Já era de noite mas ainda não era tarde, estava frio e pouca gente. Porém, o ambiente era acolhedor. «Daqui até dá para perceber como é que eles recebem a bola no pé»; dali dá, antes de mais, para perceber por que é que estão lá eles e não eu. Àquela distância, tudo se torna claro, fácil de entender. «É que aquela bola é muito dura, pesada, cheia de tensão», acha o Ricardo. «Depende do pé…»

Estão feitas as apresentações, recolhidos os aplausos e o Eduardo chega à pequena área. Executa o seu ritual com cerimónia e depois, com simpatia, cumprimenta o público por trás da baliza. «Força Artur!», grita o Ricardo. «Não é o Artur, é o Eduardo» - há gente surpreendida e até um ou dois indignados. «Artur não é um nome, é um conceito!». Pronto, está explicado. «Dá-lhe Artur!»

Começa o jogo e eu com nervos. Fico desconcertado com a falta de educação das visitas: desoriento-me quando me trocam o campo, tal como reajo mal se alguém me bebe directamente da torneira da cozinha. O Benfica ataca de Sul para Norte na primeira parte, enquanto aquecemos! – é assim que se processa, faz parte; na segunda, ataca de cima para baixo, que é a descer e nós vemos os golos mais de perto. Mas há sempre alguém chamado Briguel, pequeno de espírito e parco em bons modos, que insiste em amesquinhar nos detalhes. Começamos, então, de cima para baixo, o que tira uma mãozinha de tempero à segunda parte. «Estes gajos, pá, não aprendem: todas as equipas que inverteram o campo, perderam, diz na história», afirma a 191036. «Não percebem que não lhes vale de nada? Perdem à mesma, só são mais desagradáveis…» A história ensina de tudo, até as boas maneiras.

Nélson Oliveira brilha. Não tenho o que acrescentar ao que toda a gente viu anteontem e ao que toda a gente pôde ler ontem. É craque. «Por isso é que ele está ali e nós aqui». É uma questão pertinente: o que é que verdadeiramente diferencia um gajo que joga bem à bola de um caso sério de jogador de futebol? É receita com muito ingrediente. Mas este miúdo aviou-se bem e parece não lhe faltar nada. Pelo contrário, o excesso foi o seu pecadilho: compreende-se o apego à bola e dá gosto ver aquela paixão na ponta dos pés. Porém, fica a nota: Nélson, também dá para passar aos colegas. Bem sei que o caminho mais curto entre dois pontos se desenha com uma linha recta – isto, em todas as circunstâncias menos no jogo da bola. Neste, por vezes existem atalhos menos simples, mas mais eficazes.

«Gosto muito de ver o jogo daqui, mas nem tudo se percebe bem… lá ao fundo vê-se mal», quem o diz é o Edu. O Ricardo concorda. O Sóce diz que sim, também. E nisto o Pouga salta à bola com o Javi e eu «epá, isto é agressão, foda-se!». O lance foi no meio-campo. «O quê? Como é que conseguiste ver daqui?». «Vi, estou-te a dizer que vi, o gajo fez assim como o cotovelo». É que vi mesmo. Soares Dias mostra o vermelho, o público aplaude sem perceber muito bem o sucedido e eu faço aquela expressão de “tóómaaaaaa”. Os olhares incidem em mim com pontos de interrogação na ponta do nariz, «eu não disse que vi? Eu disse». Pontos de interrogação transformam-se em pontos de admiração confirmados por gentis anuências.

Duas filas è frente «diz na telefonia que é mal expulso, que não há agressão, diz que na repetição dá para ver». Olhares inquisidores derramam-se sobre mim e afogam as anuências todas e os seus pontos de admiração. Reajo com serenidade, «só prova que o sítio afinal foi bem escolhido: eu é que vejo mal, vocês viram o lance na perfeição. É ou não é?». Silenciosos pontos de baralhação proclamam o fim do debate. Continuemos a ver a bola.

Os dois parágrafos anteriores sucedem já depois do intervalo, mas não me dava jeito partir o texto lá atrás. Foi um intervalo, diga-se, a puxar ao popularucho, entre espreitadelas à Lucy e à filha da Lucy, tudo ao som do Ai Se Eu Te Pego, primeiro, e do Here Comes Your Man, depois. Here Comes Your Man não é popularucho? Depende da conjuntura. Quando é ostensivamente dedicado à Lucy antes de o seu marido subir ao relvado, não há Frank Black que não se transforme em Michel Teló.

Há três a zero, há 11 para 10, há 81 jogados e 12 por jogar. «Olha, vai entrar o D’jánique». O povo vibra com sorrisos e gritos de incentivo, mais pela graça do que pelo sentimento. Sejamos honestos: D’jánique não é um nosso alter-ego, nunca o será, apesar de estar naquele relvado com aquela camisola. D’jánique é um rapazinho com graça que fica bem no final de um bom espectáculo de entretenimento. «É o nosso brinquedo novo». D’jánique toca na bola meia-dúzia de vezes. «Diz que está perro». Compreende-se. Porém, o que no início era claro e transparente – «por que é que são eles que estão ali e não eu» - fica um pouco mais turvo. «Até sábado, pessoal».

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Taça Lucy

Devíamos conversar. Aliás, temos de conversar sobre a Taça da Liga. É um troféu e faz-nos falta. Talvez não tanta falta quanto outros. Mas dá sempre jeito mais um troféu na vitrina.

Tri-campeão do torneio, que é oficial apesar de não transitar em coisa palpável em matéria de Europas – Liga, se me estás a ouvir: este aspecto poderia aumentar o potencial competitivo da prova; a dignidade de ser “oficial” basta para que mereça ser conquistada, mas isso é para quem tem o hábito de conquistar; pensemos no gado asinino, esse tremendo exemplo de como, por vezes, é tão fácil lidar com assuntos delicados: porque não pôr uma cenourinha no topo do troféu? –, dizia eu que, tri-campeão do torneio, ao Benfica cabe a obrigação moral de o prestigiar e de lutar pela revalidação do título. Até ao momento, tem sido exemplar no cumprimento da missão.

A Taça da Liga já teve várias designações, todas elas efémeras. Todas? Não. Há 12 mil pessoas para quem o nome “Taça Lucílio Baptista” não há-de mudar, nunca. A mim cabe, como contrapartida, recordar o episódio que baptizou ( :D ) esse troféu que o Sporting nunca conseguiu ganhar. Nem o Porto. Nem mais nenhum outro, para além de Benfica e Vitória de Setúbal (o que pode causar um problema moral ao Braga, por exemplo, esse pretendente a “quarto grande” que nunca na vida ganhou um campeonato e que regista no palmarés uma única Taça, colheita de 66 – o Vitória tem três Taças e uma Taça da Liga; vale o que vale, afinal de contas, são apenas troféus).

Reza a lenda que o Troféu Lucílio nunca foi erguido por um capitão do Sporting porque Pedro Silva cortou uma bola, como diria Jorge Coroado, com a zona mamilar e o árbitro da partida assinalou penalty. E isto é uma mentira. Mas uma mentira pegada. O Sporting nunca ganhou uma Taça da Liga por uma razão muito menos conspirativa, muito mais terra-a-terra: falha penalties em barda – esta característica mantém-se até aos dias de hoje. Vou dar de barato que seja regulamentar uma equipa entrar em campo com o Pedro Silva – não sei se é ou não legal, mas pouco me importa. Agora, parafraseando o Miguel Sousa Tavares, porque é que não treinam mais os penalties? É que as duas finais que perderam – record da prova – foram perdidas por 2 a 3 no desempate por penalties. Não foi uma vez, foram duas. Foram dez pontapés – 10! – da marca dos 11 metros que resultaram em quatro – 4! – golos. Não digo que o Lucílio não tenha dado uma mãozinha ( :D ). Mas o certo é que, no máximo, podemos considerar com razoável certeza que, dessa mãozinha, nasceu um golo que deu… empate. Tudo o resto foi incompetência vossa, meus caros.

Temos agora, nas meias-finais, a recepção ao Porto. Não conto ser eliminado pelo Porto em plena Luz. E conto mesmo ir ver o jogo ao Estádio – gritem, chorem, reclamem: não quero saber, eu também tenho direitos! E, se o passado é negro, o futuro pode muito bem ser alvo, clarinho, luminoso até! Ainda assim, caso a tragédia teime em não me largar da mão, tenho toda a confiança em que o Porto conseguirá igualar o record do Sporting na prova, sendo humilhado na final pelo Gil Vicente (nos penalties, claro). Mas isto aqui, todo este parágrafo especulativo, não passa de um supônhamos sem fundamento. Comigo ou sem migo no Estádio, temos equipa para eles. E depois, sim, venha o Gil e logo se verá quem é a melhor equipa de Portugal.

Isto um dia vai ter que acabar

191036: vê lá se tratas de arranjar um concerto bem longe no dia 21 de março outra vez, ok?

Enviado às 15:42 de Segunda-feira

eu: por acaso, estava a pensar em arranjar bilhetes

desta não passa!

(e se, como eu espero, lhes ganharmos para o campeonato, na verdade, a taça da liga passa a "brinde")

Enviado às 15:47 de Segunda-feira

191036: cada um dos stewards vai ter uma fotocópia da tua cara em A4

com um mandado de captura

Enviado às 15:48 de Segunda-feira

eu: ._.

será uma boa oportunidade para quebrar o enguiço

191036: sim, sim

eu arranjo-te um concerto nesse dia, descansa

em trás-os-montes

Enviado às 15:51 de Segunda-feira

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Una Calle para mí

Gosto de abrir as fotos de amigos no facebook, sobretudo daqueles com quem não estou há já algum tempo. Invariavelmente, vou percorrendo outras fotos de outros amigos até chegar às fotos de pessoas que sei que conheço ou que talvez conheça mas que não são amigas. Pessoas que já vi, há muitos anos, não me lembro onde. Mas que vi muitas vezes ou vezes suficientes para presumir docilmente que existiam e provavelmente ainda existem. Perco horas a olhar para praias banais, jantares em restaurantes baratos, poses animadas em grupos de gente bêbeda, crianças que eu nem sabia que tinham nascido, festas de aniversário no pátio das traseiras em mesas corridas improvisadas sob as toalhas de plástico com figuras tradicionalmente nacionais, idas a piscinas municipais, turmas do nono ano de 1994. Vejo como os anos passaram por todos eles ao mesmo tempo que passaram por mim. Toda a nossa pequena miséria conformada, toda a nossa desgraçazinha de ser uma pessoa na vida, de ter um trabalho, de fazer filhos e de contar dinheiro para pagar contas está vaidosamente documentada e emoldurada. Por vezes, é exibida numa encenação de felicidade.

Nestas alturas, sinto o apelo da mudança. Há qualquer coisa em mim que se insurge dizendo “eu não sou assim, não posso ser assim”, tentando provar-me que ainda me resta uma nesga de ambição e uma fatia de auto-estima. Nestas alturas, acho que Lisboa me gasta sem eu dar por isso e sem me dar grande coisa em troca. Pablo Aimar vai ter uma rua com o seu nome em Valência. E eu, vou ter o quê? O meu nome consegue, com algum esforço, constar da guest-list de certos concertos em Lisboa e é tudo. Concertos de amigos.

E então, imagino-me a chegar ao pé da Lady Verde e dizer «anda, vamos embora. Estou farto de estar aqui». Fazemos a trouxa, enchemos o carro até não caber mais um par de meias. E aí vamos nós, direitos ao Sul. Há lá sol e praias de águas tépidas, peixe fresco, marisco e muito silêncio, muito espaço e muito tempo. Podemos dormir a sesta todos os dias e olhar para os relógios sem receio, a degustar o tédio. Vamos para o Burgau. «Adeus Lisboa».

Imagino-me perfeitamente a sair do carro e a sentir o cheiro da maresia contemplando o meu novo mundo abraçado à Lady, com aquele ar de felicidade que os casais que atingem objectivos têm, aquele sorriso de “hu-hum… era mesmo isto… era precisamente mesmo isto… era isto mesmo, acho eu”. E eu a olhar em redor. Lentamente hesitando, lentamente mudando a expressão enquanto perscruto a paisagem, chegando ao ponto de insistir com o horizonte, dramaticamente implicando com ele.

«Espera… esqueci-me duma coisa» «ãh?» «vamos voltar para cima» «mas… o que foi?» «vamos»

«Diego!... o que é que se passa…?»

«a Luz, baby… a Luz…».

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Como os meus "amigos" me entristecem

Noto, com tristeza e amargura, uma confiança revigorada nas expressões dos rostos dos meus Benfiquistas. Há em todos eles uma espécie de sorriso esquivo, escondido mas só na forma tentada – os lábios distendem-se; ainda que mordidos, não se contêm. Há aqui muita felicidade. E uma alegria pronta a explodir. E só não explode porque não querem magoar-me ainda mais. Mas eu sei o que pensam. Eu sei o pensam de mim, o que desejam. E não me vou esquecer disto.

Foi anunciado com estrondo: «Benfica – Porto, dia 2 de Março». Dia 2 de Março. Dia 2 de Março chego eu ao Porto… mas… mas tinha mesmo de ser dia 2 de Março?! Que madrasta esta minha sorte… Para não dizer puta.

Comuniquei com pesar «amigos… como devem imaginar, não poderei ir ao Estádio no grande clássico; não poderei sofrer e festejar convosco; não conseguirei estar ao vosso lado». Ao meu redor, silêncio de luto e pessoas imóveis, forçadamente estáticas, tentando conter todo e qualquer movimento; olhos brilhavam e o tal gesto dos lábios mordidos para não se abrirem na mais feliz das gargalhadas repetia-se em cada um dos rostos; houve quem engolisse em seco para enterrar o grito ao mesmo tempo que me fazia “que sim” com a cabeça. Repeti, enfatizando – recorrendo até a um gesto com ambas as mãos como quem diz «eu sei que isto é grave e quero que saibam o quanto me dói» -, «infelizmente, não tenho escolha… Vou mesmo ter de faltar». As expressões não se alteraram, embora agora todos me fizessem “que sim” com a cabeça, engolindo em seco, ao mesmo tempo que os olhos lhes brilhavam intensamente, cada vez mais. O Norberto Gilberto Adalberto Roberto não conteve o riso – tentou ainda assim abafá-lo – e disse em seguida «epá, eu até vou contigo, Diego! Eu vejo o jogo contigo no Porto…». Baixei a cabeça e respirei fundo. Não respondi.

Magoado, preparei-me para sair. Abri a porta e olhei-os, um por um, lentamente. Ninguém falou. Eu sentia, juro que sentia toda a tensão, toda a contenção daquelas pessoas que ansiavam pela minha saída. Aquelas pessoas, amigos meus, aguardando com impaciência o momento de me ver pelas costas. Fiz o meu mais profundo ar inquisidor e era capaz de apostar que todos estremeceram. Mas ninguém falou.

Saí e fechei a porta. Cá fora, o Pequeno Vermelho aguardava-me. Dei-lhe a mão e caminhámos. Eu tinha de sair dali. Ouvi os gritos atrás de mim, para lá da porta. Festejaram. Festejaram eufóricos, enlouquecidos! Comecei a caminhar e ouvi-os cantar “campeõõõõões, campeõõõõões, nós somos campeõõõõões… campeõõõõões, campeõõõõões, nós somos campeõõõõões…

- Master, porque cantam eles?
- Cantam porque estão felizes, Pequeno Vermelho.
- E estão felizes porquê?
- Estão felizes porque… enfim, é uma longa história, Pequeno Vermelho. No momento certo, hei-de contar-ta. E contar-ta jogo por jogo.
- Mas Master, eles cantam porque já somos campeões?
- Não, Pequeno Vermelho. Ainda não somos campeões…
- Mas eles cantam que somos.
- Mas ainda não somos.
- Mas tu sempre me ensinaste que é insensato festejar-se antes de consumada a vitória, querido Master.
- E é insensato, Pequeno Vermelho. É também descuidado. E, sobretudo, não é elegante.
- Ah… então eles festejam porque não vais poder ver o Benfica – Porto na Luz, é isso? E vais estar no Porto nesse dia?
- Hum? Mas… Mas… o que é que TU, pequena – minúscula! – migalha Benfiquista, sabes a esse respeito, ãh?
- :D Campeõõõõões, campeõõõõões, nós somos campeõõõõões… campeõõõõões, campeõõõõões, nós somos campeõõõõões…
- … será desperdício de tempo e de esforço se me dirigires a palavra nos próximos sete dias.