quinta-feira, 24 de maio de 2012

I miss the comfort in being sad

«Esperava ouvir o meu nome entre os convocados para o Euro 2012, mas não ouvi e fiquei triste. Já encaro isso de forma positiva
(Nuno Gomes)

Estou bem-disposto. As recentes polémicas e conflitos mais ou menos internos do Benfica são facilmente sanados: focamo-nos na selecção nacional e não pensamos mais no assunto. Folheio A Bola, muito gosto eu de folhear A Bola, e descubro a faceta grunge de Nuno Gomes, apreciando a depressão, regozijando-se com a desilusão. Os anos 90 estão-nos mesmo incrustados na carne e no sentimento. De Vítor Paneira a Kurt Cobain, não esquecendo nunca o Patrick Swayze, todos nós, de entre 1975 a 1985, conhecemos bem o inigualável charme da melancolia. Fico feliz por saber que o Nuno Gomes está contente por estar triste – embora eu próprio fique triste por ele, o que também me reconforta, de alguma forma, o que, no fundo, acaba por me animar.

Quinta-feira, o melhor dia da semana para se ler A Bola. É dia de Leonor Pinhão. Um amigo meu, certo dia – certa noite… –, no Cais do Sodré, vendo a Leonor Pinhão nos arredores do MusicBox, não se conteve: Benfiquista fervoroso e apreciador de boa prosa, chamou, gritando, «Dona Leonoooor! Dona Leonooooor!». Desde então, entre amigos, referimo-nos a Leonor Pinhão como “Dona Leonor”, num misto de trato bem-dispostamente carinhoso e alguma reverência. Reverência merecida, justificadíssima. Admiração!

À quinta-feira, folheio A Bola, sim, mas só depois de ir directamente ao que me interessa: a crónica da Dona Leonor. As gerações não são as mesmas e Leonor Pinhão não é uma genuína possuidora do charme da melancolia. Ainda assim, não é por isso que deixa de encontrar conforto nas tristezas. Acontece que é nas tristezas dos outros. E, nesse particular, Dona Leonor tem um charme incomparável. Escreve assim sobre a final de domingo:

«Sofrer um golo de cabeça de um adversário com 1 metro e 66 e que ainda se pôs de joelhos para enfeitar melhor o lance não é coisa digna de um craque das redes como é Rui Patrício
(Leonor Pinhão)

E eu, uma vez mais, fiz da tristeza alegria. A tristeza também não era minha - detalhes. E lá vou eu folhear a A Bola. Falam do Ola John. Deve ser o jogador desconhecido mais famoso do momento. Já li e ouvi o nome do homem tantas vezes que começou a soar-me familiar. Agora, espero que venha. Só para ficar a saber se também joga à bola, para além de ser famoso. Quem fala bem é Bruno César. Dantes falava mal. Agora está falando bonito:

«Aquela Liga dos Campeões é uma prova chic, com aquele hino e tudo…»
(Bruno César)

Não é um encanto? Bruno César não tem costela grunge – tudo aqui é composto de singelo e certeiro optimismo: ele encontra alegria na alegria. Tão simples quanto isso. Dizer da Champions que é chic é a demonstração de que a afirmação despudorada do óbvio pode ser, também ela, de um charme imenso. Finalmente, qualquer coisa que bate certo.

Leio mais. Passo á frente o que não interessa, há assuntos que me aborrecem. O futebol, desporto que se quer de charme e de emoções fortes, às vezes causa-me desconforto. E é então que resolvo a situação: foco-me no basquetebol. E, com este exercício aparentemente simples, descubro a felicidade onde dantes existia tristeza. É bonito voltar a ser campeão nacional de basquetebol. E haverá quem diga «só te preocupas com isso porque perdeste no futebol». E eu responderei «isso é mentira» e nem me darei ao trabalho de justificar. Aliás, esta vitória parece ter mais importância do que o próprio troféu, em si – que ninguém viu mas que se supõe que exista mesmo. Diz-se, pelos corredores e bastidores, pelos balneários e cantos escuros, em sussurros, que se inaugurou um novo salão de festas a Norte. Pode ser pequeno e humilde, mas creio que há-de dar jeito. Isto, se se confirmar a informação. Porque a verdade é que não vi lá festa alguma, portanto é capaz de ser exagero. Ou então há aqui uma inversão da lógica da charmosa melancolia: as gentes de lá só encontraram tristeza na alegria. Na nossa alegria.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Flores anãs

O tédio. O tédio e o ócio. Sento-me à varanda a ver os navios e o tempo a passar. Os piripiris não crescem. Criei uma nova raça de bonsais. Há-de servir-me de pouco. O que eu queria era produzir tempero, afinal saem-me flores anãs. E não me apetece escrever sobre o futebol. O futebol acabou. O futebol fechou. Também eu tenho o direito á hibernação. O futebol desinteressou-me.

O futebol devia ser o Falcao com a camisola do Benfica, a jogar três vezes por semana. O Falcao é o herói, mas o herói no significado máximo da expressão. Numa altura em que o futebol foi cruelmente invadido por dois extraterrestres muito mais poderosos do que o homem, Falcao mostra que a condição de humano pode bastar para ser o mais encantador futebolista do planeta nos dias que correm. Este Radamel tem o que falta aos dois monstros: carisma, uma aura de herói popular, charme, paixão genuína. Onde Cristiano e Lionel crescem matematicamente, metodicamente, industrialmente, o colombiano opera para comover, como um poeta, como um esteta. Não lhe basta fazer muito – tem de fazer bonito. Não lhe basta ser eficiente – tem de ser o mais elegante. Não lhe chega festejar um golo – festeja-o como se ganhasse uma batalha, como se deitasse abaixo um inimigo, como se distribuísse justiça e pães pelo povo. Radamel Falcao não é melhor jogador do mundo, não pode; mas é o jogador mais bonito da actualidade.

Que pena que o futebol não seja, não possa ser, Radamel Falcao com a camisola do Benfica. Em vez disso, o meu futebol é um Benfica disputado, mal falado e maltratado, ora de um lado, ora de outro. Vi o Benfica – União de Leiria, fui despedir-me da equipa. Senti desconforto. Aquele Estádio, que é meu, parece uma casa ocupada, disputada entre Vieira e vieiristas, de um lado, e anti-vieiristas, do outro. Já vos expliquei: o Benfica não é do Vieira. Da mesma maneira, também não é dos No Name Boys. É pura e absolutamente meu. E, sempre que eu quiser ir aplaudir a minha equipa e o seu treinador, despedir-me deles – «até qualquer dia!», «até para o ano!», «até nunca mais!»; «obrigado por tudo!», «podias ter feito melhor!», «eu acreditei sempre em ti!» -, não há um – UM! – Benfiquista à face da Terra que tenha o direito de me chamar o que quer que seja. Que manifestem desagrados, acho muito bem; que insultem indiscriminadamente, não posso admitir.

Por tudo isto, também deixei de ler os blogues, que maçadores os blogues!, da mesma forma que deixei de ler n’ A Bola as reportagens amanteigadas sobre Vieira a propagandear-se nas Casas do Benfica, recolhendo apoios, loas, beijinhos e engraxadelas nas botas. Vocês cansam-me. Uns e outros – simplesmente cansam-me. Não me bastava viver num país de políticos que me envergonham, ainda tinham de vir politizar, de maneira tão degradante, o meu Clube? Tirem a vossa política daqui, por favor! Vão brincar aos partidos, às autarquias, às democracias feudalistas, aos sistemas capitalistas, às assembleias e sindicatos, às votações, greves, manifestações, aos referendos, ao que vocês quiserem, onde vocês quiserem: mas deixem o Benfica em paz! Tenham vergonha e tenham lá paciência, mas o Benfica ainda é um clube desportivo – e o meu santuário do Futebol. Tratem-no como tal.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Minis e jaquinzinhos

Está um perfeito dia de Verão. Na rua, ainda não se sente mas já se pressente o cheiro das sardinhas assadas. É uma espécie de odor espiritual que acompanha os dias magníficos deixando-se imaginar mesmo quando ainda não existe. O cheiro das sardinhas assadas acontece quando o Verão nasce, mesmo que ninguém asse sardinhas. É um perfume que pertence, que faz parte, como se os raios de sol fossem o carvão e o sal e o resto desta cidade fosse feita de pele e escamas finas.

Começava a preocupar-me. As finais europeias vinham aí, estavam mesmo a chegar, e não tínhamos Verão. Nem Verão nem outra estação qualquer. Este ano, ao nível da definição das estações, é como um Atlético de Madrid - Athletic Club, equipando ambas as equipas com as vestes principais. Que imagem bonita: o caos indistinto e uma bola aos saltos, 50 mil pessoas em Bucareste aos gritos sem saber para quem, 20 rapazes trajados de pijamas às riscas e uma taça no fim. Que delírio.

Os meus receios amainaram, o dia de Verão entusiasmou-me com uma lambidela serena quando, à hora do almoço, fui regar os piripiris e os coentros à varanda. Suspeito que criei, inadvertidamente, exemplares bonsai de ambas as espécies. Podem não dar para tempero, mas causam impressão. Às vezes, enquanto os rego, tenho medo de os afogar de tão pequeninos que são.

Lembro-me de, há um ano atrás, ter desejado que a relva de Dublin se transformasse em alcatrão fervilhante. Disparate meu, claro. Como em quase tudo, quase sempre, no que respeita a futebol, as minhas expectativas saíram defraudadas. Já nem perco tempo a puxar pelo que quer que seja. Foi, aliás, assim que consegui que o Sporting fosse eliminado da Liga Europa: simplesmente, ignorei a segunda mão da meia-final. Quando fui ver o resultado, lá estava ele, resplandecente: «Caíram de pé». Parabéns.

Para hoje peço pouco. Já tenho o sol e o Verão e o meu imaginário embebeda-se de aroma a sardinhas que ainda não existem. Estou a um pequeno passo de ser feliz. Venham os 20 rapazes dos pijamas às riscas numa encenação caótica e absurda do mais puro futebol – sem sentido, sem destino, só uma bola e muita anarquia. Uma travessa de jaquinzinhos e a frescura das minis.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Tomei uma decisão e é esta

Dilemas. Provavelmente, uma das maiores perdas de tempo da história da humanidade, uma invenção que tem um único propósito: causar angústia. Eu não gosto de dilemas. Nem de dilemas nem de compromissos com ideias, que é uma coisa muito anti-humana, retrógrada, reaccionária, conservadora. A pessoa deve andar por aí e pensar, pensar, pensar e, se mudar ideias, tanto melhor, talvez tenha crescido ou amadurecido. Mas há um ponto, um dia, um momento, em que, enquanto homem, o indivíduo deve dizer ou sim ou sopas, deve assumir-se, afirmar-se, reivindicar-se. Isto é, a pessoa tem de situar-se no mundo e arrumar as ideias. Ou então não. Mas se o fizer, fica-lhe melhor.

O excesso de bom senso é insensato. Aumenta exponencialmente os valores da angústia e, entre medidas de prós e de contras, dilui indecisamente o indivíduo na hesitação, no impasse, na incerteza. Pensar sobre certas coisas é desvirtuá-las. Nesse capítulo, mea culpa: sou dos melhores gajos a dar cabo do futebolismo. Obstinado que sou, teimo em pensar nas coisas, procuro algum rigor em nome de uma suposta justiça moral, em algumas ocasiões dou por mim a ser minucioso. Resultado: não digo nem sim nem sopas, pareço um adjunto de capataz, com fitas métricas e níveis de bolha de ar, de um lado para o outro, em exercícios de observação, medição e avaliação. Os exercícios de decisão, que são bons e que tanta falta nos fazem, não costumam ser para mim.

Como é evidente, está mal. Se há coisa que eu gostava de fazer era de tomar decisões, de dirigir. Em suma, de mandar. Dar ordens. Ó, como eu seria feliz a ir por aí «faz isto, faz aquilo, oferece o Emerson aos pobres, não faças assim, vai ali buscar-me uma cerveja, tu nunca me contrates o Luís Filipe, livra-te, despeço-te na hora!, mete o Nelson» e assim por diante, a dizer às pessoas o que é que elas haviam de fazer, seguro de mim, certo de que estaria certo.

Estou há três parágrafos a fazer-vos perder tempo porque ainda não consegui decidir o que será melhor para o Benfica (e, atenção que isto importa, é apenas esse o meu interesse – porque o Benfica não é do presidente Vieira nem dos sócios que vão mais vezes à bola nem dos credores da Futebol SAD nem do Luisão; o Benfica é simplesmente meu e, por isso mesmo, eu só posso querer o melhor para o Benfica). Eis o dilema: Jesus deve ou não ficar? Terá Jesus condições para ficar? Será bom para o Benfica que Jesus fique?

Há tanta coisa que me irrita em Jesus que só metade delas chegaria para lhe acenar um lenço branco no próximo sábado. Mas o futebol é diferente, é arremessar fitas métricas e níveis de bolha de ar, que se fodam os prós e os contras: este é o melhor Benfica dos últimos 20 anos a jogar à bola e eu gosto disso, pá, mas é que eu gosto mesmo disso, méne! Por mim, Jesus fica. Está decidido.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sem Título

Eram nove e meia quando aterrei em Faro. Assim que as rodas tocaram no chão, não aguentei mais: liguei o telefone e abri o site d' A Bola. «Benfica entrega título ao Porto». «Vês? Vês?» disse eu para a Lady. É que eu sonhei com este desfecho. E só não postei a previsão no facebook porque ela não deixou, «oh, larga isso, estamos com pressa» e eu larguei, bem-mandado que sou.

No meu sonho, estávamos a jogar hóquei em patins. Contra o Gil Vicente, fora. Não me peçam para explicar. Estava dois a dois e o relógio fazia a sua contagem decrescente. Nós, Benfiquistas, sofríamos e eu dei por mim a sofrer muito mais do que seria suposto com um jogo de hóquei em patins – repito: contra o Gil Vicente. A dada altura, começam a ouvir-se cânticos «campeões, campeões, nós somos campeões» e eu, baralhado, olho em redor, buscando a claque do Gil Vicente. Tudo estava sereno, os próprios jogadores, no ringue, pareciam serenos. Até que vislumbrei, num topo, vinte ou trinta rapazes, vestidos de azul e branco, aos saltos, a cantar e a deitar foguetes. Acordei, sobressaltado e esclarecido: o campeonato não passava daquele dia, estava escrito.

Saí do avião e liguei para a minha mãe. Notei-a tímida, um pouco embaraçada. Não tocou no assunto e perguntou-me se a viagem tinha sido boa. Disse que sim. E foi, de facto. Durante a última semana, desliguei-me de todos os assuntos por vontade própria. Do único que não queria desligar-me, vi-me forçado a fazê-lo: voei das seis e meia da tarde às nove e meia da noite, precisamente durante a hora do jogo e mais uns tostões. A minha mente estava limpa e o meu coração sossegado. Quando li A Bola, percebi que o empate e a perda matemática do campeonato eram apenas um momento definitivo, cristalizado como a morte de uma vizinha que sofria de cancro do pulmão já há meses. É triste, mas é pacífico. Dói menos a hora da morte do que a expectativa da morte. Ver-nos definhar foi, sim, doloroso. Ver-nos perder de uma vez por todas foi apenas uma inevitabilidade. Era uma questão de tempo. Agora ou para a semana, não faria diferença. Vale-me o consolo de não me encontrar em solo nacional à hora precisa do óbito e do início dos festejos mórbidos.

A minha mãe liga-me sempre após – e, às vezes, durante – os jogos do Benfica. No domingo, não só não o fez como não tocou no assunto. Deduzi que preferisse saber de mim, da viagem, da estadia, se me tinham rebentado os tímpanos (Manel: grande abraço, sábado tens direito a duas médias, aquelas gotas são um pequeno milagre) na aterragem. Estranhei, mas não fiquei profundamente impressionado. No dia seguinte, a minha mãe ligou-me de novo, a saber como estava e para falar um pouco mais sobre a jornada inglesa. Aguardei pelo toque no futebol. Nada. Sempre que o assunto podia resvalar para o campeonato, esgueirava-se, torcia a conversa «então e o Big Ben, gostaste?» e eu «ah, não é feio, mas gostei mais do Emirates» e ela «então e a Tower Bridge?» e eu «infelizmente, não consegui foi ir a Wembley – mas vi Stamford Bridge e o campo do Crystal Palace» e ela logo a atalhar «pois, filho… e eu que gostava tanto de ir a Buckingham, ver os soldadinhos».

As mães têm um instinto maternal apuradíssimo. E a minha, derivado deste filho que tem, possui um redobrado. A minha mãe estava a tentar proteger-me, procurando adiar o choque. Não me queria dar a notícia «sabes, filho… tenho uma coisa para te dizer. O Porto já é campeão». Ela não sabia que eu já sabia. Ontem, voltámos a falar. Mais uma vez, a viagem foi o tema da conversa. Sobre bola, nem uma palavra. E o diálogo foi fluindo «filho, tenho cá favas, não queres vir o fim-de-semana?» e eu senti que era a minha oportunidade «não, mãe… sábado quero ir à Luz».

Houve um silêncio prolongado. Houve embaraço do outro lado da ligação. Então, a minha mãe lá ganhou coragem e disse «vais lá fazer o quê, filho? Eles já perderam…» e ouvi o meu pai lá por trás «o quê, ele ainda perde tempo com ‘isso’?». «Mãe, eu não sou do Benfica só quando ganhamos. E não vou deixá-los sozinhos, nunca – nem que descêssemos à terceira. Sábado, vou lá estar. Preciso de lá estar».

terça-feira, 17 de abril de 2012

He shoots and he scores! Oh, what a lovely volley

Tenho andado a falar do futebol concreto e isso é coisa que me desagrada. Corrijo: tenho andado a falar concretamente de futebol e isso é muito aborrecido. Aquele futebol de enormíssimo desinteresse, do treinador que vai ou que não vai, da taça que se ganha ou que não se ganha, do que se passa mesmo ou do que se vai passar. Uma chatice. O futebol etéreo dá goleada a essa conversa sem jeito. Deixo aqui as minhas desculpas, meti-me a fazer de adepto com coisas para dizer, mas não de propósito, foi impulso mesmo.

Tentemos recuperar o lado poético da bancada e do relvado – mas não sei antes deixar uma nota breve: se eram mesmo Benfiquistas (e deixo a minha dúvida a negrito porque não sei fazer o sublinhado), aqueles encapuçados que esperaram a equipa e o treinador para os assobiarem e insultarem depois de conquistada a Taça da Liga, são uns encapuçados bastante estúpidos. Aliás, surpreendentemente estúpidos. Estúpidos ao ponto de ainda não terem compreendido, numa lógica caneciana, que ser o vencedor é o contrário de ser o perdedor. Fica o meu espanto, seguido do meu profundo insulto: vocês são estúpidos.

Mas entremos no futebol que nos entra pela vida adentro. Ela quer ir a Oxford Street e isto é uma extraordinária notícia. Ela quer ir a Oxford Street fazer compras – «fazer compras»: «comprar roupas que talvez um dia venha a usar, mas a questão não é essa, a questão verdadeira e propriamente dita é mesmo ir lá e comprá-las ou, pelo menos, poder comprá-las» - e isto é o chamado bis.

Começava a ficar angustiado. A possibilidade de ir a Londres e não conhecer Wembley estava a ganhar forma e substância: eu não tinha moeda de troca. Estávamos os dois muito de acordo, a fazer aquele papel, sempre cúmplice, de culto «ah, pois, a Tate, a National Gallery», de quem sabe o que quer «sim, sim, e havemos de sair à noite no Soho», de vá-lá-só-desta-vez-turista «e quero uma fotografia com o Big Ben lá por trás, não quero saber», de pessoa cosmopolita que gosta da cidade tal como ela é «e um fish and chips em Portobello».

A unanimidade é uma coisa muito apreciável mas, honestamente, estava-me a complicar uma série de planos: sábado à tarde de bola num pub cheio de ingleses, ir ao Emirates certificar-me se é gémeo verdadeiro ou falso da Luz e ir a Wembley porque ir a Wembley deve fazer parte dos planos de qualquer adepto do futebol, eram, até hoje de manhã, assuntos-tabu em toda a planificação da viagem. Escusado será dizer que nem regateei, «claro que sim, meu amor, até pode ser que encontre alguma coisa gira para mim». Um – zero.

domingo, 15 de abril de 2012

Uma taça é uma taça é uma taça

Não é menos nem mais do que isso.

[sugestões para possíveis comentários: "nem mais!"; "disseste tudo"; "100% de acordo"; "juro que pensei no mesmo título - e um título é um título é um título".]

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Uma explicação que se impõe

Num blogue aqui vizinho, um comentador – daqueles comentadores decentes e correctos, semelhante a (quase) todos os que aqui param – dizia algo do género «não é por perdermos que as críticas devem surgir; as críticas devem existir sempre que se justifiquem». E é uma grande verdade. Porque é muito fácil fingir que tudo está bem quando ganhamos 11 jogos consecutivos, mesmo que vejamos que há coisas que funcionam mal e, depois, no final, quando as tais coisas que funcionam mal levam ao descalabro, isto é, ao desfecho das épocas do Benfica nos últimos dois anos, todos nós temos dedos e razões para apontar e, muito sabiamente, conseguimos explicar tintin por tintin a origem da tragédia.

Há, felizmente, muita gente que pensa bem e que fala bem e que é séria e que executa a função crítica com o rigor e o Benfiquismo que se pretende. Eu sou, por norma, um tipo mais calado. Gosto de ler e observar, pensar sobre o assunto. Esta é, claro, uma posição de enorme conforto. Quem não contesta, não se põe a jeito. Mas não é pelo conforto da situação que o faço, acreditem que isto é mesmo feitio: gosto de deixar as pessoas trabalhar, de um modo geral, sem me intrometer. O que não significa que não tire as minhas notas.

Porém, e por uma questão de respeito a todos os que na hora das vitórias mantiveram o espírito crítico, zelando pelo interesse maior do Benfica, e igualmente por respeito àqueles que não critiquei quando havia tempo para emendar o que estava errado, vou manter-me sossegado, em vez de alinhar na campanha de incêndios que, parece-me, já começou um pouco por toda a parte. Até porque não creio que seja com motins que a coisa vá ao sítio – a história tem vários exemplos que ilustram bem o quão perigoso é mudar as coisas com raiva e pelos motivos errados, em vez de o fazer serenamente e com uma estratégia.

Acontece que já falei aqui sobre Jorge Jesus e pus em causa a sua continuidade no Benfica. E agora devo uma explicação, uma boa explicação, tanto a quem me lê como ao próprio Jorge Jesus, que é provável que não me leia, mas enfim, somos pessoas educadas e eu tenho consideração por ele.

Eu acho que é perigoso Jorge Jesus continuar na equipa por uma série de razões, mas vou focar-me em apenas uma que é, quanto a mim, a mais perigosa de todas: a “perda” da equipa. Não estão em causa o valor do treinador, as suas ideias, as suas qualidades ou os seus defeitos. Simplesmente, sinto que Jesus perdeu a equipa. As declarações de Maxi Pereira no final do jogo contra o Olhanense são sintomáticas: eles, os pilares da equipa, estão gastos – estão cansados de ganhar poucos títulos e estão frustrados por este título lhes ter escorregado por entre os dedos: era um campeonato fácil, convenhamos; há dois meses atrás, não me passava pela cabeça não ser campeão.

Esta frustração causa, em jogadores “da casa” que são ambiciosos, revolta, de alguma forma. Eu, ingenuamente ou não, acredito que estes jogadores (Maxi, Lusião, Aimar, Javi, entre outros) querem tanto ganhar jogos e troféus quanto eu quero. E isto, acreditem, é dizer muito porque, por mim, começávamos numa ponta e acabávamos na outra, não deixávamos uma só derrota, um só empate para trás, era tudo corrido a vitória – e das pesadas, de preferência. Uma época com campeonato, Champions e Taça de Portugal seria “uma boa época” (mas ainda ficaria a faltar a Taça da Liga…).

Estes jogadores são, na minha perspectiva, o argumento mais forte que o Benfica tem para os próximos tempos. São eles a estrutura da equipa e é com eles que temos de contar para integrar novos elementos no plantel, por um lado, e para solidificar um certo espírito Benfiquista que se perdeu na tragédia dos anos 90, por outro. O Benfica precisa deles. O Benfica precisa de constituir família e são estes jogadores quem o pode fazer. Temos de deixar heranças no balneário e no relvado, temos de acrescentar caras novas à iconografia do clube. Estes jogadores são a nossa força e o renascimento de uma equipa que é também uma família, como o foi nos anos 60 e 70.

Acontece que, olhando de fora e correndo o risco de estar completamente errado, este núcleo duro parece desmoralizado, desgastado e, no fim das contas, desiludido. E não há pior para um líder do que a desilusão do grupo que dirige.

Que fique claro que reconheço a Jorge Jesus todas as qualidades que sempre lhe reconheci (sobretudo, estou-lhe grato pelos inúmeros momentos de excelentíssimo futebol com que me presenteou, a um nível absolutamente de topo). De resto, não defendo que «Jesus tem de sair», sequer. Só acho que é muito arriscado para ambas as partes tentar uma reconciliação. Sobretudo quando, de cada vez que tomamos uma opção errada, o Porto fica um campeonato mais perto. Em Maio, ficarão a apenas seis. E eu, egoistamente, preferia que em 2013 eles voltassem a ficar a sete, em vez de passarem a estar a cinco.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Clubes e topos

Quando Rui Costa diz que «Witsel é um rapaz que está pronto para jogar num clube de topo», suponho que se refira a um dos sete que partilharam com o Benfica os quartos-de-final da presente Liga dos Campeões. Deduzo que não aponte o APOEL nem o Marselha. O Chelsea, aquele parque de diversões de Abramovich, também não deverá constar entre essa elite. Sobram Milan, Barcelona, Real Madrid e Bayern Munique. Sabemos bem da grandeza destes quatro, a todos os níveis, e não vale a pena pormo-nos em bicos de pés para ficarmos mais altos que eles. Mas, pessoalmente, tenho muita pena de ouvir um suposto símbolo do Clube excluir automaticamente o Benfica da elite da Europa, sobretudo quando os resultados recentes não confirmam esta percepção e a equipa integra nomes do futebol como Pablo Aimar, Oscar Cardozo, Javi Garcia, Ezequiel Garay, Luisão, Maxi Pereira ou Nico Gaitán, para não falar nas promessas Rodrigo ou Nelson Oliveira (e deixando de parte uma estrela reformada: Saviola) ou nas vendas milionárias das últimas épocas, como as de Ramires, David Luiz, Fábio Coentrão ou Di Maria (a clubes de topo, pois claro; mas o certo é que jogaram todos juntos e em simultâneo com aquela Camisola vestida). Witsel é um jogador de topo, não tenho dúvidas. E, por isso mesmo, está no clube certo - até um dia destes vir algum da nossa igualha, mas mais endinheirado, e o levar. E Witsel está no clube certo provavelmente ao contrário de Rui Costa que, com o seu passado de amor ao Clube, o seu histórial de vitórias pelo Clube e as provas dadas na gestão desportiva do Clube, talvez mereça exercer o seu muito discreto - e ainda assim acidentado - cargo noutras paragens. Fica a ideia.

Do relativismo e da limpeza de monumentos, entre outras coisas que já não cabem no título, que já vai longo, parece que nunca mais acaba

Regressei à realidade e admito que me está a custar. Não falo das dores naturais de uma derrota letal, a essas respondo com os calos e cicatrizes de quem viveu de 1995 a 2004 e viu Paulo Madeira fazer dupla titular com Ronaldo numa equipa sem lesões nem castigos. Custa-me, sobretudo, constatar que o que escrevo, o que penso ou o que sinto são partículas irrelevantes de uma existência sem grande significado. Enquanto eu penso o futebol e o Benfica, José António Saraiva estabelece uma lógica intrincada que liga, num só texto, Fidel Castro, Durão Barroso, niilismo e um adolescente vestido com roupas pretas num elevador da Fnac, sem dúvida rebeldemente homossexual. É pena que Saraiva não tenha conseguido identificar o clube por que torcia o jovem que tanto o impressionou – talvez não tenha olhado para o modo como flectia (ou não) os joelhos. Fica a sugestão, porque agora fiquei curioso.

Eduardo Barroso – outro génio capaz das mais improváveis e impensáveis teorias, embora muito mais cobarde no que respeita a revelá-las ao mundo (sobretudo se envolverem clubes cujo nome começa por Futebol Clube do Porto) – exige, com um peito inchado e a voz subitamente grossa, “respeito!”, porque o Sporting “vem aí!” e é, ao que parece, a melhor equipa daqui e dos arredores daqui e devia estar a lutar pelos primeiros lugares porque… enfim, porque ganhou – um a zero e de penalty – ao Benfica, deduzo eu. Não é disparatado e é até bonito saber que Barroso tem o Benfica em tão alta conta. E o Vitória de Guimarães até é capaz de apoiar a ideia. Porém, o que mais impressiona em todo o texto, é o tom de José Castelo Branco arreliadíssimo com que a prosa flui.

A importância que as coisas assumem, esse relativismo tão humano e tão pequeno, anda, ao que parece, liberalizada. A bitola sempre falível do bom senso baralhou-se, quer-me parecer. Ou isso, ou as criaturas de verde que estavam empoleiradas na estátua do Marquês eram empregados da Câmara a proceder à limpeza do monumento. Se não for esse o caso, não digo que sejam ridículos – embora pudesse legitimamente fazê-lo. Ou, melhor, não confirmo nem desminto que o sejam e não aprofundo o assunto.

Sábado disputa-se mais uma final da Taça da Liga e lá vai o Benfica a Coimbra fazer o frete de participar na festa do Gil Vicente – não estou a ser irónico, o que leio aponta invariavelmente nesse sentido e, a verdade mesmo, é que eu próprio continuo indeciso entre as duas humilhações: ganhar a Taça? Perder a Taça? A propósito, no outro dia pensei na quantidade de finais da Taça da Liga que o Benfica disputou e na quantidade de finais de competições a sério a que o Benfica invariavelmente não chegou. E tenho uma pequena e, talvez, engraçada teoria, uma coisa muito simples, quase um trocadilho: há quem defenda que, «numa final, tudo pode acontecer»; José Mourinho discorda: «as finais não se jogam, ganham-se»; Jorge Jesus é mais pragmático: «as finais não se jogam». Ponto.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Foi um prazer, Jorge

"Eu sou do Sporting mas tu gostas de mim que eu sei". A mensagem, tão simples, iluminou-me o espírito, fez-me sorrir com aquela felicidade torta que desponta do meio da tragédia; acabei a cerveja e fui para casa jantar. A coisa mais preciosa que tenho na vida é uma sportinguista incrivelmente bonita que me sabe mimar nestes momentos de tristeza.

Hoje acordei sem angústias, senti apenas uma melancolia cristalizada. O choque de perder tudo quando menos se espera teria sido muito menos triste do que esta confirmação do desenlace dramático por que aguardávamos. Estava à espera de acontecer e aconteceu.

É o fim de uma era. Já aqui escrevi acerca do estranho sentimento que fui desenvolvendo por Jorge Jesus. Mas não creio que haja mais tolerância. São demasiados erros que se repetem, teimosias que não se debelam. Esperamos sempre que evolua, que aprenda. E nada. Acaba por acontecer o de sempre. Como um amigo ontem dizia, "a gente chama-lhe Jesus, mas ele é Jorge e não passa de Jorge".

Resta-nos a Taça da Liga e já não sei o que será mais humilhante, se ganhá-la, se perdê-la. Assumir uma vitória com um troféu de mísera consolação depois de ter perdido um campeonato ganho, ter sido eliminado por um Chelsea perfeitamente banal e não ter, uma vez mais, chegado ao Jamor é quase tão mau quanto festejar efusivamente uma vitória que consolida o quarto lugar no campeonato.

Há contornos maliciosos neste desfecho. Se, no ano passado, o Porto veio festejar à Luz, este ano conseguiu fazer pior: deixou a tarefa da nossa humilhação ao cuidado de um empreiteiro menor e nem se dignou a marcar presença. Fomos vencidos com desprezo.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A estranha placidez

Eu acho que eles já não querem saber do assunto da maneira que dantes queriam - a não ser que ganhem, circunstância que faz valer tudo. Mas tem havido um sossego que eu acho estranho. É um Sporting - Benfica, caramba! Não há fanfarrões, previsões, ameaças de humilhações ou vencedores antecipados? Quem nos visse, acharia que somos civilizados.

Aqui por baixo, o barbeiro, sportinguista daqueles que não valem grande coisa e que intimida mais pelo pequenez do que pelo talento ou pelo amor ao clube, tem sido um ponto de encontro. É a tradição. Mas não se ouviu a tarde toda um único "levas poucas logo!" ou um "menos que cinco é empate!". Há aqui uma contenção perigosamente próxima do aborrecimento e do tédio.

Confesso que também eu não esto vibrante como deveria estar. Há uns nervinhos, uma agitação ligeira, coisa leve. E isso também é estranho porque, se para o Sporting o jogo vale pouco (pouco na medida em que um derby possa valer pouco...), para o Benfica é tão somente o jogo que vale tudo. Ou nada. Chateia-me esta descontracção. Gostava de estar mais ansioso, com mais sentimento. Mas não, estou a deixar o tempo escoar-se placidamente até que o apito soe.

A estranheza transforma-se aos poucos numa preocupação que não agita. É uma preocupação conformada. Penso se isto não será pressentimento de... É melhor nem falar disso. Mas depois de dois anos a sentir alegrias imediatamente recicladas em depressões, não há garra para muito mais. Em Londres, o que poderia ter sido uma vitória à rasquinha, acabou por ser uma derrota heróica, por exemplo. Não me levem a mal, mas entre uma e outra, dispenso o heroísmo da questão.

Para logo que os rapazes se deixem de sofrimentos, que joguem como sabem e podem. Pensando bem no assunto, é óbvio que temos equipa para eles. Faltam duas horas e meia para me darem razão ou para que a caixa de comentários se encha com mimos. Agora, sim: começo a sentir o gostinho de um derby.

domingo, 8 de abril de 2012

Constatação do óbvio por motivos de incredulidade

O Cristiano Ronaldo tem 49 golos marcados esta época em todas as competições. 37 deles para o campeonato. Cristiano Ronaldo é o futebolista para quem o destino foi mais padrasto e cruel em toda a história do futebol. Nasceu atleticamente perfeito, tecnicamente sobredotado, mentalmente ideal. Nasceu, portanto, com tudo o que qualquer jogador sonharia ter para poder aspirar a ser o melhor do mundo de todos os tempos, superando até as velhas lendas de Pelé e de Maradona. 49 golos numa época é um atentado, é uma ofensa. E, de ano para ano, Cristiano Ronaldo aumenta a contagem, bate os seus próprios recordes. E isso dá-me pena, porque é um talento que nunca chega. Há muita maldade num destino que castiga o jogador mais perfeito de toda a história fazendo-o coexistir com aquela coisa minúscula, aquele ser obscena e insuperavelmente genial. Não me conformo. O Messi marcou ontem o 60.º golo esta época. É tremendo, é assustador.

Composição com vegetais em Alfama

Gosto de abrir as portadas e observar as propriedades, contemplar as árvores de fruto, inspeccionar os terrenos, tomar o pulso aos campos.

sábado, 7 de abril de 2012

Um blogue de bola, mesmo

Ontem recebi, pela primeira vez desde que vivo nesta casa, um grande amigo meu, uma pessoa muito sportinguista. Não tenho pena dele. Mostrei-lhe as minhas propriedades, os meus microfúndios, repletos de piripiris e coentros, mas creio que não os viu bem, pois já era de noite e não tenho luz na varanda. Um dia destes tiro umas fotografias (aparte: se eu mandasse na língua portuguesa, “fotografia” passaria a ser escrita “fetugrafia”; é um preciosismo disparatado, talvez, mas sabe-me muito melhor pronunciar assim a palavra: fe-tu-grafia) e publico-as aqui para que possam apreciar o esplendor da brigada vegetal que eu coordeno com notável talento e, vá lá, alguma sorte.

Quando descemos para tomar um café, que afinal foi cerveja, fomos continuando – não foi bem continuando, foi antes prolongado, porque não havia grande continuidade; o que existiu foi uma sucessão, não uma continuação – a conversa, que era como uma árvore exótica de pensamentos, ideias, interrupções e mudanças de rumo, despontando a partir de um tronco, que seria provavelmente a língua portuguesa e a nossa amizade, em ramos das mais variadas espécies e feitios, vigorosamente e sem regras, sem leis e sem preocupações. É um encanto poder-se conversar divergindo, divagando, perdendo-nos sabe-se lá onde, no meio de pensamentos que não levam a lado algum e cuja beleza e encanto residem precisamente nessa falta de destino, nesse desprendimento pelo objectivo, nesse ingénuo mas convicto desapego pela conclusão.

Nós, eu e ele, quando conversamos não o fazemos para ter razão, provar que temos razão ou aprender qualquer coisa que nos permita, um dia, vir a ter razão. Nada disso. Ter razão é uma coisa absolutamente sobrevalorizada. Prefiro mil vezes ter ideias, mesmo que não me sirvam para nada. Ter razão é uma coisa aborrecida e estática porque culmina imediatamente ali: pois, tens razão. Uma chatice, no fundo. Ter pensamentos desordenados é muito mais divertido e, creio, enriquecedor, porque é uma espécie de mundo de fantasia no qual, magicamente, as coisas não existem porque têm uma função – não, existem porque existem e isso é bom só por si. No fundo é como tudo o resto. Passamos a vida a pensar “existimos porquê?” e parece-me uma questão disparatada e de interesse menor para a qual a resposta é a mais simples de todas: “ora essa, por que não haveríamos de existir?” e sinto-me plenamente satisfeito com esta inversão do raciocínio, bem mais optimista e bem menos quezilenta para com este nosso querido universo que nos pôs a existir.

Falámos, a dada altura, de futebol. E eu gosto muito quando falamos de futebol. É como se falássemos de finanças e eu defendesse a libra e ele o dólar. A libra é a minha preferida, é mais bonita e tal. Na verdade, nenhum de nós percebe patavina de finanças, como, aliás, o extracto de conta de cada um pode facilmente atestar. Com o futebol sucede o mesmo – com o futebol e com quase todos os outros assuntos, já que temos uma extraordinária capacidade para dizer coisas e pensar coisas abdicando, logo à partida, de detalhes insignificantes como “estar correcto”. Mas no futebol as conversas tornam-se particularmente agradáveis, pelo menos para mim, porque me sinto uma criança a dissertar sobre a conquista espacial: é um assunto deveras fascinante acerca do qual nos é permitido fantasiar abundantemente.

Perguntei-lhe então se ele conhecia este meu blogue e ele respondeu «não leio blogues de bola». Nesse momento, houve um misto de sensações: por um lado, tive pena que ele não me lesse; por outro, senti um imenso orgulho na classificação “blogue de bola” que ele atribui a este humilde canto da blogosfera. Penso que foi a primeira vez que tal aconteceu em mais de um ano de existência. É como se, até que enfim, este 227218 fosse “um blogue de bola, oficialmente”. Obrigado Zé.