terça-feira, 21 de agosto de 2012

O mundo divide-se em milhões de metades

O mundo sempre se dividiu em duas partes: de um lado, os Beatles, do outro, os Rolling Stones. Se for nos restaurantes, é em Fumadores e Não Fumadores. Nos WC’s, Homens e Mulheres – a não ser que seja em Alfama, onde é recorrente o recurso à casa-de-banho comum; ou então nos shoppings, onde existe uma tereceira, para Deficientes. E às vezes uma quarta, que é a dos Fraldários. Quem for Fraldário, vai a essa. Nos Jogos Olímpicos, onde tudo se junta, raças, credos e nações, separam-se os sexos: de um lado os Homens, do outro as Mulheres, novamente. É uma divisão recorrente, esta de cariz sexual. Fomos feitos para nos misturarmos, para nos juntarmos, para nos fundirmos e, no entanto, a lei, a burocracia e a moralidade passam a vida a separar-nos. Curioso como o homem não se compreende a si mesmo.

Também no futebol o mundo se divide em duas partes: o Benfica e o Resto (e ainda esta pré-época o Benfica esmagou o Resto por 5 a 0). E até dentro do próprio Benfica o mundo se divide em duas partes: os Vieiristas e os Letrados. E escrevo-o com à-vontade por razões óbvias.

Enervo-me sempre um bocadinho mais ao notar as unhas e os dentes com que algumas pessoas defendem o presidente Vieira. Faz-me lembrar a reverência e a devoção que inspiravam figuras de outras décadas, de tempos em que, mais do que pelo respeito ou pela admiração, a coisa ia ao lugar pelo temor. Não sendo eu um enormíssimo democrata, que não sou – e não vou agora expor a minha ideologia, mas resumo: isto a que chamamos de Democracia é um embuste –, faz-me impressão quando o estado das coisas roça o despotismo.

E de cada vez que alguém diz «mas mudar porquê? E trocar este por quem?», aflige-me a pobreza de espírito de tal indagador. Porque o exercício é muito simples: basta reformular a pergunta – mas ficar lá com este porquê? Existe alguma boa razão? Já conheço o argumentário dos acólitos Vieiristas e posso desde já dizer: sim senhor, fez coisas boas; sim senhor, tem qualidades. Mais: nem sequer ponho em causa (e não me seria difícil fazê-lo) a sua seriedade enquanto presidente, a sua honestidade enquanto gestor e nem sequer a pureza do seu Benfiquismo. Mas pergunto de novo: depois de dez anos de governo – e muito apoio, todo o apoio – e com os resultados que se conhecem, temos de levar mais tempo com o homem porquê?

Este texto foi escrito ontem

Este texto está a ser escrito em papel. Tenho o copo de vinho à frente, a luz de conforto na sala, a vista para o rio, a música lá ao fundo, não muito alta - não gosto de música muito alta (excepto em concertos). Podia estar a escrever poesias, romances ou cartas de amor. Não tenho como publicar este texto ainda hoje pelo que, quando o lerem, será coisa do passado.

Depois de jantar, aproveitei para revisitar o meu próprio passado em canções de um tempo a que, mais tarde ou mais cedo, acabarei por chamar meu. Comecei pelo Bubble & scrape, dos Sebadoh; a seguir passou o Washing machine, disco maior dos anos 90, obra dos Sonic Youth. Agora roda o Beck com o Mellow gold. Dói-me a mão de escrever e o coração de ler o que escrevo. Já não estou habituado nem à caneta nem a estas canções. Mas sentia saudades de todas elas - caneta incluída.

Hoje escrevi, pela primeira vez para uma publicação, a designação "Borussia Mönchengladbach". Ao tomar consciência do que fazia, senti que o cosmos se alinhava um pouco mais de modo a fazer sentido. Este nome é a minha infância - ou uma das formas que ela assume, resumindo-se (longamente, no caso). Dantes, quando o meu pai falava de futebol e do Benfica e dos clubes europeus, falava às vezes do Mönchengladbach. E eu sentia um regozijo inexplicável: aquela palavra complexa, germânica, distendida, continha em si a dimensão do que é estrangeiro, longínquo, diferente. Quando o meu pai a pronunciava, eu imaginava uma Europa distante onde o Benfica por vezes ia jogar em busca da glória. E esse Benfica tornava-se maior e maior, aumentava como um gigante instantâneo, viajava na minha cabeça como um aventureiro das terras esquisitas.

Mönchengladbach, a palavra, faz-me imaginar, apenas fantasiando, o Chalana de colants por baixo dos calções, de luvas postas, com farripas de neve nas pontas do bigode, a driblar entre homens louros, enormes, e a cruzar para a cabeça do Nené. Isto não é memória, é pura imaginação. Mönchengladbach desperta em mim uma noção de Benfica lá fora maior do que as minhas próprias memórias. Como se a sua estranheza, longa e complexa, fosse a chave para uma realidade paralela de quartas-feiras europeias distantes, quatro torres de holofotes, estádios repletos de gente vestindo gorros e cachecóis e gráficos televisivos muito rectangulares num ecrã com uma definição de 100 por 150 pixéis. Num canto "RTP2". E placards electrónicos muito grandes com fundo preto e letras e números castanho-bronze e um relógio de ponteiros enorme. Benfica Lisbon, Benfica Lissabon. O Benfica de Lisboa ao longe, eu ainda longe de Lisboa, eu ainda sonhar com Lisboa, eu ainda a sonhar com ser de Lisboa como o Benfica, eu com o coração em Mönchengladbach, boquiaberto perante aquele nome mágico, difícil, impronunciável, Molchen, não, filho, Mön-chen-glad-bach, e eu Moncheldag, não, filho, Mönchen-glad. Bach.

Bach como o compositor, Bach como bach, rio. E eu encantava-me com aquele nome e desejava escrevê-lo um dia, sem erros, por extenso, complexo e desavergonhado "Borussia Mönchengladbach". E hoje escrevi-o, sem erros, e um bocadinho muito pueril e genuíno do Benfica de que eu sinto tantas saudades reavivou-se em mim, animou-se em mim: o Borussia DE Mönchengladbach está de volta à Taça dos Campeões Europeus. Ao play-off, pelo menos. Espero que se apure e que possamos defrontá-lo algures na nossa caminhada pelas terras distantes em busca da glória.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Mind reader - contém ilustração

Estava a pensar na táctica ideal para amanhã defrontarmos o Desportivo de Braga. Concluí que não existe: com o plantel que temos, é impossível construir uma táctica decente. Contudo, reconheço em Jorge Jesus a capacidade e o engenho para driblar as dificuldades e concretizar mais um lance de génio. Tentei pensar como Jesus pensou :) quando construiu esta equipa. E eis a imagem que obtive:
Olhando melhor, a táctica não pode ser esta. Não se pode deixar o Ola John de fora. Embora também me custe tirar o Aimar.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Análise lógica das expectativas

Hoje voltei ao Estádio da Luz. Fui comprar bilhetes para sábado. Já não ia à Luz desde Maio. É muito tempo de ausências e distâncias. Foi, por isso, reconfortante caminhar novamente sobre aquele chão sagrado, aquele chão outrora vermelho – hoje já mais gasto, coçado pelos milhões de pés que o calcaram em direcção ao anfiteatro, de onde se vê o Benfica. E assim começa o meu ano de romarias.

Fazemos contas, renovamos esperanças, tomamos o pulso à situação, emparelhamos ambição e bom senso, tentamos concluir. As minhas contas são simples: é para a desgraça. Este ano estamos perdidos. O treinador e o director desportivo não contratam quem deviam, o capitão perdeu a cabeça, há gente descontente no plantel, há gente nervosa na equipa e temos um presidente que negoceia muito bem – mas só com o Atlético de Madrid, o que dá que pensar. Ou seja, estamos pior do que estávamos. Não tenho esperanças…

… e isso dá-me um optimismo desmedido porque normalmente ter esperança dá azar e não a ter é que dá sorte. CAMPEÕÕÕÕÕÕÕÕES!!!

Sevilha e Ibiza

Mulheres. As mulheres são extraordinárias. Sobretudo as mulheres do Sporting. São de tal maneira uma maravilha que arranjei uma para mim. Espectáculo. Estávamos em Punta Umbria, depois de uma pernoita que teve mais de necessidade do que de gosto – não é um sítio particularmente apetecível; não desgosta, mas também não encanta – e preparávamos a partida para Sevilha, que fica perto, a cerca de hora e meia de distância. Preparava-me para desarmar a tenda quando reparei que o parque tinha Wi-Fi de acesso livre. Antes de ir ver o e-mail, abri, como é hábito, o site d’ A Bola. Isto foi na manhã seguinte à vitória do Benfica por 5 a 2 sobre o Real Madrid e a Bola fazia questão de o noticiar com pompa. Apesar de ter achado o resultado curtinho pensei para comigo que, estando em Espanha, o assunto podia ser no mínimo assinalado, vá. A Lady Verde (ainda) não sabia, mas eu tinha levado na mochila A Camisola para poder vesti-la nos dias de festa. Toda a gente sabe que os espanhóis vestem muito as camisolas dos clubes de que gostam. E eu vá, em Espanha, sê espanhol. Levei a minha do Benfica. E a ocasião, uma vitória, ainda que aflita, sobre o principal símbolo futebolístico de Espanha, pareceu-me motivo suficiente para ostentar a Digníssima com orgulho e uma certa vaidade. Por uma questão de respeito – e porque o carro não é meu –, comuniquei a minha intenção á Lady Verde «olha, querida, hoje vou vestir A Camisola…» e ela «camisola? Qual camisola? Estão mais de trinta graus, veste uma camisa», «não, baby… A Camisola… O Manto… A Digníssima». Houve uma pausa – mas uma pausa cósmica, a realidade parou, a minha batida cardíaca suspendeu-se temporariamente, ninguém respirou durante aquele bocadinho – até que ela disse «mas o quê, tu trouxeste isso?» e eu «sim e estava a pensar vesti-la hoje… o Benfica ganhou ontem ao Madrid… não achas fixe?». Ela encerrou a conversa assim «olha bem para a minha viatura: parece-te um Seat Ibiza amarelo kitado, por acaso?» e eu fui vestir uma t-shirt cor-de-laranja.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

As minhas férias - resumo de uma forma geral

Fui de férias. Estive verdadeiramente de férias. Acabou o Europeu e eu fui-me embora. Tirei férias do futebol, do desporto e até do Benfica (não d’ O Benfica; tirei férias do Benfica instituição que anima tradicionalmente as silly seasons, vendendo, anos a fio, o Cardozo e comprando, época após época, um defesa esquerdo, de preferência aquele argentino que joga na Rússia – não me lembro agora do nome dele… Laqualquer coisa, acho eu. Tem os cabelos compridos).

Estar de férias é uma condição instável. A noção de que a pessoa de férias está num ambiente paradisíaco, acordando, vivendo e adormecendo cheia de bonomia, é equivocada. A supressão de determinadas rotinas e confortos, tiques quotidianos, sítios, pessoas e objectos deve – tem de – ser compensada por novas formas de entretenimento ou distracção, um contexto esteticamente impressionante, quiçá exotismos que passem a ideia de que “esta não é a tua vida – mas não tem importância porque é melhor ainda” e outras patranhas que permitam ao indivíduo em férias manter-se são apesar de não ter horários nem fazer uso da sua chave de casa. Há quem aproveite para ler, para cozinhar, para apanhar sol, para jogar aquele jogo das raquetes ou à sueca, comendo e bebendo bem. Eu fui mordido por um cão, para começar.

Começar as férias com buracos no pulso e a mão direita pendurada – bizarro? Nem tanto. Chamemos-lhe “invulgar”. Em três semanas a situação melhorou bastante e as duas cicatrizes hão-de lembrar-me sempre os dias felizes que tive o privilégio de viver. Duas dentadas (o bicho também me furou umas costelas – mais uma cicatriz) são coisa pouca. Dois dias e vinte cañas sevilhanas depois já nem me lembrava do episódio domesticamente violento.

Do ataque selvático, há uma lição que retiro. Os cães, mesmos os domésticos, são bichos e os bichos são, por sua vez, animais. E nos animais nunca fiando. São criaturas nem sempre previsíveis ou controláveis, susceptíveis de se enervar. Um homem quando se enerva fica irritado; um animal quando se enfurece, ataca. Pelo menos com este foi assim. A parte boa é que não me atirei para o chão, a fingir que tinha desmaiado. Fui meter uns pensos e pronto.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sebastião e Godot

Há quem julgue que me abstenho. Acontece que vivemos numa era em que as pessoas – todas as pessoas – descobriram a maravilha que é ter uma opinião. Mais: as pessoas foram autorizadas a partilhá-las, diria mesmo incentivadas a fazê-lo, escrevendo em espaços virtuais públicos. E as pessoas levam esse pequeno novo poder muito a sério. As pessoas até chegam ao ponto de, mesmo não tendo uma opinião, emitir uma – uma qualquer, com ou sem fundamento, reproduzindo apenas o que se ouviu dizer sem se pensar no assunto, ou renegando qualquer coisa porque, assim à primeira, aquilo parece mal. Ora, eu não gosto de meter palavras no difusor se não for para comunicar uma de duas coisas: ou uma insignificância entretida e sem qualquer ambição – o que faço a maior parte das vezes – ou uma ideia com pés e cabeça que pretenda – e de facto mereça – ter relevância. Para bradar só porque é moda, não contem comigo. Portanto, o que eu faço não é abster-me; é mais abstrair-me.

Esta introdução serve para assinalar duas características do texto que pretendo escrever: tenho andado abstraído e, por isso, não vou falar de coisas sérias da actualidade. Não tenho pensado no presidente Vieira, nos seus detractores, nas contratações falhadas nem no Ola John. Tirando o desejo de ver o Luuk de Jong com a Digníssima vestida, pouco mais do Benfica me tem ocupado os pensamentos que não sejam as recordações.

A verdade é que o bom povo Benfiquista anda agitado por uma razão simples: temos saudades do Benfica, todos nós. E, como bons portugueses, há um espírito sebastianista nestas saudades. Que digo eu? O síndroma é mais antigo que a Portugalidade. Todo o mundo ocidental espera pelo seu messias (os que já estão servidos, já não esperam, mas em compensação são-lhe profundamente devotos). Em cada craque dos PALOP há um potencial Eusébio, em cada Luís Filipe Vieira existe um futuro Borges Coutinho, em cada Carlos Martins pode vir a nascer um Aimar. É assim que somos, os Benfiquistas. Em cada pré-época somos os certamente campeões da época que aí vem. Como antigamente.

Os tempos mudaram, os anos passaram e continuam a passar e o Benfica, o velho Benfica, não aparece. Há esta versão modernizadazinha e sofisticadazinha, maquilhada e propagandeada, mas o Benfica de que a gente gosta e de quem sentimos saudades bem poderia chamar-se Sport Lisboa e Godot.

Nos dias de sol sinto mais saudades do Benfica. O sol é o elemento do velho Estádio da Luz. Tudo nele era soalheiro, plácido, resplandecente. As pessoas tinham de usar boné. Com o desaparecimento do velho Estádio, perdeu-se um lugar fundamental da minha memória de infância, do princípio de mim perante o futebol. É como perder a casa de família onde crescemos – e já não é a primeira vez que exponho o assunto nestes termos.

Há uns tempos, passava em Mafra pelo sítio onde foi e, para mim, costumava ser porque sempre tinha sido, a minha escola primária. Ali, onde aprendi a ler e a dar pontapés na bola e a escrever cartas de amor “Vanda gostas de mim? Sim? Não?” exibem-se orgulhosamente três moradias quase tão sofisticadas quanto a nova Luz – uma delas até tem piscina. A visão chocou-me. Duplamente. Primeiro porque a minha escola já não estava lá. Segundo, porque eu já sabia que a minha escola não estava lá e que lá haviam construído aquelas três casas mas, ainda assim, eu estava à espera que tudo isso não tivesse nunca passado de um mal-entendido, um equívoco. E, então, quando olhei esperei sinceramente ver a minha velha escola e não ver casa alguma, como resultado de uma correcção cósmica de um erro crasso, de um atentado às minhas recordações.

Sucede o mesmo quando passo na Segunda Circular, por exemplo, e olho para o Estádio. Espero sempre ver três anéis e quatro torres de luzes a dizer Tudor. Mas o panorama teima em ser sempre o mesmo, numa visão tradicionalmente moderna. Mesmo quando chego ao Estádio em dias de jogo, o meu primeiro instinto naquele primeiro momento é esperar que o velho tenha sido reconstruído num instantinho e ocupe agora o lugar que o novo ocupou em tempos – mas que era e será sempre seu (do velho).

Todos estes pensamentos são fruto da minha abstracção e, antes disso, da passagem severa do tempo. As coisas vão mudando, nós vamos mudando. Só D. Sebastião não aparece. Tento compreender estas coisas e fico a pensar que crescer é assimilar mudanças, é depararmo-nos com elas, como quem descobre objectos estranhos, desconhecidos. Amadurecer é procurar essas mudanças e cuidar delas, ora estancando-as, ora incentivando-as. Já o envelhecimento é um exercício de perda. É perceber a irreversibilidade do que desaparece. Por mais que me custe, não voltarei a ver a minha escola, não voltarei a entrar no velho Estádio da Luz. E isso custa-me muito.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O timing perfeito

Um amigo meu, grande Benfiquista – mas um dos bons mesmo, assíduo do Manelito e tudo –, deu, sábado passado, uma lição de futebol a vários níveis. O que fez ele? Foi pai. Dou-lhe publicamente os parabéns. Não pela paternidade – para isso é que servem as sms e eu já mandei a minha –, mas antes pelo talento que denotou enquanto Benfiquista progenitor. O modo esquivo como evitou o conflito de interesses, o souplesse com que deixou para trás o Euro e, no mesmo gesto, evitou o arranque dos jogos amigáveis, prevenindo assim o choque entre uma ida a correr para a maternidade e a transmissão de um RH Hamm – Benfica, ou pior!, merecem a minha maior admiração e deixo, neste parágrafo, a minha modesta, muito modesta, homenagem a esta família Benfiquista que, por certo, fará do pequeno Eduardo um ponta-de-lança digno do 9 sagrado. Basta que, no campo e com a bola, o Eduardo venha a usar do mesmo sentido de oportunidade que o seu pai demonstrou no momento de o propor ao mundo. Que seja bem-vindo.

Com esta humilde nota sobre o sentido de oportunidade na hora de concretizar o nascimento aproveito para assinalar a abertura da pré-época do 227218. Na verdade, durante todo este tempo não escrevi por uma razão muito simples: não tinha o que dizer. Com o Benfica a banhos, escreveria sobre o quê? Sobre nada?

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Orgulhosamente snob

Uma das consequências nefastas de ter a selecção no Europeu é esta espécie de democratização maligna do assunto. De repente, as senhoras da produção, aqui ao lado, para quem o futebol era "22 parvos a correr atrás duma bola" desatam a opinar convictamente sobre a matéria futebolística. Que «ganhamos os três jogos», que «não, que a Alemanha nos faz a folha», «oh, mas assim não dá... temos de ganhar os três jogos , não é?», «não, três empates chegam». Esta feirização do futebol de selecções é arrepiante. Ver aquele desfile bárbaro de figurinhas pimba, devidamente patrocinadas pelo Continente, a chafurdar-me as imediações do Estádio da Luz, sábado passado, fez-me aflição. Porque não me deixam o futebol em paz? Não podem entreter-se com a família Carreira?

Escrevi isto num daqueles estados de alma do anexo deste blogue no facebook. Volto a este assunto seis anos depois de o ter abordado pela primeira vez, na antecâmara do Mundial de 2006. Na altura, tentei perceber onde tinha começado aquilo a que chamei "futebol pimba". Penso que o ponto onde tudo se cristalizou talvez tenha sido na bandeirização nacional a pedido de Scolari. Percebe-se a ideia, mas lamenta-se o efeito. É que tudo isto se tornou baratucho, leviano, sem sentido. Nem futebolisticamente é válido - e digo-o sabendo que a festa popular do futebol tem pergaminhos e um historial de indesmentível de beleza, desportivismo e coiratos com vinho tinto, cujo expoente máximo se atinge no Jamor na final da Taça, que me apaixona e comove (sem ironias: apaixona e comove mesmo) pela genuinidade que apresenta.

Porém, o caso da selecção é diferente. Batemos recordes do Guiness para apoiar a selecção - são bandeiras humanas ou então são bandeiras com milhares e milhares de assinaturas -, fazemos hinos de apoio aos "nossos jogadores", confundimos gosto na selecção e patriotismo natural na hora de ver a bola com uma avalanche de manifestações tão bacocas e imbecis que mais parecem extraídas de um diário de campanha eleitoral de um partido com reais aspirações a constituir governo. Junta-se ignorância com pobreza de espírio e uns pozinhos de música de bailarico, arma-se a tenda, oferecem-se bandeirinhas do Portugal-Continente, oferecem-se porta-chaves de pôr ao pescoço do Portugal-Millenium-BCP e eis a nação vestida com as cores da pátria by Nike, contente que dá gosto ver, toda ela orgulho e esperança, prognósticos, estratégias e fé no C'stiano.

Isto entristece-me, porque me afasta do que verdadeiramente importa - a selecção nacional do meu país a jogar à bola - e incomoda-me, porque me dá cabo do futebol. É uma praga. É pior que uma praga. É uma manada furiosa que precisa de se alimentar de objectos coleccionáveis, Tonys Carreiras, bandeirinhas e uma causa - que tanto pode ser ajudar os pobrezinhos indo ao Rock in Rio como, no caso que me deprime, fazer da selecção nacional "o clube de Portugal". «Clube de Portugal» conheço dois e não gosto de nenhum. E este, se continuam a estragá-lo com cupões de desconto, irá pelo mesmo caminho. Que eu, na verdade, gosto mesmo é de ver a bola. Desculpem lá.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

I miss the comfort in being sad

«Esperava ouvir o meu nome entre os convocados para o Euro 2012, mas não ouvi e fiquei triste. Já encaro isso de forma positiva
(Nuno Gomes)

Estou bem-disposto. As recentes polémicas e conflitos mais ou menos internos do Benfica são facilmente sanados: focamo-nos na selecção nacional e não pensamos mais no assunto. Folheio A Bola, muito gosto eu de folhear A Bola, e descubro a faceta grunge de Nuno Gomes, apreciando a depressão, regozijando-se com a desilusão. Os anos 90 estão-nos mesmo incrustados na carne e no sentimento. De Vítor Paneira a Kurt Cobain, não esquecendo nunca o Patrick Swayze, todos nós, de entre 1975 a 1985, conhecemos bem o inigualável charme da melancolia. Fico feliz por saber que o Nuno Gomes está contente por estar triste – embora eu próprio fique triste por ele, o que também me reconforta, de alguma forma, o que, no fundo, acaba por me animar.

Quinta-feira, o melhor dia da semana para se ler A Bola. É dia de Leonor Pinhão. Um amigo meu, certo dia – certa noite… –, no Cais do Sodré, vendo a Leonor Pinhão nos arredores do MusicBox, não se conteve: Benfiquista fervoroso e apreciador de boa prosa, chamou, gritando, «Dona Leonoooor! Dona Leonooooor!». Desde então, entre amigos, referimo-nos a Leonor Pinhão como “Dona Leonor”, num misto de trato bem-dispostamente carinhoso e alguma reverência. Reverência merecida, justificadíssima. Admiração!

À quinta-feira, folheio A Bola, sim, mas só depois de ir directamente ao que me interessa: a crónica da Dona Leonor. As gerações não são as mesmas e Leonor Pinhão não é uma genuína possuidora do charme da melancolia. Ainda assim, não é por isso que deixa de encontrar conforto nas tristezas. Acontece que é nas tristezas dos outros. E, nesse particular, Dona Leonor tem um charme incomparável. Escreve assim sobre a final de domingo:

«Sofrer um golo de cabeça de um adversário com 1 metro e 66 e que ainda se pôs de joelhos para enfeitar melhor o lance não é coisa digna de um craque das redes como é Rui Patrício
(Leonor Pinhão)

E eu, uma vez mais, fiz da tristeza alegria. A tristeza também não era minha - detalhes. E lá vou eu folhear a A Bola. Falam do Ola John. Deve ser o jogador desconhecido mais famoso do momento. Já li e ouvi o nome do homem tantas vezes que começou a soar-me familiar. Agora, espero que venha. Só para ficar a saber se também joga à bola, para além de ser famoso. Quem fala bem é Bruno César. Dantes falava mal. Agora está falando bonito:

«Aquela Liga dos Campeões é uma prova chic, com aquele hino e tudo…»
(Bruno César)

Não é um encanto? Bruno César não tem costela grunge – tudo aqui é composto de singelo e certeiro optimismo: ele encontra alegria na alegria. Tão simples quanto isso. Dizer da Champions que é chic é a demonstração de que a afirmação despudorada do óbvio pode ser, também ela, de um charme imenso. Finalmente, qualquer coisa que bate certo.

Leio mais. Passo á frente o que não interessa, há assuntos que me aborrecem. O futebol, desporto que se quer de charme e de emoções fortes, às vezes causa-me desconforto. E é então que resolvo a situação: foco-me no basquetebol. E, com este exercício aparentemente simples, descubro a felicidade onde dantes existia tristeza. É bonito voltar a ser campeão nacional de basquetebol. E haverá quem diga «só te preocupas com isso porque perdeste no futebol». E eu responderei «isso é mentira» e nem me darei ao trabalho de justificar. Aliás, esta vitória parece ter mais importância do que o próprio troféu, em si – que ninguém viu mas que se supõe que exista mesmo. Diz-se, pelos corredores e bastidores, pelos balneários e cantos escuros, em sussurros, que se inaugurou um novo salão de festas a Norte. Pode ser pequeno e humilde, mas creio que há-de dar jeito. Isto, se se confirmar a informação. Porque a verdade é que não vi lá festa alguma, portanto é capaz de ser exagero. Ou então há aqui uma inversão da lógica da charmosa melancolia: as gentes de lá só encontraram tristeza na alegria. Na nossa alegria.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Flores anãs

O tédio. O tédio e o ócio. Sento-me à varanda a ver os navios e o tempo a passar. Os piripiris não crescem. Criei uma nova raça de bonsais. Há-de servir-me de pouco. O que eu queria era produzir tempero, afinal saem-me flores anãs. E não me apetece escrever sobre o futebol. O futebol acabou. O futebol fechou. Também eu tenho o direito á hibernação. O futebol desinteressou-me.

O futebol devia ser o Falcao com a camisola do Benfica, a jogar três vezes por semana. O Falcao é o herói, mas o herói no significado máximo da expressão. Numa altura em que o futebol foi cruelmente invadido por dois extraterrestres muito mais poderosos do que o homem, Falcao mostra que a condição de humano pode bastar para ser o mais encantador futebolista do planeta nos dias que correm. Este Radamel tem o que falta aos dois monstros: carisma, uma aura de herói popular, charme, paixão genuína. Onde Cristiano e Lionel crescem matematicamente, metodicamente, industrialmente, o colombiano opera para comover, como um poeta, como um esteta. Não lhe basta fazer muito – tem de fazer bonito. Não lhe basta ser eficiente – tem de ser o mais elegante. Não lhe chega festejar um golo – festeja-o como se ganhasse uma batalha, como se deitasse abaixo um inimigo, como se distribuísse justiça e pães pelo povo. Radamel Falcao não é melhor jogador do mundo, não pode; mas é o jogador mais bonito da actualidade.

Que pena que o futebol não seja, não possa ser, Radamel Falcao com a camisola do Benfica. Em vez disso, o meu futebol é um Benfica disputado, mal falado e maltratado, ora de um lado, ora de outro. Vi o Benfica – União de Leiria, fui despedir-me da equipa. Senti desconforto. Aquele Estádio, que é meu, parece uma casa ocupada, disputada entre Vieira e vieiristas, de um lado, e anti-vieiristas, do outro. Já vos expliquei: o Benfica não é do Vieira. Da mesma maneira, também não é dos No Name Boys. É pura e absolutamente meu. E, sempre que eu quiser ir aplaudir a minha equipa e o seu treinador, despedir-me deles – «até qualquer dia!», «até para o ano!», «até nunca mais!»; «obrigado por tudo!», «podias ter feito melhor!», «eu acreditei sempre em ti!» -, não há um – UM! – Benfiquista à face da Terra que tenha o direito de me chamar o que quer que seja. Que manifestem desagrados, acho muito bem; que insultem indiscriminadamente, não posso admitir.

Por tudo isto, também deixei de ler os blogues, que maçadores os blogues!, da mesma forma que deixei de ler n’ A Bola as reportagens amanteigadas sobre Vieira a propagandear-se nas Casas do Benfica, recolhendo apoios, loas, beijinhos e engraxadelas nas botas. Vocês cansam-me. Uns e outros – simplesmente cansam-me. Não me bastava viver num país de políticos que me envergonham, ainda tinham de vir politizar, de maneira tão degradante, o meu Clube? Tirem a vossa política daqui, por favor! Vão brincar aos partidos, às autarquias, às democracias feudalistas, aos sistemas capitalistas, às assembleias e sindicatos, às votações, greves, manifestações, aos referendos, ao que vocês quiserem, onde vocês quiserem: mas deixem o Benfica em paz! Tenham vergonha e tenham lá paciência, mas o Benfica ainda é um clube desportivo – e o meu santuário do Futebol. Tratem-no como tal.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Minis e jaquinzinhos

Está um perfeito dia de Verão. Na rua, ainda não se sente mas já se pressente o cheiro das sardinhas assadas. É uma espécie de odor espiritual que acompanha os dias magníficos deixando-se imaginar mesmo quando ainda não existe. O cheiro das sardinhas assadas acontece quando o Verão nasce, mesmo que ninguém asse sardinhas. É um perfume que pertence, que faz parte, como se os raios de sol fossem o carvão e o sal e o resto desta cidade fosse feita de pele e escamas finas.

Começava a preocupar-me. As finais europeias vinham aí, estavam mesmo a chegar, e não tínhamos Verão. Nem Verão nem outra estação qualquer. Este ano, ao nível da definição das estações, é como um Atlético de Madrid - Athletic Club, equipando ambas as equipas com as vestes principais. Que imagem bonita: o caos indistinto e uma bola aos saltos, 50 mil pessoas em Bucareste aos gritos sem saber para quem, 20 rapazes trajados de pijamas às riscas e uma taça no fim. Que delírio.

Os meus receios amainaram, o dia de Verão entusiasmou-me com uma lambidela serena quando, à hora do almoço, fui regar os piripiris e os coentros à varanda. Suspeito que criei, inadvertidamente, exemplares bonsai de ambas as espécies. Podem não dar para tempero, mas causam impressão. Às vezes, enquanto os rego, tenho medo de os afogar de tão pequeninos que são.

Lembro-me de, há um ano atrás, ter desejado que a relva de Dublin se transformasse em alcatrão fervilhante. Disparate meu, claro. Como em quase tudo, quase sempre, no que respeita a futebol, as minhas expectativas saíram defraudadas. Já nem perco tempo a puxar pelo que quer que seja. Foi, aliás, assim que consegui que o Sporting fosse eliminado da Liga Europa: simplesmente, ignorei a segunda mão da meia-final. Quando fui ver o resultado, lá estava ele, resplandecente: «Caíram de pé». Parabéns.

Para hoje peço pouco. Já tenho o sol e o Verão e o meu imaginário embebeda-se de aroma a sardinhas que ainda não existem. Estou a um pequeno passo de ser feliz. Venham os 20 rapazes dos pijamas às riscas numa encenação caótica e absurda do mais puro futebol – sem sentido, sem destino, só uma bola e muita anarquia. Uma travessa de jaquinzinhos e a frescura das minis.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Tomei uma decisão e é esta

Dilemas. Provavelmente, uma das maiores perdas de tempo da história da humanidade, uma invenção que tem um único propósito: causar angústia. Eu não gosto de dilemas. Nem de dilemas nem de compromissos com ideias, que é uma coisa muito anti-humana, retrógrada, reaccionária, conservadora. A pessoa deve andar por aí e pensar, pensar, pensar e, se mudar ideias, tanto melhor, talvez tenha crescido ou amadurecido. Mas há um ponto, um dia, um momento, em que, enquanto homem, o indivíduo deve dizer ou sim ou sopas, deve assumir-se, afirmar-se, reivindicar-se. Isto é, a pessoa tem de situar-se no mundo e arrumar as ideias. Ou então não. Mas se o fizer, fica-lhe melhor.

O excesso de bom senso é insensato. Aumenta exponencialmente os valores da angústia e, entre medidas de prós e de contras, dilui indecisamente o indivíduo na hesitação, no impasse, na incerteza. Pensar sobre certas coisas é desvirtuá-las. Nesse capítulo, mea culpa: sou dos melhores gajos a dar cabo do futebolismo. Obstinado que sou, teimo em pensar nas coisas, procuro algum rigor em nome de uma suposta justiça moral, em algumas ocasiões dou por mim a ser minucioso. Resultado: não digo nem sim nem sopas, pareço um adjunto de capataz, com fitas métricas e níveis de bolha de ar, de um lado para o outro, em exercícios de observação, medição e avaliação. Os exercícios de decisão, que são bons e que tanta falta nos fazem, não costumam ser para mim.

Como é evidente, está mal. Se há coisa que eu gostava de fazer era de tomar decisões, de dirigir. Em suma, de mandar. Dar ordens. Ó, como eu seria feliz a ir por aí «faz isto, faz aquilo, oferece o Emerson aos pobres, não faças assim, vai ali buscar-me uma cerveja, tu nunca me contrates o Luís Filipe, livra-te, despeço-te na hora!, mete o Nelson» e assim por diante, a dizer às pessoas o que é que elas haviam de fazer, seguro de mim, certo de que estaria certo.

Estou há três parágrafos a fazer-vos perder tempo porque ainda não consegui decidir o que será melhor para o Benfica (e, atenção que isto importa, é apenas esse o meu interesse – porque o Benfica não é do presidente Vieira nem dos sócios que vão mais vezes à bola nem dos credores da Futebol SAD nem do Luisão; o Benfica é simplesmente meu e, por isso mesmo, eu só posso querer o melhor para o Benfica). Eis o dilema: Jesus deve ou não ficar? Terá Jesus condições para ficar? Será bom para o Benfica que Jesus fique?

Há tanta coisa que me irrita em Jesus que só metade delas chegaria para lhe acenar um lenço branco no próximo sábado. Mas o futebol é diferente, é arremessar fitas métricas e níveis de bolha de ar, que se fodam os prós e os contras: este é o melhor Benfica dos últimos 20 anos a jogar à bola e eu gosto disso, pá, mas é que eu gosto mesmo disso, méne! Por mim, Jesus fica. Está decidido.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sem Título

Eram nove e meia quando aterrei em Faro. Assim que as rodas tocaram no chão, não aguentei mais: liguei o telefone e abri o site d' A Bola. «Benfica entrega título ao Porto». «Vês? Vês?» disse eu para a Lady. É que eu sonhei com este desfecho. E só não postei a previsão no facebook porque ela não deixou, «oh, larga isso, estamos com pressa» e eu larguei, bem-mandado que sou.

No meu sonho, estávamos a jogar hóquei em patins. Contra o Gil Vicente, fora. Não me peçam para explicar. Estava dois a dois e o relógio fazia a sua contagem decrescente. Nós, Benfiquistas, sofríamos e eu dei por mim a sofrer muito mais do que seria suposto com um jogo de hóquei em patins – repito: contra o Gil Vicente. A dada altura, começam a ouvir-se cânticos «campeões, campeões, nós somos campeões» e eu, baralhado, olho em redor, buscando a claque do Gil Vicente. Tudo estava sereno, os próprios jogadores, no ringue, pareciam serenos. Até que vislumbrei, num topo, vinte ou trinta rapazes, vestidos de azul e branco, aos saltos, a cantar e a deitar foguetes. Acordei, sobressaltado e esclarecido: o campeonato não passava daquele dia, estava escrito.

Saí do avião e liguei para a minha mãe. Notei-a tímida, um pouco embaraçada. Não tocou no assunto e perguntou-me se a viagem tinha sido boa. Disse que sim. E foi, de facto. Durante a última semana, desliguei-me de todos os assuntos por vontade própria. Do único que não queria desligar-me, vi-me forçado a fazê-lo: voei das seis e meia da tarde às nove e meia da noite, precisamente durante a hora do jogo e mais uns tostões. A minha mente estava limpa e o meu coração sossegado. Quando li A Bola, percebi que o empate e a perda matemática do campeonato eram apenas um momento definitivo, cristalizado como a morte de uma vizinha que sofria de cancro do pulmão já há meses. É triste, mas é pacífico. Dói menos a hora da morte do que a expectativa da morte. Ver-nos definhar foi, sim, doloroso. Ver-nos perder de uma vez por todas foi apenas uma inevitabilidade. Era uma questão de tempo. Agora ou para a semana, não faria diferença. Vale-me o consolo de não me encontrar em solo nacional à hora precisa do óbito e do início dos festejos mórbidos.

A minha mãe liga-me sempre após – e, às vezes, durante – os jogos do Benfica. No domingo, não só não o fez como não tocou no assunto. Deduzi que preferisse saber de mim, da viagem, da estadia, se me tinham rebentado os tímpanos (Manel: grande abraço, sábado tens direito a duas médias, aquelas gotas são um pequeno milagre) na aterragem. Estranhei, mas não fiquei profundamente impressionado. No dia seguinte, a minha mãe ligou-me de novo, a saber como estava e para falar um pouco mais sobre a jornada inglesa. Aguardei pelo toque no futebol. Nada. Sempre que o assunto podia resvalar para o campeonato, esgueirava-se, torcia a conversa «então e o Big Ben, gostaste?» e eu «ah, não é feio, mas gostei mais do Emirates» e ela «então e a Tower Bridge?» e eu «infelizmente, não consegui foi ir a Wembley – mas vi Stamford Bridge e o campo do Crystal Palace» e ela logo a atalhar «pois, filho… e eu que gostava tanto de ir a Buckingham, ver os soldadinhos».

As mães têm um instinto maternal apuradíssimo. E a minha, derivado deste filho que tem, possui um redobrado. A minha mãe estava a tentar proteger-me, procurando adiar o choque. Não me queria dar a notícia «sabes, filho… tenho uma coisa para te dizer. O Porto já é campeão». Ela não sabia que eu já sabia. Ontem, voltámos a falar. Mais uma vez, a viagem foi o tema da conversa. Sobre bola, nem uma palavra. E o diálogo foi fluindo «filho, tenho cá favas, não queres vir o fim-de-semana?» e eu senti que era a minha oportunidade «não, mãe… sábado quero ir à Luz».

Houve um silêncio prolongado. Houve embaraço do outro lado da ligação. Então, a minha mãe lá ganhou coragem e disse «vais lá fazer o quê, filho? Eles já perderam…» e ouvi o meu pai lá por trás «o quê, ele ainda perde tempo com ‘isso’?». «Mãe, eu não sou do Benfica só quando ganhamos. E não vou deixá-los sozinhos, nunca – nem que descêssemos à terceira. Sábado, vou lá estar. Preciso de lá estar».

terça-feira, 17 de abril de 2012

He shoots and he scores! Oh, what a lovely volley

Tenho andado a falar do futebol concreto e isso é coisa que me desagrada. Corrijo: tenho andado a falar concretamente de futebol e isso é muito aborrecido. Aquele futebol de enormíssimo desinteresse, do treinador que vai ou que não vai, da taça que se ganha ou que não se ganha, do que se passa mesmo ou do que se vai passar. Uma chatice. O futebol etéreo dá goleada a essa conversa sem jeito. Deixo aqui as minhas desculpas, meti-me a fazer de adepto com coisas para dizer, mas não de propósito, foi impulso mesmo.

Tentemos recuperar o lado poético da bancada e do relvado – mas não sei antes deixar uma nota breve: se eram mesmo Benfiquistas (e deixo a minha dúvida a negrito porque não sei fazer o sublinhado), aqueles encapuçados que esperaram a equipa e o treinador para os assobiarem e insultarem depois de conquistada a Taça da Liga, são uns encapuçados bastante estúpidos. Aliás, surpreendentemente estúpidos. Estúpidos ao ponto de ainda não terem compreendido, numa lógica caneciana, que ser o vencedor é o contrário de ser o perdedor. Fica o meu espanto, seguido do meu profundo insulto: vocês são estúpidos.

Mas entremos no futebol que nos entra pela vida adentro. Ela quer ir a Oxford Street e isto é uma extraordinária notícia. Ela quer ir a Oxford Street fazer compras – «fazer compras»: «comprar roupas que talvez um dia venha a usar, mas a questão não é essa, a questão verdadeira e propriamente dita é mesmo ir lá e comprá-las ou, pelo menos, poder comprá-las» - e isto é o chamado bis.

Começava a ficar angustiado. A possibilidade de ir a Londres e não conhecer Wembley estava a ganhar forma e substância: eu não tinha moeda de troca. Estávamos os dois muito de acordo, a fazer aquele papel, sempre cúmplice, de culto «ah, pois, a Tate, a National Gallery», de quem sabe o que quer «sim, sim, e havemos de sair à noite no Soho», de vá-lá-só-desta-vez-turista «e quero uma fotografia com o Big Ben lá por trás, não quero saber», de pessoa cosmopolita que gosta da cidade tal como ela é «e um fish and chips em Portobello».

A unanimidade é uma coisa muito apreciável mas, honestamente, estava-me a complicar uma série de planos: sábado à tarde de bola num pub cheio de ingleses, ir ao Emirates certificar-me se é gémeo verdadeiro ou falso da Luz e ir a Wembley porque ir a Wembley deve fazer parte dos planos de qualquer adepto do futebol, eram, até hoje de manhã, assuntos-tabu em toda a planificação da viagem. Escusado será dizer que nem regateei, «claro que sim, meu amor, até pode ser que encontre alguma coisa gira para mim». Um – zero.