terça-feira, 11 de setembro de 2012

Compromisso redentor

Há um peso que carrego. E por mais que argumentem com o Jesus, com os reforços, com a falta de reforços, com as arbitragens, com a sorte e com o azar, nada me absolve: o Benfica não foi bi-campeão em 2010-2011 porque eu falhei com o meu compromisso. É tudo uma questão de cabelo.

Corria o ano de 2010 - e corria muito bem. O Benfica liderava isolado, o Porto estava distante e o Sporting não entrava nas contas. «Ah, então e o Braga?»: o Braga é o Braga. O primeiro nome é Sporting, não nasceu para ganhar. E eu, cabeludo, assumi: quando o Benfica for campeão, rapo o cabelo. O Benfica foi, de facto, campeão. Na noite da consagração, perdi os telefones e os amigos e ainda cheguei a casa tarde, causando visível e lógico transtorno à Lady Verde, para quem o «mas querida, somos campeões!» mereceu um «ai sim? Do quê?», sem esperar por resposta.

Depois de tanta perda, e apesar do nobre ganho, presumi «pá, se a cena era sofrer, o sofrimento está sofrido». E não rapei o cabelo. Seguiu-se a pré-época e um crescimento saudável e contínuo da minha cabeleira campeã nacional, orgulhosa e pujante. Tudo isto sempre sob um olhar castigador da Lady de cada vez que me lembrava «eu devia rapar isto». A reprovação feminina é persuasiva. Em certos casos, traumática. E, assim, eu não cumpri a promessa.

Passou a pré-época e os primeiros sinais apareceram. Não só o cabelo estava mais fraco como, na baliza, na vez do Quim, apareceu um rapaz muito alto e sem jeito. Passámos a sofrer golos ridículos com regularidade e eu pensei «ah, isto é só porque é contra o Nyon, quando for a sério...». Ilusão, como veio a comprovar-se. A época começou e os golos ridículos sucederam-se, faltavam vitórias e a mim atormentava-se-me a consciência. Tomei uma decisão: «vou rapar o cabelo!» e rapei.

Os resultados foram imediatos: o Benfica começou a ganhar e a fazer golos, o Roberto já quase não os sofria muito ridiculamente. Tudo corria bem. É uma pena que a minha decisão tivesse surgido demasiado tarde. Surtiu efeito, mas apenas para me castigar sem piedade. O Benfica ganhou 19 jogos consecutivos, nem isso foi suficiente para chegar ao primeiro lugar; esse foi matematicamente conquistado no nosso Estádio, diante dos meus olhos, da minha impotência, da minha frustração e, sobretudo da minha culpa.

Encontrei, como bom adepto do belo-desporto, o fraco consolo na certeza de que iria, cheio de saudades, ao Jamor, ver o jogo da Taça. Só faltava receber o Porto em casa e ampliar - ou até mesmo apenas aguentar - uma vantagem de dois a zero sacada com méritos no Dragão. Deixei crescer barba e bigode, reuni amigos, reservei garrafãoes de vinho e estabeleci: vou ao Jamor no meu estado mais Benfiquista de sempre. Íamos todos, estava combinado. O bigode era obrigatório até entre a facção feminina.

No entanto, e apesar de termos o vinho e os bigodes prontos, os portistas vieram à Luz fazer-nos a desfeita debaixo das nossas barbas. Coisa ruim. 3 a 1 para eles com uma exibição memorável do Falcao - e o nosso de honra foi por piedade, para o Cardozo marcar de penalty nos descontos. Era um sinal: com pêlos e promessas não se brinca. Um homem é um homem! E o Benfica perdeu o quanto havia para perder. Por culpa minha.

Ver o Benfica na final do Jamor não é o sonho de um Benfiquista: é uma tradição que faz parte do ser Benfiquista. E faz-me falta. Muita falta.

Aqui em baixo, podem ver a minha barba de Benfiquista. Segundo o Senhor Mário Coluna, faz-me falta uma gilete - mas não tanto como me faz falta ver o Benfica no Jamor, digo eu.

Podem clicar para ver mais em detalhe. É uma barba bonita. Já tem meio ano.

E eis o meu compromisso redentor: o Benfica vai ao Jamor e eu estou lá - não com esta barba, mas com o bigode que sobrar dela. E os garrafões de vinho e os amigos, os cachecóis e as bandeiras. Mas, sobretudo, comigo de bigode. Eu quero a festa da Taça. Sim, eu sei que o presidente quer um clube forte a nível mundial. Mas eu não peço tanto. Apenas isto: o Benfica na final do Jamor. A minha barba por esse jogo!

PS: reparem que alterei, inclusivamente, a foto de perfil.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Cambada de impagáveis, é o que eles são!

O negócio, afinal, não é dinheiro. Leio a imprensa desportiva do dia e fico desapontado comigo mesmo, com a minha má fé, por ontem ter pensado e escrito – apetece-me sempre que o particípio passado de «escrever» com o verbo «ter» seja «escrevido», não sei já o tinha dito – que o dinheiro é que fazia a terra dar umas voltas. Witsel, para começar, não se fez vender ou negociar pelo “dinheiro”, essa motivação frívola, incompleta, moralmente pobre. Nada disso: Witsel foi para o Zénit pela razão mais simples que existe, no fundo: porque qualquer jogador sonha jogar no Zénit - ah!, viver na bonita S. Petersburgo, desfrutar do seu clima ameno e das tardes plácidas nas margens do Neva. E claro «dar um passo em frente na carreira», assim se refere o pai de Witsel a esta passagem do belga de Lisboa para a antiga Leninegrado. O médio não queria renovar o contrato com o Benfica, nem mesmo antes de ter, preto no branco, uma declaração de amor de quase 5 milhões de euros por ano, pagos pela Gazprom, porque simplesmente ambicionava, um dia, vestir aqueles bonitos bibes em azul-bebé. Fica claro que o interesse do jogador nesta mudança é puramente desportivo, diria quase sentimental – e olhando para o palmarés dos russos, percebe-se o porquê. Não há Real Madrid nem Bayern Munique que lhes faça sombra. Fico feliz não só pela realização do sonho do pequeno Axel; mas mais feliz fico pela sua sobriedade, que não se deixa embevecer nem deslumbrar com contas bancárias principescas.

Quem também diz que afinal a cena não é os euros é Cristiano Ronaldo. Este caso já não me deixa tão feliz, uma vez que estava a vislumbrar em Cristiano um símbolo da minha luta pessoal contra esses aldrabões das finanças e dos impostos. O que é então que o deixa infeliz, miserável, taciturno, melancólico, deprimido? Cristiano, enigmático, não esclarece. Diz apenas que, um dia, há-de provar-se que não era o dinheiro que o entristecia. E não me custa acreditar. No caso de Cristiano – e de Witsel, já agora – suspeito que o dinheiro não seja a parte mais deprimente da sua vida.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

De roda dos milhões

Não sabia por onde começar até há uns minutos atrás, quando soube que «a tributação dos impostos deixa Cristiano Ronaldo triste» e começo mesmo por aqui: Cristiano, estou contigo. Se há coisa que me deixa triste é ter de pagar impostos e assistir ao que o Estado faz com esse dinheiro, que me custa a ganhar e que nunca me sobra: tapar buracos financeiros, compensar erros de gestão de outros governantes, pagar prestações de compras sem explicação, pagar indemnizações de irregularidades contratuais, pagar estudos de projectos, pagar estudos de estudos de projectos, pagar estudos de viabilidade de projectos depois de terem sido feitos os projectos, pagar auditorias ao pagamento de estudos e encomendar novos estudos de futuras auditorias que provem que todos os estudos foram bem estudados – exceptuando os casos de determinados governantes (não vou dizer nomes) cujos estudos ficaram assim um bocadinho por estudar. Posto isto, amigo Cristiano: a tua tristeza é a minha tristeza. Sendo que a tua tristeza é, precisamente à tua medida, uns milhões de vezes maior do que a minha, na proporção directa do que o Estado Espanhol irá reter à tua conta e do que o Estado Português irá cobrar à minha. Tenho, por isso, pena de ti.

O drama de hoje, já se deve ter percebido, é o dinheiro. O dinheiro faz o vocábulo ficar redondo, já cantava a Liza Minnelli. Por dinheiro os nossos jogadores fazem qualquer coisa – por menos dinheiro, como se pode ver pelo parágrafo acima, o Cristiano Ronaldo faz qualquer coisa, também, mas em muito melhor, como é seu apanágio. Por dinheiro, os jogadores chegam a jogar no Benfica, por exemplo. E isso é notável. O dinheiro é um instrumento de persuasão, em certos casos, pernicioso. Por exemplo, no meu caso: faz-me trabalhar e encarar o assunto com naturalidade, quando natural, mesmo, seria eu fazer coisas de que realmente gostasse. Tais como ir ao futebol. Porém, preciso de dinheiro para isso. É por esta razão que não olho nem com espanto nem com tristeza para o que o dinheiro fez fazer o Javi García ou o Axel Witsel. A minha pena termina aqui: eram bons jogadores e eu gosto de ter bons jogadores. De resto, por mim até podem ser as novas concubinas dos magnatas que lhes compram o corpo e a alma, tanto se me dá.

Agora que já saíram, a minha preocupação, a minha atenção, o meu carinho e a minha fé focam-se nos que ficam. Esses, os que vestem a nossa Camisola, são todos quantos me importam. A minha preocupação e a minha atenção – mas não o meu carinho e muito menos a minha fé – concentram-se também na falta de precaução em toda esta matéria. A venda destes dois jogadores não constituiu surpresa, eram nomes vistosos, futebolistas cheios de potencial, os pretendentes que tinham eram vários. E é na falta de surpresa que reside a minha insatisfação: porque não se acautelou a saída – já nem digo de ambos – de um deles? Esta pergunta não fui eu que a inventei; esta pergunta está a martelar a cabeça de todos os Benfiquistas desde há quatro dias para cá, com pancadinhas suaves, mas ritmadas. E eu repito-a para que aqueles a quem a pergunta não melindra possam, também eles, partilhar da nossa sensação: porque não se acautelou a saída de um deles?

Antes de terminar, e porque o texto está a ser mais previsível do que o desfecho do nosso próximo match em Camp Nou, queria deixar aqui o meu contributo criativo, de acordo com a gestão e planeamento dos nossos plantéis, ano após ano. E faço-o como contribuinte ronaldamente triste, porque também a mim me entristece este excesso de criatividade de quem nos conduz: com as saidas de Javi e Witsel, entraram 60 milhões de euros. A cláusula do Falcao é de 55 milhões euros. Só estou a dizer.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Iniesta, hein?

Vamos lá assentar aqui uns pontos: qualquer votação para melhor futebolista de qualquer coisa da qual constem Cristiano e Messi e que não atribua a um deles o mencionado título, está ou errada ou não está a levar nenhum desses senhores em conta - provavelmente por colocá-los automática e naturalmente acima dos demais.

Aceito a segunda hipótese e até deixo uma sugestão: enquanto jogarem, o prémio fica atribuído por decreto "aos dois" (aqui, como as opiniões se dividem, o melhor é dá-lo mesmo aos dois), através da criação de uma categoria especial que seria integrada apenas por eles próprios - a de aliens ou de deuses ou de ungidos ou de supremos, qualquer coisa que não fosse "jogador" ou "futebolista", mas antes os distinguisse e elevasse, sem dúvidas, misturas ou equívocos.

Não sucedendo a segunda hipótese, estaremos perante uma violentíssima fraude, uma distorção ridícula e completa dos conceitos de "melhor" e de "futebolista". O Iniesta foi campeão europeu? Parabéns: e é por isso que tem lá a mdealha em casa. Ah, mas ele merece reconhecimento? Merece, com toda a certeza (e toda a minha franqueza) - e é por isso que ficar em terceiro teria sido merecidíssimo, justificadíssimo, diria mesmo lógico ou óbvio. Mas vamos ser sérios. Custa-me ver que esta "homenagem" a um jogador seja o desvirtuar de significados que deviam ser protegidos, sagrados. Toda a gente sabe que Iniesta não é o melhor, toda a gente vê que nem sequer se aproxima dos outros dois. Mas "ah, coitadinho, ele merece e de outra forma nunca ganharia". Temos imensa pena. Porém, isso sucede com ele e... com todos os outros.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Um aniversário diferente

- Master…
- Schhtt… Estou a meditar, Pequeno Vermelho.
- Mas, Querido Mas…
- A tua insignificância não tem a felicidade de ser imperceptível, Pequeno Vermelho. Estás a importunar-me. Durante a meditação do Master…
-… deverás silenciar-te, afastar-te, sossegar-te e deitar-te também tu a pensar. Sim, Master.
- O que te demora? Porque não estás também tu a pensar, minha metade de um terço de uma micronésia a flutuar à deriva num planeta do tamanho de Saturno?
- Porque… Master, chegou um mensageiro.
- E desde quando é que
- É uma mensagem do presidente Vieira, Querido Master.
- O quê? Do presidente Vieira, o próprio?
- O próprio, Master. Assinada e tudo.
- Garantes? Ajuda-me a levantar.
- Garanto. Está aqui.
- É… de facto, uma assinatura. Ora lê. Lê-me o que diz.
- Diz assim:

«Caro DIEGO, neste dia especial o SLBenfica deseja-lhe um fantástico aniversário cheio de alegria e mística. Parabéns!

O Presidente
Luís Filipe Vieira»

- O “DIEGO” é mesmo assim, com letras grandes. Todo.
- É atencioso, de facto.
- Querido Master, fazes mesmo anos?
- Sim, criaturinha. Faço mesmo anos.
- Fazes muitos?
- Oh, pergunta difícil. Os anos que se acumulam nunca são poucos, mas também nunca são demais…
- Hum, pois… E por que te deitas a pensar no teu aniversário? Não devias festejar, estar feliz, desfrutar das boas sensações que uma vitória gorda nos permite, Master?
- Sabes, minha sub-fracção de um milímetro pequenino, nem tudo é felicidade. Um aniversário e uma vitória não são suficientes para apagar a amargura que sinto.
- Amargura? Com o Benfica?
- Amargura… pelo Benfica.
- Mas…
- A verdade é que é um dia triste, Pequeno Vermelho. Hoje, pela primeira vez na minha vida, tenho mais anos de existência do que o Nosso Amado Clube tem títulos de Campeão Nacional.
- Assim tantos?
- Assim tantos. Mas tal, por si só, não deveria trazer-me angústia. O que me magoa é que, quando fiz 14 anos, atingi a metade exacta dos campeonatos que ganhámos; quando completei os 15, superei essa metade – mas fomos campeões nesse ano. E agora, ainda tão novo, supero irreversivelmente a contagem do nosso troféu mais fundamental. É doloroso.
- Compreendo…
- Ora, vai ali buscar o rolo de papiro, a pena e o tinteiro, Pequeno.
- O tinteiro pequeno?!
- Não, Pequeno. O tinteiro… de uma forma geral. O Pequeno és tu.
- Sim, claro, Querido Master.
- Estás preparado? Vou ditar-te uma mensagem.
- Podes dizer, Master.
- «Caro LUÍS» - escreve assim, com as letras todas grandes, para ser atencioso - «Caro LUÍS
- Outra vez?
- Não, não. Estava só a recapitular. Para não me perder. «Caro LUÍS, neste dia especial, o Diego deseja ao Benfica uma única coisa: que o Benfica tenha uma época fantástica e que, em Maio, possamos festejar, todos juntos, o 33.º - não como eu hoje festejo o meu, mas com a euforia que uma grande vitória merece. E que esse seja o primeiro de 10, de 20, de 30, de centenas de campeonatos ganhos consecutivamente para que o Diego não tenha de sentir, nunca mais, por um período superior a 9 meses, que tem mais anos de existência do que o Benfica possui Campeonatos Nacionais no seu palmarés.

O Master
Diego Armés» e deixa-me assinar.

- Toma.
- Está feito. Agora leva o papiro ao mensageiro e diz-lhe que se destina ao Luís. E eu, bom, eu vou voltar aos meus pensamentos, às minhas contas, à contemplação do tempo que passou, a pens…
- Vais ver vídeos do Benfica no Youtube? Do Rodrigo e do Aimar?
- Ehrm… Bom, talvez mais lá para o fim da tarde. Se tiver tempo… Vá, agora vai, Pequeno, vai.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Breve nota editorial extraordinária

No top-10 das palavras-chave de busca que trouxeram gente a este blogue no decorrer do mês de Agosto, a expressão futebolística «cinquentonas fogueteiro» surge na 10.ª posição. Espero ter sido útil nesta demanda de alguém com gostos muito específicos.

Fantasia de futebol

Sejamos organizados, metódicos: da esquerda para a direita, sobre a mesa de apoio, uma pequena taça com castanhas de caju, outra com amendoins salgados e uma última com pistáchios com casca. Em frente desta, um pires. Para as cascas. Os chinelos do Benfica nos pés, a base para o copo, o próprio copo; da lata, outrora de Amstel e hoje de Heineken, escorrem minúsculas gotas. Esta lata tem de ser aberta, caramba! Não, primeiro ligo a televisão. Diz assim o senhor sobre o genérico de um programa que, aparentemente, dava dinheiro a velhinhos e no qual as pessoas se riam muito, «não perca já de seguida o Celtic – Benfica, jogo da Liga dos Campeões, em directo e em exclusivo na sua TVI». Entram os chamados compromissos publicitários, faltam mais de dez minutos para o início do match e eu penso “o senhor que falou durante o genérico não usou a popular expressão «dentro de instantes» - «já de seguida» pode demorar um bocado”. E demora, como previsto, demora. Vivo esta espera com um agradável sentimento de masculinidade: enquanto bebo a minha cerveja e espero pelo futebol, deslumbram-me com anúncios a automóveis cheios de estilo e eu fumo um cigarro, como cajus, amendoins e pistáchios, sempre por ordem, um golinho na Heineken, mais automóveis, gosto mesmo disto, e a seguir anúncios a cervejas, quase não pode melhorar, anúncios a pneus, a reparadores de vidros que reparam muito rapidissimamente os seus vidros, num instantinho, mais um gole na Heineken, caju, amendoim, pistáchio, por esta ordem, é Fords Focus pelo mundo inteiro e cervejas de várias marcas para fazer amigos e matar sedes e conseguir miúdas giras, tudo enquanto eu espero muito descontraída e masculinamente pela bola e bebo, com a suavidade de um homem que está bem na vida, a minha Heineken.

Meto-me a pensar nas coisas. Como seria há 150 anos atrás? Momentos antes do match de um jogo ainda sem nome definido – e em que as balizas não tinham tecto, sequer – se iniciar, os cavalheiros, rivais, juntavam-se a um balcão improvisado cofiando barbas e afiando bigodes. Os vendedores de carroças e cavalos aproveitariam para publicitar os seus artigos, emoldurando-os com finíssimas damas de chapéus muito elegantes. E os cavalheiros rivais conversavam sobre bens ancestrais, tradições que ao tempo não tinham sequer bolhinhas «tem de provar esta cerveja, meu caro, é a receita do Convento de Vialonga, uma maravilha» e o outro, retorquindo «não vai mal, não vai mal… mas prefiro a do Mosteiro de Leça», «do Balio ou da Palmeira?», «de cevada, ora essa…» e fumavam cigarros e apreciavam charrétes coupé à espera de um jogo que ainda se jogava a meias entre os pés e as mãos. Muito evoluiu o homem!

Vai começar. Entra o hino – mas, alto!, este hino vem retocado. Não entendo o que se passa. Parece-me a voz do Paulo Gonzo. É mesmo a voz do Paulo Gonzo. E a letra também foi mexida. Agora canta o José Cid. Aparentemente, a letra enaltece a glória, sim senhor, pois claro. É a história de um pequeno herói, o trilho percorrido por um menino que nasceu aleijadinho filho de uma mãe que era ceguinha e prostituta e que pesava muito, mas que lutou pelo seu filho e o pôs a jogar nas escolinhas de um clube imaginário, em Alcochete. A criança entretanto cresce e ultrapassa uma crise de adolescência em que se mete nas drogas, derivado das más companhias e da influência de uma namorada muito malvada – tudo isto após a morte da mãe, vítima de doença prolongada –, e regressa aos relvados decidido a honrar a memória de sua mãe. Esta letra é muito bonita e o dueto Gonzo – Cid só a eleva ainda mais. Mas o melhor estava guardado para o fim, quando, com aparato épico equivalente àquela parte «da chaaaaaaampiooooooooons», entra o Toy a cantar o momento em que o menino, agora jovem adulto, é campeão europeu ao serviço de um clube qualquer colossal, cujo nome não é mencionado, em pleno Estádio de Wembley e se esvai em lágrimas apontando para o céu e dizendo «mãezinha, mãezinha», enquanto beija a taça. E eu arrepio-me todo a ouvir isto.

As equipas estão a subir ao relvado, o comentador da TVI mal consegue falar, notoriamente emocionado pela versão do hino que a estação preparou para as emissões da Champions League. Nem o onze inicial do Benfica o homem consegue ler. Caju, amendoim, pistáchio e, zás, um golinho de Heineken. Pode começar.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O mundo divide-se em milhões de metades

O mundo sempre se dividiu em duas partes: de um lado, os Beatles, do outro, os Rolling Stones. Se for nos restaurantes, é em Fumadores e Não Fumadores. Nos WC’s, Homens e Mulheres – a não ser que seja em Alfama, onde é recorrente o recurso à casa-de-banho comum; ou então nos shoppings, onde existe uma tereceira, para Deficientes. E às vezes uma quarta, que é a dos Fraldários. Quem for Fraldário, vai a essa. Nos Jogos Olímpicos, onde tudo se junta, raças, credos e nações, separam-se os sexos: de um lado os Homens, do outro as Mulheres, novamente. É uma divisão recorrente, esta de cariz sexual. Fomos feitos para nos misturarmos, para nos juntarmos, para nos fundirmos e, no entanto, a lei, a burocracia e a moralidade passam a vida a separar-nos. Curioso como o homem não se compreende a si mesmo.

Também no futebol o mundo se divide em duas partes: o Benfica e o Resto (e ainda esta pré-época o Benfica esmagou o Resto por 5 a 0). E até dentro do próprio Benfica o mundo se divide em duas partes: os Vieiristas e os Letrados. E escrevo-o com à-vontade por razões óbvias.

Enervo-me sempre um bocadinho mais ao notar as unhas e os dentes com que algumas pessoas defendem o presidente Vieira. Faz-me lembrar a reverência e a devoção que inspiravam figuras de outras décadas, de tempos em que, mais do que pelo respeito ou pela admiração, a coisa ia ao lugar pelo temor. Não sendo eu um enormíssimo democrata, que não sou – e não vou agora expor a minha ideologia, mas resumo: isto a que chamamos de Democracia é um embuste –, faz-me impressão quando o estado das coisas roça o despotismo.

E de cada vez que alguém diz «mas mudar porquê? E trocar este por quem?», aflige-me a pobreza de espírito de tal indagador. Porque o exercício é muito simples: basta reformular a pergunta – mas ficar lá com este porquê? Existe alguma boa razão? Já conheço o argumentário dos acólitos Vieiristas e posso desde já dizer: sim senhor, fez coisas boas; sim senhor, tem qualidades. Mais: nem sequer ponho em causa (e não me seria difícil fazê-lo) a sua seriedade enquanto presidente, a sua honestidade enquanto gestor e nem sequer a pureza do seu Benfiquismo. Mas pergunto de novo: depois de dez anos de governo – e muito apoio, todo o apoio – e com os resultados que se conhecem, temos de levar mais tempo com o homem porquê?

Este texto foi escrito ontem

Este texto está a ser escrito em papel. Tenho o copo de vinho à frente, a luz de conforto na sala, a vista para o rio, a música lá ao fundo, não muito alta - não gosto de música muito alta (excepto em concertos). Podia estar a escrever poesias, romances ou cartas de amor. Não tenho como publicar este texto ainda hoje pelo que, quando o lerem, será coisa do passado.

Depois de jantar, aproveitei para revisitar o meu próprio passado em canções de um tempo a que, mais tarde ou mais cedo, acabarei por chamar meu. Comecei pelo Bubble & scrape, dos Sebadoh; a seguir passou o Washing machine, disco maior dos anos 90, obra dos Sonic Youth. Agora roda o Beck com o Mellow gold. Dói-me a mão de escrever e o coração de ler o que escrevo. Já não estou habituado nem à caneta nem a estas canções. Mas sentia saudades de todas elas - caneta incluída.

Hoje escrevi, pela primeira vez para uma publicação, a designação "Borussia Mönchengladbach". Ao tomar consciência do que fazia, senti que o cosmos se alinhava um pouco mais de modo a fazer sentido. Este nome é a minha infância - ou uma das formas que ela assume, resumindo-se (longamente, no caso). Dantes, quando o meu pai falava de futebol e do Benfica e dos clubes europeus, falava às vezes do Mönchengladbach. E eu sentia um regozijo inexplicável: aquela palavra complexa, germânica, distendida, continha em si a dimensão do que é estrangeiro, longínquo, diferente. Quando o meu pai a pronunciava, eu imaginava uma Europa distante onde o Benfica por vezes ia jogar em busca da glória. E esse Benfica tornava-se maior e maior, aumentava como um gigante instantâneo, viajava na minha cabeça como um aventureiro das terras esquisitas.

Mönchengladbach, a palavra, faz-me imaginar, apenas fantasiando, o Chalana de colants por baixo dos calções, de luvas postas, com farripas de neve nas pontas do bigode, a driblar entre homens louros, enormes, e a cruzar para a cabeça do Nené. Isto não é memória, é pura imaginação. Mönchengladbach desperta em mim uma noção de Benfica lá fora maior do que as minhas próprias memórias. Como se a sua estranheza, longa e complexa, fosse a chave para uma realidade paralela de quartas-feiras europeias distantes, quatro torres de holofotes, estádios repletos de gente vestindo gorros e cachecóis e gráficos televisivos muito rectangulares num ecrã com uma definição de 100 por 150 pixéis. Num canto "RTP2". E placards electrónicos muito grandes com fundo preto e letras e números castanho-bronze e um relógio de ponteiros enorme. Benfica Lisbon, Benfica Lissabon. O Benfica de Lisboa ao longe, eu ainda longe de Lisboa, eu ainda sonhar com Lisboa, eu ainda a sonhar com ser de Lisboa como o Benfica, eu com o coração em Mönchengladbach, boquiaberto perante aquele nome mágico, difícil, impronunciável, Molchen, não, filho, Mön-chen-glad-bach, e eu Moncheldag, não, filho, Mönchen-glad. Bach.

Bach como o compositor, Bach como bach, rio. E eu encantava-me com aquele nome e desejava escrevê-lo um dia, sem erros, por extenso, complexo e desavergonhado "Borussia Mönchengladbach". E hoje escrevi-o, sem erros, e um bocadinho muito pueril e genuíno do Benfica de que eu sinto tantas saudades reavivou-se em mim, animou-se em mim: o Borussia DE Mönchengladbach está de volta à Taça dos Campeões Europeus. Ao play-off, pelo menos. Espero que se apure e que possamos defrontá-lo algures na nossa caminhada pelas terras distantes em busca da glória.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Mind reader - contém ilustração

Estava a pensar na táctica ideal para amanhã defrontarmos o Desportivo de Braga. Concluí que não existe: com o plantel que temos, é impossível construir uma táctica decente. Contudo, reconheço em Jorge Jesus a capacidade e o engenho para driblar as dificuldades e concretizar mais um lance de génio. Tentei pensar como Jesus pensou :) quando construiu esta equipa. E eis a imagem que obtive:
Olhando melhor, a táctica não pode ser esta. Não se pode deixar o Ola John de fora. Embora também me custe tirar o Aimar.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Análise lógica das expectativas

Hoje voltei ao Estádio da Luz. Fui comprar bilhetes para sábado. Já não ia à Luz desde Maio. É muito tempo de ausências e distâncias. Foi, por isso, reconfortante caminhar novamente sobre aquele chão sagrado, aquele chão outrora vermelho – hoje já mais gasto, coçado pelos milhões de pés que o calcaram em direcção ao anfiteatro, de onde se vê o Benfica. E assim começa o meu ano de romarias.

Fazemos contas, renovamos esperanças, tomamos o pulso à situação, emparelhamos ambição e bom senso, tentamos concluir. As minhas contas são simples: é para a desgraça. Este ano estamos perdidos. O treinador e o director desportivo não contratam quem deviam, o capitão perdeu a cabeça, há gente descontente no plantel, há gente nervosa na equipa e temos um presidente que negoceia muito bem – mas só com o Atlético de Madrid, o que dá que pensar. Ou seja, estamos pior do que estávamos. Não tenho esperanças…

… e isso dá-me um optimismo desmedido porque normalmente ter esperança dá azar e não a ter é que dá sorte. CAMPEÕÕÕÕÕÕÕÕES!!!

Sevilha e Ibiza

Mulheres. As mulheres são extraordinárias. Sobretudo as mulheres do Sporting. São de tal maneira uma maravilha que arranjei uma para mim. Espectáculo. Estávamos em Punta Umbria, depois de uma pernoita que teve mais de necessidade do que de gosto – não é um sítio particularmente apetecível; não desgosta, mas também não encanta – e preparávamos a partida para Sevilha, que fica perto, a cerca de hora e meia de distância. Preparava-me para desarmar a tenda quando reparei que o parque tinha Wi-Fi de acesso livre. Antes de ir ver o e-mail, abri, como é hábito, o site d’ A Bola. Isto foi na manhã seguinte à vitória do Benfica por 5 a 2 sobre o Real Madrid e a Bola fazia questão de o noticiar com pompa. Apesar de ter achado o resultado curtinho pensei para comigo que, estando em Espanha, o assunto podia ser no mínimo assinalado, vá. A Lady Verde (ainda) não sabia, mas eu tinha levado na mochila A Camisola para poder vesti-la nos dias de festa. Toda a gente sabe que os espanhóis vestem muito as camisolas dos clubes de que gostam. E eu vá, em Espanha, sê espanhol. Levei a minha do Benfica. E a ocasião, uma vitória, ainda que aflita, sobre o principal símbolo futebolístico de Espanha, pareceu-me motivo suficiente para ostentar a Digníssima com orgulho e uma certa vaidade. Por uma questão de respeito – e porque o carro não é meu –, comuniquei a minha intenção á Lady Verde «olha, querida, hoje vou vestir A Camisola…» e ela «camisola? Qual camisola? Estão mais de trinta graus, veste uma camisa», «não, baby… A Camisola… O Manto… A Digníssima». Houve uma pausa – mas uma pausa cósmica, a realidade parou, a minha batida cardíaca suspendeu-se temporariamente, ninguém respirou durante aquele bocadinho – até que ela disse «mas o quê, tu trouxeste isso?» e eu «sim e estava a pensar vesti-la hoje… o Benfica ganhou ontem ao Madrid… não achas fixe?». Ela encerrou a conversa assim «olha bem para a minha viatura: parece-te um Seat Ibiza amarelo kitado, por acaso?» e eu fui vestir uma t-shirt cor-de-laranja.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

As minhas férias - resumo de uma forma geral

Fui de férias. Estive verdadeiramente de férias. Acabou o Europeu e eu fui-me embora. Tirei férias do futebol, do desporto e até do Benfica (não d’ O Benfica; tirei férias do Benfica instituição que anima tradicionalmente as silly seasons, vendendo, anos a fio, o Cardozo e comprando, época após época, um defesa esquerdo, de preferência aquele argentino que joga na Rússia – não me lembro agora do nome dele… Laqualquer coisa, acho eu. Tem os cabelos compridos).

Estar de férias é uma condição instável. A noção de que a pessoa de férias está num ambiente paradisíaco, acordando, vivendo e adormecendo cheia de bonomia, é equivocada. A supressão de determinadas rotinas e confortos, tiques quotidianos, sítios, pessoas e objectos deve – tem de – ser compensada por novas formas de entretenimento ou distracção, um contexto esteticamente impressionante, quiçá exotismos que passem a ideia de que “esta não é a tua vida – mas não tem importância porque é melhor ainda” e outras patranhas que permitam ao indivíduo em férias manter-se são apesar de não ter horários nem fazer uso da sua chave de casa. Há quem aproveite para ler, para cozinhar, para apanhar sol, para jogar aquele jogo das raquetes ou à sueca, comendo e bebendo bem. Eu fui mordido por um cão, para começar.

Começar as férias com buracos no pulso e a mão direita pendurada – bizarro? Nem tanto. Chamemos-lhe “invulgar”. Em três semanas a situação melhorou bastante e as duas cicatrizes hão-de lembrar-me sempre os dias felizes que tive o privilégio de viver. Duas dentadas (o bicho também me furou umas costelas – mais uma cicatriz) são coisa pouca. Dois dias e vinte cañas sevilhanas depois já nem me lembrava do episódio domesticamente violento.

Do ataque selvático, há uma lição que retiro. Os cães, mesmos os domésticos, são bichos e os bichos são, por sua vez, animais. E nos animais nunca fiando. São criaturas nem sempre previsíveis ou controláveis, susceptíveis de se enervar. Um homem quando se enerva fica irritado; um animal quando se enfurece, ataca. Pelo menos com este foi assim. A parte boa é que não me atirei para o chão, a fingir que tinha desmaiado. Fui meter uns pensos e pronto.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sebastião e Godot

Há quem julgue que me abstenho. Acontece que vivemos numa era em que as pessoas – todas as pessoas – descobriram a maravilha que é ter uma opinião. Mais: as pessoas foram autorizadas a partilhá-las, diria mesmo incentivadas a fazê-lo, escrevendo em espaços virtuais públicos. E as pessoas levam esse pequeno novo poder muito a sério. As pessoas até chegam ao ponto de, mesmo não tendo uma opinião, emitir uma – uma qualquer, com ou sem fundamento, reproduzindo apenas o que se ouviu dizer sem se pensar no assunto, ou renegando qualquer coisa porque, assim à primeira, aquilo parece mal. Ora, eu não gosto de meter palavras no difusor se não for para comunicar uma de duas coisas: ou uma insignificância entretida e sem qualquer ambição – o que faço a maior parte das vezes – ou uma ideia com pés e cabeça que pretenda – e de facto mereça – ter relevância. Para bradar só porque é moda, não contem comigo. Portanto, o que eu faço não é abster-me; é mais abstrair-me.

Esta introdução serve para assinalar duas características do texto que pretendo escrever: tenho andado abstraído e, por isso, não vou falar de coisas sérias da actualidade. Não tenho pensado no presidente Vieira, nos seus detractores, nas contratações falhadas nem no Ola John. Tirando o desejo de ver o Luuk de Jong com a Digníssima vestida, pouco mais do Benfica me tem ocupado os pensamentos que não sejam as recordações.

A verdade é que o bom povo Benfiquista anda agitado por uma razão simples: temos saudades do Benfica, todos nós. E, como bons portugueses, há um espírito sebastianista nestas saudades. Que digo eu? O síndroma é mais antigo que a Portugalidade. Todo o mundo ocidental espera pelo seu messias (os que já estão servidos, já não esperam, mas em compensação são-lhe profundamente devotos). Em cada craque dos PALOP há um potencial Eusébio, em cada Luís Filipe Vieira existe um futuro Borges Coutinho, em cada Carlos Martins pode vir a nascer um Aimar. É assim que somos, os Benfiquistas. Em cada pré-época somos os certamente campeões da época que aí vem. Como antigamente.

Os tempos mudaram, os anos passaram e continuam a passar e o Benfica, o velho Benfica, não aparece. Há esta versão modernizadazinha e sofisticadazinha, maquilhada e propagandeada, mas o Benfica de que a gente gosta e de quem sentimos saudades bem poderia chamar-se Sport Lisboa e Godot.

Nos dias de sol sinto mais saudades do Benfica. O sol é o elemento do velho Estádio da Luz. Tudo nele era soalheiro, plácido, resplandecente. As pessoas tinham de usar boné. Com o desaparecimento do velho Estádio, perdeu-se um lugar fundamental da minha memória de infância, do princípio de mim perante o futebol. É como perder a casa de família onde crescemos – e já não é a primeira vez que exponho o assunto nestes termos.

Há uns tempos, passava em Mafra pelo sítio onde foi e, para mim, costumava ser porque sempre tinha sido, a minha escola primária. Ali, onde aprendi a ler e a dar pontapés na bola e a escrever cartas de amor “Vanda gostas de mim? Sim? Não?” exibem-se orgulhosamente três moradias quase tão sofisticadas quanto a nova Luz – uma delas até tem piscina. A visão chocou-me. Duplamente. Primeiro porque a minha escola já não estava lá. Segundo, porque eu já sabia que a minha escola não estava lá e que lá haviam construído aquelas três casas mas, ainda assim, eu estava à espera que tudo isso não tivesse nunca passado de um mal-entendido, um equívoco. E, então, quando olhei esperei sinceramente ver a minha velha escola e não ver casa alguma, como resultado de uma correcção cósmica de um erro crasso, de um atentado às minhas recordações.

Sucede o mesmo quando passo na Segunda Circular, por exemplo, e olho para o Estádio. Espero sempre ver três anéis e quatro torres de luzes a dizer Tudor. Mas o panorama teima em ser sempre o mesmo, numa visão tradicionalmente moderna. Mesmo quando chego ao Estádio em dias de jogo, o meu primeiro instinto naquele primeiro momento é esperar que o velho tenha sido reconstruído num instantinho e ocupe agora o lugar que o novo ocupou em tempos – mas que era e será sempre seu (do velho).

Todos estes pensamentos são fruto da minha abstracção e, antes disso, da passagem severa do tempo. As coisas vão mudando, nós vamos mudando. Só D. Sebastião não aparece. Tento compreender estas coisas e fico a pensar que crescer é assimilar mudanças, é depararmo-nos com elas, como quem descobre objectos estranhos, desconhecidos. Amadurecer é procurar essas mudanças e cuidar delas, ora estancando-as, ora incentivando-as. Já o envelhecimento é um exercício de perda. É perceber a irreversibilidade do que desaparece. Por mais que me custe, não voltarei a ver a minha escola, não voltarei a entrar no velho Estádio da Luz. E isso custa-me muito.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O timing perfeito

Um amigo meu, grande Benfiquista – mas um dos bons mesmo, assíduo do Manelito e tudo –, deu, sábado passado, uma lição de futebol a vários níveis. O que fez ele? Foi pai. Dou-lhe publicamente os parabéns. Não pela paternidade – para isso é que servem as sms e eu já mandei a minha –, mas antes pelo talento que denotou enquanto Benfiquista progenitor. O modo esquivo como evitou o conflito de interesses, o souplesse com que deixou para trás o Euro e, no mesmo gesto, evitou o arranque dos jogos amigáveis, prevenindo assim o choque entre uma ida a correr para a maternidade e a transmissão de um RH Hamm – Benfica, ou pior!, merecem a minha maior admiração e deixo, neste parágrafo, a minha modesta, muito modesta, homenagem a esta família Benfiquista que, por certo, fará do pequeno Eduardo um ponta-de-lança digno do 9 sagrado. Basta que, no campo e com a bola, o Eduardo venha a usar do mesmo sentido de oportunidade que o seu pai demonstrou no momento de o propor ao mundo. Que seja bem-vindo.

Com esta humilde nota sobre o sentido de oportunidade na hora de concretizar o nascimento aproveito para assinalar a abertura da pré-época do 227218. Na verdade, durante todo este tempo não escrevi por uma razão muito simples: não tinha o que dizer. Com o Benfica a banhos, escreveria sobre o quê? Sobre nada?