terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Não quero mal ao Sporting

Conheço boa parte dos 37 sportinguistas funcionais e convictamente activos que restam. Mais precisamente, conheço quatro. É gente que me merece respeito e é por eles e por calcular que, como eles, existirá mais gente de bem a fazer esta penosa travessia de sabe-se lá o quê para vá-se lá saber onde que me controlo. No entanto, que fique claro que não me esqueço de quem, em tempos quase longínquos, espezinhou e tentou humilhar o Benfica, ao ponto de nos vermos obrigados a mandar um egípcio muito moreno e fininho a Alvalade explicar ao André Cruz como se marca um sacana dum livre, por um lado, e aos sportinguistas em geral, por outro, como se enfia uma rolha inchada num buraco estreito e cheio de gás, como o é o gargalo apertado de uma garrafa de espumante baratucho.

Regressei da tournée londrina com um único objectivo: assistir mais ou menos sentado ao Sporting - Benfica desde o seu primeiro minuto. Foi, aliás, uma viagem toda ela contorcionisticamente encaixada entre jogos: partida na manhã imediatamente a seguir ao Barcelona D - Benfica e regresso a tempo de ver o kick-off de Alvalade. Infelizmente, a linha encarnada do metro de Lisboa é muito mais comprida do que parece nos desenhos e demorei cerca de 57 minutos a chegar do aeroporto a Santa Apolónia, mais 12 minutos a subir meia colina com a mochila a rebentar pelas costuras às costas, o que fez com que tivesse chegado à Típica a horas mais que suficientes para irmos já com três de avanço. Para meu espanto, estava zero a zero e eu pressenti que algo estava errado. Indaguei e concluí que era engano meu, impressão minha, pois o Tacuara estava em campo.

Na balbúrdia apática de quem ganha só três a um a um rival decrépito houve quem declarasse desejar ao Sporting a descida de divisão. Há sempre gente que exagera nestas coisas e eu também não me esqueço de quem, em tempos praticamente medievais, espezinhou e tentou humilhar o Benfica, ao ponto de nos vermos forçados a enviar um maxerrequino escanzelado a Alvalade para demonstrar ao André Cruz como se marca um sacana dum livre, por um lado, e indicar aos sportinguistas em geral, por outro, como se enfia uma rolha inchada num buraco apertado e cheio de gás, como o é o gargalo estreitinho de uma garrafa de champanhota da Bairrada. Porém, sou magnânimo e aprendi com os anos a perdoar. Os meus desejos para esta época não chegam a tamanha crueldade - são apenas três e pela ordem que se segue:

- ir de bigode ao Jamor fazer um piquenique de coiratos, febras e entremeadas antes de entrar - de novo: de bigode - no Estádio Nacional para assistir robustamente à final da Taça;

- ver o Lima fazer um póquer;

- festejar o título de campeão no Estádio da Luz, deixando a rotunda do Marquês vaga para os festejos da manutenção sportinguista.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

The long winding road

Em Dezembro de 1989 sofri como um verdadeiro pecador: uma aftose impiedosa deixou-me as paredes da boca, a língua, as gengivas e até os lábios em completa erupção. Foram quase dez dias de dores, ardores e fome, muita fome. Recordo-me que até respirar pela boca me causava sofrimento. Ao fim dos dez dias, e depois de uns três ou quatro em que já conseguia comer iogurtes e sopas trituradas - mas, ainda assim, frias -, a minha mãe tinha preparado um bacalhau com batatas e couves, cuidando que eu me encontrava ainda enfermo da ingestão e da mastigadura (como eu odiava bacalhau com batatas!) e, portanto, não comeria. Puro engano: àquele bacalhau, nem a pele lhe sobrou. Foi, de longe, o melhor bacalhau que comi na vida - e digo-o sendo hoje profundamente fã desse peixe que o português salga e seca.

Foram também dez dias de febres altas, alguns delírios e uma reclusão tortuosa, em que nem o meu irmão se podia aproximar em demasia, pois o contágio era, julgava-se, não só possível como provável. Sabendo-se da propensão que o meu irmão tem para o azar, para a poça distraída debaixo do sapato, para a pedra aleatória que lhe atinge a cabeça, foi uma decisão sensata.

Posso dizer que, com apenas dez anos, experimentei a loucura de uma solitária - tirando a parte da latrina e da falta de colchão. E de ter vista para a rua e de não sair de lá barbudo - levei 23 anos de liberdade a atingir este estado. Mas, de resto, fome e isolamento não me faltaram. Foi neste isolamento que tudo começou. Naquele tempo, não havia internet nem TV por cabo; havia dois canais e eu só apanhava um. O Lecas era o ponto alto do meu dia. Sozinho em casa, vi-me obrigado a improvisar com os recursos de que dispunha: playmobil e berlindes.

Tinha em abundância de ambos, berlindes e playmobil. Eram mais de duzentos berlindes, para cima de sessenta ou setenta bonecos. Tinha começado, nesse ano, a jogar nos infantis do Desportivo de Mafra. E, durante dez dias, via-me confinado a um quarto, sem poder aproximar-me de uma bola, de um campo - desde muito cedo fui sendo desviado de uma carreira gloriosa pelos relvados dessa Europa. A necessidade aguça o engenho, ou algo do género, e então decidi fazer o meu próprio futebol. Escolhi os bonecos com que mais simpatizava - o louro, com caneleiras, todo vermelho, chamava-se "Paulo" e era o meu alter-ego: n.º 10 à antiga (como em "Eusébio"), num 4-3-3 que tinha tanto de ingénuo quanto de eficiente: era sempre para esmagar. Os bonecos era eu que os mexia - a mão direita organizava o Benfica, a esquerda manipulava desastradamente o seu adversário. As balizas, num tempo em que as redes longas vieram substituir aquelas de pouca profundidade, eram formadas por cassetes áudio: duas, lado a lado, faziam o fundo da baliza; e duas, ao comprido, desde esse fundo até à face de cada um dos postes. BASF, Sony, Maxell, até velhas edições oficiais dos Ministars, dos tempos do meu ATL (uns dois anos antes), tudo serviu de malha lateral, de fundo longínquo, de rede em cujos buracos um dia Rashidi Yekini haveria de enfiar os braços num festejo imortal.

Eu gostava que as balizas fossem bonitas. Por isso, escolhia as cassetes com mais pinta para as construir. Havia uma cassete feia e sem capa que ficava sempre de fora. Não tinha letras nem símbolos nem era transparente, nem de iron: era opaca e não diza coisa alguma.

A solidão e o isolamento trouxeram-me certas experiências e hábitos. Descobri, por exemplo, o silêncio ou a habilidade para esperar, sem impaciência. E foi graças ao silêncio que descobri os Beatles: ao fim de três ou quatro dias de solidão e de conversas muito espaçadas à hora das refeições, senti que havia um vazio sonoro que podia ser preenchido. Peguei no gravador e leitor de cassetes que o meu pai comprara na Dona Nazaré, ali no lugar da Paz, ou que lhe saiu nuns furos, pouco tempo antes, já não me recordo da providência que me permitiu ter um pouco mais de companhia nesses dias tristes e chuvosos.

E foi entre quatro paredes, atormentado por aftas e febres, que introduzi no gravador e leitor de cassetes a cassete feia e sem letras, uma das que sobrava sempre ao improviso daquele estádio de maravilhas sobre uma alcatifa azul que fez tantas vezes de reconfortante relva verde. Lá dentro tinha os Beatles, numa colectânea que lhes atravessava a discografia - Penny Lane, Strawberry Fields Forever, Lucy in the Sky with Diamonds, todo um mundo se abria em meu redor ao mesmo tempo que o meu mundo se fechava cada vez mais sobre o futebol e a paixão pelo fenómeno florescia.

Nesse tempo as equipas inglesas não jogavam na Europa. Desde a tragédia do Heisel, ficaram todas de castigo durante cinco anos - e o Liverpool durante seis. O meu pai explicou-me que era dos hooligans. Percebi razoavelmente o que isso era. O meu pai também me explicou que o Porto só foi campeão europeu porque "não havia ingleses... assim, qualquer um é campeão". Depois, fomos nós a duas finais intercaladas, que não ganhámos. Mas o certo é que, desde que os ingleses voltaram, nós nunca mais disputámos uma final europeia. O meu pai alguma razão lá havia de ter. «Porque», dizia o meu pai, «o que é que são as competições europeias sem um Liverpool, sem um Leeds, sem um Derby County, sem um Tottenham, sem um Nottingham Forest?!». E aqueles nomes ficavam-me na cabeça. O meu pai nunca gostou dos Manchester United. O Arsenal não lhe dizia nada. Apreciava era o Liverpool, sobretudo. Chelsea, City, etc., isso nem existia. E eu jogava com os bonecos da playmobil e ouvia os Beatles e tentava imaginar como seria o Liverpool a jogar à bola, na Inglaterra. O meu pai dizia «aquilo lá é tudo diferente: conduzem pela esquerda e até os estádios são quadrados - parecem caixas de fósforos».

Uns tempos mais tarde, já eu era saudável o suficiente para poder voltar a detestar convictamente o bacalhau com batatas, um amigo meu comprou um Commodore Amiga 500, até hoje o melhor computador alguma vez inventado. E comprou um jogo: Football Manager. Nessa edição, ainda limitada, só se podia escolher clubes ingleses. Ele escolheu o Liverpool. Eu, desfilando os vários símbolos, fui reconhecendo vários nomes que o meu pai mencionava no seu saudosismo pelos ingleses na Europa. Porém, as cores e o símbolo do Arsenal atraíram-me. Perguntei ao Nuno, o dono do Amiga, «estes são bons?» e ele «são... não é o Liverpool, mas são porreiros». E eu escolhi-os.

E foi pouco tempo mais tarde que tive a honra de conhecer o Arsenal. Numa edição confusa da Taça dos Campeões que já era Liga dos Campeões - ou da Liga dos Campeões que ainda era Taça dos Campeões -, o Benfica foi ao velho Highbury, uma caixa de fósforos tal qual o meu pai descrevera, e começou a perder. Mas depois conseguiu empatar, num jogo de grandes nervos. Depois veio o prolongamento e o Isaías fez uma exibição soberba, ganhámos 3 a 1. No final, o público do Highbury levantou-se e aplaudiu de pé o meu Benfica. Ainda hoje me comovo quando penso nisso e lembro-me do que pensei nesse momento: «tão bom...».

Nesse dia, a minha paixão pelo futebol inglês, que já fora semeada ao som da Peny Lane, nasceu. E o meu respeito - porque não: amor adoptivo? - pelo Arsenal fundou-se em definitivo. Desde então, o meu sonho foi ir a Inglaterra ver a bola. Gozando dos benefícios do tempo livre, fui.

Primeiro, fui ver o Tottenham.

Depois fui ver o Liverpool a Upton Park.

Falhei o Arsenal. Mas metade do sonho foi realizado. E ainda ouvi os "hammers" a cantar o Bubbles. I'll be back.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Rock n' ball

Regressei a Lisboa depois de cinco dias na minha terra. Cinco dias de glória, que incluíram uma vitória do Benfica, duas vitórias minhas no xadrez em outros tantos jogos e quatro vitórias, robustas e expressivas, em quatro jogos de snooker, perante quatro adversários diferentes (três delas com cheirinho a goleada). Não sei se é dos ares da terra-natal, não sei se poderá ser da esplendorosa comida da minha mãe: certo é que regresso cheio de confiança nas minhas capacidades desportivas, ainda que tenha consciência de que me é muito mais fácil dar um xeque-mate ao 11.º lance ou meter a preta à 5.ª jogada do que fazer um golo no futebol de 7 antes do 20.º jogo (e a minha equipa pode corroborar o que afirmo).

Da ida à minha terra lamento sobretudo a minha escassez de ubiquidade que me impede de uma maneira teimosa de estar com toda a gente com quem gostaria de estar em simultâneo. Quando regresso a Lisboa, sinto sempre que estive pouco com os amigos, com a família, com os próprios lugares onde dantes eu estava sem pensar nisso e de que agora sinto saudades. Compensando, de certa forma, esta sensação de perda, tive a oportunidade de estar várias vezes com um amigo dos tempos de escola. É aquele amigo que acaba por se tornar amigo à força, de tão recorrente que é o convívio. Na verdade, é, talvez e exceptuando o meu próprio irmão, a pessoa com quem mais vezes andei à porrada. Consequentemente, será a pessoa de quem mais vezes apanhei, já que era raro eu levar-lhe a melhor. O João foi um tipo determinante para a consolidação da minha consciência pacifista. Foi sobretudo graças a ele que me surgiu em ideias a máxima «prefere sempre a paz à guerra, principalmente se na guerra estiveres sempre a comer».

Tornámo-nos amigos ainda na adolescência. E fomos sempre os opostos um do outro. Ele era do Sporting, eu nasci de acordo com o que manda a natureza; ele era dos Metallica, eu era dos Nirvana; ele veio a ser baterista, eu toco guitarra e canto. E foi graças a estas diferenças, todas misturadas, que pudemos passar três tardes fechados no seu estúdio, ele na bateria, eu à guitarra, cada um com suas funções, ideias e influências. Tivéssemos ambos sido guitarristas influenciados pelos Rancid, o mais provável era termos passado três tardes fechados na garagem a beber cerveja e a falar de como o punk era bom nos anos 90, com as guitarras ao lado à espera de ganhar utilidade.

Foi com o João que vivi a minha primeira experiência pop. Jogávamos os dois à bola, na equipa da então Escola C+S de Mafra. Ainda não nos dávamos muito bem. Estávamos no 9.º ano e disputávamos a Distrital de Desporto Escolar de Lisboa, que daria acesso à Regional de Lisboa que, por sua vez, acabaria por permitir a passagem ao play-off nacional. Ganhámos a distrital, mas ficámo-nos pela regional. Num dos jogos mais importantes, contra a equipa que rivalizava connosco, fomos a uma escola de um pequeno concelho da zona Oeste. Estávamos habituados a jogar na nossa onde o facto de decorrer um jogo dos campeonatos de Desporto Escolar não era propriamente motivo para folgas nem pausas: ia assistir quem tinha hora livre. Ali, não: a escola parou e assistia em peso ao grande confronto.

Chegámos na carrinha do nosso treinador, professor de Educação Física cujas noções tácticas se inclinavam muito mais para o surf do que para o futebol, mas que era um tipo porreiro e que gostava muito daquilo. Fomos imediatamente recebidos por uma comitiva de maldispostos e bem alimentados rurais que lançou ameaças e piadas - nós vínhamos de Mafra, atenção. Mafra é uma espécie de território perdido, algures entre o ser subúrbio e o ser rural, mas que impressionava quem vinha de sítios mais rurais do que o nosso porque parecia uma cidade cosmopolita, com semáforos e tudo. Já lá vão muitos anos. Agora até temos auto-estradas, só para terem uma ideia.

O ambiente da escola era bastante hostil e a população numerosa, que devia reunir todos os adolescentes do município que não tivessem reprovado na quarta classe, intimidava bastante. O nosso balenário ficava numa cave, na última porta de um longo corredor, próximo do campo mas não propriamente contíguo - ou seja, teríamos de nos equipar e depois atravessar a multidão. Esta ficava separada do recinto de jogo por uma corda à altura da cintura, atada a pequenos postes, a toda a volta do campo. Equipámo-nos no tal balneário, uma espécie de arrecadação que nem bancos tinha e tivemos de pendurar em cada um dos cinco cabides ainda inteiros as roupas de cada dois dos nossos jogadores.

Já equipados, percorremos o longo corredor, subimos as escadas e dirigimo-nos ao campo, acompanhados por uma espécie de escolta de professores autóctones que furavam a multidão. O campo era assim: pequenino, substancialmente inclinado para uma das balizas e cheio de buracos. Para além de buracos, existiam ainda grelhas de esgoto que, pisadas no sítio ideal e com a força certa, produziam aquele efeito Looney Toons que produzem os ancinhos quando são pisados nos dentes. Tenho ideia de um dos nossos se ter lesionado logo de início por entrada imprudente de uma dessas grelhas. Aos cinco minutos já perdíamos por um e o jogo estava a ser um pesadelo, até porque começámos a jogar de baixo para cima.

A arbitragem, em perfeita sintonia com todo o panorama, estava a ser miseravelmente caseira. Ainda assim, aguentámos aquela magrinha desvantagem até ao intervalo. Recolhemos à arrecadação animados por insultos, graçolas e gozos, o que numa pequena vila de província orgulhosamente marcada pela produção (e, por que não, pelo consumo?) viti-vinícola é o mesmo que dizer que fomos enxovalhados com muito maus modos e expressões que, infelizmente, não recordo na totalidade - nem sabem o jeito que me davam para animar esta longa narrativa.

Reunidos na arrecadação, o professor tentava incentivar-nos, dar-nos coragem, inflar-nos com esperanças mais ou menos poéticas, «vocês conseguem, pá... eles não jogam assim tanto», mas o sentimento geral, ainda mais sem o nosso melhor jogador, era de profundo desamparo, de isolamento num planeta que nos era adverso. Queríamos ir embora dali. Cheguei ao ponto de pedir para não jogar mais, «não, Diego, estás a jogar bem, aguenta-te». Não insisti para não parecer mariquinhas. Mas a minha vontade de subir ao campo era quase zero e penso que só a ideia de jogar de cima para baixo acabou por me dar algum alento.

Regressámos ao campo, sempre acompanhados de gestos, ladaínhas e palavras de apreço que, se acontecessem em frente ao Palácio de S. Bento, poderiam gerar uma carga policial justificada. Começa a segunda a parte e o árbitro descobre um penalty contra nós num lance em que o Besugo, que fazia parceria comigo na defesa, leva uma porrada e cai, com o braço enrolado, sobre a bola. Isto dentro da área. Penalty, pois. Eu pedi para sair, que aquilo era uma vergonha, o professor não aceitou a minha demissão e disse-me «a gente consegue, temos é de acreditar» e eu acabei por ficar, mais por compaixão por ele do que por crença. Aplausos e assobios, cânticos vitoriosos, de tudo se ouviu. O jogo estava perdido. Porém, os gritos histéricos vindos de vozes estridentes despertaram-nos para uma realidade nova: também havia ali miúdas. Esta percepção, aos 13 anos, muda muita coisa. E então, ao apito do árbitro amigo, o avançado rural correu para a bola e bateu com força - mas o Banana defendeu com estilo. Era uma nova vida, sorrisos, abraços e uma esperança inédita em cada um de nós: a bola não entrou, porra!

O jogo mudou nesse momento e até o público ficou mais mansinho. Tínhamos a bola e tentávamos fazer golos. A descer fica tudo mais fácil e eles pareciam amedrontados, sobretudo depois de falharem a soberana oportunidade para fazer o 2 a 0. As vozes das raparigas eram já mais audíveis do que as dos rapazes quando sucede o lance, aquele lance que muda a tua vida. Não tenho muito presente a forma como tudo se desenrolou. Nestes momentos, o intelecto desliga-se e deixa que o corpo seja máquina, seja instinto, seja animalidade e depois damos por nós a fazer qualquer coisa quando despertamos do choque de adrenalina. Dei por mim a festejar um golo. Quando todos se dirigiram a mim para festejar euforicamente, percebi que tinha sido eu a marcá-lo. Eu, que nunca arriscava sequer um remate, marcara ali, naquele campo de batalha inclinado, contra todas as probabilidades.

O jogo terminou com o empate: um a um, o que num jogo de futebol de 5 entre miúdos de 13 anos demonstra bem o nível aguerrido e disputado a que se jogou cada lance, cada bola, cada entrada dura das grelhas das sarjetas. Estávamos felizes, vitoriosos, realizados, mesmo vingados. E com medo. Íamos ter de sair do campo, os professores adversários, descontentes com o desfecho, discutiam com o nosso professor. Ânimos exaltados em todo o lado, alunos a mandar bocas, a rodear-nos, e nós a seguirmos rapidamente para a arrecadação onde tínhamos a roupa, na cave, ao fundo do longo corredor. O professor ficou para trás, deu-nos a chave e nós seguimos.

Não houve direito a duche, claro. Nem chuveiros havia ali. Enquanto nos vestíamos, suados e a celebrar um empate que soube a conquista, fomos ouvindo o burburinho crescente à nossa porta. Às tantas, adivinhava-se uma multidão a encher o corredor. A nossa alegria transformava-se, aos poucos, em palidez e a palidez em medo e o medo em qualquer tipo de desespero: sem janelas, sem outra porta, sem professor, estávamos encurralados e à mercê de toda a escola C+S da Arruda.

Entre os sorrisos nervosos à espera que o professor regressasse, um bilhete manuscrito passou por baixo da porta. Vinha dobrado. Alguém, que não eu, pega no papel e lê «n.º5 e n.º7 venham cá para fora». O n.º 7 era eu, inspirado no Vítor Paneira. O 5 era o João - penso que por causa do Fernando Couto, na altura ainda no Porto (não era do Sporting mas era mau e tinha estilo). Tudo se transformou num caleidoscópio negro de terrores. No dia em que eu marcara um golo a defender as cores da escola da minha terra, senti que talvez tivesse sido melhor não o fazer.

O professor chega. Entra sorridente e diz «está tudo resolvido, eles estavam chateados mas isso passa-lhes». Respondemos que o corredor está cheio e que estão a pedir as nossas cabeças, a minha e a do João. «O quê, aqui fora?! Isto é tudo miúdas, pá». Abriu a porta e era verdade: miúdas. Mesmo vendo, não dava para acreditar. Montes de miúdas. Saímos da arrecadação, em fila. Eu e o João fomos puxados, agarrados, quase engolidos. Fomos levados para cantos. Pediram-me beijos e o número de telefone. Isto, várias raparigas e em grupos, tudo compacto, tudo ao monte. E não conseguia sair dali. A perplexidade, a surpresa, a satisfação do ego, tudo se misturou com algum medo e com a pressa de ir embora. Por fim, consegui soltar-me e passar. O João também acabou por chegar cá fora, trazido por um colega nosso, mais robusto.

Tenho a certeza que foi nesse dia que a nossa vida mudou. Queríamos ser futebolistas. Isso era certo, desde sempre - ele no Sporting, eu no Benfica. Mas aquele sabor da pop foi mais forte. Um ano depois, o João tinha a sua banda thrash-metal cujo nome era o título de uma canção dos Sepultura. Pouco tempo depois, eu comprava uma guitarra e fundava, com outros três, os Kindergarten, que puxava mais ao grunge. Ontem, anteontem e no dia anterior estivemos os dois fechados num estúdio, ele na bateria, eu na guitarra e na voz. Acredito que isso se deva a este jogo de futebol.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Religião, desemprego e estratégias alternativas

Eu não queria ofender ninguém, muito menos mexer com as sensibilidades religiosas de cada um - este é um sítio de respeito e que, assim, tem de dar-se ao respeito. É por isso que aqui deixo o meu pedido de desculpas a quem, de entre Cristãos Ortodoxos, se apoquentou com a acção preventiva de acondicionar seguramente o cachecol do Spartak numa caixa de cartão de formato peculiar. Reconheço que a falta da Cruz Bizantina foi uma falha e lamento por, num descuido, ter corrido o risco de melindrar alguém.

Aos apostólicos romanos que se insurgiram, gostaria de descansá-los: não, não enterrei a caixa. Está aqui ao meu lado e posso reutilizá-la, sem qualquer problema, caso tenha de devolver a guitarra. Não está sequer suja ou danificada. Acrescento, para qualquer crente, que tudo não passou de um exercício espontâneo - supersticioso, sim, mas sem malandragem nem voodoo, sem maldição nem orixás.

O mais curioso é que tudo isto aconteceu graças ao meu despedimento. E é ainda mais curioso que algo tão nefasto e desmoralizador acabe por vir a produzir consequências tão positivas. Por exemplo, o facto de ter tempo livre permitiu-me deambular por Lisboa em busca de coisas abstractas, que é como quem diz, andar à deriva sem qualquer objectivo. Por acidente ou curiosidade, ou até sorte, entrei numa loja de instrumentos. Isto sucedeu precisamente uma semana antes do jogo de quarta-feira. Foi nessa loja que encontrei à venda uma guitarra que eu desejava há mais de um ano. Porém, em ocasiões anteriores, nunca tive a disponibilidade financeira para investir na melhoria do meu património. Desta vez, tudo foi diferente, já que fui pago para deixar de trabalhar. E assim, com o dinheiro que me dão para estar sossegado, comprei a guitarra. Vejam nisto um investimento em ferramentas de trabalho, porque é disso que se trata, e não um capricho consumista.

Não tinha como transportar a guitarra até casa e recusei-me a comprar-lhe um Rockbag, até porque tenho um, ou uma hard-case, que seria despesa exagerada. A simpatia do vendedor da loja fez com que me fosse dispensada a tal caixa mágica que a fotografia do post anterior mostra para que eu lá pudesse guardar o instrumento praticamente virgem e, assim, levá-lo para casa em segurança.

Há toda uma conjugação de factores que fará os mais cépticos ter arrepios na espinha, bem sei. Mas ainda não é tudo: a guitarra chama-se Hell Cat e não fui eu que lhe dei o nome, foi o próprio Tim Armstrong.

Ponham-se no meu lugar: olhando, por exemplo, para um meio-campo que parecia designado pela própria Isabel Jonet - chegámos ao ponto de de lá meter portuguesinhos! -, não teriam vocês mesmos tirado proveito desta conjugação cósmica para dar uma mãozinha ao Benfica? Acresce que o ritual foi absolutamente experimental, nunca tinha sido antes testado nem em animais. Pareceu-me legítimo aproveitar os artefactos e simplesmente conjugá-los da maneira correcta. Como, aliás, fez Jorge Jesus com os homens que escolheu para o jogo e que, à partida, também não lhe garantiam grande coisa.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Arrumações

Tenho um cachecol do Spartak de Moscovo. Não é aquisição recente. Trata-se de uma compra que fiz numa época distante. O Benfica tinha no meio-campo um velhinho espanhol chamado Chano, por exemplo, e eu começava a duvidar do meu clubismo - o caminho da fé não é feito de certezas, é feito de paixão. Por outro lado, havia um clube, o Sporting, que estava na Liga dos Campeões e os seus adeptos meus amigos e conhecidos teimavam em demonstrar-me, explicar-me, educar-me e chatear-me o juízo com exemplos, factos e histórias do seu clube, poderoso, forte e muito nobre. Depois aconteceu Champions e o Spartak deu-lhes três a zero. Em Alvalade. Um dos golos foi do Dimas na própria baliza (respect) e os outros dois do maestro Titov.

Dias mais tarde, à entrada do refeitório da minha faculdade, havia uma espécie de feira - umas bancas com aqueles artesanatos e jóias hippies, raparigas com tererés, djembés de enfeitar, cachimbos de água, missangas e um cachecol do Spartak. Optei pelo cachecol - até hoje não sei explicar porquê, mas também não me arrependo: é encarnado e branco, o que compõe muito bem a colecção, por entre os seis ou sete do Benfica, mais o gorro, os boxers e os dois jerseys (um é verdadeiro - n.º 10 Aimar, outro é da candonga e não diz porra nenhuma, mas é óptimo para as futeboladas e dá-me sempre muita sorte).

Hoje, porém, não é dia de deixar uma cachecol destes à mostra. Assim, antes de ir para o Estádio (com um bilhete que o meu amigo Manuel, furioso Benfiquista, gentilmente me ofereceu), decidi guardar o objecto numa caixinha adequada.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O mundo precisa de Marias

Em conversas deambulantes com a Lady Verde surge, por vezes, o tema "nomes para filhos". Não que estejamos a equacionar um investimento no alargamento familiar. O bom senso tem vindo a prevenir tal decisão e o facto de sermos, no presente, dois desempregados sob o mesmo tecto vem demonstrar por que razão lhe chamamos "bom senso" e não outra coisa qualquer. Mas pensamos no assunto, até porque tenho o sonho de alargar o universo Benfiquista, injectando-lhe sangue do meu. Nesta parte, discordamos, eu e a Lady. Porém, não creio que, chegada a altura de cumprir o sonho, ainda exista Sporting suficiente para me dificultar a missão.

Eu gosto do nome Maria Olívia. Olívia porque acho bonito, Maria porque o mundo carece claramente de Marias. É um nome que a modernidade foi votando ao desuso. Há quem considere, ainda, que os nomes compostos são uma invenção suburbana ou provinciana, resultado dos impulsos criativos de uma geração recém-libertada das tradições e costumes conservadores do nosso Estado Novo - e o meu próprio nome, que, por pudor, não revelarei, pode até atestar o acerto dessa opinião. Contudo, a minha avó chama-se Maria da Conceição e a sua filha, que é minha mãe, chama-se Maria João. São ambas nascidas num tempo em que o Presidente do Conselho esbanjava vigor e saúde. Portanto, não generalizemos.

Maria foi sendo substituído, sobretudo na minha geração, por Ana. Qualquer coisa se chamava Ana em 1985. E, se as Marias José, de Jesus, Francisca, Antonieta ou, lá está, Olívia foram desaparecendo dos recreios de escola primária, o seu lugar foi sendo tomado pelas Anas Catarina, Sofia, Cristina, Patrícia ou Isabel. Existe ainda uma franja de Carlas - de Alexandra a Susana - que prosperou nesse período em que o subúrbio e a província expandiam, cheios de convicção e crentes no glamour, o nome composto, eliminando a singeleza das Marias e reinventando a designação feminina recorrendo a novidades oriundas de outras paragens, respirando sofisticação globalizada, com inspiração que podia vir tanto do Brasil como da Checoslováquia.

No mundo do futebol - já o disse aqui - reconheço tanto o mérito como a utilidade ao recurso a nomes novos. Quem chama João - só assim "João" - a um filho não pode esperar que este venha a impor-se no belo desporto da mesma forma que um Fábio, um Cristiano Ronaldo (composto ao alcance de poucos) ou ainda de um Yannick, sendo que este desfruta da vantagem de ter raízes já de si exóticas, o que faz dele um nascido para vencer.

Já no mundo dos filhos, a situação é diferente. E das filhas é ainda mais delicado. O meu rapaz há-de chamar-se Xavier, sim. E poderia chamar-se com nome composto, se Saviola tivesse continuado a vestir de Encarnado: Xavier Pedro já se encontrava sob reserva para uma criança que teria, por certo, um destino maravilhoso pela frente. Quanto à Maria Olívia, não há Soraia Cristina que me demova.

sábado, 27 de outubro de 2012

O presidente está eleito, viva o presidente!

Não, não estou contente. Não votei em Luís Filipe Vieira e não creio que Vieira venha a ser bem sucedido nos próximos quatro anos. Votei Rangel, mais por ser contra Vieira do que outra coisa, mas nunca tive grandes ilusões quanto ao vencedor. O resultado aí está e é esmagador: os Benfiquistas querem Vieira na presidência por mais quatro anos. Que se respeitem os Benfiquistas, os que elegeram Vieira, os que votaram contra ele, os que votaram em branco, os que não votaram porque não quiseram, os que não votaram porque deixaram de pagar quotas e os outros todos que nem sequer são sócios: o Benfica ainda é de todos nós. O líder é este, respeite-se o líder. Muito sucesso e fortuna, é o que lhe desejo, porque o meu Clube está nas suas mãos.

O exercício de voto no Benfica foi algo que me comoveu. Nunca antes tinha votado, sou um sócio recente. De repente, no meio daquele gigantismo do Clube que é o Benfica, centenas de pessoas, em fila, aguardavam a sua vez, o seu momento de cuidar do seu amado. Velhotes que podiam ser o meu avô, miúdos novos numa pausa entre aulas, homens e mulheres, uns em grupo mas muitos mais sozinhos, a exercer o seu dever de ter uma palavra a dizer sobre o destino do Clube. Poeticamente, estávamos na nossa colectividade do bairro ou lá da terra, a zelar pelo nosso futuro. Só que em ponto muito grande. Mas ali, naquela fila, estávamos todos juntos, os que iam votar A, os que iam votar B e os que iam votar em branco. E senti qualquer coisa parecida com fraternidade: esse tal espírito de colectividade. Que é tão bonito e que tanta falta tem feito ao nosso Benfica. É que, por mais que se esfreguem na cara as vieirices de uns ou os rangelismos de outros, temos aqui uma paixão em comum - ou eu estou profundamente enganado e afinal existe, entre Benfiquistas, coisas mais importantes do que o próprio Benfica?

Boa sorte ao presidente - em quem não me revejo, mas que é o presidente do meu clube - e viva o Benfica!

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Pedido de auxílio de um cidadão Benfiquista

«Boa tarde,

Como se obtém o PIN para votar? Ja escrevi email, mas ninguem do SLB me respondeu. Como estou no estrangeiro nao consigo ligar para o 707 200 100.
Sugestoes?
Obrigado»

Assina HAzinheira. Como não sei a resposta, peço a quem saiba que a deixe aqui, na caixa de comentários. Obrigado.

Vamos a votos

Essa ideia dos notáveis está muito sobreavaliada no Benfica, porque notáveis somos todos nós. Aliás, basta ser benfiquista para ser notável.

Esta frase é de Rui Rangel e extraía-a desavergonhadamente da entrevista que esse Benfiquista, tão notável quanto eu e pelas mesmíssimas razões, deu ao notável Ontem Vit-te no Estádio da Luz.

Sou um tipo fácil de levar, é certo. Basta ser um Benfiquista para ser notável, é tão simples e tão precisamente aquilo que eu precisava de ouvir. Eu sei que Rangel, quando o disse, sabia que me apanharia fraco, em baixo, de ego amassado. Talvez seja um golpe de astúcia. A verdade é que funciona. Entre a simplicidade bonita desta frase e a promessa - em quantas vamos, Luís? Hum? - de três campeonatos e uma final europeia nos próximos quatro anos, atrevo-me a preferir a primeira. E tu, leitor, podes estar a pensar assim «ah, mas tu vais votar num homem por causa de uma frase?» e eu respondo-te «aqui quem faz as perguntas sou eu. Lê bem a entrada do blogue: Benfiquismo em formato pedagógico».

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Calçar umas chuteiras Nike

Acordei rouco, quase sem voz, e com uma dor de garganta preocupante. Ontem fui jogar à bola, estava de chuva, suponho que estes sejam os danos colaterais. Lamento o facto de ter um concerto logo à noite e preocupa-me a possibilidade de não conseguir chegar ao fim de um alinhamento de dez músicas que defenderei absolutamente sozinho, com uma guitarra no colo e uma voz muito débil, numa recriação metafórica, alegórica, enfim artística, da figura que o Matic faz no meio-campo do Benfica. Mas ganhámos 4 a 2 ao pessoal da Linha, portanto, valeu a pena.

A vida não me tem corrido bem e talvez essa seja a origem da minha desinspiração crescente. De cada vez que penso em vir aqui e escrever um texto, abre-se um abismo entre mim e a criatividade, ergue-se uma barreira de pedra mental entre a minha ideia e a ponta mais distante dos meus dedos. Ontem, ainda durante o jogo, tentei cruzar uma bola, de pé direito, num lance em que seguia embalado, perpendicular à linha de fundo, com esta cada vez mais próxima. O gesto de rotação que me permitiu cruzar a bola provocou-me uma lesão, cujos danos ainda estão por avaliar, na face posterior da coxa esquerda. A semana passada, num lance semelhante, não consegui travar, tal o embalo, e, sem pitons, numa relva sintética bastante molhada, acabei espalmado contra o gradeamento do campo, com prejuízo grave para o meu braço esquerdo, cujas marcas ainda hoje ostenta: está negro, a passar de verde para amarelo. Não sei o que explodiu lá dentro, mas ficou feio.

Depois de quase ter perdido a vida contras as redes do campo, ontem decidi que era melhor jogar de chuteiras. Recuperei as minhas Nike Tiempo, umas vintage com 17 anos dos tempos em que eu ainda representava o grande Dépór. Estão como novas. Sempre odiei a Nike e não consigo, a esta distância, compreender os bizarros motivos que me terão levado a comprar aquele horror de botas. Uma bota de futebol, se não é Adidas, tem de ser Puma. Tenho alguma consideração por uma única excepção: a Lotto, marca que calçou com a maior elegância grandes talentos do futebol italiano dos anos 90. E a mim, que tive umas Roberto Donadoni, lindíssimas e que, não sendo italiano, também não era talentoso. O que faltava em génio, sobrava-me em coerência.

A minha mãe engraxou-me as botas num gesto de reminiscência maternal dos tempos em que ainda acreditava que eu podia vir a ser o próximo Vítor Paneira. Eu era muito baldas e furtava-me recorrentemente à função de engraxador de botas. Isto, num tempo em que uma bota de futebol era invariavelmente preta. Eu sei que agora o azul esmaltado cruzado com cor-de-rosa choque (não é brincadeira, elas existem) faz furor. Mas na altura as botas serviam para chutar a bola. E a bola, na altura, era uma coisa chamada Mikasa que fazia “peiiiim” quando nos batia na cabeça. Enquanto me tratava das botas, a minha mãe mandou-me uma mensagem que dizia assim «Se alguma vez me passava pela cabeça voltar a engraxar-te as chuteiras, filho» e confesso que me comoveu, por um lado, e, mais importante, me fez sentir que ainda posso vir a ser detectado pela equipa de prospecção do Benfica – quando tens a tua mãe a engraxar-te as botas de futebol, tens todo um futuro à tua frente.

A minha mãe entregou-me as botas ontem, quando fui ter com ela ao Hospital de Santa Maria, para visitar o meu avô materno, que lá está internado. Sofreu um AVC na segunda-feira. Aparentemente, não deixou mazelas graves. Mas preocupa-me, como é evidente. O meu avô materno sempre foi o símbolo do Sporting na minha família, ao contrário do falecido Domingos, o meu paterno, aquele que me ensinou a ouvir os relatos da Antena 1 («a Renascença não, que é só beatos»). A falta do meu avô Benfiquista é um vazio demasiado grande. Gostava que não me levassem também o Sportinguista, com quem aprendi a lidar com a rivalidade, o oposto, a vitória leal e a derrota dolorosa, a felicidade ou a infelicidade que à mesa do almoço de domingo muitas vezes não podiam ser partilhadas.

Na terça-feira, enquanto o meu avô estava dentro daquelas estranhas máquinas que fazem TAC’s para que alguém conseguisse finalmente diagnosticar alguma coisa com pés e cabeça, eu estava enfiado numa sala de reuniões a discutir com uma comissão de trabalhadores exigências, intransigências e alguns detalhes mais flexíveis daquilo que será, muito brevemente, o meu despedimento (juntamente com quase mais 50 pessoas). Seriam umas seis e um quarto da tarde e, pela primeira vez desde o início de todas estas coisas que me têm acontecido nos últimos tempos, senti uma espécie de revolta, provavelmente filha de uma detestável auto-comiseração que, por vezes, vem ao de cima. Foi qualquer coisa parecida com raiva, mas uma raiva muito magoada, que vinha num pensamento mais ou menos assim «porquê eu? Eu só queria estar a ver o Benfica». O Benfica estava a perder e a jogar muito mal. Mas o que mais me doeu foi não poder vê-lo.

sábado, 20 de outubro de 2012

Luto laboral

Ontem era dia de greve e manifestação, o dress code era o preto, pelo luto. Concentrámo-nos frente à porta da redacção, manifestando desgosto pelo futuro desemprego de cada um dos já designados, como eu, mas tentando demonstrar de igual modo uma tremenda tristeza, uma mágoa impotente, por ver afundar algo que nos é ainda tão querido e tão pessoal: aquele jornal. Levei calças pretas, uma parka que eu acho que é preta e que a Lady Verde afirma ser azul muito escuro, botas castanho-escuro, de pele, que comprei por uma pechincha no mercado de Porto Bello (25 libras, acho eu), uma camisa de quadradinhos minúsculos, pretos e brancos, que, ao longe, dá ideia de ser cinzento também ele moderadamente escuro e óculos escuros, que ora punha, ora tirava, dependo das nuvens carregadas, que às vezes passavam sobre nós, outras nem por isso. Estava, portanto, de luto. A t-shirt que levava por dentro era definitivamente preta, embora tenha permanecido omissa até ao fim dos trabalhos de manifestar, já que não se concretizou a ideia de alguns que consistia em ir tirando roupa até que alguém nos desse razão. As meias eram cinzentas. Não muito escuras, porém suficientemente enlutadas. As cuecas eram, claro, as do Benfica, que ganhara no dia anterior, e por quatro a zero, para a Taça de Portugal, isto apesar de eu ter aparado a barba seis dias antes, fazendo estremecer as fundações de um compromisso que me obriga a levar um respeitabilíssimo bigode ao Jamor no próximo mês de Maio. O vermelho nunca poderá ser luto e eu nunca poderei estar perfeitamente enlutado no dia que se segue a uma vitória do Benfica.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O colectivo e a cidadania

Estou de férias. Penso que é a quarta vez que estou de férias este ano. Talvez seja a quinta. Tinha muitas férias e folgas acumuladas, precisava de as gastar antes que acontecesse o que se previa e que acabou por acontecer, quarta-feira passada. Estas são as últimas férias que gozo como empregado desta empresa. Sim, também eu fui atropelado por um despedimento colectivo. Dois telefonemas, muitas justificações e alguns pedidos de desculpa, «logo que possas, passa por cá para começarmos a negociação» e eu «claro, vou amanhã para Lisboa».

Cheguei ontem a Lisboa, ainda não comecei a negociação. Para já, quero desfrutar do estatuto de "pessoa de férias" e não entrar imediatamente no modo "futuro desempregado". Estas mudanças requerem habituação. São 14 anos e meio da minha história, existe aqui uma pele que é preciso despir e essa operação requer delicadezas.

No primeiro turbilhão de ideias e receios, surgem planos para o futuro e tomadas de pulso à vida que roçam o ridículo. O que é que eu tenho, o que é que posso fazer, para onde me posso virar, o que é que eu hei-de tentar? Tudo junto, tudo em simultâneo, tudo encavalitado, uns pensamentos em cima dos outros, os medos em cima das esperanças, as expectativas montadas nos sonhos. E uma estranha sensação de liberdade, com tanto de assustadora quanto de ambiciosa. A urgência absurda de escrever textos e compor músicas embrulha-se nos planos burocráticos das papeladas para tratar na Segurança Social e no centro de emprego da minha área de residência e nas finanças e nos recursos humanos do sítio onde trabalho e na comissão da carteira profissional - e logo eu, que sofro de papeladofobia: uma ida às finanças implica vários dias de mentalização que resultarão invariavelmente em adiamentos sucessivos, num bizarro processo de procrastinação sem motivo racional para existir; o preenchimento de um impresso é, para mim, um pitbull sem açaime nem trela, estagnado diante da porta do meu prédio, à espera que eu avance. Sou uma pessoa com problemas. E tenho de actualizar o meu currículo. O drama não pára de crescer.

Por entre os destroços de um cérebro que dantes funcionava, encontram-se ainda alguns pedaços de inteligência e de raciocínio. São pequenos recantos de calma e de sensatez, clareiras de sossego onde as emoções podem fluir sem causar danos porque existem tranquilas. Foi num desses inesperados esconderijos que tive o meu receio mais clarividente: Diego, e as quotas do Benfica, pá? Pelas minhas contas, não será difícil garantir o pagamento de, digamos, mais uns 18 a 20 meses. Disponho de algum tempo para resolver a situação, mas não deixa de me inquietar.

Foi nessa altura que me lembrei de vários amigos meus, grandes Benfiquistas. Amigos que, na sua desilusão com o Benfica presente, reprovadores desgostosos do que se tem passado nos tempos recentes, decidiram abdicar do pagamento das quotas - «dar dinheiro ao Vieira?! A esse chulo?!» - e eu, honestamente e sem julgamentos, não os compreendo. Tudo o que eu quero é poder continuar a pagar as minhas quotas e, assim, ter o direito e a legitimidade para ter uma palavra a dizer acerca do meu Clube, para o poder defender com as armas que existem - no caso, o voto. Pode ser pouco, pode ser injusto. Mas é o que há e para poder mudar o que quer que seja, é a única ferramenta legal de que disponho. E vocês também.

Amigos, a mim assusta-me a possibilidade de um dia ser obrigado a abdicar da minha Cidadania Benfiquista para poder cumprir compromissos elementares; por isso, peço-vos que não desperdicem a vossa.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Para além de ganhar e perder

«Era bom que o Barcelona deixasse de ser um objecto de adoração com o qual todos os adversários - menos um - ficam eufóricos por perder. É uma equipa de futebol, não o Dalai Lama
José Manuel Ribeiro, in O Jogo.

Não gosto do Barcelona. Foram várias as equipas desse clube que muito admirei - a de Romário, a de Ronaldo, a de Figo, a de Ronaldinho -, mas o clube nunca me fascinou. Impressiona-me a sua dimensão, desgosta-me a sua postura: a de eterno número 2.

Pressinto no Barcelona uma espécie de essência ressentida, um género de novo-riquismo com muito maus modos, a ambição de um desesperado, a deselegância de alguém a quem nunca assentarão bem plumas nem pérolas. Pode ser uma distorção minha, um erro meu de interpretação da massa e do espírito culé, que, decerto, terá muitas e portentosas virtudes. Não estou a defender uma teoria científica, estou apenas a partilhar a minha impressão.

O Barcelona ganhou a sua primeira Taça dos Campeões em 1992. Isto é, o Barcelona ganhou pela primeira vez aquilo que o Benfica ganhou pela primeira vez 31 anos antes. Contra o Barcelona. Depois de o Barcelona ter eliminado o poderoso Madrid - que seria, na época, um rival caso o Barcelona se pusesse em bicos de pés - e se preparava para lhe conquistar a coroa europeia. Esse momento definiu a nobreza da linhagem de um clube e a deformação, pelo ressabiamento, do espírito de outro. Ou seja, o Benfica tem a sua culpa nisto de o Barcelona ser um inequívoco mas perpétuo pretendente ao trono.

E é por tudo isto que me custa compreender que o Barcelona tem uma equipa muito melhor do que a nossa e que joga um futebol muito mais poderoso e difícil de contrariar. Entendam-me: eu percebo que é assim. Mas recuso-me a aceitar o facto com um encolher de ombros embevecido pela deslumbrante qualidade do meu adversário. Eu quero mais é que o Messi se foda e as melhoras do Puyol, temos pena - mas olha, acontece. Perder custa-me, por mais Barcelona que este adversário seja. E podíamos ter feito melhor. Tentando, lutando, honrando a nossa história e as nossas origens.

Aceitar racionalmente uma derrota é um gesto sensato, uma questão de justiça elementar; sentir orgulho nessa derrota é, num Benfiquista, uma falha de personalidade.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Coincidência, dizem eles

Sé é dia de Benfica, visto encarnado ou o que tiver disponível que mais se aproxime do nosso tom. Se aquela t-shirt vermelho-berrante estiver lavada e disponível, nem hesito: é mesmo essa que vai. Isto, quer seja em dia de acabar no Estádio da Luz ou de, por exemplo, terminar em cima de um palco, nesta cidade ou em qualquer outra. Não se trata sequer de uma superstição. É, muito antes disso, um sinal de solenidade e de respeito pelo momento: o Benfica vai jogar e eu estou com o Benfica. É isso que representa e significa. Não o faço para me dar sorte ou para evitar o azar. Visto-me assim para que fique claro que, esteja onde estiver, estou connosco [não é gralha: estou connosco]. Da mesma maneira que trago a fotografia da Lady Verde na carteira – sim, pode ser kitsch, sim, pode não servir para nada. Mas gosto de a ter comigo, estejamos onde estivermos, qualquer um de nós. As paixões são assim.

No metro, na rua, mesmo no trabalho, encontro muita gente com tons fortes de vermelho vestidos. Podemos fingir que é coincidência; podemos especular que se deve à minha atenção hoje especialmente focada em tudo o que me sugira o Benfica. Eu aceito ambas, sem reclamação. Embora contraponha, sem dificuldade, que somos um povo de cinzentos e castanhos, preto e branco ou azul escuro. As cores fortes e garridas e sobretudo as Camisolas Berrantes não saem da gaveta sem um propósito concreto. Somos gente discreta, não gostamos de dar nas vistas nem de ser olhados por desconhecidos. Focamo-nos no chão e nem damos pelos transeuntes, convenientemente vestidos de cores neutras ou outonais. Porquê, então, tanta gente de encarnado vivo hoje nas escadas rolantes do Marquês? E no metro de Santa Apolónia? E à espera do próximo em cada estação? E na rua?

O que se passa é isto: saímos à rua cheios de fé, juntos pelo Benfica e orgulhosamente Benfiquistas. Cada um com a sua fantasia – todas juntas, perfazem o sonho comum: a Nossa vitória. A minha fantasia, já se sabe, é o poker do Lima.

É só carregar no botão

O meu pai deu-me esta caixa e disse-me «já sei que sofres quando estás a ver a bola. Toma, isto vai poupar-te sofrimento». Na altura, não percebi em que medida é que uma caixa de aspecto exótico poderia minimizar o sofrimento de um adepto Benfiquista, aliviar-lhe o stress, contribuir para o seu descanso suavizando os efeitos de um complexo de sensações palpitantes e pensamentos tragicamente nervosos. Depois percebi.

Na verdade, a misteriosa caixa é uma moderna cigarreira, com um botãozinho que faz abrir a sua tampa por meio de um sofisticado dispositivo. Trata-se de um objecto que classificaria de bondiano, tanto ao nível da classe e elegância como da funcionalidade prática: carregas no botão et voilá, os teus cigarros.

Desde que comecei a fumar cigarros de enrolar que a minha vida de Benfiquista se complicou. Seja no Estádio ou na taberna, sempre que estou a ver a bola sinto uma necessidade quase compulsiva de fumar. Dantes, tal não representava problema ou incómodo, fumar era fácil: abria o maço de cigarros e tirava um. Hoje em dia, perco tempo, atenção e muitos cigarros, porque me saem nervosamente tortos, às vezes rasgados, cheios de barrigas e mal selados, porque, enquanto vejo o Benfica, as minhas capacidades cognitivas e motoras tornam-se concentradamente eficientes: articulo um discurso bastante direccionado e reduzido, assente, sobretudo, em vernáculo do mais reles; as mãos servem-me ora para fazer o sinal de "mais uma, shôr Manel", ora para bater na própria perna com frustração, ora para as erguer no ar em sinal de que foi golo e eu estou muito contente. O cérebro, esse, reconfigura-se numa parafernália de possibilidades tácticas com setinhas de várias cores e pontos luminosos que indicam situações de alerta: um jogador desmarcado, um adversário em off-side, um guarda-redes mal posicionado, uma mão na bola, um golo à espera de acontecer. Todas as restantes funções a que tenho direito e que, em circunstâncias não futebolísticas, executo com razoável destreza, são automatizadas e deixam de ser da minha responsabilidade. Entre elas, inclui-se a de enrolar cigarros. Esta cigarreira tem tudo para mudar a minha vida. E hoje é um bom dia para mudar a minha vida.

Enquanto preparava a remessa para logo, reparei num detalhe interessante: as mortalhas são feitas em Barcelona. Ampliando a foto, podem confirmar o que digo. Isto tem de ter um significado. O que é que vamos fazer com os de Barcelona? Eu vou, no mínimo, fumá-los. Há aqui uma garantia de de supremacia.

Não vou ver o jogo no Estádio. Um conjunto de atrasos, hesitações e questões ditou que, até ontem, eu não tivesse comprado bilhete. Sei que ainda restam alguns, muito poucos. Pelo menos, restavam até há pouco. Mas não vou comprar. Não quero ir. Há aqui um lado místico. Em 2010, quando, a meio da época, me apercebi de que não tinha ido ao Estádio uma única vez, pensei «se isto está a correr tão bem, o melhor é não complicar: em equipa que ganha não se mexe». Fomos campeões. Não vi ao vivo a melhor equipa do Benfica dos últimos largos anos, mas o sacrifício foi largamente compensado. Não sei se a história se repete, mas a minha táctica para hoje é a mesma: vejo a bola na Típica, a fumar cigarros de enrolar feitos com premeditação, como bom homem prevenido. Prefiro deixar o momento eventualmente histórico e provavelmente belo para todos os outros que, sortudos, lá vão estar, muitos deles vindos de longe para ver o grande jogo diante da melhor equipa da história. A verdade é que hoje não faço assim tanta falta ao Benfica - hoje são muitos os Benfiquistas no Estádio. Sábado, diante do Beira-Mar, quando formos 25 ou 30 mil, farei mais falta. E, então, lá estarei.

Espero perder um momento Glorioso e verdadeiramente inesquecível. É tudo o que peço. Hoje é um bom dia para ter um dia diferente. Para começar, vou estrear a minha cigarreira para poder seguir com mais atenção, melhores cigarros e o fervor de um devoto em exclusivo o que se passa no campo.