sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Esta mensagem será destruída logo que me apeteça

Isto, porque o assunto é extraordinário, no sentido de "fora do vulgar": o blogue está em metamorfose estética e gostaria que os meus estimados leitores e mesmo os leitores dos outros clubes que por aqui passam os olhos deixassem o seu contributo para que este sítio fique mais e mais bonito. E com mais ar de casa de Benfiquista. Tenham a bondade.

PS - Podem mesmo comentar: a verificação de palavras, para saber se vocês são ou não robôs, foi desactivada. Podem ser robôs à vossa vontade, quero lá saber.

Chatices da bola

Há quem defenda que uma pessoa não se deve chatear com amigos por causa de bola. Tendo a discordar. Se há bom motivo para eu me chatear com amigos é precisamente a bola. Por diversas razões. A primeira de todas deriva de uma questão prática: dificilmente me chatearia com amigos por quaisquer outros motivos, não sou uma pessoa de quezílias por dá cá aquela palha, de quid pro quo's ou melindragens por insignificâncias mundanas. Resta-me, assim, o futebol como refúgio, gatilho, rastilho e combustível - em última análise, como "um bom motivo" - para me chatear com a rapaziada.

Dizem-me que não, que isso não tem jeito. Eu considero o oposto. Por exemplo, já houve tempos em que me chateei com amigos por causa de dinheiro. Hoje compreendo que isso, sim, é uma chatice fútil. O dinheiro é uma coisa que, em si mesma, não é uma coisa. É um meio. A mim o dinheiro não me faz nem bem nem mal. Já o futebol tanto me faz bem como me faz mal. Aliás, é precisamente por isso que gasto dinheiro com o futebol - e faço-o sempre sem um pingo de remorso. E nunca considerei "caro" um bilhete de futebol. Posso ter ou não ter dinheiro para ele. Mas caro, propriamente dito, é, por exemplo, qualquer imposto que eu pague, porque sei que é um pagamento abstracto, sem consequência imediata e palpável - provavelmente, servirá para pagar uma nesga de um juro de uma dívida remota a uma banca que eu já, com a minha migalhinha, ajudei a financiar e que agora me cobra por uma razão qualquer que algum senhor especialista em assuntos de dinheiro conseguirá não só explicar como até entender. Agora, um jogo de bola é um investimento seguro: uma pessoa paga e vê golos, vê o Estádio, vê as pessoas, ouve o hino, festeja, aplaude, chama nomes ao árbitro, etc. Há uma série de bens e serviços diante dos nossos olhos, tudo em simultâneo, num espectáculo proporcionado por artistas que custam um balúrdio, ainda por cima, e que são, na sua generalidade, gente famosa, que dá na televisão e tudo. O futebol só será caro a partir da inacessibilidade por exorbitância obscena. Todos os preços abaixo disso serão aceitáveis, se compararmos com o tal imposto não sei quê da sobretaxa com os cabrões dos duodécimos ou lá o que é.

Se me dizem que não devo chatear-me com amigos por causa do futebol, fico logo um bocado chateado. Um amigo que seja verdadeiramente meu amigo saberá o quanto o futebol importa para mim. Se não souber, é porque não será assim tããão meu amigo e, então, dispenso aquela relação que eu julguei que tínhamos, chateio-me à minha vontade e sem pudores e até lhe posso chamar nomes. Se se tratar de um verdadeiro amigo, então saberá que não deve chatear-me a cabeça com assuntos futebolísticos e que, se o fizer, estará exposto à minha ira, à minha irracionalidade, enfim, ao meu direito legítimo a perder as estribeiras por causa de uma merda qualquer - como dizer que o Aimar é uma fraude, por exemplo, ou que o Cardozo é um coxo ou o Peseiro é melhor que o Jesus.

Atenção, não estou com isto a querer dizer que "devemos" chatear-nos com os nossos amigos por causa do futebol. Não estou a apelar à desavença, nada que se pareça. O que eu defendo é a consagração do direito à chatice por parte de quem gosta mesmo de bola. Porque uma pessoa às vezes chateia-se e há quem olhe para nós como se fôssemos uma besta qualquer que se está a chatear sem motivo razoável, que é um bruto porque dá demasiada importância a isso da bola. Essas pessoas têm a ignorância que merecem e o preconceito que lhe é inerente. Mas gostava que respeitassem o meu direito a nem sempre achar que está tudo bem se me dizem que o João Ferreira gamou a favor do Benfica - isso é que por amor de deus.

Agora é isto da Taça da Liga - lá anda o sacana do Benfica a manipular esta porra toda para ganhar mais uma taça daquelas, uma coisa valiosíssima e pela qual valerá a pena contornar regras, se possível, corromper, manipular, já que o objecto, quase raro nas estantes do Benfica, visto que ainda não ganhámos nem poderemos nunca vir a ganhar a primeira edição que se disputou, merece qualquer esforço ou enredo que permita a sua conquista. Portanto, temos um clube, que é o Porto, que fez uma coisa qualquer, que eu não sei nem quero saber o que foi - não me diz respeito - que, aparentemente, viola regras que estão escritas e publicadas há meia-dúzia de anos. A entidade que gere a coisa admite que, assim sendo, é capaz de haver lugar a uma punição, uma vez que as regras não foram cumpridas. "Ai que a culpa é do Benfica". O Benfica, vejam bem. Que está sossegadinho, a cumprir as regras. Depois querem que uma pessoa não se chateie.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Redigir, auxiliar, adivinhar, entreter

O jornalismo desportivo é, para mim, o que o fair-play é para o Jorge Jesus: uma treta. Aliás, reformulo - a afirmação anterior era injusta para com os bons profissionais que existem no jornalismo desportivo (e existem muitos, felizmente): as notícias de transferências de jogadores na imprensa desportiva são uma enorme banhada - estamos todos de acordo neste ponto, certo? Dá a ideia de que um chefe de redacção pega nuns papelinhos com os nomes dos auxiliares administrativos da empresa e faz um sorteio. Os felizes contemplados terão o direito de dar aso à sua criatividade, exprimindo, muitas das vezes, desejos pessoais, ao ponto de ser ler na página xis d' O Jogo ou d' A Bola (confesso que raramente abro o Record) uma redacção que se aproxima mais de um diário pessoal ou de uma carta ao Pai Natal do que de uma notícia: «se pudesse ser, eu gostava muito que viesse aí o Anzhi ou uns chineses ou assim e que comprasse toda a frente de ataque do Benfica, mais o Matic. E o Artur».

A questão do entretenimento especulativo nas páginas de um jornal que se dedica, em grande parte, aos detalhes absolutamente desinteressantes e irrelevantes de plantéis de equipas de futebol, quando o dia não é de jogo, não costuma apoquentar-me. Leio A Bola ou o Jogo - ou ambos, se me sobra o tempo; ou ambos e ainda o Record se me levantar da cama antes das onze da manhã, o que me deixa tempo até para ler a Marca, se me apetecer saber a cor das cuecas do Pepe no treino de sexta-feira passada - como podia ler as 50 Shades of Grey, se eu fosse uma dona de casa de meia-idade pronta para descobrir as maravilhas da sexualidade plena, ou uma trafulhice literária qualquer do José Luís Peixoto, se eu fosse uma dona de casa da terceira idade sem qualquer tipo de expectativa ou optimismo no pouco que me restasse da vida. Sucede que, desta vez, o administrativo a quem calhou em sorte, n' O Jogo, redigir sobre "transferências quentes" (chamemos-lhe assim), foi demasiado longe.

Ando desde há quase duas semanas, se não me engano, a ler que Pablo Aimar arrumou o cacifo. E, já por diversas vezes, que o deixou "limpo". Não me custa crer que Aimar seja um exemplo de higiene e organização, de maneira nenhuma. Porém, quer-me parecer que estamos a entrar no domínio da compulsão, segundo este relato, que repetia que "Aimar já não treinava com os colegas" e que já tinha "limpo e arrumado o cacifo". E eu só imagino Pablo Aimar a sair para o Seixal e, em vez de se ir treinar com os companheiros, fechar-se no balneário a arrumar e limpar o próprio cacifo, todos os dias, obsessivamente. Imagino a senhora Aimar a perguntar-lhe «mas querido, onde vais»? e ele «tenho de ir ao Seixal» e ela «mas hoje não tens treino» e ele, com um ar transtornado, «mas tenho lá assuntos importantes a tratar» e ala, que lá vai ele, arrumar e limpar o cacifo outra vez. «Andas a gastar muito em detergentes», diria a senhora Aimar, em tom de queixa.

Esta indústria do "e se a gente dissesse qualquer coisa, assim ao calhas, sobre determinado assunto?" tem certas particularidades que me fascinam e, ao mesmo tempo, assustam um pouco. Existe, por exemplo, uma espécie de competição nisto da redacção aleatória. Aparentemente, os jornais tentam ser, cada um deles, não só aquele que acertou com um palpite bizarro no que viria a passar-se, realmente, num futuro mais ou menos próximo, como ainda pretendem ser os primeiros a fazê-lo, de modo a que possam exibir o dom da adivinhação nas suas páginas, segundo o molde seguinte: «como O Jogo avançou, em primeira mão, já em Janeiro de 2013, Aimar assinou esta madrugada pelo Al-Ahli e amanhã, primeiro dia de Agosto de 2017, o genial argentino apresenta-se ao serviço dos dubaienses». Nunca sei se é dubaienses ou dubaieses.

Os anos de experiência no entretenimento em páginas de jornal levou a que certos detalhes tenham evoluído, de maneira a assegurar que a informação veiculada é certeira. Assim, em conjunto com o seu editor ou redactor-chefe, o administrativo responsável pelo texto elabora uma espécie de sistema infalível: passados uns dias sobre a publicação do primeiro texto - dias em que, por toda a redacção, se fazem rezas e mezinhas no sentido de ajudar a que a coisa aconteça mesmo, mas sem que se obtenham resultados satisfatórios -, lança-se uma segunda composição em que se afirma o contrário do afirmado na anterior. Por norma, este passo não se executa desmentindo a primeira informação, mas antes levando o leitor a aceitar condescendentemente que a coisa não aconteceu agora, mas pode muito bem vir a acontecer, se calhar.

No caso específico, o único que, na realidade, me rala, diz-se agora que Aimar, depois de muito limpar e desinfectar o cacifo, após litros e litros de lágrmias em despedidas que se repetiram numa base quase diária, afinal não vai já para o Dubai. Vai só mais logo. E, assim, uma das duas notícias d' O Jogo estará certa - se não for a primeira, será a segunda, e vice-versa. Isto é um esquema muito esperto, há que dizê-lo. Aqui entre nós, espero que o administrativo que redigiu a segunda seja o do palpite bom.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Um mar de ilusões feito deserto

O Lima não consegue. O Lima teima em não conseguir e eu começo a perder a esperança. Começo a questionar o investimento de 5 milhões de euros num ponta-de-lança que não cumpre com a única exigência que estabeleci para ele. O futuro não se me afigura, aliás, risonho. Existe toda uma conjuntura a transfigurar-se sobre mim, preparando-se para contrariar qualquer desejo que eu formule.

Na quinta-feira, tinha o jogo começado às oito e meia, e eu, deviam ser umas nove, se tanto, já havia recebido quatro ou cinco SMS sobre o assunto: «hoje é que é», «desta é que o Lima te faz a vontade», «isto ainda vai é à manita». Fico feliz por constatar que há gente de crenças firmes que se agarra a uma ideia e deixa que a sua paixão a siga com a cegueira própria de quem não pode questionar, simplesmente porque tem fé e a fé lhe basta. Não me sinto só, o que me tranquiliza. Porém, o que me sossega é, ao mesmo o tempo, o que me desola: como, Lima, como é que tu podes desapontar tanta gente, semana após semana? Um mar de ilusões feito deserto, um oceano de vislumbres grandiosos, vasto mas antigo e agora Sahara de sonhos. O poker do Lima é cada vez mais um mito urbano.

E o Sporting? Num ápice, atinge a primeira metade da tabela e adianta-se seis pontos em relação ao Gil Vicente. Para cúmulo, o Beira-Mar sobe de forma e ameaça não integrar o grupo de aflitos quando se chegar à derradeira jornada em que recebe os aflitos de Lisboa. E eu? E os meus sonhos, ahn? E aquele plano do Marquês?

Eu, eu que não tiro a barba desde Fevereiro do ano passado! É quase um ano de restrições e cuidados. A minha mãe diz-me que pareço dez anos mais velho. Há quem evite sentar-se ao meu lado no metro. Em Setembro aparei-a no barbeiro, aqui por baixo de minha casa. Não falámos de futebol. Depois de a ter aparado, voltei a deixá-la crescer no registo selvagem que vinha alimentando até então. A minha sobrinha acha que pareço um homem das cavernas. Tudo o que quero extrair desta lenta e exigente composição capilar facial é um bigode imponente que possa levar ao Jamor, para ver o Benfica. E o Benfica vai-me dando razão e alento para o sacrifício. Mas e o Jamor? Quem me garante que é no Jamor que se joga? E se não for lá a final? Onde é que eu grelho as febras e as entremeadas? E se o meu bigode perder a razão de ser?

«Mas ainda tens o campeonato», dizem-me alguns, uns quantos, uns poucos. Pois tenho. Um campeonato disputado ombro-a-ombro com uma equipa recauchutada, remendada com Sporting - é bocadinhos de Sporting em toda a parte: no meio-campo, no ataque, no meio-campo de ataque. Só me falta que vão buscar o Labreca ao Olhanense e que contratem o Peseiro para eu abrir uma petição online a exigir a invalidação deste campeonato. É desumano. No início da época, eu não tinha esperanças mas nunca deixei de acreditar que valia a pena. Assim, tenho dúvidas. É tudo o que me resta. Parece que só andam aqui para me estragar as felicidades.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Foi um momento mesmo muito pedagógico

Quando o jogo terminou, a reacção, à mesa, foi foi quase unânime: uma frustração condimentada com raiva - sem alvo fixo. De um modo geral, o resultado não era injusto. Mas podia ter caído para o nosso lado, caramba!, não fosse o Cardozo acertar na pontinha - mas mesmo na pontinha - dos dedos do Helton, fazendo a bola bater na parte do poste que nos está aparentemente destinada: a de fora.

Quando deram tempo de antena ao Vítor Pereira - se a Pêpa não sei quantos pode tê-lo, é natural que o treinador portista também o tenha - ficámos rapidamente a perceber que o resultado tinha sido, afinal, uma dádiva para o Benfica e que devíamos estar gratos às entidades superiores (superiores ao Benfica, entenda-se), ou seja, à Liga de Clubes. Se a ira não se tiver dissipado, temo pela carreira das pessoas da Liga e, sobretudo, da arbitragem, que o patrãozinho parecia bastante aborrecido. Este ano vai tudo de férias para Monte Gordo e e e...

Vítor Pereira apresentou-se na Luz claramente mais maduro, mais sábio, mais esclarecido, mais ambicioso. Antes de mais, gostaria de saudá-lo pela recente apreensão de conhecimentos nos domínios do fora-de-jogo. Em menos de um ano, nota-se o progresso. Isto, embora o entusiasmo com a recente descoberta o leve a cometer alguns excessos. Com a novidade, vê foras-de-jogo e dentros-de-jogo por toda a parte e em qualquer momento.

É ainda curioso que o Vítor estabeleça uma relação directa e necessária entre o fora-de-jogo que foi mal tirado e o golo que foi claramente impedido de acontecer. Uma coisa é certa: tem uma fé inabalável nos seus jogadores e isso é de louvar. A maior fraqueza do Vítor é, no entanto, a matemática. Mas também se compreende e deverá resultar do seu espírito ambicioso, marca da casa onde come e se lava, aliás. Se o comum dos mortais começa a contar pelo 1, unidade singela e desprovida de apetrecho, Vítor Pereira arranca impiedosamente do complexo e primo 3, o tal da conta que Deus fez. Partir em vantagem também faz parte da sua escola. Além disso, o Vítor, homem do leme de tamanha barca, não perde tempo com as medidas humanas, pelo que se saúda o arrojo.

Ouvindo a conferência de imprensa com a atenção possível, ficámos a saber mais umas quantas verdades. Primeiro, que o Benfica não joga isto, um alfinete, um pinchavelho, a ponta de um caracol - dos pequeninos. É só pumba, pontapé para a frente, aí vai disto, à procura de faltas para o Cardozo bater. E até nisso o Benfica é incompetente - na única falta, num total de 97 minutos, que conseguiu a jeito para o Tacuara, este teve de sair de campo para ser suturado na cabeça. Nem no timing este Benfica é bom. Mas apreciei a seriedade que o Vítor disse uma coisa destas - ele, cuja equipa marca de um livre mal batido, primeiro, e de uma assistência primorosa de Artur, depois, e que não consegue UMA única (não são três, UMA!) oportunidade mais durante o jogo. Até na lata cresceu, o malandro. E sim, é verdade: foi o Cardozo quem meteu aquela no poste (confere: o Benfica joga para Cardozo - excelente leitura, Vítor) e só o fez porque chutou para a frente - se tivesse chutado para trás, teria acertado no Fernando ou no Mangala ou no próprio João Ferreira, que era menino para fazer o golo ao Benfica, pelo que ontem se viu.

Mas do que mais gostei no discurso pereiriano foi do seu pensamento inovador, logo a abrir. Aprecio gente assim, muito p'rá frente, muito modernos. Diz o Vítor que o Benfica devia ter terminado com 9 jogadores em campo. Eu gostava, antes de mais, de saber se o Carlos Martins conta como um inteiro ou não. Mas o que verdadeiramente importa é isto: eu pus-me a pensar e concluí que podíamos facilitar ainda mais a coisa, sendo assim. Tenho duas sugestões: ou o Benfica começa logo com 9 e escusamos de perder 90 minutos de trapalhada; ou, começando com 11, vai-se tirando um a cada dez minutos de jogo, até sobrarem só o Artur, na baliza, e o Cardozo lá à frente, para receber os chutos do guarda-redes. Assim como assim, são os únicos elementos fundamentais para o modelo de jogo desta equipa. Podia ser que o Porto, enfim, lá conseguisse ganhar.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Eu e as minhas barbas

É dia de Benfica - Porto e eu não estou em Lisboa. É uma situação que se repete desde o tragicómico ano de 2011. Porém, ao contrário do que os meus amigos Benfiquistas pensam e acreditam, tal não sucede por eu pensar que a minha discreta presença no Estádio pode desencadear proençadas e benquerencices. Não. A presente situação deriva de estar no Algarve no âmbito dos festejos de aniversário da Lady Verde, distinta algarvia com genuíno amor pela sua terra. E se, na época que passou, eu me encontrava no Porto enquanto o Maicon cabeceava desavergonhadamente "isolado", foi porque havia para isso bons motivos extra-futebolísticos.

A minha ausência do Estádio é, portanto, não uma questão de superstição mas antes uma infeliz consequência de coisas, no geral, boas, felizes e positivas. Porém, mesmo sabendo-o, quando o árbitro apita para o pontapé de saída, sinto que está a assinalar a minha falta. Perante este peso na consciência, não me resta senão minimizar, tanto quanto me é possível, o sentimento de culpa. Em 2012, decidi ir assistir ao desafio na Casa do Benfica da cidade do Porto; este ano, encontrando-me no Sul, a opção só podria ser ver a bola com o Constantino.

E é aqui que toda a minha operação "'bora aí ver o Benfica ganhar de goleada" se complica: eu e o Constantino não nos conhecemos pessoalmente. De um modo geral, pode dizer-se que somos "amigos online" ou que "nos conhecemos da internet". É uma questão delicada. Para que não haja confusões na hora em que, finalmente, havemos de nos encontrar, decidi que seria apropriado fazermos, cada um, uma descrição de si mesmo. O Constantino foi sintético e pragmático, «sou um gajo assim extremamente Benfiquista, não tem que enganar». Já eu elaborei mais um pouco: «sou um tipo baixinho e com umas barbas muito grandes», disse eu. E ele «muito grandes como? À Jesus Cristo?».

Não costumo ser pedagógico ao domingo e, ainda menos, quando joga o Benfica. Mas como hoje o 227218 - o blogue, entenda-se - completa dois anos de existência e me sinto bastante confiante para o Benfica - Porto (festejarei o quarto golo com um sonoro «oppa gangam style!»), abro aqui uma excepção para conversarmos um pouco acerca de "barbas". Desde que, em Fevereiro de 2012, comecei a deixar crescer a barba com objectivos dostoievskianos, tenho-me deparado com diversos preconceitos e reacções de espanto, com incompreensões e imprecisões de interpretação. O exemplo da "barba à Jesus Cristo" é o mais vulgar: antes de o próprio Cristo ter, supostamente, usado fartas barbas, já toda uma humanidade o fizera ao longo de séculos, ao longo de milénios. A barba não é invenção do Nazareno. Aliás, os seus conterrâneos contemporâneos tinham por norma adoptar o mesmo look, o que se compreende, tanto pela dificuldade de acesso a lâminas decentes, por um lado, como pela coerência estética ao fazer pendant com o registo casual-andrajoso muito em voga na época, por outro. Importa, igualmente, deixar claro que Jesus Cristo não terá sido "o último dos barbudos", pela que a recorrente referência, por associação, ao Messias Cristão é manifestamente exagerada.

Ocorre-me, enquanto penso nestas matérias, que fazem falta no futebol homens com barbas à antiga. Que é feito dos Vítores Baptistas, dos Humbertos Coelhos, dos próprios Sócrates dos relvados? O futebol, enquanto palco mediático, actua pedagogicamente e, por isso, ajuda a reduzir os níveis de intolerância. Vejamos: os dramas do racismo são combatidos por clubes, jogadores e organizações do mundo futebolístico. A própria tragédia dos brincos de brilhantes tem sido combatida através da propagação de exemplares jogadores que demonstram inequivocamente, jornada após jornada, que isso de usar brinco não é assim tão «paneleirice de maricas». Pode até ser praticamente másculo. O meu próprio pai, por exemplo, que me dizia com a sua tranquilidade paternal «experimenta meter uma merda dessas na orelha e vais ver se voltas a pôr os pés nesta casa», contava-me com indisfarçável orgulho o episódio do Vítor Baptista à procura do brinco na relva da Luz. E depois ria-se, abanava assim a cabeça e retomava a conversa «mas tu não me metas uma merda dessa na orelha, ouviste?».

Há quem me chame vagabundo, há quem diga pareço um homem das cavernas. Tem dias em que me apelidam de "pescador". E, claro, na maior parte do tempo, acham que faço lembrar Jesus Cristo. Há uns tempos atrás, quando a minha barba era mais tímida, diziam-me «és igual ao Aimar». Mas agora, que a minha barba tem mais meio palmo do que a dele, o meu aspecto desvinculou-se em absoluto dos cânones futebolísticos. Pablo, se me estás a ler: deixa crescer essa barba. Vamos, juntos, eliminar estes preconceitos.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Bola que é bola é da Mikasa

Eu não queria dizer nada sobre isto da Bola de Ouro porque só há coisas óbvias e aborrecidas para dizer. Que o Messi ganhava já era de prever, que o Ronaldo mereceu o crédito suficiente para criar algum suspense, o que é muito mais do que meramente honroso, também estava à vista de todos. O Iniesta fez o que qualquer outro no seu lugar faria: número. Já agora: o meu preferido é e continuará a ser o Falcao - isto entre os elegíveis porque, se eu mandasse, ganhava sempre o Aimar. Agora, há muita gente que clubiza e enfatiza sem olhar a meios nem a palavras e que, sobretudo, ridiculariza o que de ridículo nada tem. A essas pessoas, deixo uma sugestão de leitura: AQUI.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Música para os nossos ouvidos

O futebol é um espectáculo. Primeiro que tudo, porque tem, numa definição muito feminina e anosoitentista, 22 rapazes e uma bola. Mas tem também a táctica, a própria relva e o seu cheiro inigualável, o drible, o passe perfeito, a intercepção, a desmarcação, o lance duvidoso, a grande defesa, o golo, o grande golo e o golo de antologia. Tem o canto directo e a bola na barra, o livre do meio da rua a rasar o poste, a queda do árbitro, o tropeção do fiscal de linha, o vermelho directo, o amarelo alaranjado, a substituição mal-disposta, a saída para a ovação, de pé, a cinco minutos do fim - que às vezes não corre bem, como aquela do Müller o ano passado, na final da Champions -, o chapéu longo, o Zlatan, o Diego, o Dennis, o Cristiano e o Thierry, as lendas, as paixões e os confrontos com a polícia.

Mas o futebol não é só aquilo dentro das tais quatro linhas. Sobretudo, ao vivo. Na televisão, o espectáculo é esquartejado, dissecado e apresentado em versão gourmet, com repetições em ângulo regular e inverso, alta focagem e HD. O futebol na televisão não tem sequer intervalo, tem interrupção da transmissão. Só no estádio é que o futebol tem intervalo. E já não falo do pré-match, com cerveja e bifana de roulote, amigos e conversas sobre futebol, em vez daquelas antevisões de partidas com os Pedros Heniques e os Queridos Manhas e os Tadeias, todas afutebolísticas, estagnadas, teóricas, desinteressantes, sem espectáculo.

E o futebol é sempre um espectáculo. É arte e entretenimento, comunhão, dor, explosão de alegria, ralhetes, piropos e cachorros a três euros, queijadas de Sintra, Magnum amêndoa, garrafas de água sem tampa, cerveja sem álcool e o petardo ocasional dos tempos modernos - dantes, um petardo era um chuto de força e, às vezes, no recreio da escola, não valia.

O intervalo do jogo de futebol é um momento especial. Sem arte no relvado, sem emoção junto à área, sem stress do vai-não-vai, o povo quer ser entretido. «Here we are now, entertain us», cantava o Cobain. E tinha toda a razão. É curioso que uma das músicas que passam no Estádio da Luz, durante o intervalo, seja precisamente o Smells Like Teen Spirit. E também passa o Here Comes Your Man, dos Pixies. Um luxo. Porém, um luxo ensanduichado entre dois centralões desajeitados, como o Siguro Tchan ou o Ai Se Eu Ti Pego. Nota-se, pelo alinhamento, que existe, por parte do DJ, uma tentativa de agradar às várias franjas da multidão. Eu, como DJ, discordo da opção.

Já durante as tardes longínquas no Estádio Mário da Silveira - nome pomposo para "campo do Mafra", um território relvado atrás de uns prédios -, a ver o Depór defrontar um 1.º de Dezembro, um Mem Martins, um Operário, se havia coisa na qual eu apreciava o capricho da composição era o alinhamento das canções ao intervalo. Duran Duran, Roxette, Pretenders, os próprios Ace fo Base, eram presença assídua nos altifalantes do campo da bola. Algumas cassetes alinharam épocas a fio até reduzirem o pitch e virem a ser substituídos por uma Whigfield ou uma Mariah Carey. Mas a qualidade mantinha-se.

O que eu quero dizer é que tenho muito gosto em ir à Luz e ouvir os Pixies e que até nem me incomoda segurar o tchan. Porém, o Ai Se Eu te Pego é desnecessário, bem como os Nirvana, quando não existe uma coerência e, sobretudo, uma escolha inteligente, certeira, adequada. Eu não vou à Luz para ouvir grunge ao intervalo nem para fazer coreografias patetas, lado a lado com senhoras que, pontualmente, deixaram a novela a gravar para irem ver o Benfica. Eu vou à Luz para ver o futebol e para desfrutar do intervalo a que também eu tenho direito, depois de 45 ou 46 minutos de sofrimento e gritos e aplausos e antecipando mais 48 ou 49 do mesmo, descontando o aplauso à equipa, no final, quer ganhem ou percam. Durante este período de descanso, quero beber a minha Coca-Cola em copo de cartão e ouvir uma pop que não me entusiasme em demasia, mas que também não me desanime. Algo que me mantenha sóbrio, alerta e desperto, mas, ao mesmo tempo, me descontraia, me relaxe e me mostre que nem tudo o que ali se passa é fundamental para a minha vida - para isso já nos bastam os períodos em que a bola rola. Não peço uma Rihanna nem uma Byoncé. Mas já uma Pink ou até mesmo uma Britney Spears ou ainda, porque não?, uma Alanis, um Michael Jackson no seu período Bad, o próprio Timberlake ou, quiçá, o Prince, são artistas a levar em conta. Indo para algo mais clássico, que tal arriscar um Elvis Costello, um Marvin Gaye, uma Tina Turner?

Se o departamento de DJ'ing do Sport Lisboa e Benfica me estiver a ler, fica o meu compromisso: trato das canções ao intervalo no Estádio da Luz, sem qualquer encargo para o meu Clube. É contactar-me por e-mail ou pela minha pa´gina no facebook: http://www.facebook.com/HomemTemporariamenteSo.

Adelina

Tentei escrever sobre o assunto quando o assunto estava fresco. Acabei por preferir não o fazer. Teria sido indelicado. E indelicadeza seria coisa imperdoável para a minha avó Adelina.

No dia do velório, receei entrar na sala onde se encontrava o caixão. Sabia que, podendo ver-me, Adelina teria dito «ai, mas para que é essa barba, tão grande, a esconder uma cara tão bonita?», com um tom misto de meiguice e severidade, a impor respeito ao mesmo tempo que saúda e acolhe. A minha avó gostava de corrigir. Com bondade, com paciência e com velhice - mas gostava das coisas correctas e no seu sítio.

A minha avó Adelina morreu em ante-vésperas do Natal e o Natal foi, naturalmente, afectado pela tristeza da sua partida. Não pela tragédia nem pelo drama. Mas a tristeza permaneceu porque não podia ter sido de outra forma.

O Natal lá por casa é, já por si, menos efusivo na medida em que somos cada ano um pouco menos crianças, eu e o meu irmão. O Natal sem crianças é muito menos natalício. Este Natal tinha tudo para ser muito mais acabrunhado e sisudo. Tentando amenizar a situação, decidi eleger um novo infante e declarei unilateralmente a criancice do meu pai: ofereci-lhe um jogo de matraquilhos, daqueles de mesa - mas dos de madeira, não dos outros de plástico rasca. Curiosamente, é um Benfica - Estoril. Tratou-se de um acaso. Se não acreditam, depois publico as fotos. Mas a sério que não sabia como equipavam os jogadores que vinham dentro da caixa selada. Temi que fosse um Benfica - Sporting moderno, com jogadores partidos de um dos lados. Felizmente, tudo correu bem.

Os pequenos matraquilhos equilibraram a disposição e recuperaram algum do bom humor em falta. Na própria noite de Natal, montou-se a mesa e disputaram-se dois campeonatos quadrangulares. Por momentos, aligeirou-se o pensamento. E eu sei que a minha avó Adelina teria gostado de saber que assim foi. O Natal importava-lhe muito. O Natal, como todos os grandes símbolos e momentos da Cristandade. Era uma católica de fervor sincero, a minha avó. Aliás, é a esse fervor que devo parte do meu fundamento Benfiquista.

O meu avô Domingos, grande ateu e Benfiquista de alicerces na espinal medula, convivia com a minha avó, católica como já descrevi e Benfiquista por herança, com enorme facilidade: na casa do Quintal partilhava-se pacificamente o espaço para as ondas hertzianas - a telefonia era um objecto de enorme importância no quotidiano de um casal do campo nascido por volta de 1920. Se havia futebol, ouvia-se o relato; se a hora era de missa, ouvia-se a Renascença - cada coisa no seu sítio. Quando as transmissões se sobrepunham, o meu avô nem se atrevia a propor alteração à lei das prioridades da casa - pegava em mim e íamos para o pinhal ou para o campo do Gonçalvinhense, mesmo ao lado, ouvir o Benfica e dar pontapés na bola.

Estou grato à minha avó por tudo e por mais isto, este Benfiquismo que, graças à sua maneira de corrigir e de arrumar no sítio certo, ajudou a sedimentar. Sinto muitas saudades do seu chá Li-Kungo e das suas torradas em pão saloio cozido a lenha, a seguir à jogatana e ao relato.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Momento pedagógico

Não sou particularmente dado a superstições. No entanto, sou adepto da correcção no que respeita a procedimentos. Possuo, aliás, certos traços de comportamento obsessivo-compulsivo que me compelem a determinados rigores que, se não forem cumpridos, me causam transtorno e desordem. Por exemplo, nunca fui ao hemisfério Sul, faz-me confusão andar de cabeça para baixo. Ou não piso as divisórias dos passeios. Ou não gosto de ter o pé esquerdo sobre um tapete e o direito fora dele, prefiro sempre manter ambos sobre o mesmo plano ou objecto, isto salvo quando subo escadas, porque evito expor-me ao ridículo de as subir aos pulinhos, a pés juntos. Noto agora que o elemento comum a boa parte das minhas obsessões é o sítio onde tenho os pés.

Há pequenas tarefas e funções que encaro como desígnios. Por exemplo, gosto de desligar a luz do hall de entrada com uma cadência determinada e de acender, logo de seguida e na mesma cadência, a luz das escadas, de maneira a obter a batida inicial do Sunday, Bloody Sunday, e fico bastante aborrecido quando não consigo o efeito desejado - estraga-me o dia.

No que respeita a desígnios e obsessões, a linha que separa o aceitável do absurdo é bastante ténue. Não é fácil encontrar uma explicação coerente, sobretudo quando instado a argumentar relacionando causa e consequência. Há, porém, matérias em que a justificação merece escusa.

Vem esta breve introdução a propósito de um pequeno drama que me afectou, bem como a terceiros, durante o dia de ontem. O que aconteceu foi que me acusaram de mau companheirismo. Privei a minha equipa, os All Fama All Stars, do meu esforço e do meu talento no encontro semanal contra uns certos meninos de Oeiras, que teimam em medir forças connosco. Se a explicação para a minha ausência pode ficar à mercê de espíritos mais ou menos compreensivos, já a justificação para a minha conduta dispensa qualquer tipo de elaboração em termos racionais.

A verdade é simples e clara: recuso-me a jogar à bola em dia de jogo do Benfica. Há vários conflitos de interesses logo à partida. Antes de mais, existe o interesse do Benfica, que será sempre o meu. O Benfica joga, a minha energia é do Benfica. Não é para desbaratar num relvado sintético ali na Ajuda num jogo que não vale nem uma rodada de cervejas. Sejamos sérios.

Há quem veja nisto uma superstição, mas desengane-se quem pensa assim. É uma questão de interesse uno, meu e do meu Clube. O meu desígnio primordial sempre foi estar com o Benfica e o meu deficit de ubiquidade não me permite estar com o Benfica e com os All Fama All Stars no mesmo dia. Houve quem argumentasse «ah, mas é só um jogo da Taça da Liga». De novo: sejamos sérios. Mas acham que me rala a designação ou natureza da competição quando quem entra em campo é o Benfica? Reflictam, meus caros.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Não quero mal ao Sporting

Conheço boa parte dos 37 sportinguistas funcionais e convictamente activos que restam. Mais precisamente, conheço quatro. É gente que me merece respeito e é por eles e por calcular que, como eles, existirá mais gente de bem a fazer esta penosa travessia de sabe-se lá o quê para vá-se lá saber onde que me controlo. No entanto, que fique claro que não me esqueço de quem, em tempos quase longínquos, espezinhou e tentou humilhar o Benfica, ao ponto de nos vermos obrigados a mandar um egípcio muito moreno e fininho a Alvalade explicar ao André Cruz como se marca um sacana dum livre, por um lado, e aos sportinguistas em geral, por outro, como se enfia uma rolha inchada num buraco estreito e cheio de gás, como o é o gargalo apertado de uma garrafa de espumante baratucho.

Regressei da tournée londrina com um único objectivo: assistir mais ou menos sentado ao Sporting - Benfica desde o seu primeiro minuto. Foi, aliás, uma viagem toda ela contorcionisticamente encaixada entre jogos: partida na manhã imediatamente a seguir ao Barcelona D - Benfica e regresso a tempo de ver o kick-off de Alvalade. Infelizmente, a linha encarnada do metro de Lisboa é muito mais comprida do que parece nos desenhos e demorei cerca de 57 minutos a chegar do aeroporto a Santa Apolónia, mais 12 minutos a subir meia colina com a mochila a rebentar pelas costuras às costas, o que fez com que tivesse chegado à Típica a horas mais que suficientes para irmos já com três de avanço. Para meu espanto, estava zero a zero e eu pressenti que algo estava errado. Indaguei e concluí que era engano meu, impressão minha, pois o Tacuara estava em campo.

Na balbúrdia apática de quem ganha só três a um a um rival decrépito houve quem declarasse desejar ao Sporting a descida de divisão. Há sempre gente que exagera nestas coisas e eu também não me esqueço de quem, em tempos praticamente medievais, espezinhou e tentou humilhar o Benfica, ao ponto de nos vermos forçados a enviar um maxerrequino escanzelado a Alvalade para demonstrar ao André Cruz como se marca um sacana dum livre, por um lado, e indicar aos sportinguistas em geral, por outro, como se enfia uma rolha inchada num buraco apertado e cheio de gás, como o é o gargalo estreitinho de uma garrafa de champanhota da Bairrada. Porém, sou magnânimo e aprendi com os anos a perdoar. Os meus desejos para esta época não chegam a tamanha crueldade - são apenas três e pela ordem que se segue:

- ir de bigode ao Jamor fazer um piquenique de coiratos, febras e entremeadas antes de entrar - de novo: de bigode - no Estádio Nacional para assistir robustamente à final da Taça;

- ver o Lima fazer um póquer;

- festejar o título de campeão no Estádio da Luz, deixando a rotunda do Marquês vaga para os festejos da manutenção sportinguista.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

The long winding road

Em Dezembro de 1989 sofri como um verdadeiro pecador: uma aftose impiedosa deixou-me as paredes da boca, a língua, as gengivas e até os lábios em completa erupção. Foram quase dez dias de dores, ardores e fome, muita fome. Recordo-me que até respirar pela boca me causava sofrimento. Ao fim dos dez dias, e depois de uns três ou quatro em que já conseguia comer iogurtes e sopas trituradas - mas, ainda assim, frias -, a minha mãe tinha preparado um bacalhau com batatas e couves, cuidando que eu me encontrava ainda enfermo da ingestão e da mastigadura (como eu odiava bacalhau com batatas!) e, portanto, não comeria. Puro engano: àquele bacalhau, nem a pele lhe sobrou. Foi, de longe, o melhor bacalhau que comi na vida - e digo-o sendo hoje profundamente fã desse peixe que o português salga e seca.

Foram também dez dias de febres altas, alguns delírios e uma reclusão tortuosa, em que nem o meu irmão se podia aproximar em demasia, pois o contágio era, julgava-se, não só possível como provável. Sabendo-se da propensão que o meu irmão tem para o azar, para a poça distraída debaixo do sapato, para a pedra aleatória que lhe atinge a cabeça, foi uma decisão sensata.

Posso dizer que, com apenas dez anos, experimentei a loucura de uma solitária - tirando a parte da latrina e da falta de colchão. E de ter vista para a rua e de não sair de lá barbudo - levei 23 anos de liberdade a atingir este estado. Mas, de resto, fome e isolamento não me faltaram. Foi neste isolamento que tudo começou. Naquele tempo, não havia internet nem TV por cabo; havia dois canais e eu só apanhava um. O Lecas era o ponto alto do meu dia. Sozinho em casa, vi-me obrigado a improvisar com os recursos de que dispunha: playmobil e berlindes.

Tinha em abundância de ambos, berlindes e playmobil. Eram mais de duzentos berlindes, para cima de sessenta ou setenta bonecos. Tinha começado, nesse ano, a jogar nos infantis do Desportivo de Mafra. E, durante dez dias, via-me confinado a um quarto, sem poder aproximar-me de uma bola, de um campo - desde muito cedo fui sendo desviado de uma carreira gloriosa pelos relvados dessa Europa. A necessidade aguça o engenho, ou algo do género, e então decidi fazer o meu próprio futebol. Escolhi os bonecos com que mais simpatizava - o louro, com caneleiras, todo vermelho, chamava-se "Paulo" e era o meu alter-ego: n.º 10 à antiga (como em "Eusébio"), num 4-3-3 que tinha tanto de ingénuo quanto de eficiente: era sempre para esmagar. Os bonecos era eu que os mexia - a mão direita organizava o Benfica, a esquerda manipulava desastradamente o seu adversário. As balizas, num tempo em que as redes longas vieram substituir aquelas de pouca profundidade, eram formadas por cassetes áudio: duas, lado a lado, faziam o fundo da baliza; e duas, ao comprido, desde esse fundo até à face de cada um dos postes. BASF, Sony, Maxell, até velhas edições oficiais dos Ministars, dos tempos do meu ATL (uns dois anos antes), tudo serviu de malha lateral, de fundo longínquo, de rede em cujos buracos um dia Rashidi Yekini haveria de enfiar os braços num festejo imortal.

Eu gostava que as balizas fossem bonitas. Por isso, escolhia as cassetes com mais pinta para as construir. Havia uma cassete feia e sem capa que ficava sempre de fora. Não tinha letras nem símbolos nem era transparente, nem de iron: era opaca e não diza coisa alguma.

A solidão e o isolamento trouxeram-me certas experiências e hábitos. Descobri, por exemplo, o silêncio ou a habilidade para esperar, sem impaciência. E foi graças ao silêncio que descobri os Beatles: ao fim de três ou quatro dias de solidão e de conversas muito espaçadas à hora das refeições, senti que havia um vazio sonoro que podia ser preenchido. Peguei no gravador e leitor de cassetes que o meu pai comprara na Dona Nazaré, ali no lugar da Paz, ou que lhe saiu nuns furos, pouco tempo antes, já não me recordo da providência que me permitiu ter um pouco mais de companhia nesses dias tristes e chuvosos.

E foi entre quatro paredes, atormentado por aftas e febres, que introduzi no gravador e leitor de cassetes a cassete feia e sem letras, uma das que sobrava sempre ao improviso daquele estádio de maravilhas sobre uma alcatifa azul que fez tantas vezes de reconfortante relva verde. Lá dentro tinha os Beatles, numa colectânea que lhes atravessava a discografia - Penny Lane, Strawberry Fields Forever, Lucy in the Sky with Diamonds, todo um mundo se abria em meu redor ao mesmo tempo que o meu mundo se fechava cada vez mais sobre o futebol e a paixão pelo fenómeno florescia.

Nesse tempo as equipas inglesas não jogavam na Europa. Desde a tragédia do Heisel, ficaram todas de castigo durante cinco anos - e o Liverpool durante seis. O meu pai explicou-me que era dos hooligans. Percebi razoavelmente o que isso era. O meu pai também me explicou que o Porto só foi campeão europeu porque "não havia ingleses... assim, qualquer um é campeão". Depois, fomos nós a duas finais intercaladas, que não ganhámos. Mas o certo é que, desde que os ingleses voltaram, nós nunca mais disputámos uma final europeia. O meu pai alguma razão lá havia de ter. «Porque», dizia o meu pai, «o que é que são as competições europeias sem um Liverpool, sem um Leeds, sem um Derby County, sem um Tottenham, sem um Nottingham Forest?!». E aqueles nomes ficavam-me na cabeça. O meu pai nunca gostou dos Manchester United. O Arsenal não lhe dizia nada. Apreciava era o Liverpool, sobretudo. Chelsea, City, etc., isso nem existia. E eu jogava com os bonecos da playmobil e ouvia os Beatles e tentava imaginar como seria o Liverpool a jogar à bola, na Inglaterra. O meu pai dizia «aquilo lá é tudo diferente: conduzem pela esquerda e até os estádios são quadrados - parecem caixas de fósforos».

Uns tempos mais tarde, já eu era saudável o suficiente para poder voltar a detestar convictamente o bacalhau com batatas, um amigo meu comprou um Commodore Amiga 500, até hoje o melhor computador alguma vez inventado. E comprou um jogo: Football Manager. Nessa edição, ainda limitada, só se podia escolher clubes ingleses. Ele escolheu o Liverpool. Eu, desfilando os vários símbolos, fui reconhecendo vários nomes que o meu pai mencionava no seu saudosismo pelos ingleses na Europa. Porém, as cores e o símbolo do Arsenal atraíram-me. Perguntei ao Nuno, o dono do Amiga, «estes são bons?» e ele «são... não é o Liverpool, mas são porreiros». E eu escolhi-os.

E foi pouco tempo mais tarde que tive a honra de conhecer o Arsenal. Numa edição confusa da Taça dos Campeões que já era Liga dos Campeões - ou da Liga dos Campeões que ainda era Taça dos Campeões -, o Benfica foi ao velho Highbury, uma caixa de fósforos tal qual o meu pai descrevera, e começou a perder. Mas depois conseguiu empatar, num jogo de grandes nervos. Depois veio o prolongamento e o Isaías fez uma exibição soberba, ganhámos 3 a 1. No final, o público do Highbury levantou-se e aplaudiu de pé o meu Benfica. Ainda hoje me comovo quando penso nisso e lembro-me do que pensei nesse momento: «tão bom...».

Nesse dia, a minha paixão pelo futebol inglês, que já fora semeada ao som da Peny Lane, nasceu. E o meu respeito - porque não: amor adoptivo? - pelo Arsenal fundou-se em definitivo. Desde então, o meu sonho foi ir a Inglaterra ver a bola. Gozando dos benefícios do tempo livre, fui.

Primeiro, fui ver o Tottenham.

Depois fui ver o Liverpool a Upton Park.

Falhei o Arsenal. Mas metade do sonho foi realizado. E ainda ouvi os "hammers" a cantar o Bubbles. I'll be back.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Rock n' ball

Regressei a Lisboa depois de cinco dias na minha terra. Cinco dias de glória, que incluíram uma vitória do Benfica, duas vitórias minhas no xadrez em outros tantos jogos e quatro vitórias, robustas e expressivas, em quatro jogos de snooker, perante quatro adversários diferentes (três delas com cheirinho a goleada). Não sei se é dos ares da terra-natal, não sei se poderá ser da esplendorosa comida da minha mãe: certo é que regresso cheio de confiança nas minhas capacidades desportivas, ainda que tenha consciência de que me é muito mais fácil dar um xeque-mate ao 11.º lance ou meter a preta à 5.ª jogada do que fazer um golo no futebol de 7 antes do 20.º jogo (e a minha equipa pode corroborar o que afirmo).

Da ida à minha terra lamento sobretudo a minha escassez de ubiquidade que me impede de uma maneira teimosa de estar com toda a gente com quem gostaria de estar em simultâneo. Quando regresso a Lisboa, sinto sempre que estive pouco com os amigos, com a família, com os próprios lugares onde dantes eu estava sem pensar nisso e de que agora sinto saudades. Compensando, de certa forma, esta sensação de perda, tive a oportunidade de estar várias vezes com um amigo dos tempos de escola. É aquele amigo que acaba por se tornar amigo à força, de tão recorrente que é o convívio. Na verdade, é, talvez e exceptuando o meu próprio irmão, a pessoa com quem mais vezes andei à porrada. Consequentemente, será a pessoa de quem mais vezes apanhei, já que era raro eu levar-lhe a melhor. O João foi um tipo determinante para a consolidação da minha consciência pacifista. Foi sobretudo graças a ele que me surgiu em ideias a máxima «prefere sempre a paz à guerra, principalmente se na guerra estiveres sempre a comer».

Tornámo-nos amigos ainda na adolescência. E fomos sempre os opostos um do outro. Ele era do Sporting, eu nasci de acordo com o que manda a natureza; ele era dos Metallica, eu era dos Nirvana; ele veio a ser baterista, eu toco guitarra e canto. E foi graças a estas diferenças, todas misturadas, que pudemos passar três tardes fechados no seu estúdio, ele na bateria, eu à guitarra, cada um com suas funções, ideias e influências. Tivéssemos ambos sido guitarristas influenciados pelos Rancid, o mais provável era termos passado três tardes fechados na garagem a beber cerveja e a falar de como o punk era bom nos anos 90, com as guitarras ao lado à espera de ganhar utilidade.

Foi com o João que vivi a minha primeira experiência pop. Jogávamos os dois à bola, na equipa da então Escola C+S de Mafra. Ainda não nos dávamos muito bem. Estávamos no 9.º ano e disputávamos a Distrital de Desporto Escolar de Lisboa, que daria acesso à Regional de Lisboa que, por sua vez, acabaria por permitir a passagem ao play-off nacional. Ganhámos a distrital, mas ficámo-nos pela regional. Num dos jogos mais importantes, contra a equipa que rivalizava connosco, fomos a uma escola de um pequeno concelho da zona Oeste. Estávamos habituados a jogar na nossa onde o facto de decorrer um jogo dos campeonatos de Desporto Escolar não era propriamente motivo para folgas nem pausas: ia assistir quem tinha hora livre. Ali, não: a escola parou e assistia em peso ao grande confronto.

Chegámos na carrinha do nosso treinador, professor de Educação Física cujas noções tácticas se inclinavam muito mais para o surf do que para o futebol, mas que era um tipo porreiro e que gostava muito daquilo. Fomos imediatamente recebidos por uma comitiva de maldispostos e bem alimentados rurais que lançou ameaças e piadas - nós vínhamos de Mafra, atenção. Mafra é uma espécie de território perdido, algures entre o ser subúrbio e o ser rural, mas que impressionava quem vinha de sítios mais rurais do que o nosso porque parecia uma cidade cosmopolita, com semáforos e tudo. Já lá vão muitos anos. Agora até temos auto-estradas, só para terem uma ideia.

O ambiente da escola era bastante hostil e a população numerosa, que devia reunir todos os adolescentes do município que não tivessem reprovado na quarta classe, intimidava bastante. O nosso balenário ficava numa cave, na última porta de um longo corredor, próximo do campo mas não propriamente contíguo - ou seja, teríamos de nos equipar e depois atravessar a multidão. Esta ficava separada do recinto de jogo por uma corda à altura da cintura, atada a pequenos postes, a toda a volta do campo. Equipámo-nos no tal balneário, uma espécie de arrecadação que nem bancos tinha e tivemos de pendurar em cada um dos cinco cabides ainda inteiros as roupas de cada dois dos nossos jogadores.

Já equipados, percorremos o longo corredor, subimos as escadas e dirigimo-nos ao campo, acompanhados por uma espécie de escolta de professores autóctones que furavam a multidão. O campo era assim: pequenino, substancialmente inclinado para uma das balizas e cheio de buracos. Para além de buracos, existiam ainda grelhas de esgoto que, pisadas no sítio ideal e com a força certa, produziam aquele efeito Looney Toons que produzem os ancinhos quando são pisados nos dentes. Tenho ideia de um dos nossos se ter lesionado logo de início por entrada imprudente de uma dessas grelhas. Aos cinco minutos já perdíamos por um e o jogo estava a ser um pesadelo, até porque começámos a jogar de baixo para cima.

A arbitragem, em perfeita sintonia com todo o panorama, estava a ser miseravelmente caseira. Ainda assim, aguentámos aquela magrinha desvantagem até ao intervalo. Recolhemos à arrecadação animados por insultos, graçolas e gozos, o que numa pequena vila de província orgulhosamente marcada pela produção (e, por que não, pelo consumo?) viti-vinícola é o mesmo que dizer que fomos enxovalhados com muito maus modos e expressões que, infelizmente, não recordo na totalidade - nem sabem o jeito que me davam para animar esta longa narrativa.

Reunidos na arrecadação, o professor tentava incentivar-nos, dar-nos coragem, inflar-nos com esperanças mais ou menos poéticas, «vocês conseguem, pá... eles não jogam assim tanto», mas o sentimento geral, ainda mais sem o nosso melhor jogador, era de profundo desamparo, de isolamento num planeta que nos era adverso. Queríamos ir embora dali. Cheguei ao ponto de pedir para não jogar mais, «não, Diego, estás a jogar bem, aguenta-te». Não insisti para não parecer mariquinhas. Mas a minha vontade de subir ao campo era quase zero e penso que só a ideia de jogar de cima para baixo acabou por me dar algum alento.

Regressámos ao campo, sempre acompanhados de gestos, ladaínhas e palavras de apreço que, se acontecessem em frente ao Palácio de S. Bento, poderiam gerar uma carga policial justificada. Começa a segunda a parte e o árbitro descobre um penalty contra nós num lance em que o Besugo, que fazia parceria comigo na defesa, leva uma porrada e cai, com o braço enrolado, sobre a bola. Isto dentro da área. Penalty, pois. Eu pedi para sair, que aquilo era uma vergonha, o professor não aceitou a minha demissão e disse-me «a gente consegue, temos é de acreditar» e eu acabei por ficar, mais por compaixão por ele do que por crença. Aplausos e assobios, cânticos vitoriosos, de tudo se ouviu. O jogo estava perdido. Porém, os gritos histéricos vindos de vozes estridentes despertaram-nos para uma realidade nova: também havia ali miúdas. Esta percepção, aos 13 anos, muda muita coisa. E então, ao apito do árbitro amigo, o avançado rural correu para a bola e bateu com força - mas o Banana defendeu com estilo. Era uma nova vida, sorrisos, abraços e uma esperança inédita em cada um de nós: a bola não entrou, porra!

O jogo mudou nesse momento e até o público ficou mais mansinho. Tínhamos a bola e tentávamos fazer golos. A descer fica tudo mais fácil e eles pareciam amedrontados, sobretudo depois de falharem a soberana oportunidade para fazer o 2 a 0. As vozes das raparigas eram já mais audíveis do que as dos rapazes quando sucede o lance, aquele lance que muda a tua vida. Não tenho muito presente a forma como tudo se desenrolou. Nestes momentos, o intelecto desliga-se e deixa que o corpo seja máquina, seja instinto, seja animalidade e depois damos por nós a fazer qualquer coisa quando despertamos do choque de adrenalina. Dei por mim a festejar um golo. Quando todos se dirigiram a mim para festejar euforicamente, percebi que tinha sido eu a marcá-lo. Eu, que nunca arriscava sequer um remate, marcara ali, naquele campo de batalha inclinado, contra todas as probabilidades.

O jogo terminou com o empate: um a um, o que num jogo de futebol de 5 entre miúdos de 13 anos demonstra bem o nível aguerrido e disputado a que se jogou cada lance, cada bola, cada entrada dura das grelhas das sarjetas. Estávamos felizes, vitoriosos, realizados, mesmo vingados. E com medo. Íamos ter de sair do campo, os professores adversários, descontentes com o desfecho, discutiam com o nosso professor. Ânimos exaltados em todo o lado, alunos a mandar bocas, a rodear-nos, e nós a seguirmos rapidamente para a arrecadação onde tínhamos a roupa, na cave, ao fundo do longo corredor. O professor ficou para trás, deu-nos a chave e nós seguimos.

Não houve direito a duche, claro. Nem chuveiros havia ali. Enquanto nos vestíamos, suados e a celebrar um empate que soube a conquista, fomos ouvindo o burburinho crescente à nossa porta. Às tantas, adivinhava-se uma multidão a encher o corredor. A nossa alegria transformava-se, aos poucos, em palidez e a palidez em medo e o medo em qualquer tipo de desespero: sem janelas, sem outra porta, sem professor, estávamos encurralados e à mercê de toda a escola C+S da Arruda.

Entre os sorrisos nervosos à espera que o professor regressasse, um bilhete manuscrito passou por baixo da porta. Vinha dobrado. Alguém, que não eu, pega no papel e lê «n.º5 e n.º7 venham cá para fora». O n.º 7 era eu, inspirado no Vítor Paneira. O 5 era o João - penso que por causa do Fernando Couto, na altura ainda no Porto (não era do Sporting mas era mau e tinha estilo). Tudo se transformou num caleidoscópio negro de terrores. No dia em que eu marcara um golo a defender as cores da escola da minha terra, senti que talvez tivesse sido melhor não o fazer.

O professor chega. Entra sorridente e diz «está tudo resolvido, eles estavam chateados mas isso passa-lhes». Respondemos que o corredor está cheio e que estão a pedir as nossas cabeças, a minha e a do João. «O quê, aqui fora?! Isto é tudo miúdas, pá». Abriu a porta e era verdade: miúdas. Mesmo vendo, não dava para acreditar. Montes de miúdas. Saímos da arrecadação, em fila. Eu e o João fomos puxados, agarrados, quase engolidos. Fomos levados para cantos. Pediram-me beijos e o número de telefone. Isto, várias raparigas e em grupos, tudo compacto, tudo ao monte. E não conseguia sair dali. A perplexidade, a surpresa, a satisfação do ego, tudo se misturou com algum medo e com a pressa de ir embora. Por fim, consegui soltar-me e passar. O João também acabou por chegar cá fora, trazido por um colega nosso, mais robusto.

Tenho a certeza que foi nesse dia que a nossa vida mudou. Queríamos ser futebolistas. Isso era certo, desde sempre - ele no Sporting, eu no Benfica. Mas aquele sabor da pop foi mais forte. Um ano depois, o João tinha a sua banda thrash-metal cujo nome era o título de uma canção dos Sepultura. Pouco tempo depois, eu comprava uma guitarra e fundava, com outros três, os Kindergarten, que puxava mais ao grunge. Ontem, anteontem e no dia anterior estivemos os dois fechados num estúdio, ele na bateria, eu na guitarra e na voz. Acredito que isso se deva a este jogo de futebol.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Religião, desemprego e estratégias alternativas

Eu não queria ofender ninguém, muito menos mexer com as sensibilidades religiosas de cada um - este é um sítio de respeito e que, assim, tem de dar-se ao respeito. É por isso que aqui deixo o meu pedido de desculpas a quem, de entre Cristãos Ortodoxos, se apoquentou com a acção preventiva de acondicionar seguramente o cachecol do Spartak numa caixa de cartão de formato peculiar. Reconheço que a falta da Cruz Bizantina foi uma falha e lamento por, num descuido, ter corrido o risco de melindrar alguém.

Aos apostólicos romanos que se insurgiram, gostaria de descansá-los: não, não enterrei a caixa. Está aqui ao meu lado e posso reutilizá-la, sem qualquer problema, caso tenha de devolver a guitarra. Não está sequer suja ou danificada. Acrescento, para qualquer crente, que tudo não passou de um exercício espontâneo - supersticioso, sim, mas sem malandragem nem voodoo, sem maldição nem orixás.

O mais curioso é que tudo isto aconteceu graças ao meu despedimento. E é ainda mais curioso que algo tão nefasto e desmoralizador acabe por vir a produzir consequências tão positivas. Por exemplo, o facto de ter tempo livre permitiu-me deambular por Lisboa em busca de coisas abstractas, que é como quem diz, andar à deriva sem qualquer objectivo. Por acidente ou curiosidade, ou até sorte, entrei numa loja de instrumentos. Isto sucedeu precisamente uma semana antes do jogo de quarta-feira. Foi nessa loja que encontrei à venda uma guitarra que eu desejava há mais de um ano. Porém, em ocasiões anteriores, nunca tive a disponibilidade financeira para investir na melhoria do meu património. Desta vez, tudo foi diferente, já que fui pago para deixar de trabalhar. E assim, com o dinheiro que me dão para estar sossegado, comprei a guitarra. Vejam nisto um investimento em ferramentas de trabalho, porque é disso que se trata, e não um capricho consumista.

Não tinha como transportar a guitarra até casa e recusei-me a comprar-lhe um Rockbag, até porque tenho um, ou uma hard-case, que seria despesa exagerada. A simpatia do vendedor da loja fez com que me fosse dispensada a tal caixa mágica que a fotografia do post anterior mostra para que eu lá pudesse guardar o instrumento praticamente virgem e, assim, levá-lo para casa em segurança.

Há toda uma conjugação de factores que fará os mais cépticos ter arrepios na espinha, bem sei. Mas ainda não é tudo: a guitarra chama-se Hell Cat e não fui eu que lhe dei o nome, foi o próprio Tim Armstrong.

Ponham-se no meu lugar: olhando, por exemplo, para um meio-campo que parecia designado pela própria Isabel Jonet - chegámos ao ponto de de lá meter portuguesinhos! -, não teriam vocês mesmos tirado proveito desta conjugação cósmica para dar uma mãozinha ao Benfica? Acresce que o ritual foi absolutamente experimental, nunca tinha sido antes testado nem em animais. Pareceu-me legítimo aproveitar os artefactos e simplesmente conjugá-los da maneira correcta. Como, aliás, fez Jorge Jesus com os homens que escolheu para o jogo e que, à partida, também não lhe garantiam grande coisa.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Arrumações

Tenho um cachecol do Spartak de Moscovo. Não é aquisição recente. Trata-se de uma compra que fiz numa época distante. O Benfica tinha no meio-campo um velhinho espanhol chamado Chano, por exemplo, e eu começava a duvidar do meu clubismo - o caminho da fé não é feito de certezas, é feito de paixão. Por outro lado, havia um clube, o Sporting, que estava na Liga dos Campeões e os seus adeptos meus amigos e conhecidos teimavam em demonstrar-me, explicar-me, educar-me e chatear-me o juízo com exemplos, factos e histórias do seu clube, poderoso, forte e muito nobre. Depois aconteceu Champions e o Spartak deu-lhes três a zero. Em Alvalade. Um dos golos foi do Dimas na própria baliza (respect) e os outros dois do maestro Titov.

Dias mais tarde, à entrada do refeitório da minha faculdade, havia uma espécie de feira - umas bancas com aqueles artesanatos e jóias hippies, raparigas com tererés, djembés de enfeitar, cachimbos de água, missangas e um cachecol do Spartak. Optei pelo cachecol - até hoje não sei explicar porquê, mas também não me arrependo: é encarnado e branco, o que compõe muito bem a colecção, por entre os seis ou sete do Benfica, mais o gorro, os boxers e os dois jerseys (um é verdadeiro - n.º 10 Aimar, outro é da candonga e não diz porra nenhuma, mas é óptimo para as futeboladas e dá-me sempre muita sorte).

Hoje, porém, não é dia de deixar uma cachecol destes à mostra. Assim, antes de ir para o Estádio (com um bilhete que o meu amigo Manuel, furioso Benfiquista, gentilmente me ofereceu), decidi guardar o objecto numa caixinha adequada.