segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Açorda de espinafres

Ontem ninguém me viu no Estádio da Luz. Em vez de aproveitar a oferta do Dia dos Namorados para dar seguimento ao processo, que se adivinha lento e penoso, de conversão da Lady Verde ao saudável Benfiquismo, fiz questão de a acompanhar numa expedição ao Algarve que tinha como principal propósito a participação numa festa de aniversário.

Não era uma festa qualquer. Não só se tratava do aniversário de uma senhora por quem tenho apreço em doses generosas, como requeria um determinado preceito: o dress code era "figuras dos anos '80", com alguma flexibilidade para personagens que marcaram a década que se seguiu. Madonnas contei cinco e Spice Girls apareceram pelo menos 12, sendo que 7 ou 8 eram a ginger spice, aquela que usava uns tamancos grandes e pintava o cabelo de encarnado - opção que é sempre de louvar. Por uma questão que a lógica faz o favor de justificar, fui de António Variações: de uma penada, defendi a pop nacional, cantada em português, vesti calças encarnadas e usei brincos sem motivos para ficar ralado e dei uso substancial e vistoso a esta barba que uns dias me orgulha e outros me transtorna. Foi uma bonita festa, pelo menos a parte de que me lembro.

Enquanto o rei da pop portuguesa verificava se os cães dormiam confortáveis, o rei da pop americana passava lá por trás, só para aparecer na fotografia.

Hoje, a viagem de regresso foi penosa: saímos tarde, chovia muito, a seguir veio nevoeiro e eu não tinha como ver o jogo, que começava dentro de hora e picos. Devíamos estar na zona da Mimosa - importa dizer que fizemos e costumamos fazer a viagem pela estrada nacional, que eu para esbanjar com chulos já me basta fazê-lo com a Segurança Social, a EDP, a EPAL, a Galp, a Caixa Geral de Depósitos, todas as entidades bancárias que eu salvo com os meus impostos e o Estado Português, de um modo geral - quando, praticamente em desespero, decidi ligar o rádio no telefone (o rádio do carro não lê CD's nem apanha FM, AM ou onda curta - mas lê mp3 em pen, é um rádio muito moderno). A primeira rádio que apanhei foi a Renascença, com comentários do Pedro Azevedo, e pensei logo para comigo «esta merda vai correr mal». No momento em que alguém do Benfica - que deve ser de uma modalidade amadora jogada com o abdómen, visto que nunca faz a coisa bem feita - se preparava para bater mais um canto, decidi «vou aproveitar o tempo morto e procurar a Antena 1». Ainda o Ricardo engonhava para bater o pontapé de baliza quando a sintonia ficou perfeita e pensei de novo, quase em silêncio, «isto não vai ser fácil mas ainda vai ao sítio, cheira-me a penalty nos descontos».

O meu plano para o resto da viagem era, nesse momento, bastante simples: chegar Alcácer do Sal um pouco antes das nove e alegar uma fome insuportável e potencialmente letal, sugerindo, em simultâneo, repasto personalizado e distinto na pequena maravilha que é o Hortelã da Ribeira, o único restaurante daquela cidade onde me são garantidos dois luxos: SportTv e uma cozinha a roçar a excelência.

Os ovos com espargos estavam deliciosos, a açorda de amêijoas com espinafres (na foto) foi uma agradável surpresa para este palato inculto, o jogo estava parado e foi continuando assim, o vinho caseiro, muito nobre, tinha 15 e meio e o "meio Bushmills" acabou por ser oferta da casa, julgo eu que devido a "simpatia de Benfiquista".

Enquanto a Lady Verde se atirava a uma sobremesa de frutos secos com mel, eu, inspirando-me no guarda-redes da Académica, empatava tempo como podia antes de cada colherada numa açorda que arrefecia tão rapidamente quanto se aproximava o minuto '90. E foi entre a última colherada e um foda-se profundo e sentido com origem e destino no Carlos Martins que explodi «é penalty, caralho!» para espanto dos (felizmente) poucos presentes. Em minha defesa, indaguei apenas «então não é penalty?!», tendo recolhido compreensivas anuências e um complementar e enfático «em qualquer parte do mundo» de um senhor numa mesa do canto que estava a beber um bagacinho.

Pedi o café e um toquezinho de Bushmills, perguntei se se podia fumar, trouxeram-me tudo e mais um cinzeiro. Acendi o cigarro - um AC, vindo directamente do Lobito e que aconselho vivamente a quem está cansado das manhas da Phillip Morris e das cascas de eucalipto da Tabaqueira - e o Lima partiu para a bola. Lá foi ele, devagarinho, e devagarinho caiu o Ricardo e depois o Lima chutou, já de força. Foi, quanto a mim, um dos melhores golos da época, um milagre de golo, como o são todos os que sucedem na desesperança e na descrença: na minha cabeça, o Lima escorregou, o Lima tropeçou, a bola saiu torta, a bola bateu na barra, a bola bateu no poste, a bola entrou mas o árbitro mandou repetir e expulsou o Lima, aconteceu de tudo um pouco durante aquela caminhada lenta e tortuosa do Lima em direcção à bola. Já estava a bola dentro da baliza e o Lima com a camisola na mão a festejar euforicamente quando eu disse «foda-se, foi golo, finalmente, porra!». Depois disso, pedi a conta, acabei o Bushmills, fumei mais dois cigarros de seguida e com muita urgência, paguei e saí. Estava eu à porta quando o senhor do bagaço me pergunta «então e não bebe um bagacinho?» e eu «já bebi, já bebi... mais não posso» e ele «é que pagava eu... o senhor é um bom Benfiquista».

Chegámos a casa tarde, mas chegámos bem. Alimentados no corpo, no paladar e no espírito.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O domingo de bola mais dramático de todos os tempos

Andava meio Portugal, de Ovar a Olhão, de Torres Vedras a Sesimbra, de Loulé a Estarreja, de Sines à Mealhada, com a Cabeleira do Zezé na cabeça, a tentar perceber se ele afinal é ou não é, e estava eu colado à página da Live Scores - fiquei sem telefonia e agora, para acompanhar a marcha dos resultados, recorro às novas tecnologias - como se estivesse de castigo. Não é - absolutamente - a mesma coisa. O quanto eu queria ouvir com atenção o Sporting - Marítimo à espera que a Académica fizesse o golo do empate enquanto um dos comentadores descrevia mais uma inacreditável perda de bola de Rinaudo à saída do meio-campo, sempre antecipando aquela entrada que, vinda de longe, se vai aproximando, aproximando, aproximando, acompanhada do efeito sonoro vziu-vziu-vziu, «GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO» numa palavra sem fim, que dispensa o «LOOO» porque já toda a gente sabe como ela acaba. Acabei dando por mim a olhar para uma tabela de resultados com luzes verdes a piscar e minutos a passar e a Académica sem marcar e o Moreirense a fazer o terceiro e o Gil Vicente que não me conseguia parar aquele Setúbal, uma das piores equipas que eu vi jogar nesta liga.

A minha vida não é só ter este blogue - eu também estou ligado a outros blogues. Daí que, em vez de ter andado, como o estimado leitor andou, a sambar de tanga em cima de um palco alegórico atrelado a um tractor, eu tenha ficado em casa a cuidar da evolução dos resultados da bola. A verdade é que um desses blogues a que estou ligado tem uma particularidade que o distingue dos demais: serve quase exclusivamente para conduzir uma liga privada, que se disputa entre amigos. Trata-se de uma competição mais ou menos saudável que mistura a compreensão da conjuntura, o talento para a leitura de jogo, o jeitinho para o palpite e a experiência de apostar no totobola. Todas as semanas os participantes nessa liga pegam no quadro de jogos do campeonato e apostam 1 ou X ou 2 no resultado de cada um dos jogos - temos ainda direito ao uso de uma aposta dupla por jornada. Depois é esperar que os Tozés Marrecos da Zon Sagres nos venham confirmar as previsões. Antes do Natal faz-se um jantar de grupo e no final da época jantamos juntos outra vez. Os atletas da segunda metade da tabela pagam o jantar; os da primeira metade comem e bebem o quanto puderem ser qualquer tipo de preocupação ou piedade. O vencedor da competição ganha ainda uma camisola à sua escolha, que será paga pelos restantes concorrentes. É um jogo simples, portanto.

Até ontem, e desde há umas quantas jornadas (creio que são 6, mas não tenho a certeza), eu liderava, com alguma tranquilidade, a tabela. Para esta jornada, a minha aposta foi a seguinte: Estoril - Guimarães: 1; Académica - Rio Ave: 1/X (foi a dupla que usei); Sporting - Marítimo: 1, Moreirense - Beira-Mar: 2; Setúbal - Gil Vicente: 2; Nacional - Benfica: 2; Porto - Olhanense: 1; e Braga - Paços de Ferreira: 1. Ou seja, até ao momento, consegui o extraordinário número de um acerto em sete palpites. É trágico.

No entanto, e porque o futebol é um belíssimo desporto, carregado de drama e de justiça poética, existe a possibilidade de, mesmo depois desta exibição risível, eu manter a liderança da prova, bastando-me para tal que o Braga vença o Paços de Ferreira. Vou confiar que a carnavalice de ontem não irá repetir-se hoje, até porque o Pedro Proença já desfilou, por entre bombos e ponchas. A única coisa que me assusta é aquela sensação peseirista de que isto ainda pode correr pior.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Permitam-me que questione um elogio

Que maravilha, que «não festejou o golo em Braga», dizem. Li algures, há uns dias, este inesperado elogio a Rodrigo José Lima dos Santos, craque do ataque Benfiquista que permite extraordinários trocadilhos nas capas dos jornais desportivos por não fazer uso dos nomes Rodrigo, José ou dos Santos. Lima, esse mesmo, o homem que faz golos com mais frequência do que eu escrevo textos para o meu próprio blogue (e de quem ainda espero um determinado poker esta época - mas isso são outras fantasias).

Lima, esse avançado móvel, inteligente, forte e generoso, com instinto goleador e pontapé potente, que bateu, sem dúvidas nem piedades, números de craques da linha atacante por quem se chorou baba e ranho aquando da despedida: estrelas internacionais que dispensam apresentações, como Miccoli ou Saviola (os meus queridos Fabrízio e Xavier Pedro, atenção). Lima, esse de quem duvidei, com o meu sobejamente conhecido talento para a prospecção de talentos (o mesmo talento que me permitiu depositar fé em Emerson ou ter esperança nas mãos de Roberto, de resto), que merecesse um milhão que fosse dos mais de quatro que pagámos àquele clube que anda há uns anos em bicos de pés, a fazer de Boavista.

Dizem-me então que o Lima, especialista em meter antecessores no chinelo, para não falar nos tiros de meia-distância que executa com raro preceito, é um tipo digno de apreço porque, em Braga, depois de ter marcado um golo quando nem eu nem o Beto esperávamos que aquele lance desse meio pontapé de canto, sequer, não festejou o tento. Por respeito ao Braga. Eu, se me permitem, discordo absolutamente desta moda da correcçãozinha de armar ao diplomata.

Eu, que estou no Estádio sempre que posso e que festejo tudo quanto é golo nosso e que pago as quotas todos os meses - dois meses em Dezembro - e os bilhetes sempre que me é necessário, eu!, o mínimo que espero de um jogador do Benfica é que festeje comigo os golos que ele marcar. Porque é o Benfica quem lhe paga e são os Benfiquistas que puxam por ele, gritam o seu nome, o aplaudem e acarinham, semana após semana, às vezes duas vezes por semana. Vão-se lixar com essa teoria polida e repleta de correcção e bons modos: se o Lima marca ao Braga ou a quem quer que seja, o que eu espero dele é que erga os braços com alegria e satisfação, não que peça desculpa ao adversário a quem pagámos, e bem, o preço que nos pediu para que possamos usufruir dos seus serviços em campo.

Podem alegar que o coração nestas coisas também conta. Certo, temos acordo aqui. Eu próprio não festejaria, nunca!, um golo contra o meu Benfica. Decerto sucederá o mesmo com cada pessoa em relação ao seu clube. E com o Lima, pela amostra, sucederá sempre que marcar ao Vizela, ao Mixto, ao Paysandu, ao Iraty, ao Malucelli, ao Paraná, à Juventus de São Paulo, ao Santos, ao Avaí e ao Belenenses, tudo clubes que, como o Braga, certamente terão ficado no seu coração da mesma maneira e pelas mesmas razões que o Braga ficou: porque o empregaram. Pela minha parte, dispensava um coração tão grande e pronto a amar: bastava-me que tivesse festejado o golo condignamente - sem provocações, sem um "toma, caralho" ou algo do género -, apenas um festejo alegre, digno e merecido: "GOOOOLOOOO!», com os braços erguidos.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Quero o Porto fora da Taça da Liga, pronto

Fico contente: o 227218 não cultiva o leitor propenso à patetice ou ao desimportante. Isto é malta que não vai nessa de apreciar o jogo pelo jogo nem de tomar a paixão por órgão vital do fanático. Não. Isto é povo de fazer a leitura do resultado, a previsão do futuro, a antevisão da vitória ou da tragédia, a avaliação peremptória do craque ou do tosco, de opinar sobre o esquema táctico, o esquema da arbitragem ou o esquema do presidente, seja ele de que clube for. Não andamos aqui para recordar Gullits nem Van Bastens ou para ter saudades dos Paneiras desta vida. Pirlos e Busquets?! Era o que faltava: escolher entre Messi e Ronaldo é que é a nossa missão. Mas agora um tipo mantém um blogue Benfiquista para mostrar cachecóis e apreciar Falcões e Zlatans?! Que ridículo, desperdiçar espaço de internet com coisas de somenos quando podíamos estar a esmiuçar a hesitação do André Gomes no momento do passe ou a dança tribal que o Rodrigo executa em torno da bola quando a recebe, à procura de um pé qualquer que, aparentemente, não será o direito, mas que também não parece que seja o esquerdo.

É um texto ressabiado, pois é. Então uma pessoa lança um tema como o hipster da bola e fica a falar sozinha?! Mais de 1200 visitas durante o dia de ontem, mais de 600 cliques no post anterior, onde se pretendia lançar uma conversa sem pés nem cabeça, e quantas contribuições para essa conversa? Nem uma. Mas o futebol é muito mais bonito se a gente vier para aqui discutir o quarto-de-hora fora-da-lei dos três marrecos do Porto na Taça da Liga, não é?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Não tem truque, é uma coisa honesta

Vi uma coisa algures pelo facebook - uma publicação de um amigo, provavelmente, já que o assunto era bola e eu, com a malta da bola que me adiciona, costumo estreitar relações, mesmo que, de início, não faça a menor ideia de quem aquela pessoa se trata -, dizia eu que vi no facebook um artigo - quem diz artigo diz uma piada, uma coisa com a sua graça - acerca de dois temas que me fascinam: o futebol (deduzo que não seja para vós uma novidade) e os hipsters (deduzo que já tenham ouvido o termo - e se vocês próprios o são, não têm do que se se envergonhar... tirando meia-dúzia de coisas, no máximo).

Antes de escrever mais aprofundadamente sobre o assunto, gostaria de meditar sobre ele e, de caminho, tomar o pulso aos meus estimados leitores que quiserem ter a bondade de comentar - aproveito para repetir que consegui finalmente retirar aquele horror da verificação de palavras.

Leitor do 227218 antes da sua futebolada semanal entre leitores-coleccionadores do Ípsilon e malta dos blogues de música e cinema alternativos e/ou indie. O leitor joga pelos blogueres.

Assim, sugiro a leitura desta lista e apelo ao comentário sobre o tema. Eu tenho aqui uma costela ou duas que são de hipster da bola - aquela parte do Busquets, a menção do Zlatan, o Milan dos holandeses... Enfim, não há como escapar. E tu, possuis os pré-requisitos necessários para alinhar numa futebolada daquelas?

Novo reforço apresentado

Tal como fora anunciado ontem, o novo reforço do plantel de objectos que dão jeito para rituais, magias, superstições, ocultismo, voodoo, macumba e demonstrações inequívocas de apoio ao Benfica foi apresentado hoje à hora do pequeno-almoço do sócio - hora do almoço em Portugal continental e na Madeira, menos uma hora nos Açores. O exemplar do Arsenal, alusivo à visita do clube inglês à Luz numa eliminatória da Champions em 1991 - eliminatória essa que o Benfica ganhou e que ficaria para a história devido à esplendorosa exibição de Isaías em pleno Highbury Park - posou para a fotografia com o restante plantel

Da esquerda para a direita e de cima para baixo: jersey de contrafacção da época 2011-2012; camisola oficial de 2010-2011, com o n.º 10 de Pablo Aimar; gorro adquirido na primeira expedição do Grupo Excursionista 'Tá a Andar à Marinha Grande para assistir ao União de Leiria - Benfica, em Janeiro de 2012; cachecol adquirido há já muito tempo, não me lembro porquê; cachecol alusivo ao 32.º campeonato; cachecol do Benfica - Liverpool, no plantel por empréstimo do Roberto Adalberto Norberto Gilberto; cachecol capitão de equipa, titular no meu pescoço desde 2011; o tal reforço do Arsenal; boxer short de Benfiquista adquirido em inícios do terceiro milénio da era Cristã; chinelo de Benfiquista, prenda de Natal de há dois ou três anos.

e depois, numa composição mais selecta, apenas com os capitães de equipa.

Aqui, o reforço arsenalista acompanhado pelo gorro do viajante, pelo capitão de equipa e pelo jersey de Pablo Aimar.

A transferência foi concretizada ao final da tarde de ontem, cerca das 19h00, junto à entrada do Pavilhão Império Bonança. Após a realização do negócio, o novo reforço foi levado, juntamente com o cachecol capitão, a conhecer a roulote do Manelito e, mais tarde, a assistir ao jogo entre Benfica e Vitória Futebol Clube, uma equipa de Setúbal que joga francamente mal à bola. Apesar do adversário débil, o Benfica não conseguiu ir além de um magrinho 3 a 0. No final, comentava-se que Rodrigo a jogar entre linhas, nas costas do ponta-de-lança, era uma enormíssima nódoa. Por outro lado, dizia-se de Enzo Pérez que teria feito o seu melhor jogo com a Sagrada Camisola vestida.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Última hora: transferência inesperada

É oficial: chega hoje ao fim o contrato que liga o 227218 ao cachecol do Spartak de Moscovo. A transferência, que se realiza já para lá do fecho oficial da "janela" que a UEFA determina, só é possível por envolver um clube russo - de outro modo, só poderia concretizar-se em Junho. As negociações, essas, duram há já vários meses: mais concretamente, desde a visita do Spartak ao Clube da Luz, em jogo da Liga dos Campeões. Na ocasião, o cachecol protagonista surgiu numa fotografia encaixotado, no que parecia tratar-se de um ritual macumbeiro ou coisa do género. Na altura, o pretendente e futuro proprietário contactou o detentor dos direitos desportivos do objecto de culto e as partes acabariam por chegar a acordo.

A transferência não envolve qualquer verba, já que o 227218 recusou, por razões afectivas, a venda do passe; antes, o anterior dono do cachecol do Spartak recebe, em compensação, um cachecol alusivo ao Benfica - Arsenal de 1991, um modelo original e fabricado em Portugal, destinado aos adeptos ingleses que, na ocasião, se fizeram deslocar ao Estádio da Luz. Apesar da idade, o "novo" cachecol apresenta-se com grande estampa, continuando a fazer da elegância a sua imagem de marca. Prevê-se que a apresentação do novo reforço aconteça amanhã, à hora de almoço. Mas tudo dependerá dos acontecimentos de logo à noite, na Luz: se o Manelito decidir fechar cedo, é bem capaz de acontecer que o novo cachecol seja apresentado aos sócios ainda hoje.

O 227218 escolheu, não por acaso, este cachecol como moeda de troca: a recordação de Isaías em Highbury Park, na segunda mão da eliminatória que o cachecol assinala, por um lado, e o carinho que o sócio sente pelo clube londrino, por outro, levaram a que a decisão fosse fácil e rápida. Já o cachecol do Spartak, que agora troca de mãos, deverá voltar a transferir-se brevemente, segundo informações a que o 227218 teve acesso. O cachecol do Arsenal junta-se assim a um plantel numeroso e sempre marcado pela presença do encarnado que o Grande Clube glorifica.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Widzew Lodz - Tromso IL

Quando anseio por um jogo de bola, como é o caso do desafio de logo à noite para a Taça, o meu organismo reage como se sofresse de falta de açúcar no sangue - só que em futebol. Tentando estabilizar-me, abro normalmente o First Row, na esperança de apanhar algum jogo da CAN entre países com baixa esperança média de vida ou aquelas eliminatórias mal resolvidas de um Taça da Eslovénia entre equipas cujo nome se escreve com caracteres de que não disponho. Hoje, o melhor que consegui foi um particular de pausa de Inverno entre o Widzew Lodz e o Tromso IL. O relvado do Widzew Arena é sintético, mas os árbitros eram da UEFA e uma das equipas, que suponho que fosse o Lodz, tinha brasileiros, o que conferia um ar um pouco mais sério à situação.

Foi, como se usa dizer, um jogo sem grande história. O Lodz lá ganhou e penso que parte do mérito da vitória se deve ao apoio incansável de um público pouco numeroso e bastante desafinado, sim, porém cheio de vontade e, suponho, de fé, uma vez que não encontro outra explicação para se ser adepto desta equipa. Nem da outra, já agora, mas essa não tinha ninguém a apoiá-la, o que me reconforta na medida em que me mostra que existe alguma lógica no espírito das gentes da bonita cidade de Tromso.

O placard ficou em 2 a 1 e eu, entre comentários jocosos no facebook a propósito do desafio, lances de xadrez no Chess.com e cuidados com o meu manjerico gigante - o Matusalém, que já tem quase um ano -, acabei por não ver qualquer dos tentos. Isto, conjugado com a qualidade de jogo das equipas, leva-me a crer que o resultado foi manipulado, já que não acredito que alguma das formações tenha conseguido, de facto, sair dali da região do meio-campo, fosse com passes, em futebol apoiado, ou em lance individual, com algum talento a sobressair. Em termos de talento, as 12 pessoas desafinadas que cantavam pelo Lodz ficavam claramente acima das 22 descontroladas que povoaram aquele hectare durante 90 minutos.

Matusalém, manjerico com 273 dias de idade, aprecia a paisagem - de futebol gosta, mas não liga muito.

No entanto, o que mais me surpreendeu foram os esquemas tácticos das equipas, que encaixaram na perfeição: se uma fazia lembrar um novelo, a outra mais parecia um embrulho. Alguém distraído e descontextualizado que olhasse de relance poderia pensar que estavam em campo mais do que os 22 jogadores que a lei autoriza - mas não, o que acontecia é que os 20 que não eram guarda-redes se juntavam todos ao centro para mandar pontapés para cima - e todos juntos pareciam mais do que eram na realidade. A estratégia de ambos os conjuntos também não diferia por aí além e juntava elementos de artes distintas e distantes, como a barbárie, o absurdo e o arremesso bizarro de objectos redondos.

Agora que terminou a partida, não me sinto saciado, os nervos continuam. Abro o First Row e fico contente: há jogos da CAN. Posso escolher entre o Togo - Tunísia ou o Argélia - Costa do Marfim e lamento o emparelhamento das equipas, pois acho que teria mais interesse se fosse um derby berbere e um clássico entre nações que eu tenho dificuldades em situar no mapa. Mas, postas assim as coisas, vou assistir ao Togo - Tunísia, que eu gosto do Adebayor.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

«Houve uma decisão»

Esta noite sonhei que o Sporting ganhava o campeonato. Este campeonato. Foi um sonho complexo. Não estou a gozar nem a tentar ter graça. Estou a relatar um facto: sonhei que o Sporting ganhava este campeonato.

Estávamos em casa do meu pai, que era a casa dos meus avós, no pátio, a fazer um churrasco. De repente, começámos a ouvir foguetes a rebentar. O meu irmão também estava lá. O meu irmão costuma dar azar. Ficámos intrigados com aqueles foguetes, até que começaram a chegar figuras nossas conhecidas. O senhor que tinha os foguetes e os ia atirando disse «vivó Sporting!» e lançou mais um. Então perguntámos «mas o que é que se passa?» e ele «campeões, campeões, nós somos campeões!» e lançava mais foguetes. Havia caos, dava para pressenti-lo. Nos nossos olhares, nos sorrisos patetas, no nosso susto indisfarçável: caos caos caos caos caos caos.

Entretanto, chega também o meu tio, grande sportinguista, todo ele feliz, muito feliz. Mas, chegando perto de nós, serenou e disse «ganhámos, porra!». E eu perguntei-lhe «então mas ganharam como? Nós é que estávamos em primeiro, ganhámos o jogo; o Porto, que estava igual a nós, empatou; e vocês, que ainda nem jogaram e estão lá atrás, como é que ganharam o campeonato?! Isto ainda nem acabou» e ele explicou que, por alguma razão que Freud haveria de explicar mas que o Sábio eloimita do Houellebecque rejeitaria com veemência e com uma explicação melhor ainda, «houve uma decisão e nós é que ganhámos. Campeões, campeões, nós somos campeões!».

Todo eu estava confuso. Fomos ao café do Guerra, que é uma tasquinha com esplanada, à beira da estrada, para tomar um café e ver se aquilo era mesmo verdade. O Guerra é um sportinguista muito doente, no que respeita ao clubismo. Chegámos e era o próprio, com os seus setenta anos ou quase ou mais ainda, não faço ideia, mas novo não é, em cima do muro, a soprar a vuvuzela e a gritar e a cantar. Deduzi que fosse verdade, pedi quatro bicas, dois bagaços e um Famous Grouse, sentámo-nos e eu enrolei um cigarro.

O homem dos foguetes, aparentemente amigo de infância do meu pai, continuava a largá-los, uns atrás dos outros, era uma felicidade imensa. O Guerra chegou com os cafés e os bagaços nas mãos ao mesmo tempo que soprava a vuvuzela, batia num tambor e agitava dois cachecóis, um em cada mão. Era um autêntico carnaval e eu só pensava «bom, do mal o menos... antes eles que os outros» e a seguir pensava «porra, mas como?!» e, de seguida, pensava «caramba, depois de uma época nossa destas, quase perfeita, estes tipos ganham porque houve uma decisão?!» e ficava desmotivado, só com aquele pensamento de «outra vez o 'é para o ano é que é', bolas?»

Já ia a meio do bagaço quando os sportinguistas que se iam juntando e eram cada vez mais, aos pulos, à nossa volta, com confétis e serpentinas e o Guerra com a vuvuzela, começaram a cantar «SLB... SLB... SLB, SLB, SLB... Glorioso! SLB... Glorioso SLB...» e eu perguntei ao meu tio «então mas não era filhos da puta?» e ele, com a sua serenidade de vencedor, explicou «isso era dantes. Mas agora, como fomos nós que ganhámos, vocês já podem ser gloriosos outra vez».

Acordei todo suado ainda não eram oito da manhã e não consegui voltar a dormir. Já não acordava às oito da manhã desde meados de 2006.

Diálogo de véspera de Taça

-Querido Master, os teus bigodes estão tão grandes.
-É com satisfação e orgulho qu
-Mas tão grandes que nem se consegue ver a tua boca. Não tens tesouras?
-A tua petulância é como um
-Consegues comer sopa com esses pêlos todos assim?
-As tuas palavras, milionésima migalh
-E como é que fazes para beber cerveja? Ficas com isso cheio de espuma...
-Ínfima molécula de Gloriosa e Encarnada ascendência... tens o extraordinário dom de me arreli
-Deixaste de beber cerveja? Mesmo quando joga o Benfica?
-Ofendes-me!
-Ficas um bocadinho feio. E velho.
-Devias saber que bebo minis! «O gargalo de uma min...
-«duma mini elimina o risco de um bigode de espuma», sim. Olha, tenho uma tesoura. Queres?
-Pequeno Vermelho... Pequeno Vermelho, Pequeno Vermelho, Pequeno Vermelho... é véspera de Taça, jogamos em Paços de Ferreira. Não me atreverei a tocar no bigode ou na barba nestas circunstâncias, como é evid
-Posso ir à final da Taça contigo?
-Bom... se o cosmos, alinhado e correcto, permitir que a nossa querida Equipa atinja o derradeiro desafio, farei gosto em levar-te comi
-Mas eu não tenho bigode.
-Não t
-Achas que consigo ter um grande bigode até Maio?
-Parece-me bastante improv
-E posso beber minis?
- :-|

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Esta mensagem será destruída logo que me apeteça

Isto, porque o assunto é extraordinário, no sentido de "fora do vulgar": o blogue está em metamorfose estética e gostaria que os meus estimados leitores e mesmo os leitores dos outros clubes que por aqui passam os olhos deixassem o seu contributo para que este sítio fique mais e mais bonito. E com mais ar de casa de Benfiquista. Tenham a bondade.

PS - Podem mesmo comentar: a verificação de palavras, para saber se vocês são ou não robôs, foi desactivada. Podem ser robôs à vossa vontade, quero lá saber.

Chatices da bola

Há quem defenda que uma pessoa não se deve chatear com amigos por causa de bola. Tendo a discordar. Se há bom motivo para eu me chatear com amigos é precisamente a bola. Por diversas razões. A primeira de todas deriva de uma questão prática: dificilmente me chatearia com amigos por quaisquer outros motivos, não sou uma pessoa de quezílias por dá cá aquela palha, de quid pro quo's ou melindragens por insignificâncias mundanas. Resta-me, assim, o futebol como refúgio, gatilho, rastilho e combustível - em última análise, como "um bom motivo" - para me chatear com a rapaziada.

Dizem-me que não, que isso não tem jeito. Eu considero o oposto. Por exemplo, já houve tempos em que me chateei com amigos por causa de dinheiro. Hoje compreendo que isso, sim, é uma chatice fútil. O dinheiro é uma coisa que, em si mesma, não é uma coisa. É um meio. A mim o dinheiro não me faz nem bem nem mal. Já o futebol tanto me faz bem como me faz mal. Aliás, é precisamente por isso que gasto dinheiro com o futebol - e faço-o sempre sem um pingo de remorso. E nunca considerei "caro" um bilhete de futebol. Posso ter ou não ter dinheiro para ele. Mas caro, propriamente dito, é, por exemplo, qualquer imposto que eu pague, porque sei que é um pagamento abstracto, sem consequência imediata e palpável - provavelmente, servirá para pagar uma nesga de um juro de uma dívida remota a uma banca que eu já, com a minha migalhinha, ajudei a financiar e que agora me cobra por uma razão qualquer que algum senhor especialista em assuntos de dinheiro conseguirá não só explicar como até entender. Agora, um jogo de bola é um investimento seguro: uma pessoa paga e vê golos, vê o Estádio, vê as pessoas, ouve o hino, festeja, aplaude, chama nomes ao árbitro, etc. Há uma série de bens e serviços diante dos nossos olhos, tudo em simultâneo, num espectáculo proporcionado por artistas que custam um balúrdio, ainda por cima, e que são, na sua generalidade, gente famosa, que dá na televisão e tudo. O futebol só será caro a partir da inacessibilidade por exorbitância obscena. Todos os preços abaixo disso serão aceitáveis, se compararmos com o tal imposto não sei quê da sobretaxa com os cabrões dos duodécimos ou lá o que é.

Se me dizem que não devo chatear-me com amigos por causa do futebol, fico logo um bocado chateado. Um amigo que seja verdadeiramente meu amigo saberá o quanto o futebol importa para mim. Se não souber, é porque não será assim tããão meu amigo e, então, dispenso aquela relação que eu julguei que tínhamos, chateio-me à minha vontade e sem pudores e até lhe posso chamar nomes. Se se tratar de um verdadeiro amigo, então saberá que não deve chatear-me a cabeça com assuntos futebolísticos e que, se o fizer, estará exposto à minha ira, à minha irracionalidade, enfim, ao meu direito legítimo a perder as estribeiras por causa de uma merda qualquer - como dizer que o Aimar é uma fraude, por exemplo, ou que o Cardozo é um coxo ou o Peseiro é melhor que o Jesus.

Atenção, não estou com isto a querer dizer que "devemos" chatear-nos com os nossos amigos por causa do futebol. Não estou a apelar à desavença, nada que se pareça. O que eu defendo é a consagração do direito à chatice por parte de quem gosta mesmo de bola. Porque uma pessoa às vezes chateia-se e há quem olhe para nós como se fôssemos uma besta qualquer que se está a chatear sem motivo razoável, que é um bruto porque dá demasiada importância a isso da bola. Essas pessoas têm a ignorância que merecem e o preconceito que lhe é inerente. Mas gostava que respeitassem o meu direito a nem sempre achar que está tudo bem se me dizem que o João Ferreira gamou a favor do Benfica - isso é que por amor de deus.

Agora é isto da Taça da Liga - lá anda o sacana do Benfica a manipular esta porra toda para ganhar mais uma taça daquelas, uma coisa valiosíssima e pela qual valerá a pena contornar regras, se possível, corromper, manipular, já que o objecto, quase raro nas estantes do Benfica, visto que ainda não ganhámos nem poderemos nunca vir a ganhar a primeira edição que se disputou, merece qualquer esforço ou enredo que permita a sua conquista. Portanto, temos um clube, que é o Porto, que fez uma coisa qualquer, que eu não sei nem quero saber o que foi - não me diz respeito - que, aparentemente, viola regras que estão escritas e publicadas há meia-dúzia de anos. A entidade que gere a coisa admite que, assim sendo, é capaz de haver lugar a uma punição, uma vez que as regras não foram cumpridas. "Ai que a culpa é do Benfica". O Benfica, vejam bem. Que está sossegadinho, a cumprir as regras. Depois querem que uma pessoa não se chateie.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Redigir, auxiliar, adivinhar, entreter

O jornalismo desportivo é, para mim, o que o fair-play é para o Jorge Jesus: uma treta. Aliás, reformulo - a afirmação anterior era injusta para com os bons profissionais que existem no jornalismo desportivo (e existem muitos, felizmente): as notícias de transferências de jogadores na imprensa desportiva são uma enorme banhada - estamos todos de acordo neste ponto, certo? Dá a ideia de que um chefe de redacção pega nuns papelinhos com os nomes dos auxiliares administrativos da empresa e faz um sorteio. Os felizes contemplados terão o direito de dar aso à sua criatividade, exprimindo, muitas das vezes, desejos pessoais, ao ponto de ser ler na página xis d' O Jogo ou d' A Bola (confesso que raramente abro o Record) uma redacção que se aproxima mais de um diário pessoal ou de uma carta ao Pai Natal do que de uma notícia: «se pudesse ser, eu gostava muito que viesse aí o Anzhi ou uns chineses ou assim e que comprasse toda a frente de ataque do Benfica, mais o Matic. E o Artur».

A questão do entretenimento especulativo nas páginas de um jornal que se dedica, em grande parte, aos detalhes absolutamente desinteressantes e irrelevantes de plantéis de equipas de futebol, quando o dia não é de jogo, não costuma apoquentar-me. Leio A Bola ou o Jogo - ou ambos, se me sobra o tempo; ou ambos e ainda o Record se me levantar da cama antes das onze da manhã, o que me deixa tempo até para ler a Marca, se me apetecer saber a cor das cuecas do Pepe no treino de sexta-feira passada - como podia ler as 50 Shades of Grey, se eu fosse uma dona de casa de meia-idade pronta para descobrir as maravilhas da sexualidade plena, ou uma trafulhice literária qualquer do José Luís Peixoto, se eu fosse uma dona de casa da terceira idade sem qualquer tipo de expectativa ou optimismo no pouco que me restasse da vida. Sucede que, desta vez, o administrativo a quem calhou em sorte, n' O Jogo, redigir sobre "transferências quentes" (chamemos-lhe assim), foi demasiado longe.

Ando desde há quase duas semanas, se não me engano, a ler que Pablo Aimar arrumou o cacifo. E, já por diversas vezes, que o deixou "limpo". Não me custa crer que Aimar seja um exemplo de higiene e organização, de maneira nenhuma. Porém, quer-me parecer que estamos a entrar no domínio da compulsão, segundo este relato, que repetia que "Aimar já não treinava com os colegas" e que já tinha "limpo e arrumado o cacifo". E eu só imagino Pablo Aimar a sair para o Seixal e, em vez de se ir treinar com os companheiros, fechar-se no balneário a arrumar e limpar o próprio cacifo, todos os dias, obsessivamente. Imagino a senhora Aimar a perguntar-lhe «mas querido, onde vais»? e ele «tenho de ir ao Seixal» e ela «mas hoje não tens treino» e ele, com um ar transtornado, «mas tenho lá assuntos importantes a tratar» e ala, que lá vai ele, arrumar e limpar o cacifo outra vez. «Andas a gastar muito em detergentes», diria a senhora Aimar, em tom de queixa.

Esta indústria do "e se a gente dissesse qualquer coisa, assim ao calhas, sobre determinado assunto?" tem certas particularidades que me fascinam e, ao mesmo tempo, assustam um pouco. Existe, por exemplo, uma espécie de competição nisto da redacção aleatória. Aparentemente, os jornais tentam ser, cada um deles, não só aquele que acertou com um palpite bizarro no que viria a passar-se, realmente, num futuro mais ou menos próximo, como ainda pretendem ser os primeiros a fazê-lo, de modo a que possam exibir o dom da adivinhação nas suas páginas, segundo o molde seguinte: «como O Jogo avançou, em primeira mão, já em Janeiro de 2013, Aimar assinou esta madrugada pelo Al-Ahli e amanhã, primeiro dia de Agosto de 2017, o genial argentino apresenta-se ao serviço dos dubaienses». Nunca sei se é dubaienses ou dubaieses.

Os anos de experiência no entretenimento em páginas de jornal levou a que certos detalhes tenham evoluído, de maneira a assegurar que a informação veiculada é certeira. Assim, em conjunto com o seu editor ou redactor-chefe, o administrativo responsável pelo texto elabora uma espécie de sistema infalível: passados uns dias sobre a publicação do primeiro texto - dias em que, por toda a redacção, se fazem rezas e mezinhas no sentido de ajudar a que a coisa aconteça mesmo, mas sem que se obtenham resultados satisfatórios -, lança-se uma segunda composição em que se afirma o contrário do afirmado na anterior. Por norma, este passo não se executa desmentindo a primeira informação, mas antes levando o leitor a aceitar condescendentemente que a coisa não aconteceu agora, mas pode muito bem vir a acontecer, se calhar.

No caso específico, o único que, na realidade, me rala, diz-se agora que Aimar, depois de muito limpar e desinfectar o cacifo, após litros e litros de lágrmias em despedidas que se repetiram numa base quase diária, afinal não vai já para o Dubai. Vai só mais logo. E, assim, uma das duas notícias d' O Jogo estará certa - se não for a primeira, será a segunda, e vice-versa. Isto é um esquema muito esperto, há que dizê-lo. Aqui entre nós, espero que o administrativo que redigiu a segunda seja o do palpite bom.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Um mar de ilusões feito deserto

O Lima não consegue. O Lima teima em não conseguir e eu começo a perder a esperança. Começo a questionar o investimento de 5 milhões de euros num ponta-de-lança que não cumpre com a única exigência que estabeleci para ele. O futuro não se me afigura, aliás, risonho. Existe toda uma conjuntura a transfigurar-se sobre mim, preparando-se para contrariar qualquer desejo que eu formule.

Na quinta-feira, tinha o jogo começado às oito e meia, e eu, deviam ser umas nove, se tanto, já havia recebido quatro ou cinco SMS sobre o assunto: «hoje é que é», «desta é que o Lima te faz a vontade», «isto ainda vai é à manita». Fico feliz por constatar que há gente de crenças firmes que se agarra a uma ideia e deixa que a sua paixão a siga com a cegueira própria de quem não pode questionar, simplesmente porque tem fé e a fé lhe basta. Não me sinto só, o que me tranquiliza. Porém, o que me sossega é, ao mesmo o tempo, o que me desola: como, Lima, como é que tu podes desapontar tanta gente, semana após semana? Um mar de ilusões feito deserto, um oceano de vislumbres grandiosos, vasto mas antigo e agora Sahara de sonhos. O poker do Lima é cada vez mais um mito urbano.

E o Sporting? Num ápice, atinge a primeira metade da tabela e adianta-se seis pontos em relação ao Gil Vicente. Para cúmulo, o Beira-Mar sobe de forma e ameaça não integrar o grupo de aflitos quando se chegar à derradeira jornada em que recebe os aflitos de Lisboa. E eu? E os meus sonhos, ahn? E aquele plano do Marquês?

Eu, eu que não tiro a barba desde Fevereiro do ano passado! É quase um ano de restrições e cuidados. A minha mãe diz-me que pareço dez anos mais velho. Há quem evite sentar-se ao meu lado no metro. Em Setembro aparei-a no barbeiro, aqui por baixo de minha casa. Não falámos de futebol. Depois de a ter aparado, voltei a deixá-la crescer no registo selvagem que vinha alimentando até então. A minha sobrinha acha que pareço um homem das cavernas. Tudo o que quero extrair desta lenta e exigente composição capilar facial é um bigode imponente que possa levar ao Jamor, para ver o Benfica. E o Benfica vai-me dando razão e alento para o sacrifício. Mas e o Jamor? Quem me garante que é no Jamor que se joga? E se não for lá a final? Onde é que eu grelho as febras e as entremeadas? E se o meu bigode perder a razão de ser?

«Mas ainda tens o campeonato», dizem-me alguns, uns quantos, uns poucos. Pois tenho. Um campeonato disputado ombro-a-ombro com uma equipa recauchutada, remendada com Sporting - é bocadinhos de Sporting em toda a parte: no meio-campo, no ataque, no meio-campo de ataque. Só me falta que vão buscar o Labreca ao Olhanense e que contratem o Peseiro para eu abrir uma petição online a exigir a invalidação deste campeonato. É desumano. No início da época, eu não tinha esperanças mas nunca deixei de acreditar que valia a pena. Assim, tenho dúvidas. É tudo o que me resta. Parece que só andam aqui para me estragar as felicidades.