quarta-feira, 8 de maio de 2013

Terapia - sessão #1: a confissão

Todos temos o direito a estarmos apreensivos. Olhando sobretudo para o passado recente, facilmente constatamos que, na hora da verdade, a tradição de levar a melhor está mais do lado do Porto do que do nosso. Sinal disso, aliás, é o facto de podermos ter, a esta hora, o titulo no bolso e de, afinal, eu estar a escrever este texto em vez de estar numa esplanada qualquer a fazer coisas que me levassem de volta ao desemprego - conservando, porém, um enorme sorriso e muito pouca consciência (porque um homem não se deve acanhar quando a hora é de festa).

Mas não, não é isso que sucede e os foguetes que se lançaram com um destino muito certinho acabaram por perder-se no espaço hipotético que separava um cenário lógico e esperado de um outro que é a realidade do quotidiano Benfiquista: mesmo quando tudo corre imensamente bem, pode existir um momento em que uma pequenina coisa corre um bocadinho mal e isso, quando se tem um adversário como o é o Porto, pode ser - eu não disse «é», disse «pode ser» - suficiente para deitar a mais brilhante época de que tenho memória às malvas. Porque a verdade é esta: para a história ficará o nome do campeão e da colecção no museu só constará o troféu - o segundo classificado e o quase-troféu são coisas que não ostentamos no palmarés nem exibimos na vitrina.

Tenho várias confissões a fazer porque sinto que uma boa parte desta instabilidade anímica que o Benfica e os Benfiquistas vivem, hoje - e viveram ontem e viverão daqui até sábado -, se deve a culpas minhas. Antes de mais, porque aparei a barba no sábado. Foi um acto irreflectido e não devia ter deixado que esse detalhe de já não ver o meu lábio superior há quase quatro semanas interferisse com a missão que me foi encomendada: levar o Benfica à Glória, todos os dias e em todas as competições. Atenção: não quebrei a promessa, não tirei a barba - levarei o bigode que dela há-de sobrar ao Jamor, como aqui foi prometido, mais que uma vez, até. Mas permiti que um sportinguista agoirento me retocasse a pelagem ungida e logo durante a jornada futebolística. Mea culpa.

Outra confissão é, se não menos divina, no mínimo muito mais humana: tento encontrar - e encontro - razões intelectualmente válidas, logicamente substanciais e demonstradamente possíveis para acreditar que seremos campeões no Dragão. No entanto, quando penso no jogo, aperta-se-me o estômago. Daqui até sábado, das duas uma: ou recupero a fé ou desenvolvo uma úlcera. Ter dois pontos de vantagem, partilhar a pressão - todos temos muito a perder, de um lado e de outro (e também tudo a ganhar, de um lado e de outro...) -, jogar melhor futebol, ter mais golos marcados, não ter derrotas, andar optimista e sonhador, possuir uma equipa mais equilibrada: tudo isso me parece irrelevante quando penso «vamos ao Dragão e a eles basta-lhes ganhar».

Eu sei que o erro é meu e que tudo isto é uma grande mariquice, a roçar a cobardia. Eu sei que a minha atitude deveria ser outra, que devia fechar os olhos e fazer força e automaticamente acreditar que, sim senhor, vamos ganhar e resolve-se o assunto. Mas não consigo. Ainda não consigo. Encarem este desabafo como início de uma terapia de reconstrução da fé, já que esta sentiu um abalo de grau 6.5 na escala de Armés na segunda-feira. Tentarei chegar a sábado sem úlceras e sem medos. Dou a minha palavra.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Relatório um bocadinho detalhado sobre as consequências físicas e psicológicas de uma jornada em que a bola foi ao poste errado

Empatar com o Estoril também faz dores de cabeça. Mas é diferente das dores de cabeça que dão depois de se empatar com o Newcastle. Quando se empata com ingleses e se passa às meias-finais da Liga Europa, nada carece de explicação. Quando se empata com o Estoril no dia em que era suposto festejar a conquista do campeonato, as dores nas têmporas, a confusão mental e a suspeita de um ligeiro aumento do diâmetro craniano transformam a vida num castigo insuportável, muito lento e angustiante. E sem explicação possível. O dia arrasta-se obesamente sobre mim, sob mim, em torno de mim, de tal modo que só recordo uma frase que alguém escreveu um dia: «na cabeça, as ideias deslocam-se como submarinos».

Alcoitão

Ontem tive um sonho com o Carlos Martins. Na verdade isto é mentira. Mas eu ontem tive pensamentos um bocadinho preocupantes que continham o Carlos Martins. E isto é verdade.

Na rua, houve pessoas - boas pessoas, já agora - que me disseram «ó Diego, escreve aí coisas com o Martins a morrer» e eu devolvi «epá, nem vale a pena, pensei numa cena melhor». Eu acho que é melhor, pelo menos. É mais elaborado, não é só aquela coisa de "ah, fizeste borrada, mereces morrer". Vamos lá ser civilizados.

Eu ontem, se tivesse tido um sonho, era um pesadelo. Um pesadelo hard-core. Um pesadelo, diria mesmo "homo-erótico", como se diz, às vezes, quando as pessoas estão com nervos e já não podem nem ver esse cabrão desse Martins à frente.

Ia assim: o Carlos Martins tinha uma lesão quando levava um cartão vermelho por estupidez. Mas uma lesão grave. Tipo em grave p'ra caralho. Deixava de poder andar. Não andava mesmo, de todo. Era um mono, um caule, um tronco, um vegetal. Nada de novo. Mas em a sério, com direito a cuidados especiais e tudo. A cena mais digamos "uatafâque" era ele ficar ainda mais paraplégico durante um jogo contra o Estoril quando levava um vermelho. Aí é que era mesmo "ô-pá, daqui a nada estou a respirar por uma palhinha". Lamentável, tudo isto.

E então o Martins, devidamente conduzido pois não conseguia locomover-se por iniciativa própria, era depositado em Alcoitão, a descansar até se recompor devidamente, para que pudesse vir jogar em equipas que realmente o merecessem. E nessa clínica o Martins seria emparelhado com outra pessoa portadora de deficiência, que era aquele aleijadinho dos turcos, do Fenerbahce. Aquele que lhe doía as pernas, o Meireles. E eles depois simpatizavam muito um com o outro e, dito isto, tudo seria possível - até andar, por exemplo.

Sou uma pessoa optimista. Nesta minha fantasia, que é win-win, tanto faz o dedão de um na intimidade do outro como o seu oposto.

Mas prefiro sempre pensar positivo. A justiça cósmica manda que, olhos nos olhos, ganhe o melhor. E não importa se a tua arma é seres um retardado ou se tens muitas tatuagens. Não é preciso elaborar muito, basta ganhar no Dragão.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Gokhan Gonul explica a Vítor Pereira como se faz

É meter a cabeça à frente do Gaitán e leva 8 pontos. Limpinhos.

Ainda com a voz embargada

O meu discurso é curto, estou rouco, estou cansado, estou emocionado e as palavras atrapalham-se-me a uma velocidade vertiginosa na hora de construir pensamentos. Estou muito grato por me terem devolvido o Benfica que eu recordava e que sempre guardei como referência. Estamos de volta - e é tão bom estar de volta. O caminho tem sido bonito.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Vale um Jameson

Eu quero é ser campeão. Sim, quero um Benfica europeu de volta - eu vou lá estar mais logo, ao fim da tarde, num local com vista privilegiada sobre essa batalha com os bárbaros otomanos -, mas o Benfica campeão vale-me um Jameson. Não é um Benfica campeão qualquer. Aliás, de um modo geral, diria que, neste momento, a probabilidade de o Benfica ganhar este campeonato é... "razoável". O desafio aqui, o tal que vale um Jameson, é mais arrojado: o Benfica é campeão já na segunda-feira.

Terça-feira, tomava eu a minha cerveja de fim de tarde na Típica, quando me surge o estimado Lacrau, Benfiquista de gabarito elevado, mas com pouca crença. E eu disse-lhe «segunda-feira vais à Luz?» e ele, que nunca vai à Luz, diz «nah». E eu «mas olha que devias: festejamos na segunda». Ele não acreditou e perguntou-me de onde vinha a minha estranha ideia, plena de convicção apesar da sua aparente bizarria.

E a minha explicação foi bastante simples. Toda a gente gozou com o apagão e a rega de há dois anos, quando o Porto veio sagrar-se campeão em nossa casa. Mas toda a gente gozou porque com o mal dos outros podem eles muito bem: fosse a casa deles o palco da festa rival e eu queria ver quem é que gozava. Ora, o Porto na iminência de ver o Benfica sagrar-se campeão sobre a sua própria erva, só tem uma maneira de garantir que essa situação, dê por onde der, não vai suceder: obrigando o Benfica a ser campeão na jornada anterior ao clássico.

Portanto, é isto que eu acho: o Porto perde na Madeira e o Benfica é campeão segunda-feira - mas já nos descontos, para ter mais sabor (e porque o Estoril joga muito bem à bola, já agora). O Jameson ficou apostado e este documento comprova-o. E será dos mais saborosos da minha vida. ACTUALIZAÇÃO: Benfiquista de elevadíssimo calibre, não seria de esperar outra reacção por parte do meu caro Lacrau: subiu a parada - se o Benfica se sagrar campeão na segunda-feira, paga uma garrafa de Jameson. Ainda acrescentou «nunca desejei tanto perder uma aposta». É ou não é de valor?

sábado, 20 de abril de 2013

Um longo, longo derby

Tenho evitado tocar no assunto, mas ele existe. Ele paira sobre os meus dias, na verdade, desde ainda antes de o Porto ter ganhado ao Braga. O derby deste ano começou no preciso momento em que o Sporting ganhou ao mesmo Braga: o Sporting estava vivo, ia haver derby do bom e era como se soasse o apito de kick-off do desafio. Desde esse dia, tentei entreter-me e distrair-me com assuntos variados, como chegar às meias da Liga Europa, ensaiar muito, começar num novo trabalho, preparar umas filmagens ou ir ver a segunda mão da meia-final da Taça. Mas o derby estava lá, esteve sempre lá. As riscas do Newcastle, pretas e brancas e verticais, e eu a vê-las horizontais e verdes, o Paços de Ferreira todo amarelo e eu a pensar «que bonito equipamento alternativo, bem melhor que o principal», uma produtora a perguntar-me «e ao domingo, podes?» e eu «em todos os domingos, mesmo nesse aí... de resto, todos os domingos desta vida; mas nunca esse» e no trabalho, sportinguistas a tentar comprar os bilhetes que restavam e eu, agitado, a olhar para o telefone, a verificar as minhas coordenadas: bancada Sagres, sector 10, confere. Agora mesmo, interrompendo um ensaio para escrever este pequeno texto, este singelo desabafo, só para assumir uma coisa: eu tenho pensado, eu tenho sentido, eu há três semanas que ando com este aperto aqui, esta confusão, esta ansiedade que às vezes é eufórica, outras vezes é cautelosa, cheia de angústias. E hoje não aguento mais, tenho de partilhá-la com alguém. Com qualquer um que queira ler-me: estou com nervos. Mas sempre com fé.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Mais um nome na lista

O seu nome é Jonu e o seu forte é jogar a central, mas também pode fazer de lateral direito. Com este bigode à patrão, é sério candidato a capitão de equipa. Homem para três pratos de feijoada, à vontadinha.

Pré-convocatória

O plano continua de pé e os bigodes já se fazem notar ao longe, apontando para os quatro pilares do Jamor. O objectivo é só um: marcar presença, seguindo o protocolo, como Benfiquista na final da Taça de Portugal. O protocolo, simples, como se quer, consiste em: começar um piquenique na mata logo pelas 10 da manhã - deve incluir febras, bifanas, chouriço assado e uma feijoadinha; a bebida é opcional: mini Sagres ou vinho tinto do garrafão (com ou sem sévénépe) - e ver a bola a partir das 3 ou 4 da tarde, mais ou menos. Se houver razões para isso - o que se espera -, festeja-se mais um bocado no fim. O Bom Povo Benfiquista já não viaja ao Jamor faz alguns anos, mas há rituais que, de tão enraizados e repetidos, simplesmente não se esquecem. O dress-code da festa é, tal como a própria festa, simples: uma camisa aberta, umas calças de ganga, um boné do Benfica e, evidentemente, um bigode. É importante. Não, é fundamental mesmo que cada qual leve o seu bigode.

Há quem ande a treinar. A metodologia varia de pessoa para pessoa, consoante a capacidade de fazer crescer pêlo na cara, a disponibilidade profissional, a teimosia, o bom gosto, etc. Deixo aqui a minha shortlist, como se diz, de pré-convocados para a festa.

Este primeiro sou eu. Se olharem com atenção, algures ali no meio daquele tufo muito "idade da pedra", existe um bigode. É deixá-lo crescer. Em chegando o dia, reluzirá no meu rosto com esplendor, permitindo-me banhá-lo em espuma de Sagres e vinho de proveniências duvidosas, de modo que conserve uma abastada variedade de sabores e nuances até ao momento em que, depois de um sono retemperado após um enérgico e anárquico desfile pelo Marquês, eu acorde com a sensação de ter dormido numa adega. Uma maravilha de bigode, muito absorvente.

Este aqui é o Moleirinho. É um bigode honorário. Perdido em África - mais um entre a nova diáspora lusitana -, duvida-se que consiga estar presente no anfiteatro do Estádio Nacional. Porém, creio que é possível aliciá-lo com promessas de febras de javali. É tentar. Bigode não lhe falta, assim como Benfiquismo do mais original e primitivo.

Esta é a Sal. O bigode clássico, aristocrático e robusto não engana: nasceu para ganhar a Taça!

Ôpá... Há aqui um erro de casting. Este jovem não vai ao Jamor. A não ser que o apelo do piquenique seja mais forte. Mas não creio que o prato principal seja do seu agrado. Pode integrar a pré-convocatória, mas não acredito que que venha a fazer parte dos 23 eleitos.

Olha, aí está a Ana, uma aquisição recente para este tipo de festejos - aliás: para festejos futebolísticos de um modo geral, dado o seu historial futebolístico.

A Paula. Quem a conhece melhor, sabe bem que este bigode é já uma instituição na família. Não, não foi a Paula quem o inventou. Há aqui antecedentes familiares, posso afiançar.

O bigode da Xana é uma espécie de Tacuaragode. Ó o bigode com super-poderes. Com ele na bancada, não há maneira de não ganhar (mesmo que empatemos). Um bigode a estimar, que é preciso segurar na equipa.

A fechar esta lista, o Zé com o seu bigode. Um bigode de artista, pois claro, a lembrar a Paris dos criadores, dos pintores, das bailarinas (a Paris, não o bigode), dos cantores de canções em francês. No fundo, o bigode que assegura a nota artística, como o nosso actor principal tanto gosta.

Por falar nisso, gostava muito de ver Jesus de bigode na final do Jamor. Fica o pedido. E atenção que ainda não atenderam a qualquer pedido meu este ano. Ainda estou para ver esse póquer, por exemplo...

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Pequena pausa, sem compromissos

Chama-se "meter a foice em seara alheia" e não é prática corrente neste espaço - e muito menos deveria sê-lo hoje, que eu devia estar ralado era com o Newcastle (ralo-me mais logo).

Perante a indecência do que estão a fazer ao Sporting, fica desde já aqui o que tenho a dizer: se os sportinguistas decidirem avançar para a refundação do clube, mesmo que isso implique recomeçar da 3.ª divisão, terão da minha parte toda a admiração possível. Um clube é muito mais do que o seu palmarés, o seu símbolo, o seu estádio ou os seus presidentes. O clube é uma personalidade comunitária, uma entidade espiritual partilhada por quem lhe é devoto. E, numa hora destas, é importante que essa personalidade se revele, que venha ao de cima e que demonstre que o Sporting não é escravo de ninguém; é, antes e sempre, o resultado de uma massa, de uma história e de uma ideologia que são maiores do que qualquer não sei quantos barbosa e a sua banca, por mais ou menos garoto carvalho que seja o novo presidente. Um bom rival quer-se digno.

Peço desculpe pela intromissão, mas estas coisas revoltam-me um bocado.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Investir no póquer é importante

No sábado, o Lima fez o terceiro e eu comecei a receber mensagens: «é desta é que é», «cheira a póquer», «já está perto», por aí fora. Por momentos, senti que o póquer do Lima estava ao alcance da minha crença. Que fez Jesus? Tirou-o quando o nosso adversário tinha 9 elementos em campo. Fiquei triste, Jorge.

Ontem, o treinador do Newcastle veio dizer que o Benfica é tão forte, que, em Inglaterra, «ficaria nos 8 ou nos 10 primeiros lugares». Não invalidando, com esta afirmação, a possibilidade de o Benfica lutar pelo primeiro posto, Pardew deixa sub-entendido, no entanto, que temos equipa ao nível do Fulham, do West Bromwich ou do Swansea. Jesus enervou-se com a história e A Bola diz que ele hoje quer ajustar contas. Alto, Jesus: deixa que eu faço. Quando o Lima meter o terceiro, não o tires para o aplauso. Deixa-o terminar a tarefa.

Milan, o amor e os amigos

Li A Insustentável Leveza do Ser há uns 15 anos. Foi um livro que, na altura, mexeu um pouco comigo: lendo-o, fui sendo confrontado com determinadas situações, teorias, opiniões mais ou menos fundadas, conclusões várias, umas mais realistas, outras mais efabuladas - o amor e os tipos de amor, a traição e a fidelidade - conceitos que, de pessoas para pessoa, apresentam nuances, diferenças, interpretações e formas de sentir diferentes. Foi, talvez, o primeiro livro suficientemente sério que li acerca das pessoas umas com as outras. Não me recordo já de grandes detalhes, mas houve algumas coisas que guardei dele.

Existia por lá um cão chamado Karenine. Deveria chamar-se Karenina, como Anna. Porém, sendo macho, Teresa - penso que era este o nome da personagem - masculinizou-lhe o nome. A determinada altura, Milan Kundera, o autor, discorre, pela voz de Teresa (ou seria de Tomas a pensar na relação de Teresa com o cão?), acerca da singularidade do amor desinteressado que se estabelece entre uma pessoa e o seu cão, por oposição ao amor sempre exigente e crítico que os humanos desenvolvem entre si. No caso concreto, Teresa dava festinhas e comida a Karenine; este, por seu lado, fazia-lhe companhia e pedia-lhe comida e festinhas e pronto, aí estava o amor. E era um amor puro, só de estar e de ser um para o outro, um com o outro.

Recordei-me deste episódio enquanto terminava a leitura d' A Possibilidade de uma Ilha, de Michel Houellebecq, uma espécie de apocalipse pós-humano que recorda os humanos com alguma ternura e que, de uma maneira muito crítica e não encontrando nunca uma explicação aceitável para o fenómeno, acaba por revelar-se uma espécie de apologia do amor entre os humanos - eu, pelo menos, entendi-o assim: no amor, e apesar do que o amor implica, comporta e provoca, existe uma espécie de redenção para o absurdo injustificado da nossa existência. Mas isto já sou eu a especular. Voltando à passagem que importa: um neo-humano - são uma espécie de humanos geneticamente modificados, superiores e que não nascem nem se reproduzem - sai para o mundo pós-apoclíptico tentando entender algumas das particularidades dos humanos. São ascetas, lógicos e vazios de emoções estes neo-humanos. Mas este tinha um cão. Um daqueles iguais aos da Rainha de Inglaterra que custam um balúrdio. Durante uma pausa na sua caminhada, o cão desaparece. Quando o neo-humano o reencontra, o bicho está morto, trespassado por uma flecha. E então esse neo-humano sente a possibilidade residual do amor, ali, no momento da perda do seu cão.

É curioso verificar esta espécie de glorificação minimalista do amor entre homens e cães, como que assumindo que existe ali uma relação que, de tão simples e tão desinteressada, só pode ser pura. Aceito perfeitamente esta visão. Acho que o amor recíproco entre o homem e o seu animal merece a sua glória, sobretudo se esta chegar pela escrita de dois senhores que me merecem respeito.

Pensava eu em todas estas questões ao mesmo tempo que um amigo meu se preparava para partir para o Brasil. Não para ir de férias: o plano dele é mesmo ficar lá a trabalhar. E não tem, para já, uma ideia de quando volta. Ou mesmo se voltará para ficar por cá. E, um dia antes de este meu amigo partir, outro amigo meu chegava da Inglaterra, esse sítio aonde o sol nunca chega, mas que ele, mesmo assim, escolheu para viver. Com os meus amigos que estão longe - sobretudo com esses; com os que estão mais perto, sou um bocadinho desleixado, confesso (nota mental: cuida melhor dos teus amigos que estão perto, Diego) -, gosto de ter um comportamento de absoluta disponibilidade e transtorna-me quando não tenho a disponibilidade total, como desejava ter e estar com eles sempre que eles estão por cá. No fundo, extrapolando um bocadinho, tenho com esses meus amigos uma relação semelhante à que existia entre Teresa e Karenine ou entre Daniel25 e Fox. Gosto de estar com eles porque gosto de estar com eles, ao pé deles, porque é bom que eles estejam por perto. E isso basta-me. Basta-me imensamente.

Nos últimos tempos, foram muitos os amigos que fui perdendo de vista ou que passei a ver uma vez por ano ou até de dois em dois anos, quando não menos ainda. E todos eles me fazem muita falta.

Um deles, o Vareta Funda, foi a pessoa que me ensinou que, por vezes, «o mais importante é estar lá». Ora, o que é isto senão a tal maneira desinteressada e pura de dar amor? «Estar lá» é uma coisa fortíssima. E foi com ele que compreendi a importância deste ensinamento num caso muito concreto, experimentando a realidade. Estávamos em 2005 e o Sporting estava a começar a conhecer da pior maneira o significado de "peseirismo". Era quarta-feira e o Sporting jogava em casa com o CSKA de Moscovo. Já sabemos o desfecho desta história. O Vareta Funda, sportinguista tão convicto quanto digno, ligou-me passado talvez uma hora sobre o final do jogo e disse-me «shôr Diego... epá, não queres vir ver um concerto comigo? Não me apetecia mesmo estar sozinho». O concerto era do Momus, um songwriter escocês, salvo erro, com uma pala num dos olhos. Foi um concerto intimista, com muito pouca gente a assistir. Tudo isto no Santiago Alquimista, sala onde 200 pessoas parecem poucas. O Vareta pagou-me o bilhete - mas nem precisava, teria ido quantas vezes fossem precisas e pagando do meu bolso (se pudesse, o que, na época, não era uma coisa segura). A seguir fomos beber uns copos. Comportei-me com dignidade, fiz-lhe companhia, do jogo falámos pouco e nunca com profundidade: ele estava triste e eu estava ali a acompanhá-lo. Era apenas isto.

É bom ter amigos que nos fazem companhia. Por exemplo, amanhã (hoje, na verdade) um amigo meu sportinguista vai comigo ver o jogo à Luz. E paga ele o seu próprio bilhete. Ele vai porque gosta de futebol. Mas, seguramente, porque também gosta de acompanhar este seu amigo. Neste caso muitíssimo específico, no entanto, a minha relação com ele não é cemporcentozinho desinteressada, devo confessar - já o levei duas vezes comigo esta época a ver jogos europeus e, das duas vezes, ele deu sorte: o Benfica ganhou 2 a 1 e o Ola John marcou o primeiro golo da partida. Por isso, insisti para que ele viesse. Mas, fora isso, também tenho muito gosto em que me acompanhe e gostava de lhe agradecer aqui pela sua generosa companhia.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Nota informativa irrelevante enquanto não escrevo um texto que começa com Milan Kundera

No top "buscas bizarras que me trazem leitores" desta semana, duas entradas que elevam o adjectivo que usei a um novo patamar: «o que responder a "tens bigode"» e a muito, mas mesmo muito especial «roldanas de roupa chiam muito».

Como Benfiquista dos pés à cabeça, não posso deixar estes leitores acidentais à deriva pelo Google, sem sucesso, numa demanda vã pelo esclarecimento das suas dúvidas. Assim, acerca do bigode, o meu conselho é o seguinte: responda que não tem. Mesmo que tenha, basta que o corte logo de seguida e fica o assunto resolvido. Se, no entanto, pretender marcar presença no Jamor e fizer questão de apoiar o Benfica com preceito, opte por responder um profundo e orgulhoso «claro que sim, e dos grandes!». Mesmo que não tenha, daqui até 29 de Maio falta muito tempo. Não entre em pânico.

Já sobre as roldanas que chiam muito, aconselho a utilização de WD40 ou produto semelhante. Se o ruído persistir, o melhor será retirar as cordas e verificar o estado das roldanas, que poderão ter de ser ajustadas ou até substituídas. De qualquer modo, enquanto a situação não se resolve, por que não recorrer ao tradicional estendal interior, hum? O tempo está chuvoso até, pelo menos, domingo que vem, pelo que a perda com a troca não será significativa.

Espero ter-vos sido útil. Qualquer dúvida, já sabem: disponham.

Breve constatação sobre Peseiro

Ah, o bonito mito do "azar" do Peseiro... Muito brevemente: chegou a uma final europeia, mas nem ele, nem o Miguel Garcia sabem como, "quase" ganhou o pior campeonato nacional de que me lembro (e acabou em terceiro) tendo perdido com um Benfica, futuro campeão, que era equipa para ser goleada pelo Benfica actual - e tendo sido eliminado pelo mesmo Benfica nas meias-finais da Taça de Portugal. Ou seja, eu acho que as pessoas tendem a interpretar a situação ao contrário: a conjugação dos elementos em 2004-2005 foi de uma sorte tremenda para José Peseiro, já que lhe permitiu que a dúvida ou a crença se instalassem entre os adeptos de futebol mais românticos, que se alimentam com quase vitórias, quatro passes consecutivos e um ar razoavelmente simpático, mesmo quando estas coisas acabam por resultar em derrotas de envergonhar. Já entre os adeptos pragmáticos, e posso incluir aqui o Rochemback, a conclusão sempre foi óbvia: o Peseiro é simplesmente mau treinador. Tem uma espécie de toque de génio, mas em esquisito.