segunda-feira, 13 de maio de 2013

Só para vocês, todos vocês

Num mundo ideal, o futebol seria exactamente assim - tirando, como é evidente, a parte em que o Kelvin atinge o golo. Tive, no sábado, a fortuna de partilhar o choque, a apatia e a tristeza com alguns dos meus melhores amigos Benfiquistas; tive, igualmente, a sorte de conviver com alguns dos meus melhores amigos que, sendo Portistas, se comportaram como cavalheiros: sem condescendências, mas com todo o respeito, sabendo estar felizes sem precisar de mais nada; e tive ainda a grande felicidade de ser aturado pela minha senhora, a Lady Verde, e de partilhar a noite de sábado com outros Sportinguistas de elevadíssimo calibre, que me permitiram sentir suavidade naquela aterragem brusca, de cabeça, num chão tremendamente duro (tudo isto é metafórico: tirando o momento em que caí de joelhos, quando percebi que a bola estava mesmo lá dentro, mantive-me de pé e aceitavelmente direito durante toda a noite).

Este texto é para todos eles, que fazem da minha paixão Benfiquista uma coisa absolutamente grandiosa e que me enche de gratidão só por poder vivê-la. Vou no oitavo dia de dores, é certo, mas consciente do êxtase hipnótico que tem sido viver este ano. Todos queremos "sentir felicidade", aquela que vem agrafada ao clímax da vitória; porém, quando «encomendamos a alma ao Benfica» (usando a frase de um belíssimo comentário deixado algures aí em baixo), devemos saber apreciar a simples possibilidade de "sentir intensamente". E, quanto a isso, não posso queixar-me.

Talvez fosse mais fácil procurar explicações para este insucesso gelado - decerto existirão. Mas culpar o que quer ou quem quer que seja não me deixará mais feliz nem descansado, até porque o Proença fez, finalmente, uma boa arbitragem, quase imaculada (e ainda fez dois cortes providenciais, fora do alcance de um Roderick, por exemplo... isto é um à-parte, o Roderick teve tanta culpa nisto quanto eu ou qualquer outro Benfiquista). Prefiro concentrar-me em três pessoas para quem este jogo e todo este campeonato foi ou tem sido custoso, sobretudo pela distância a que se encontram: o Moleirinho, o Mago e o Adriano.

Os dois primeiros, enormíssimos Benfiquistas; o Adriano, um Portista que mete respeito. Estão todos a fazer pela vida, longe de tudo isto, e não puderam apreciar por cá a loucura quase absoluta que envolveu este jogo. O país esteve cinco dias suspenso sobre aqueles 90 minutos, quando esses ainda estavam por acontecer. Digo-vos que foi uma semana de grandeza futebolística, com tudo aquilo a que qualquer adepto verdadeiro tem direito. Qualquer conversa, no café, na barbearia, no metro, no escritório, no hospital ou na repartição de finanças não resistia mais de dois ou três minutos ao grande tema. Foi especial e vocês mereciam ter assistido a isto de perto.

Têm sido dias intensos e é assim que vão continuar a ser. Não falo do campeonato, claro, que esse para mim já terminou. Mas temos a Liga Europa e não temos a "obrigação" de a ganhar. Espero que os jogadores entrem em campo com o mesmo espírito recreativo com que os adeptos - isto, se bem os conheço - entrarão no estádio. Peço, contudo, que não recorram às mesmas substâncias... por precaução. Mas divirtam-se. Não tenham medo de jogar este jogo. É um momento lindo para qualquer pessoa que goste do futebol e há-de sê-lo ainda mais para quem tem o privilégio de jogá-lo, de pisar aquela relva ostentando a Digníssima. Não façam contas de cabeça, não esperem pelo empate, pelos penalties, pela sorte ou pelo deslize do David Luiz (será por volta dos 62 minutos, já agora): joguem como sabem. Façam-me feliz. Inacreditavelmente feliz. Não pensem que vão salvar-me a época - não há salvação possível para o episódio de sábado. Mas salvem-me a mim. Façam-me, finalmente, chorar de alegria, porra.

domingo, 12 de maio de 2013

Não nos veremos domingo no Marquês

Não aconteceu o pior que nos podia ter acontecido para que pudesse suceder o mais cruel que pudéssemos imaginar. No fundinho mais recôndito do meu íntimo existia um resquício de receio, daqueles que uma pessoa nunca admite que existem, de que uma tragédia de grandes proporções pudesse acontecer - não que fosse provável; mas nos clássicos sabemos que tudo é possível. Porém o Lima, que não é de pessimismos, decidiu meter a bola na baliza correcta e fez-nos vibrar, fez-nos definitivamente crer que éramos realmente mais fortes do que este Porto. Este é o Benfica mais forte de que me lembro, já agora.

Tudo estava a nosso favor. Faltavam 70 minutos para sermos campeões. Mas depois o Maxi e o Artur enfiaram, em conjunto, a puta da bola na baliza errada. Faltavam não sei quantos minutos, mas eram menos que 70, para o fim do jogo. Já não seríamos campeões ali, onde devíamos. Mas seríamos campeões daqui a uma semana, seguramente.

E depois um tipo com um cabelo horrível, chamado Kelvin, fez uma coisa inacreditável: um golo quando faltavam menos de 3 minutos para o jogo acabar e nós não fomos nem seremos campeões. O cosmos às vezes é um bocadinho filho da puta comigo.

Estava eu a pedir a vitoriosa - é a Sagres com que habitualmente encerro as partidas em que ganhamos vantagem, de alguma forma (normalmente, ganhando o jogo) - e já nem fazia questão de regressar ao meu lugar, disse eu assim a alguém ao meu lado «pronto, não vamos hoje ao Marquês, mas vamos para a semana», quando nisto olho para a televisão e tenho uma alucinação esquisitíssima na qual o que aparentava ser um objecto redondo estava a entrar numa baliza muito muito parecida com a do Benfica e então penso para mim «não devias ter pedido esta, Diego» e a seguir, com a Típica feita sepulcro, vejo uns homenzinhos vestidos de azul muito contentes e aos pulinhos e o Jorge Jesus ajoelhado no chão, dou mais um gole na Sagres, deixo-me cair também de joelhos, peço para regressar ao meu lugar. Sentei-me, não sei se com as mãos na cara se com a cabeça nas mãos, o coração ficou-me nos calcanhares, talvez, o estômago estava-me aqui na garganta e fiquei em silêncio, longamente em silêncio, só a desejar que o jogo acabasse depressa para que pudesse rapidamente começar a recuperar-me desta traição colossal, a colar os cacos de um espírito estilhaçado, a juntar as poucas forças que me restavam para beber aquela e pedir mais uma e depois outra e outra a seguir.

Recusei, muitos minutos mais tarde e embalado com Jameson e bagaço Rochedo, a possibilidade de ainda sermos campeões: não quero. E no próximo domingo, se tudo correr bem, estarei de folga do Benfica a comer entrecosto e entremeadas com o meu pai e a beber um bom vinho tinto, correndo o risco de ter o Paços de Ferreira a substituir-nos na função de ganhar o campeonato, que era obrigação nossa. Não quero saber: este campeonato acabou ontem e o Benfica perdeu. Parabéns aos vencedores e honra, muita honra, a estes maravilhosos vencidos. E agora venham de lá esses chelsios.

sábado, 11 de maio de 2013

Fim da terapia

Vou estender ao sol generoso a roupa que ontem deixei a lavar, vou fazer o pequeno-almoço, que ainda não tomei porque só acordei agora, e partilhá-lo com a Lady Verde, vou mudar os cactos novos dos seus vasos minúsculos para outros mais dignos, que lhes permitam o crescimento que merecem. Vou passar o dia a deixar que o tempo me passe ao lado até ao momento em não possamos mais fugir um do outro e as minhas batidas por minuto dupliquem.

Cheguei ao fim da terapia. Não posso dizer que estou curado, mas sobrevivi a uma semana lenta e muito desconcentrada de tudo o resto que não fosse o momento que me espera ali, ao fundo da rua, na Típica de Alfama. Temos hora marcada e convém chegar antes do previsto para não perder o lugar. De vez em quando, alguém passa na rua, por baixo da minha varanda, e assobia ou grita ou canta. Um trazia uma buzina. O facto de o jogo acontecer a 300 quilómetros de distância não tem, hoje, a menor importância: o jogo acontece em todos os cantos do país, necessitando para tal que aí exista uma pessoa que ama o futebol.

Agora que a terapia chegou ao fim e que o sofrimento do tempo a passar devagarinho se prepara para ser cristalizado em duas horas de futebol sobre a relva que não queremos que acabe nunca mas que esperamos que passem depressa, percebo que este talvez seja o dia por que eu mais esperei em todo o meu Benfiquismo. Não estou a dizer que vamos ganhar nem a pressentir que vamos perder - o resultado é um objecto que fica ao fundo de lá ao fundo: é outra matéria. Falo da paixão. Se houve dias em que esta se revelou, em toda a sua pujança, beleza e dor, foi neste maravilhoso período que começou na segunda-feira e que hoje inevitavelmente terminará. Nem nas maiores derrotas, nem nas mais sumptuosas vitórias: nunca me senti tão Benfiquista como hoje.

E aqui estou eu, à beira de um choro bizarro e sem justificação, com um nó na garganta, um sorriso apalermado, um brilho olhos, as mãos nervosas, a olhar para o Sul. É tudo o que posso fazer, as minhas janelas não têm vista para Norte. Daqui não se vê o Dragão, vê-se a Serra da Arrábida e a bacia do Tejo, vê-se o Barreiro, vê-se a planície de Azeitão. Vê-se o Porto - Benfica em cada transeunte - parece que toda a gente decidiu vestir-se de encarnado (ou de azul, mas em menor número).

Entretanto a Lady Verde acordou e decidiu fazer ela própria as torradas e o café enquanto termino o texto. Pedi-lhe desculpa e disse-lhe «estou a escrever, é o fim da terapia». Parece ter compreendido. Penso que ela própria está agitada com o jogo. Não diria que puxa pelo Benfica, mas sei que gostava de ver-me feliz.

Não estou calmo mas sinto-me em paz. Existe um inesperado sossego nesta conjugação de factores, como se dormíssemos uma sesta retemperadora antes da batalha vigorosa. E sei que ao fim do dia haverá gritos de guerra, passos pesados e um intenso odor que emanará da vontade de vencer de cada um. E esta canção não me sai da cabeça.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Terapia - sessão #3: o choro merecido

Um amigo, que é de um Benfiquismo verdadeiro e muito sensível, escrevia hoje no seu perfil do facebook a propósito da elevada probabilidade de chegar ao fim do jogo de amanhã lavado em lágrimas, sejam elas de felicidade exuberante ou de frustrada e dolorosa tristeza. Sei de outros amigos predispostos ao mesmo tipo de final, feliz ou infeliz, mas seguramente lacrimoso. Eu não sei se já chorei com o Benfica, mas acho que não, nunca o fiz. Sei que já tive vontade - umas vezes, por indignação, outras por desilusão, outras ainda de felicidade. Ainda agora quase chorei no terceiro golo - gracias, Tacuara - contra o Fenerbahçe. Quase.

Mas não chorei contra o Steaua nem quando o Veloso falhou, não chorei quando o Vata pontapeou esquisito nem quando o Rijkaard marcou com facilidade, nem ainda quando o César Brito bisou ou quando fomos a Leverkusen fazer quatro e nem quando o João Pinto fez o mais memorável dos hat-tricks.

E também não chorei na miséria. Lembro-me vagamente de um jogo em que estávamos a perder por 3 ou 4 e o saudoso Enke repetia, enfastiado, o gesto de ir à baliza buscar a bola. Nada que vodka e uns comprimidos não tenham resolvido. Ainda hoje não sei qual foi o resultado. Também não chorei por ficar em sexto.

Mais tarde, voltei a não chorar quando ganhámos a Taça com um golo do Fyssas (!) ou, a seguir, quando acabámos com 11 anos de jejum, nem ainda quando o futebol furioso de 2009-2010 mostrou ao país o vigor de uma equipa a despertar.

O nosso regresso à Glória - o nosso regresso a casa - tem sido lento. E talvez por isso se adivinhe comovente. Recordo, a propósito, uma bonita passagem de um livro do Sepúlveda que me fez chorar. É uma passagem muito simples: o narrador - o próprio autor - chega a Espanha, onde nunca antes tinha estado, vindo do Chile, em busca de familiares que talvez ainda existam. Encontrando a casa de um casal de velhotes que pensa serem ainda seus parentes, apresenta-se e explica-se. O homem da casa, sem mais perguntas, grita então lá para dentro, com emoção, «Maria, traz o vinho... chegou família da América».

E agora estamos perto, muito perto de casa. E acredito que o choro que nunca me aconteceu possa rebentar amanhã como se me rebentassem as águas. Se ganharmos amanhã, lá estará o meu querido avô, onde quer que ele esteja, sentado no seu banquinho no pátio da casa e gritará lá para dentro «Adelina, traz o vinho... o Benfica chegou a casa».

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Terapia - sessão #2: Ena, tantos...

Eu não queria falar em "injustiça", mas a verdade é que o cosmos às vezes é um bocadinho filho da puta comigo. Passei uns cinco ou seis meses em exercícios de auto-domínio e diplomacias para ser cuidadoso com os meus amigos que, infelizmente, não são do Benfica. A verdade é que são muitos e pareceu-me sensato conduzir assim a situação. E eis que agora, depois do evento-Estoril, todos eles, aos poucos, se erguem como se durante todo este tempo tivessem andado direitinhos e cheios de dignidade, debatendo futebol e acreditando nos seus clubes (ou, no caso dos sportinguistas, na derrota do Benfica).

É de notar que, apesar de um domínio incontestável, de um futebol inatacável, de resultados extraordinários ainda acrescidos de notabilíssima nota artística, de sequências que constituem recordes e de recordes batidos em sequência, o desastre continua a ser uma possibilidade para nós, Benfiquistas. Já ao Porto, cai-lhe do céu aos trambolhões a possibilidade de ficar com o troféu mais desejado. Não sabem como, só sabem que não suportam o Vítor Pereira. Mas, ainda assim, podem vir a ser campeões.

A possibilidade encerra, em si mesma, aquele travo amargo de «ai o caralho, mas tu queres ver...?»; mas existe um acrescento dado pelos adormecidos que praticamente nem ligavam à bola até domingo passado e que agora descobriram que o Porto é imensamente poderoso e que vai esmagar o Benfica. Alguns foram mais longe e descobriram mesmo que o Porto já é campeão. Esse acrescento é um verdadeiro bálsamo para o rombo na minha fé. Bem-hajam.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Terapia - sessão #1: a confissão

Todos temos o direito a estarmos apreensivos. Olhando sobretudo para o passado recente, facilmente constatamos que, na hora da verdade, a tradição de levar a melhor está mais do lado do Porto do que do nosso. Sinal disso, aliás, é o facto de podermos ter, a esta hora, o titulo no bolso e de, afinal, eu estar a escrever este texto em vez de estar numa esplanada qualquer a fazer coisas que me levassem de volta ao desemprego - conservando, porém, um enorme sorriso e muito pouca consciência (porque um homem não se deve acanhar quando a hora é de festa).

Mas não, não é isso que sucede e os foguetes que se lançaram com um destino muito certinho acabaram por perder-se no espaço hipotético que separava um cenário lógico e esperado de um outro que é a realidade do quotidiano Benfiquista: mesmo quando tudo corre imensamente bem, pode existir um momento em que uma pequenina coisa corre um bocadinho mal e isso, quando se tem um adversário como o é o Porto, pode ser - eu não disse «é», disse «pode ser» - suficiente para deitar a mais brilhante época de que tenho memória às malvas. Porque a verdade é esta: para a história ficará o nome do campeão e da colecção no museu só constará o troféu - o segundo classificado e o quase-troféu são coisas que não ostentamos no palmarés nem exibimos na vitrina.

Tenho várias confissões a fazer porque sinto que uma boa parte desta instabilidade anímica que o Benfica e os Benfiquistas vivem, hoje - e viveram ontem e viverão daqui até sábado -, se deve a culpas minhas. Antes de mais, porque aparei a barba no sábado. Foi um acto irreflectido e não devia ter deixado que esse detalhe de já não ver o meu lábio superior há quase quatro semanas interferisse com a missão que me foi encomendada: levar o Benfica à Glória, todos os dias e em todas as competições. Atenção: não quebrei a promessa, não tirei a barba - levarei o bigode que dela há-de sobrar ao Jamor, como aqui foi prometido, mais que uma vez, até. Mas permiti que um sportinguista agoirento me retocasse a pelagem ungida e logo durante a jornada futebolística. Mea culpa.

Outra confissão é, se não menos divina, no mínimo muito mais humana: tento encontrar - e encontro - razões intelectualmente válidas, logicamente substanciais e demonstradamente possíveis para acreditar que seremos campeões no Dragão. No entanto, quando penso no jogo, aperta-se-me o estômago. Daqui até sábado, das duas uma: ou recupero a fé ou desenvolvo uma úlcera. Ter dois pontos de vantagem, partilhar a pressão - todos temos muito a perder, de um lado e de outro (e também tudo a ganhar, de um lado e de outro...) -, jogar melhor futebol, ter mais golos marcados, não ter derrotas, andar optimista e sonhador, possuir uma equipa mais equilibrada: tudo isso me parece irrelevante quando penso «vamos ao Dragão e a eles basta-lhes ganhar».

Eu sei que o erro é meu e que tudo isto é uma grande mariquice, a roçar a cobardia. Eu sei que a minha atitude deveria ser outra, que devia fechar os olhos e fazer força e automaticamente acreditar que, sim senhor, vamos ganhar e resolve-se o assunto. Mas não consigo. Ainda não consigo. Encarem este desabafo como início de uma terapia de reconstrução da fé, já que esta sentiu um abalo de grau 6.5 na escala de Armés na segunda-feira. Tentarei chegar a sábado sem úlceras e sem medos. Dou a minha palavra.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Relatório um bocadinho detalhado sobre as consequências físicas e psicológicas de uma jornada em que a bola foi ao poste errado

Empatar com o Estoril também faz dores de cabeça. Mas é diferente das dores de cabeça que dão depois de se empatar com o Newcastle. Quando se empata com ingleses e se passa às meias-finais da Liga Europa, nada carece de explicação. Quando se empata com o Estoril no dia em que era suposto festejar a conquista do campeonato, as dores nas têmporas, a confusão mental e a suspeita de um ligeiro aumento do diâmetro craniano transformam a vida num castigo insuportável, muito lento e angustiante. E sem explicação possível. O dia arrasta-se obesamente sobre mim, sob mim, em torno de mim, de tal modo que só recordo uma frase que alguém escreveu um dia: «na cabeça, as ideias deslocam-se como submarinos».

Alcoitão

Ontem tive um sonho com o Carlos Martins. Na verdade isto é mentira. Mas eu ontem tive pensamentos um bocadinho preocupantes que continham o Carlos Martins. E isto é verdade.

Na rua, houve pessoas - boas pessoas, já agora - que me disseram «ó Diego, escreve aí coisas com o Martins a morrer» e eu devolvi «epá, nem vale a pena, pensei numa cena melhor». Eu acho que é melhor, pelo menos. É mais elaborado, não é só aquela coisa de "ah, fizeste borrada, mereces morrer". Vamos lá ser civilizados.

Eu ontem, se tivesse tido um sonho, era um pesadelo. Um pesadelo hard-core. Um pesadelo, diria mesmo "homo-erótico", como se diz, às vezes, quando as pessoas estão com nervos e já não podem nem ver esse cabrão desse Martins à frente.

Ia assim: o Carlos Martins tinha uma lesão quando levava um cartão vermelho por estupidez. Mas uma lesão grave. Tipo em grave p'ra caralho. Deixava de poder andar. Não andava mesmo, de todo. Era um mono, um caule, um tronco, um vegetal. Nada de novo. Mas em a sério, com direito a cuidados especiais e tudo. A cena mais digamos "uatafâque" era ele ficar ainda mais paraplégico durante um jogo contra o Estoril quando levava um vermelho. Aí é que era mesmo "ô-pá, daqui a nada estou a respirar por uma palhinha". Lamentável, tudo isto.

E então o Martins, devidamente conduzido pois não conseguia locomover-se por iniciativa própria, era depositado em Alcoitão, a descansar até se recompor devidamente, para que pudesse vir jogar em equipas que realmente o merecessem. E nessa clínica o Martins seria emparelhado com outra pessoa portadora de deficiência, que era aquele aleijadinho dos turcos, do Fenerbahce. Aquele que lhe doía as pernas, o Meireles. E eles depois simpatizavam muito um com o outro e, dito isto, tudo seria possível - até andar, por exemplo.

Sou uma pessoa optimista. Nesta minha fantasia, que é win-win, tanto faz o dedão de um na intimidade do outro como o seu oposto.

Mas prefiro sempre pensar positivo. A justiça cósmica manda que, olhos nos olhos, ganhe o melhor. E não importa se a tua arma é seres um retardado ou se tens muitas tatuagens. Não é preciso elaborar muito, basta ganhar no Dragão.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Gokhan Gonul explica a Vítor Pereira como se faz

É meter a cabeça à frente do Gaitán e leva 8 pontos. Limpinhos.

Ainda com a voz embargada

O meu discurso é curto, estou rouco, estou cansado, estou emocionado e as palavras atrapalham-se-me a uma velocidade vertiginosa na hora de construir pensamentos. Estou muito grato por me terem devolvido o Benfica que eu recordava e que sempre guardei como referência. Estamos de volta - e é tão bom estar de volta. O caminho tem sido bonito.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Vale um Jameson

Eu quero é ser campeão. Sim, quero um Benfica europeu de volta - eu vou lá estar mais logo, ao fim da tarde, num local com vista privilegiada sobre essa batalha com os bárbaros otomanos -, mas o Benfica campeão vale-me um Jameson. Não é um Benfica campeão qualquer. Aliás, de um modo geral, diria que, neste momento, a probabilidade de o Benfica ganhar este campeonato é... "razoável". O desafio aqui, o tal que vale um Jameson, é mais arrojado: o Benfica é campeão já na segunda-feira.

Terça-feira, tomava eu a minha cerveja de fim de tarde na Típica, quando me surge o estimado Lacrau, Benfiquista de gabarito elevado, mas com pouca crença. E eu disse-lhe «segunda-feira vais à Luz?» e ele, que nunca vai à Luz, diz «nah». E eu «mas olha que devias: festejamos na segunda». Ele não acreditou e perguntou-me de onde vinha a minha estranha ideia, plena de convicção apesar da sua aparente bizarria.

E a minha explicação foi bastante simples. Toda a gente gozou com o apagão e a rega de há dois anos, quando o Porto veio sagrar-se campeão em nossa casa. Mas toda a gente gozou porque com o mal dos outros podem eles muito bem: fosse a casa deles o palco da festa rival e eu queria ver quem é que gozava. Ora, o Porto na iminência de ver o Benfica sagrar-se campeão sobre a sua própria erva, só tem uma maneira de garantir que essa situação, dê por onde der, não vai suceder: obrigando o Benfica a ser campeão na jornada anterior ao clássico.

Portanto, é isto que eu acho: o Porto perde na Madeira e o Benfica é campeão segunda-feira - mas já nos descontos, para ter mais sabor (e porque o Estoril joga muito bem à bola, já agora). O Jameson ficou apostado e este documento comprova-o. E será dos mais saborosos da minha vida. ACTUALIZAÇÃO: Benfiquista de elevadíssimo calibre, não seria de esperar outra reacção por parte do meu caro Lacrau: subiu a parada - se o Benfica se sagrar campeão na segunda-feira, paga uma garrafa de Jameson. Ainda acrescentou «nunca desejei tanto perder uma aposta». É ou não é de valor?

sábado, 20 de abril de 2013

Um longo, longo derby

Tenho evitado tocar no assunto, mas ele existe. Ele paira sobre os meus dias, na verdade, desde ainda antes de o Porto ter ganhado ao Braga. O derby deste ano começou no preciso momento em que o Sporting ganhou ao mesmo Braga: o Sporting estava vivo, ia haver derby do bom e era como se soasse o apito de kick-off do desafio. Desde esse dia, tentei entreter-me e distrair-me com assuntos variados, como chegar às meias da Liga Europa, ensaiar muito, começar num novo trabalho, preparar umas filmagens ou ir ver a segunda mão da meia-final da Taça. Mas o derby estava lá, esteve sempre lá. As riscas do Newcastle, pretas e brancas e verticais, e eu a vê-las horizontais e verdes, o Paços de Ferreira todo amarelo e eu a pensar «que bonito equipamento alternativo, bem melhor que o principal», uma produtora a perguntar-me «e ao domingo, podes?» e eu «em todos os domingos, mesmo nesse aí... de resto, todos os domingos desta vida; mas nunca esse» e no trabalho, sportinguistas a tentar comprar os bilhetes que restavam e eu, agitado, a olhar para o telefone, a verificar as minhas coordenadas: bancada Sagres, sector 10, confere. Agora mesmo, interrompendo um ensaio para escrever este pequeno texto, este singelo desabafo, só para assumir uma coisa: eu tenho pensado, eu tenho sentido, eu há três semanas que ando com este aperto aqui, esta confusão, esta ansiedade que às vezes é eufórica, outras vezes é cautelosa, cheia de angústias. E hoje não aguento mais, tenho de partilhá-la com alguém. Com qualquer um que queira ler-me: estou com nervos. Mas sempre com fé.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Mais um nome na lista

O seu nome é Jonu e o seu forte é jogar a central, mas também pode fazer de lateral direito. Com este bigode à patrão, é sério candidato a capitão de equipa. Homem para três pratos de feijoada, à vontadinha.

Pré-convocatória

O plano continua de pé e os bigodes já se fazem notar ao longe, apontando para os quatro pilares do Jamor. O objectivo é só um: marcar presença, seguindo o protocolo, como Benfiquista na final da Taça de Portugal. O protocolo, simples, como se quer, consiste em: começar um piquenique na mata logo pelas 10 da manhã - deve incluir febras, bifanas, chouriço assado e uma feijoadinha; a bebida é opcional: mini Sagres ou vinho tinto do garrafão (com ou sem sévénépe) - e ver a bola a partir das 3 ou 4 da tarde, mais ou menos. Se houver razões para isso - o que se espera -, festeja-se mais um bocado no fim. O Bom Povo Benfiquista já não viaja ao Jamor faz alguns anos, mas há rituais que, de tão enraizados e repetidos, simplesmente não se esquecem. O dress-code da festa é, tal como a própria festa, simples: uma camisa aberta, umas calças de ganga, um boné do Benfica e, evidentemente, um bigode. É importante. Não, é fundamental mesmo que cada qual leve o seu bigode.

Há quem ande a treinar. A metodologia varia de pessoa para pessoa, consoante a capacidade de fazer crescer pêlo na cara, a disponibilidade profissional, a teimosia, o bom gosto, etc. Deixo aqui a minha shortlist, como se diz, de pré-convocados para a festa.

Este primeiro sou eu. Se olharem com atenção, algures ali no meio daquele tufo muito "idade da pedra", existe um bigode. É deixá-lo crescer. Em chegando o dia, reluzirá no meu rosto com esplendor, permitindo-me banhá-lo em espuma de Sagres e vinho de proveniências duvidosas, de modo que conserve uma abastada variedade de sabores e nuances até ao momento em que, depois de um sono retemperado após um enérgico e anárquico desfile pelo Marquês, eu acorde com a sensação de ter dormido numa adega. Uma maravilha de bigode, muito absorvente.

Este aqui é o Moleirinho. É um bigode honorário. Perdido em África - mais um entre a nova diáspora lusitana -, duvida-se que consiga estar presente no anfiteatro do Estádio Nacional. Porém, creio que é possível aliciá-lo com promessas de febras de javali. É tentar. Bigode não lhe falta, assim como Benfiquismo do mais original e primitivo.

Esta é a Sal. O bigode clássico, aristocrático e robusto não engana: nasceu para ganhar a Taça!

Ôpá... Há aqui um erro de casting. Este jovem não vai ao Jamor. A não ser que o apelo do piquenique seja mais forte. Mas não creio que o prato principal seja do seu agrado. Pode integrar a pré-convocatória, mas não acredito que que venha a fazer parte dos 23 eleitos.

Olha, aí está a Ana, uma aquisição recente para este tipo de festejos - aliás: para festejos futebolísticos de um modo geral, dado o seu historial futebolístico.

A Paula. Quem a conhece melhor, sabe bem que este bigode é já uma instituição na família. Não, não foi a Paula quem o inventou. Há aqui antecedentes familiares, posso afiançar.

O bigode da Xana é uma espécie de Tacuaragode. Ó o bigode com super-poderes. Com ele na bancada, não há maneira de não ganhar (mesmo que empatemos). Um bigode a estimar, que é preciso segurar na equipa.

A fechar esta lista, o Zé com o seu bigode. Um bigode de artista, pois claro, a lembrar a Paris dos criadores, dos pintores, das bailarinas (a Paris, não o bigode), dos cantores de canções em francês. No fundo, o bigode que assegura a nota artística, como o nosso actor principal tanto gosta.

Por falar nisso, gostava muito de ver Jesus de bigode na final do Jamor. Fica o pedido. E atenção que ainda não atenderam a qualquer pedido meu este ano. Ainda estou para ver esse póquer, por exemplo...