Este texto é para todos eles, que fazem da minha paixão Benfiquista uma coisa absolutamente grandiosa e que me enche de gratidão só por poder vivê-la. Vou no oitavo dia de dores, é certo, mas consciente do êxtase hipnótico que tem sido viver este ano. Todos queremos "sentir felicidade", aquela que vem agrafada ao clímax da vitória; porém, quando «encomendamos a alma ao Benfica» (usando a frase de um belíssimo comentário deixado algures aí em baixo), devemos saber apreciar a simples possibilidade de "sentir intensamente". E, quanto a isso, não posso queixar-me.
Talvez fosse mais fácil procurar explicações para este insucesso gelado - decerto existirão. Mas culpar o que quer ou quem quer que seja não me deixará mais feliz nem descansado, até porque o Proença fez, finalmente, uma boa arbitragem, quase imaculada (e ainda fez dois cortes providenciais, fora do alcance de um Roderick, por exemplo... isto é um à-parte, o Roderick teve tanta culpa nisto quanto eu ou qualquer outro Benfiquista). Prefiro concentrar-me em três pessoas para quem este jogo e todo este campeonato foi ou tem sido custoso, sobretudo pela distância a que se encontram: o Moleirinho, o Mago e o Adriano.
Os dois primeiros, enormíssimos Benfiquistas; o Adriano, um Portista que mete respeito. Estão todos a fazer pela vida, longe de tudo isto, e não puderam apreciar por cá a loucura quase absoluta que envolveu este jogo. O país esteve cinco dias suspenso sobre aqueles 90 minutos, quando esses ainda estavam por acontecer. Digo-vos que foi uma semana de grandeza futebolística, com tudo aquilo a que qualquer adepto verdadeiro tem direito. Qualquer conversa, no café, na barbearia, no metro, no escritório, no hospital ou na repartição de finanças não resistia mais de dois ou três minutos ao grande tema. Foi especial e vocês mereciam ter assistido a isto de perto.
Têm sido dias intensos e é assim que vão continuar a ser. Não falo do campeonato, claro, que esse para mim já terminou. Mas temos a Liga Europa e não temos a "obrigação" de a ganhar. Espero que os jogadores entrem em campo com o mesmo espírito recreativo com que os adeptos - isto, se bem os conheço - entrarão no estádio. Peço, contudo, que não recorram às mesmas substâncias... por precaução. Mas divirtam-se. Não tenham medo de jogar este jogo. É um momento lindo para qualquer pessoa que goste do futebol e há-de sê-lo ainda mais para quem tem o privilégio de jogá-lo, de pisar aquela relva ostentando a Digníssima. Não façam contas de cabeça, não esperem pelo empate, pelos penalties, pela sorte ou pelo deslize do David Luiz (será por volta dos 62 minutos, já agora): joguem como sabem. Façam-me feliz. Inacreditavelmente feliz. Não pensem que vão salvar-me a época - não há salvação possível para o episódio de sábado. Mas salvem-me a mim. Façam-me, finalmente, chorar de alegria, porra.



