segunda-feira, 17 de junho de 2013

Natural do sítio errado, naturalmente do Benfica

Uma estranha conjugação de factores aliada a uma inusitada sucessão de eventos impediram que eu nascesse no Estádio da Luz.

No longínquo ano de 1979, tal como hoje, os meus pais viviam em Mafra. Em 1979, Mafra ficava longe de Lisboa. Na altura, para se "ir a Lisboa" faziam-se preparativos - levava-se, por exemplo, tupperwares com pastéis de bacalhau. Não havia auto-estrada e os carros bebiam muito - o meu pai tinha, salvo erro, um FIAT 1500, que não era propriamente um exemplo de como poupar - e andavam pouco.

Quando as pessoas de Mafra iam a outra terra, normalmente era à Ericeira, que tinha mar, ou à Malveira, que tinha feira. Não iam a Lisboa. Se alguém queria uma experiência mais urbana e cosmopolita, ia-se a Torres Vedras, que era uma espécie de Mafra mas em maior e tinha cinema. Não havia necessidade de perder uma hora e meia pela estrada nacional, atravessando, abreviadamente e por ordem, Alcainça, Malveira, Venda do Pinheiro, Lousa e Ponte de Lousa (nunca me lembro qual delas vem primeiro), Pinheiro de Loures, Loures ela própria, Flamenga e Carriche, roçando ainda as fronteiras de Ponte de Frielas e de Odivelas, lá mais à frente, até chegar à tabuleta que eu sempre achei grande mas não o suficiente para assinalar a entrada na capital do país.

Ia-se a Lisboa ao Jardim Zoológico, muito raramente, ou ver o Benfica, um pouco mais frequentemente. Mas não se passava a vida no Estádio da Luz: era mais as quartas-feiras europeias e os jogos para festejar o campeonato. Também se ia a Lisboa para apanhar a Ponte Sobre o Tejo que, na altura, ainda tinha o novo nome de 25 de Abril fresquinho e o nome velho de Oliveira Salazar enraizado.

Em 1979, as pessoas nasciam nas maternidades e cada um tinha a sua. Se hoje uma pessoa vai de Elvas a Badajoz para ser nascida, naquela altura nascia-se um pouco por toda a parte - exceptuando em Mafra, cuja maternidade possuía uma característica que sempre a distinguiu das demais: a intermitência. Ora funcionava, ora nem por isso. Dá-se inclusivamente o caso de haver crianças do mesmo ano, cujas famílias habitavam uma no segundo esquerdo, outra no segundo direito, de um mesmo prédio da Rua do Hospital, por exemplo, que são naturais uma de Torres Vedras (S. Pedro e Santiago) e outra de Mafra.

Eu poderia ser a criança do primeiro exemplo, porém nunca vivi na Rua do Hospital. A minha rua era a José Elias Garcia. Ruas elias garcias existem em praticamente todas as terras, por mais que não se compreenda assim de repente a extraordinária popularidade que esta personalidade praticamente desconhecida veio a ganhar ao nível da toponímia. Para simplificar a explicação, chamar-lhe-ei "inexorável fervor republicano". Não sendo eu um republicano, afeiçoei-me desde os meus 4 anos a Elias Garcia e cheguei, eu próprio, a sentir fervor quando me deparei com o seu nome numa outra placa de uma outra rua de uma outra terra qualquer: oh, o meu Elias Garcia. Não sabia quem fora o tal José, mas estava-lhe muito habituado. Uma pessoa afeiçoa-se.

Em 1979, ano longínquo, as pessoas não nasciam em estádios. Em 1979, em Mafra, as pessoas começavam a habituar-se à ideia de não nascer em casa, mas sem exageros: na Rua do Hospital ou em Torres Vedras, a ordem era para se nascer na maternidade. Em Agosto de 1979, a maternidade de Mafra estava encerrada, o que veio a fazer de mim, para efeitos de registo civil, um inesperado Torreense, ainda que o tempo que passei nessa fortaleza do Oeste tenha sido, na sua esmagadora maioria, dedicado ao Campo Manuel Marques, ora sobre a relva, ora nas suas bancadas ou ainda no relvado sintético que havia ao lado e que era quase tão abrasivo quanto o piso de Alcatrão do meu Ciclo de Mafra.

Esta dedicação Torreense de que falo só viria a dar-se, no entanto, em 1993-1994 e não justificaria, só por si, a naturalidade que trago no BI. O critério do Arquivo de Lisboa para me atribuir origem foi mesmo o da maternidade que me viu ver a luz do dia pela primeira vez. E é por isso que eu lamento profundamente que a Luz não tivesse sítio para se nascer - até porque o nome do Estádio é, talvez, o mais adequado para o efeito.

O meu nascimento noutro sítio que não o Estádio da Luz é, portanto e como se pode comprovar, fruto de uma anárquica conjuntura. Falo do assunto porque a 27 de Agosto de 2013 se comemoram os mais ou menos 27 anos da ocorrência do 27 de Agosto de 1979. E eu, que não nasci na Luz por manifesta infelicidade, pretendo fazer de um lugar junto ao varandim do piso 3 - sector 6 uma das minhas principais residências para 2013-2014, de modo a comemorar a efeméride de ter vindo ao mundo no sítio errado. Há coisas na vida que não podem ser emendadas mas que, ainda assim, vão a tempo de levar correcção.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

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Estava a falar com o meu amigo Moleirinho - que está em Moçambique a convalescer do Benfiquismo junto a águas tépidas, a panaceias de camarões com trinta centímetros - e perguntava-me ele «já estás recuperado?». E eu fiquei a pensar «estarei?».

Os dias passam e a possibilidade do esquecimento, ao invés de me apaziguar, deixa-me em pânico. Ainda não estou recuperado e ai de mim que venha a estar! Acordo todos os dias, desde o dia 20 de Maio, a acreditar que podemos ser campeões ainda este ano. E continuarei, creio eu, pela vida fora, perpetuando esta sensação insana, como se a época não terminasse nunca: 2012-2013 não teve nem vai ter desfecho. Não pode ter tido, já que eu não vi o Benfica a ser campeão e eu sei perfeitamente que o Benfica ia ser campeão. Vamos ser campeões, sim senhor, nem que seja no infinito. Qualquer outra possibilidade dá erro na minha compreensão: simplesmente não é processável.

Sinto saudades do Estádio da Luz, todos os dias penso nessa gigantesca casa de família ondulante e ruidosa. A propósito, lembro-me de estar no Jamor, durante o picnic de bigode. Depois de várias minis, naturalmente, fui persuadido pela natureza a estabelecer comunicação mais íntima com um eucalipto, um dos muitos que nos rodeavam. O ar livre, o cheiro a floresta e a febras na brasa, a brisa no rosto, os pés sobre as ervas e o primeiro pensamento que me ocorreu foi «estas casas-de-banho são muito bonitas... mas continuo a preferir as da Luz».

Não estou recuperado, não. Tenho o Benfiquismo a repousar no escuro, em cascos de carvalho, a ganhar gravidade e robustez. E, sobretudo, continuo à espera de ganhar, que isto ainda não acabou. Não pode ter acabado assim.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Agradecimento sincero e humilde aos campeões da Europa

Estava a ver fotos da equipa de hóquei a ser recebida no Pavilhão e pensei «como é que eu nunca fui ver um jogo de hóquei?». É nestas alturas que me apercebo do meu fundamentalismo futebolístico. É curioso: se me perguntarem se sou pelo Benfica ou pelo futebol, natural e imediatamente responderei «sou do Benfica», porque é ao Benfica que pertenço. Mas se pensar um pouco mais, noto que sou um Benfiquista primário do futebol, muito pouco dado a transigências ao ecletismo.

Durante toda a minha vida, vi o Benfica ser campeão da Europa duas vezes: uma em futsal, no Pavilhão Atlântico; outra em hóquei em patins, na caixa portista. Na primeira ocasião, tentei induzir em mim a sensação de "campeão europeu". O melhor que consegui foi um pequeno simulacro, como se, de repente, a Europa fosse uma coisa pequenina. Fiquei feliz, senti orgulho, uma leve exaltação, fiz um brinde e disse em voz alta "campeões da Europa". A frase soou muitíssimo bem.

Ontem o meu primeiro pensamento foi menos poético, mais sentimental: «que heróis», foi tudo o que me ocorreu. Em seguida, temi pelas carreiras dos atletas do Porto - para quando a extinção da modalidade no clube? -, mas logo voltei a focar-me nos nossos. Dei por mim feliz, novamente orgulhoso, a sentir uma leve exaltação, a querer fazer um brinde, a pronunciar para mim a frase mágica "campeões da Europa". Soa cada vez melhor.

Ser campeão da Europa será sempre um feito histórico. Ser campeão da Europa numa modalidade histórica e de grande tradição em Portugal no território do nosso maior adversário da actualidade dá-lhe um significado ainda mais nobre - e, sobretudo, levando em conta as circunstâncias que antecederam o jogo.

Eu queria chegar a um ponto e ando aqui a empatar tempo: na verdade, eu não me sinto campeão europeu. Campeões são eles, os que jogaram e quem os apoiou durante o ano, durante a carreira, durante a vida. Campeão europeu é o adepto que nunca se esqueceu deles durante toda a época, nos bons e nos maus momentos. Eu sou só um Benfiquista do futebol.

Estou muito, muito grato a toda a equipa de hóquei por ter elevado o nome do Benfica ao ponto mais alto, permitindo-me acrescentar um brilho de orgulho à minha paixão. Mas sinto alguma mágoa - na verdade, sinto-me de fora - por não lhes ter dado a atenção e o apoio que, como demonstraram, merecem. Sou mesmo um simples Benfiquista do futebol: ao mesmo tempo que me comprometo comigo a ir ver jogos de hóquei na época que vem, vou pensando no melhor lugar do Estádio - que saudades do Estádio - para o meu Red Pass. E é então que se me enche o peito e sinto uma exaltação grave, brilham-me os olhos.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

E então o Horatio salvou-me

O Horatio Kane entrou em cena e eu, curioso por saber qual das donas de casa teria espetado as facadas no malandro do Don Juan que entregava encomendas e sorrisos ao domicílio, eu, ávido pelas descobertas «look... a drop of blood» de uma equipa de investigação super equipada, super treinada, super «there's something here... looks like... fabric» perspicaz e super eficiente, eu deixei-me dormir. Foi o meu sono dos justos e aconteceu na terça-feira, quando adormeci no sofá, no meu mini sofá do Ikea, enrolado numa manta.

Desde domingo, tive sonhos febris e agitados, daqueles elípticos, em que eu fazia substituições, umas atrás das outras, mas tirava sempre o Rodrigo, sempre o Rodrigo, sempre o Rodrigo e metia o Lima e o Lima, de repente, já era o Rodrigo. Depois, a equipa subia escadas para ir levantar taças, mas chegava lá acima e estava escuro e o Jesus caía de joelhos, primeiro, e pelas escadas abaixo, depois. E então eu substituía o Rodrigo e lá aparecia o Rodrigo a falhar golos e a equipa a subir escadas e o Jesus a cair de joelhos e a cair das escadas. Uivos na escuridão e o Cardozo, muito raivoso, a gesticular, a tirar o Rodrigo pelos colarinhos e depois, ele próprio, o Cardozo, a transformar-se no Rodrigo. O Jesus caía de joelhos e vinha o Carlos Martins e apanhava-o e eu tirava o Martins e depois a equipa subia as escadas e eles eram todos o Carlos Martins e caíam todos de joelhos, todos pelas escadas abaixo.

Tive febre, transpirei, acordei gelado, às três, às quatro, às cinco da manhã, acordei cansado, acordei por dormir. Tentava adormecer e só via o Artur estendido sobre a relva a esticar os braços, a esticar as mãos, a esticar as luvas, a esticar os postes, e aquela bola, sempre aquela bola, a bater no fundo das redes. Chutavam um de cada vez: o Ricardo, o Kelvin, o Ivanovic, o Jefferson, o Soudani, o Ricardo, o Kelvin, o Ivanovic, o Jefferson, o Soudani, o Ricardo, o Kelvin, o Ivanovic, o Jefferson, o Soudani. Sem parar. E o Artur a esticar-se e o poste a esticar-se e a deixar o Artur indefeso, uma e outra vez, uma e outra vez.

Até que na noite de terça-feira, enquanto o Horatio «it looks like someone was... on fire» deduzia coisas brilhantes de um cenário ensanguentado, eu adormeci sem dar por nada, sem querer, sem ter vontade, vencido pelo cansaço. Acordei de madrugada, a televisão já estava desligada, ainda não havia sol lá fora e tudo estava em silêncio. Tenho dormido melhor, mais descansado. O Jesus, pelo menos, já não cai escadas abaixo e o Carlos Martins desapareceu.

Um pontapé na agulha

Percebi hoje que a outra equipa que desceu foi o Beira-Mar. Entenda-se por "outra" como "aquela para além do Moreirense". Não desprezei o Beira-Mar ou qualquer outro que estivesse para descer. Simplesmente, não conseguia olhar para tabelas classificativas. Acontecia-me uma espécie de colapso sempre que olhava para uma classificação. Ficava tonto, confuso, baralhado, desorganizado. Algo ali não bate certo. O meu instinto assinala aquele alinhamento com o alarme de "erro" e, a partir desse momento, todo o processamento de informação se torna impossível para mim.

Mas hoje consegui. Forcei-me a abrir o site da Liga e olhei imediatamente para a o fundo da tabela, evitando mais um choque. Lamento pelo Beira-Mar, não me parece que tenha sido a pior equipa da liga. Gil Vicente, Académica e Vitória de Setúbal foram, do que vi, as equipas menos competentes e com futebol mais "segunda liga" da competição.

Tem sido uma semana calma, mas difícil de suportar. A agitação em torno do Benfica, o fica-não-fica de Jesus, as críticas muitas vezes a quente, mal fundamentadas, mal pensadas, que vejo debitar um pouco por toda a parte «deita abaixo, que isto assim não funciona» e eu só penso «puta que pariu a bisavó do Kelvin, que estragou isto tudo».

E vejo o adversário - a hiena faminta que se revela num determinado tipo de adepto adversário - que na segunda-feira apreciava Jesus e que dele dizia «vocês não sabem apreciá-lo, não o merecem» e que agora que Jesus ameaça ficar e que Vieira promete continuar em frente - é que se não fosse aquele pontapé macaco do Kelvin... - se torna um crítico desdenhoso «isso... ahah... fiquem com o Jesus... ahah... isso, fiquem com o Vieira» e eu penso «por que carga de água havia esta gente de querer o nosso bem?».

O pontapé do Kelvin mudou o campeonato e, com isso, muito provavelmente, mudou a agulha dos carris que estavam prontos para nos levar à glória. Mas não entendo por que razão o pontapé do Kelvin tem de mudar também o rumo do meu Clube. Continuo: o rumo está certo. Saíamos foi na estação errada - pois foi, mudaram-nos a agulha. Mas o rumo está certo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Haverá sempre uma bandeirinha que se agita

Hoje ao almoço estava a comer o meu resto da telepizza da véspera, aquecida no micro-ondas e pensei «é isto: a era que estás a viver tem a sua metáfora nesta refeição». Telepizza requentada no micro-ondas: nada - nem um ingrediente - ali é remotamente comestível. Só cedi à ingestão do detrito porque a escolha era entre isso e o jejum. O meu mês de Maio de 2013, que terminará dia 31 - como previsto - numa cadeira de dentista - como não surpreende - é apenas um período de tempo, uma nuvem de cronologia que teima em demorar-se sobre mim mas que eu estou à espera que me passe de maneira a que eu possa voltar a ter uma vida sossegada e equilibrada, da qual conceitos como "lógica", "expectativa" ou "conquista" possam voltar a fazer parte.


Vergonha?! mas qual vergonha?

Enquanto mastigava, com algum custo, aquela matéria ressequida com um sabor aproximado a tomate, ranço e miolo de camarão do Lidl fora do prazo de validade, tentava elaborar mentalmente uma lista de coisas que posso fazer durante os próximos dois meses e que não fiz durante estes últimos nove:

-passar fins-de-semana fora com a Lady Verde, totalmente focado apenas nisso
-visitar os meus pais com frequência
-poupar dinheiro
-não comer muitas bifanas
-fumar menos, muito menos
-nada, absolutamente nada
-música
-passear aos sábados
-ver filmes "no I.Q. required" aos domingos
-vestir cores mais variadas
-ir à praia
-ver o pôr-do-sol
-ler menos A Bola
-ler mais literatura
-cortar a barba duas vezes por mês
-jogar à bola às quartas-feiras
-sofrer menos


Isto era só o vento.

Quando a bola entrou pela segunda vez, senti as pernas perderem força, senti uma profunda confusão mental como se a matéria cerebral se dissolvesse - juraria que podia ter-me escorrido pelo nariz, naquele momento -, faltou-me o ar. Tudo me falhou. Desejei ardentemente teleportar-me para casa, para a cama e deixar que a febre me consumisse. Não consegui falar.

É a quarta vez que me acontece isto no espaço de vinte dias. Andei 9 meses a ganhar como se não houvesse amanhã; ando há 20 dias a perder não sabendo se haverá realmente um amanhã. Qualquer coisa acabou ontem quando o Jorge Sousa soprou para o apito final e eu não sei se foi o mundo ou se foi a época. Mas foi grave.

Não me despedi de Pablo Aimar e não tive forças para assistir à coroação do Vitória. Não foi falta de educação, foi falta de tudo o resto. Não vi grande coisa depois disso no caminho até ao carro. Lembro-me de pedir os óculos de sol de volta. Não consegui encarar o mundo, não consegui pensar no Cardozo, no Jesus, no pontapé do Artur. Tudo o que sentia era uma dor muito pesada, em todo o peito, em todo o estômago, na garganta, nas têmporas.

Quando, mais tarde, na Típica, comecei a lamber a feridas, dei por mim a ter uma das mais inusitadas e inesperadas reacções. Peguei na bandeirinha, agitei-a e, com a voz ainda muito fraca, gritei baixinho «Benfiiiica! Benfiiiiica!» e senti-me como se tivesse outra vez seis anos e imaginei o meu pai a olhar para mim, a abanar a cabeça e a dizer «não sei como é que consegues».

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Uma barba e depois um deserto

Estamos perante uma equipa que tratou de perder cinco finais sem auxílio paranormal - o Vitória nunca precisou de maldições de béla-guttmanns para sair derrotado, fê-lo sempre pelo seu próprio pé (suponho que seja esquerdo e que seja frio).

Falo do assunto porque vivemos uma época em que Murphy e as suas probabilidades incontornáveis tomaram conta da ocorrência Benfiquista - mesmo quando as probabilidades eram bastante improváveis (eu não me esqueço de Vítor Pereira a dizer, poucos dias antes de se lhe inchar muito muito muito o peito, que «o Benfica vai ganhar, de uma maneira ou de outra, eu sei que vai ganhar... neste momento, já não acredito que possamos chegar lá»).

Ontem, conversava com um amigo acerca do que "falhou" no Benfica este ano. Eis o que falhou no Benfica: o Kelvin, aos 92 minutos, na situação inversa, com a camisola do Benfica vestida (sem querer repugnar o Kelvin - espero que o miúdo não leia isto), faria dois golos em 100 pontapés daqueles - no Porto, fê-lo à primeira; o Ivanovic, numa situação perfeitamente inversa, aos 92 minutos, em 90 cabeçadas daquelas, mataria 83 pombos e magoaria dois stewards e um apanha-bolas - contra o Benfica, acertou à primeira. Todas as nossas camisolas deviam dizer "Murphy"; a do Artur devia dizer "D Day Murphy".

Olhando para o panorama, as probabilidades acumulam-se: o Benfica ganhou 24 Taças em 33 finais disputadas; o Vitória perdeu as 5 finais que disputou. Não percebo de estatística nem de números grandes, porém, há-de haver uma ponta qualquer por onde a frase de Murphy possa pegar e aplicar-se, uma vez que as coisas podem correr mal.

Não digo que esteja pessimista. Tento apenas prever o próximo lance do adversário. Por "adversário" entenda-se o filho da mãe - que nem mãe tem, esse filho de um buraco negro - do Mefistófeles que me levou demasiado à letra quando, num desabafo pleno de entusiasmo pueril, eu afirmei que «trocava este campeonato pela vitória na UEFA e na Taça de Portugal». O "adversário" quer deixar-me a zeros.

Dormi muito mal esta noite. Tive daqueles sonhos circulares, sem início nem desfecho, sem passado nem futuro, uma linha contínua, sempre a repetir o mesmo momento «está zero a zero, está zero a zero, está zero a zero, está zero a zero» como um mantra infinito dedicado ao tédio que existe em não ganhar. Acordei cansado, desgastado, até mesmo preocupado. E se a gente não ganha? Aliás: e se a gente não ganha "outra vez"?

Tenho uma coisa para dizer ao tal de Mefistófeles e a toda a companhia do pé de cabra, do pé esquerdo e do pé frio: tenho aqui uma barba com quase um ano e meio de construção; tenho aqui um bigode à espera de ser libertado e de vos mostrar o seu poder; e tenho um deserto à minha frente a seguir a domingo. Por isso, NÃO brinquem comigo.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Dois euros e setenta

Parámos em Sete Rios num semáforo que estava vermelho, passei o meu telefone à Lady Verde, disse-lhe «guarda isto, eu ligo-te quando estiver despachado» e saí do carro. Ela não percebeu o que se passava nem sabia o que ia acontecer, mas também não fez perguntas.

Desci à estação de metro, direcção Santa Apolónia. No cais oposto, dezenas de pessoas com cachecóis e camisolas do Benfica e eu, num impulso, quis mudar de direcção, ir com eles, juntar-me a eles, rumar ao Estádio. Mas não tinha telemóvel, não tinha como falar com o André e desmarcar tudo. Contive-me e segui o plano.

O caminho até aos Restauradores foi penoso: sem telefone, sem um livro, sem nada que me distraísse, vendo pessoas nas estações por que ia passando, no sentido oposto, vestidas de Encarnado, não me restava senão sentir remorsos, como se estivesse a abandoná-las no último momento.

Não cheguei logo ao destino que tinha em mente, saí à rua ainda na estação da Avenida, não aguentava mais a viagem. Desci o restante a pé. Havia algum movimento, as esplanadas estavam cheias. Entrei, por fim, num café nos Restauradores, perguntei pelas cervejas «é Super Bock» e eu «não tem outras?», «tenho Carlsberg: dois euros e setenta, quer?», «claro, dê-me uma». Dois euros e setenta por 25 centilitros de cerveja dinamarquesa. Eu posso pagar dois euros e setenta por isso. Da última vez que toquei em Super Bock, o Benfica empatou em casa com o Estoril. Eu era capaz de pagar 27 euros por um cálice de Carlsberg. Mal aviado.

Sentei-me na esplanada, sozinho, e esperei. Tínhamos marcado para as seis e um quarto. Fui bebendo devagar, ainda faltavam uns minutos. Na minha cabeça as palavras do empregado para um cliente aparentemente habitual, ao balcão, «vocês não limpam nada, nem a taça... o Guimarães faz-vos a folha». Dois euros e setenta. Dois euros e setenta. Dois euros e setenta e o André atrasado e a cerveja a chegar ao fim.

Enrolei um cigarro, acendi-o, levantei-me, caminhei para trás e para diante. A impaciência a tomar conta do assunto. O assunto, sempre presente. Para trás e para a frente, dando a volta à boca do metro «mas este gajo nunca mais chega?», eram quase seis e meia. Ao fundo, vejo o meu amigo David, baterista, com a tralha às costas. Cumprimentamo-nos e ele, a estranhar-me, «o que é que estás a fazer aqui?», o David não liga muito à bola, ele é mais jazz, ele é mais rock. Não tentei explicar, disse só «pá... estou numa espécie de... experiência espiritual». Recuou dois passos «tu vê lá no que te metes, meu... cuidado com essas merdas». «Não te preocupes, o pior que pode acontecer é... correr mal». Correu mal.

O André não chegava e já passava das seis e meia. Mais um cigarro enrolado, mais voltas para baixo e para cima, para a frente e para trás. Todo o português espera, em algum momento da sua vida, por um Dom Sebastião. Este era o meu momento e aquele filho da mãe sem horários era O Encoberto, já ia quase um quarto de hora sobre o primeiro apito de cada um dos jogos. De todos os lados, nem nevoeiro, nem Dom Sebastião: sol, sombra e gente de passagem.

Chega o André, entretanto, vem do lado do Rossio, vem de passo acelerado, vem com vontade de pedir desculpas e de dar justificações. Não temos tempo, «vamos mas é ali ao Pingo Doce buscar cerveja, senão não me aguento». Fomos, comprámos duas litrosas de Sagres, bem mornas, aparentemente deixaram de as ter frescas. Antes disso testámos a câmara, testámos o gravador de som. «Está tudo em ordem? Tem bateria que chegue?», perguntei. «Foi tudo acabado de carregar», respondeu ele.

Lembro-me de, na escola primária, a minha professora me ter falado duma experiência com ratos em gaiolas na Avenida da Liberdade. Pretendiam perceber se esta era muito poluída. Era. O monóxido de carbono matou os ratos em pouco mais de um hora. Lembro-me de ter lido coisas acerca de privação sensorial. Lembro-me de ter, em Maio de 2005, imaginado uma situação em que eu, de cachecol ao pescoço, me deslocaria ao Marquês à espera das primeiras buzinas, sem saber o resultado do Benfica no Bessa. Lembro-me de não ter concretizado essa ideia. No domingo concretizei-a. No domingo, quando tudo podia correr mal, quando o domingo tinha tudo para correr mal. Correu mal.

Filmámos a caminhada e gravámos as conversas, fomos subindo e filmando e falando e gravando e bebendo. Sentámo-nos num banco no início da Avenida razoavelmente próximo de uma esplanada. Uma banda tocava covers. Pink Floyd e Doors e outros clássicos. E, de repente, calam-se e o jogo surge em alto som, o da Luz, num ecrã grande. Fugimos rapidamente evitando a informação. Nós não podíamos saber o que se passava.

Subimos mais, com as mãos ocupadas com garrafas, câmara, gravador e cigarros acesos, cada um com as suas funções. Mais acima, outra esplanada, outro ecrã, outra vez o locutor aos berros com o Benfica. Tapei os ouvidos e corri, avenida acima. O André também correu, mas ainda ouviu qualquer coisa. «Não me digas nada, não quero saber nada. Não possa saber nada». Por mais que tentes fugir, a informação persegue-te. Tu não queres saber mas há sempre alguém que quer que saibas. «Vamos para o Parque, lá não há esplanadas nem televisões nem rádios». Fomos.

«Pá, preciso só de dar uma mija», «boa, a seguir vou eu». O Parque quase deserto permite que o processo decorra sem sobressaltos. «Foda-se, a câmara ficou sem bateria». «Guarda-se para o fim, para as primeiras buzinas». «Vou tentar com o telefone, faz aí uma claquete». «Merda, caralho... o gravador também está a ficar sem bateria... que se foda a claquete. Olha, isto é mau dizer foda-se e caralho? É sobre bola, no fundo...». «Não, é na boa». «Foda-se, caralho, foda-se, caralho, fod» «pode-se dizer... não é obrigatório», «ok, desculpa... foda-se, é dos nervos, caralho».

Sentámo-nos na relva, o sol descia, equilibrámos o telemóvel-câmara na mala da câmara-mesmo-câmara «ao menos, que sirva para alguma coisa». Serviu de pouco, aquela merda nem se equilibrava. «Ok, um filma o outro vai falando e vamo-nos revezando... tentamos aparecer os dois no plano». Pareceu-me um plano. Cerveja cada vez mais quente, nervos cada vez mais nervosos, o sol cada vez mais baixo, pardais a chegarem-se perto, sem vergonha nenhuma. «Bom presságio, bom presságio... são aves, são aves como a Águia Vitória».

Empatámos tempo como se fôssemos Ola Johns agarrados às canelas, cheios de esperanças, cheios da esperança possível, cheios com a esperança mais mínima e ridícula que alguém pode ter, sem esperança nenhuma mas com uma fé que não desarma, com conversas que envergonhariam qualquer surrealista puro. E ouviu-se a primeira buzina. «Olha... espera». E ouviu-se outra. E depois algum silêncio. E depois algum silêncio mais. E depois algum silêncio até às oito e vinte e eu disse «foda-se, caralho... aqueles cabrões ganharam esta merda outra vez. Nem sei para que é que ainda tenho esperanças». Pegámos nas coisas, começámos a descer. Quando atravessámos a estrada, junto ao Marquês, já havia meia-dúzia de eufóricos aos pés da estátua e uma dúzia de carros em torno dela, apitando, agitando bandeiras. «Que se foda. Anda, vamos comer uma bifana à Típica». Também comemos caracóis.

terça-feira, 21 de maio de 2013

História no Jamor

Há uns tempos, boa gente de uns blogues vizinhos mandou-me um e-mail a propósito de um plano que pretendia conquistar o mundo Benfiquista à bigodada. Era uma ideia com muita graça, mas de execução difícil: consistia em criar uma legião de bigodes para o que faltava da época. Enviaram-me, na altura, um e-mail porque souberam que eu tinha, antes disso, feito uma sugestão que poderia ser vista como antepassada deste projecto mais megalómano: o projecto "Bigode no Jamor", chamemos-lhe assim. Mas, sobretudo, fizeram-no porque são gente bem educada que, por isso, achou por bem falar-me no assunto e ainda convidar-me a integrar esse plano maior. Fiquei grato, embora não tenha participado activamente.

Na realidade, ninguém tinha obrigação alguma de me dar satisfações, encaro o gesto como uma gentileza. Quem inventou o bigode não fui eu - foi Cosme Damião, Ele Próprio, o autor da ideia. O Jamor foi inventado por Deus, Ele Mesmo, e é um rio que corria pelo meio de terras sem outra utilidade que não fosse sofrer erosão de maneira a que, com o tempo, se formasse um vale onde se pudesse construir um sumptuoso estádio onde, um dia, haveria de se jogar a final da Taça de Portugal. Tudo isto era um plano elaborado. Mas, como se constata, tudo o que fiz foi simplesmente juntar dois conceitos complexos que, na realidade, parecem ter nascido para se unirem uma vez por ano, em Maio.

O projecto "Bigode no Jamor", gosto de lhe chamar assim, tem a pretensão singela de homenagear o tempo em que eu dei por mim a apaixonar-me pelo futebol. E isso aconteceu numa altura de grande beleza, a qual hoje recordo como tendo sido mais Gloriosa do que provavelmente foi - não deixo de sentir alguma inveja dos novos Benfiquistas, com 6, 7, 8, 9 ou 10 anos, cujos pequenos corações começam a agitar-se e a palpitar diante de uma equipa belíssima e de imparável tendência trágica. Todos eles hão-de ser poetas do Benfica, espero eu, daqueles que não morrem de amor porque teriam de morrer várias vezes só para satisfazerem um décimo da voracidade pelo drama intenso que foram desenvolvendo em si, desde o dia 6 de Maio de 2013.

Falava eu do tempo em que começava a aprender os nomes do Mortimore e do Humberto e do Bento e do Shéu e do Chalana e do Álvaro. Recordo finais da Taça de Portugal - não sei precisar qual ou quais e seria batota verificar na wikipédia - com gente de bigode, garrafões de cinco litros de vinho tinto, bandeiras sedosas com rendilhados, bonés cada vez mais de lado em cabeças cada vez mais eufóricas, camisas abertas em frente a grelhadores de bifanas, entremeadas e coiratos. E é só isso que eu quero fazer: de algum modo, recriar o espírito dos dias em que o sangue que me nascera Encarnado começou a fervilhar sempre que onze tipos, também de Encarnado, jogavam à bola.

Já tenho o bilhete (obrigado, Sal) e os 12 companheiros de aventura; já fiz a lista das carnes, do vinho, das minis, do pão e das saladas; já mandei vir cachecol vintage, boné clássico e bandeira a condizer. O bigode, esse, está aqui, resguardado entre a barba e pronto a desabrochar no sábado, antes da final da Liga dos Campeões. Será durante esse jogo que tratarei de o apresentar ao mundo, numa espécie de ante-estreia exclusiva para quem se quiser juntar na Típica de Alfama para saudar o próximo campeão da Europa.

sábado, 18 de maio de 2013

Dia de reflexão

Como em todas as vésperas de eleger alguém. Vou, por isso, remeter-me ao silêncio. Mas tenho um plano. Um bom plano :D

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A possibilidade de um pequeno Enzo

Ainda não passaram dois dias inteiros sobre a última e já sinto saudades de ver o Benfica numa final europeia. Não sei como é que aguentei 23 anos afastado destes cenários luxuriantes.

Mais do que matar saudades de uma final na Europa, o evento de Amesterdão permitiu-me construir uma consciência completamente nova acerca do que é isso de "ir lá", de sentir que "podemos ganhar". Assisti, na minha vida, a quatro finais europeias do Benfica. Da primeira, não me lembro, tinha quatro anos. Das outras duas, lembro-me, mas ainda era um aprendiz de pessoa e de Benfiquista e, como tal, era parco em sentimentos. Recordo-me, por exemplo, de sentir a derrota com o Milan como perfeitamente natural, expectável e lógica. Sem mágoas.

Desta vez, tudo foi diferente. Acompanhei a época do Benfica sempre de perto, vi na Luz todos os jogos que podia ter visto, do campeonato, da Champions - minto: não fui ver com o Barcelona por opção, já que me recusei a participar nessa bizarra excursão de benfituristas -, da Liga Europa, da Taça da Liga e da Taça de Portugal. Não sei ao certo quantos jogos foram, talvez tenham sido uns 25. Fui ver o Benfica - Braga, logo na primeira jornada, empatámos e jogámos muito mal, depois saíram o Javi e o Witsel e eu pensei que seria uma época dramática. E acabou por sê-lo, sem dúvida - mas não era deste tipo de dramatismo que eu falava. Era "dramática" no sentido de "época para esquecer". Mas eu não me vou esquecer desta época, nunca. Não terá na história as letras de ouro que talvez merecesse - decerto, merecia -, mas tem sido uma época de grande descoberta para mim, até ao nível pessoal.

Posso afirmar que, num período profundamente marcado pela perda do meu anterior emprego e por várias outras contrariedades, que acabaram por ter como consequência alguma desorientação - senti-me bastante à deriva, devo confessá-lo -, o Benfica foi a minha maior disciplina, a minha referência, a minha regra e, felizmente, uma generosa fonte de alegrias, uma razão muito especial para estar com certos amigos, um ritual muito forte, uma realidade constante, presente e segura, um excelente motivo para acreditar, para ser optimista, para não me sentir derrotado perante adversidades que, enfrentadas com espírito, estratégia, inteligência e talento, podem ser superadas. O Benfica tem sido uma grande lição, é a minha comunhão e estamos cada vez mais juntos, praticamente inseparáveis.

Na quarta-feira, vinha no metro a ler o Moby Dick tentando abstrair-me um pouco da tensão que a expectativa do jogo começava a gerar em mim, quando tive um pensamento inusitado, surpreendente, inesperado e sem explicação: um bebé, um recém-nascido, na minha cama, entre mim e a Lady Verde. Esse pensamento perturbou-me. Não de um modo negativo, mas agitou-me porque senti coisas com aquela imagem, senti uma estranha forma de ternura, que nunca até então sentira. E, sobretudo, senti que gostava da ideia. O meu pensamento seguinte foi tão absurdo quanto ingénuo e até é um pouco embaraçoso confessá-lo aqui, publicamente - mas foi genuíno e não me envergonha: «se o Benfica ganhar, hoje será um bom dia para fecundar». Eu sei que a Lady Verde, quando - se - ler isto, é capaz de me pôr de castigo durante uns dias, mas isto é a mais pura das verdades e quem diz a verdade não merece castigo.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

«Era queimá-los como Távoras»

Gostamos de culpados. Adoramos culpados. Não sei se se trata de uma herança judaica ou católica, mas é, pelo menos, algo muito à moda do Velho Testamento: para tudo temos pecados e pecadores. E temos para eles as punições devidas e os castigos merecidos. E, meus amigos, como nós gostamos de castigar, depois de apontar os culpados. E gostamos deveras de observar os culpados a sofrer com os castigos, lava-nos o espírito. Durante séculos, purgámos a alma das comunidades pendurando pecadores em pelourinhos. E foi assim que chegámos onde chegámos, identificando e castigando os pecadores. É assim que nos vamos salvando, geração após geração.

No fim do jogo com o Porto, o meu pai, que por acaso nem é católico, ligou-me para identificar meia-dúzia de culpados. Recusei a discussão, estava mais virado para o sofrimento profundo do que para o debate «aponta aí um pecador que eu trago o chicote a jeito». Ontem foi a minha mãe, que eu nunca percebi muito bem se é mesmo católica, a mandar-me uma mensagem terrivelmente consternada, apontando, sem hesitações, a culpa de Artur, que não defendeu aquela bola infernal. Hoje, foi uma amiga, que eu não creio que seja católica, que decidiu eleger Jorge Jesus como alvo, porque «não dá mais que isto». Olhando de perto, percebe-se que não precisas de ser muito católico para fazeres uma Inquisição.

Ingenuamente, não encontro culpados do nosso drama. Aliás, na verdade nem os procuro. Culpei o Martins, depois do jogo com o Estoril - mas culpei-o apenas por existir, porque nunca gostei dele, nunca gostei da ideia de ele vestir a Digníssima, nunca o quis entre os nossos; ou seja, não lhe imputei as culpas da desgraça que se vai abatendo sobre nós.

Mas hoje, onde alguns vêem trevas, eu vislumbro o que parece ser o início de uma nova era gloriosa. Por isso vos peço: tentem não encontrar pecadores nem culpados, não façam fogueiras purificadoras, arrumem os chicotes, afastem-se dos pelourinhos. Quando ontem os vi chorar, os nossos rapazes, desolados, todos me pareceram galileus convictos, sabendo, na hora da derrota cruel, que eppur si muove. Ter perdido não significa que esteja tudo errado. Pode significar que estamos no caminho certo, na direcção certa, e que simplesmente ainda não somos perfeitos, ainda não chegámos lá. As coisas às vezes levam o seu tempo.

Até Thomas Mann escreveu sobre o assunto

Tenho, hoje, a sensação de que uma qualquer entidade superior anda a testar os limites dos tecidos que me compõem a alma: a fé, a esperança e a paixão. Não sei se essa entidade me está a ler, mas caso esteja, aqui fica: pode desistir. Enquanto houver esta paixão, que todos os dias me cresce, a fé e a esperança não se hão-de romper.

A derrota de ontem e as circunstâncias de toda esta tragédia épica, a nuvem de crueldade que me atormenta há dez dias, sem parar, levavam-me a crer que não tinha culpa do que está a acontecer. Nem eu nem qualquer outro Benfiquista podem dar tanto azar assim à sua equipa. Há aqui uma encomenda cósmica com localização, origem e destino tão remotos que deve situar-se muito perto da impossibilidade.

Quando Ivanovic cabeceou impunemente e com fatalidade, regressei ao choque apático de sábado passado. Levantei a cabeça quando ouvi a frase «Tacuara entra na área» e então o Cardozo chutou uma porção de oxigénio, hélio, gases rarefeitos e sobretudo azoto, com a bola a passar-lhe à frente da biqueira e o meu ânimo morreu ali, como se o pontapé tivesse sido nele. Há momentos em que a tragédia é tão cruel e maldosa, tão cínica e exagerada, que roça o limiar da comédia e foi nesse instante que dei comigo a pensar «é os kelvins, é os celsius... espero que o Vitória não tenha um cabrão de um fahrenheit, senão estamos entalados outra vez».

O jogo acabou e os meus rapazes caíram por terra como miúdos, desolados, em lágrimas. Foi a imagem que mais me doeu, vê-los desamparados, a sentirem o insuportável peso de uma derrota injusta. Lutaram como bravos e caíram de cansaço. Merecem o sono dos justos. E merecem também todos os gritos, cânticos e aplausos com que o nosso povo os tentou animar.

E então a minha consciência agitou-se quando me lembrei de um determinado episódio. Enquanto os chorosos mas muito nobres do Benfica subiam à tribuna para receberem a dolorosa medalha de prata, recordei uma conversa que tive com um amigo. Ainda nós estávamos a meio da eliminatória com o Leverkusen e sabíamos que, batendo os alemães, tudo seria possível. Foi uma espécie de negócio de Fausto em que eu afirmei, sem cautelas, que «se o Benfica ganhar a Liga Europa e a Taça de Portugal, dispenso bem o campeonato». Hoje vergo-me de culpa perante este Mefistófeles que, tal como os romanos, não paga a traidores.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Amanhã para sempre

(Nota prévia acrescentada a posteriori: o texto foi escrito ontem à noite. Passava da meia-noite quando publiquei, mas isso é-me indiferente, as horas são uma convenção, não são uma coisa absoluta: antes de dormir chama-se "hoje"; "amanhã" será depois de acordar.) Hoje almocei sozinho e eu sozinho, enquanto almoço, fico pensativo. Os momentos que tenho tido livres para dedicar ao pensamento têm sido, na sua maior parte, aplicados a contemplar paisagens que eram, para mim, desconhecidas até ontem. Fruto das viagens experimentais a bordo do 759 e do 794 da Carris, que atravessam bairros como Marvila, Bela Vista, Chelas, Olivais, Encarnação ou Moscavide, tive a oportunidade de as ver de perto.

Estou habituado à vista elegante do Barreiro a seguir ao Tejo; ao esplendor dos navios de cruzeiro, gigantescos, atracados a Santa Apolónia; à sumptuosidade da Arrábida, às vezes silhueta, outras vezes uma serra inteira, lá ao fundo, a caminho do Sul. Os blocos de cimento, às vezes coloridos e outras já sem cor, alternando com descampados sem dono, vias rápidas, pracetas inventadas e forçadas a existir como se fizessem algum sentido, pessoas ao ritmo de um trabalho atrás do outro - quando o têm e não andam atrás de um novo -, outras que simplesmente já desistiram, tudo isto é um retrato de uma Lisboa a que não estava habituado, mas que nem por isso é menos verdadeiro do que aquele que tenho a sorte de contemplar todos os dias. É, portanto, natural que o meu pensamento se disperse, tentando talvez compreender que realidade é esta em que nunca reparei.

Durante estas viagens, fui também processando a derrota de sábado. Nem tinha como fugir-lhe: a chaga ainda está em carne viva e, além disso, não são raros os passageiros que passeiam Benfiquismo com toda a naturalidade - uns usam bonés, outros fatos de treino, outros ainda jerseys do Gaitán ou do Luisão ou camisolas sem nome, só com a cor e o emblema, desta ou de outras gerações de Benfica.

E, assim, só hoje à hora do almoço pude dar-me conta de que amanhã podemos ganhar a Liga Europa. Não que eu não soubesse. Eu sabia, claro que sabia: a final é amanhã que se joga. Sabia mas não compreendia. Não na sua plenitude, não na sua profundidade: o Benfica PODE ganhar a Liga Europa. Quando me apercebi disto, fiquei estranhamente agitado e emocionado. Fiquei ansioso, mas daquela ansiedade boa, como a que sentia a 23 de Dezembro ou no dia antes de ir de férias para o Barril nos tempos de criança. Ou, mais tarde, na véspera de entrar na minha faculdade pela primeira vez.

O Benfica vai jogar a final da Liga Europa e pode ganhá-la. E este é, talvez, o dia por que eu mais esperei nestes últimos 23 anos. Não falo do dia de amanhã, não, não falo do dia do jogo. Falo desta véspera maravilhosa em que nada ainda aconteceu e tudo pode acontecer e eu sinto aquele aperto bom no estômago porque espero que amanhã seja um dia grandioso, um dia histórico, um dia feliz. Um dia que eu não queria que passasse nunca. Gostava que o tempo parasse hoje, durante vários dias, para que eu pudesse saborear melhor esta expectativa infantil. Gostava que isto não passasse num instantinho e que, depois de amanhã, já estivéssemos todos a falar do assunto falando no passado. Gostava que o jogo fosse só amanhã, sempre só amanhã.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Só para vocês, todos vocês

Num mundo ideal, o futebol seria exactamente assim - tirando, como é evidente, a parte em que o Kelvin atinge o golo. Tive, no sábado, a fortuna de partilhar o choque, a apatia e a tristeza com alguns dos meus melhores amigos Benfiquistas; tive, igualmente, a sorte de conviver com alguns dos meus melhores amigos que, sendo Portistas, se comportaram como cavalheiros: sem condescendências, mas com todo o respeito, sabendo estar felizes sem precisar de mais nada; e tive ainda a grande felicidade de ser aturado pela minha senhora, a Lady Verde, e de partilhar a noite de sábado com outros Sportinguistas de elevadíssimo calibre, que me permitiram sentir suavidade naquela aterragem brusca, de cabeça, num chão tremendamente duro (tudo isto é metafórico: tirando o momento em que caí de joelhos, quando percebi que a bola estava mesmo lá dentro, mantive-me de pé e aceitavelmente direito durante toda a noite).

Este texto é para todos eles, que fazem da minha paixão Benfiquista uma coisa absolutamente grandiosa e que me enche de gratidão só por poder vivê-la. Vou no oitavo dia de dores, é certo, mas consciente do êxtase hipnótico que tem sido viver este ano. Todos queremos "sentir felicidade", aquela que vem agrafada ao clímax da vitória; porém, quando «encomendamos a alma ao Benfica» (usando a frase de um belíssimo comentário deixado algures aí em baixo), devemos saber apreciar a simples possibilidade de "sentir intensamente". E, quanto a isso, não posso queixar-me.

Talvez fosse mais fácil procurar explicações para este insucesso gelado - decerto existirão. Mas culpar o que quer ou quem quer que seja não me deixará mais feliz nem descansado, até porque o Proença fez, finalmente, uma boa arbitragem, quase imaculada (e ainda fez dois cortes providenciais, fora do alcance de um Roderick, por exemplo... isto é um à-parte, o Roderick teve tanta culpa nisto quanto eu ou qualquer outro Benfiquista). Prefiro concentrar-me em três pessoas para quem este jogo e todo este campeonato foi ou tem sido custoso, sobretudo pela distância a que se encontram: o Moleirinho, o Mago e o Adriano.

Os dois primeiros, enormíssimos Benfiquistas; o Adriano, um Portista que mete respeito. Estão todos a fazer pela vida, longe de tudo isto, e não puderam apreciar por cá a loucura quase absoluta que envolveu este jogo. O país esteve cinco dias suspenso sobre aqueles 90 minutos, quando esses ainda estavam por acontecer. Digo-vos que foi uma semana de grandeza futebolística, com tudo aquilo a que qualquer adepto verdadeiro tem direito. Qualquer conversa, no café, na barbearia, no metro, no escritório, no hospital ou na repartição de finanças não resistia mais de dois ou três minutos ao grande tema. Foi especial e vocês mereciam ter assistido a isto de perto.

Têm sido dias intensos e é assim que vão continuar a ser. Não falo do campeonato, claro, que esse para mim já terminou. Mas temos a Liga Europa e não temos a "obrigação" de a ganhar. Espero que os jogadores entrem em campo com o mesmo espírito recreativo com que os adeptos - isto, se bem os conheço - entrarão no estádio. Peço, contudo, que não recorram às mesmas substâncias... por precaução. Mas divirtam-se. Não tenham medo de jogar este jogo. É um momento lindo para qualquer pessoa que goste do futebol e há-de sê-lo ainda mais para quem tem o privilégio de jogá-lo, de pisar aquela relva ostentando a Digníssima. Não façam contas de cabeça, não esperem pelo empate, pelos penalties, pela sorte ou pelo deslize do David Luiz (será por volta dos 62 minutos, já agora): joguem como sabem. Façam-me feliz. Inacreditavelmente feliz. Não pensem que vão salvar-me a época - não há salvação possível para o episódio de sábado. Mas salvem-me a mim. Façam-me, finalmente, chorar de alegria, porra.