segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O símbolo e a cor

Uma última homenagem deve obedecer a determinados preceitos. Comecei pela roupa. Este luto é encarnado, mas o cinzento triste deste dia e o carácter de despedida da ocasião empurraram-me até tons mais sorumbáticos: calças pretas, camisola cinzenta bem escura, casaco negro. Por dentro, uma camisa em quadrícula vermela e branca, porém discreta. Debaixo da camisa, uma t-shirt bordeaux. Experimentei vários cachecóis, todos eles encarnados. Mas o berrante da cor pareceu-me inapropriado - é dia de perda, não me apetece berrar com o cachecol. Preferi o bordeaux, uma vez mais. Partilhando com o vermelho a essência magenta, pareceu-me o tom adequado - mais sussurro, menos gritaria, a mesma natureza Benfiquista.

Há quem considere o luto nacional de três dias um exagero de Estado e há quem classifique a tristeza apaixonada de quem chora Eusébio como "ridícula". Sobre o luto nacional, não me pronuncio - eu faço o meu, à minha maneira, com ou sem Nação enlutada. Quanto ao "ridículo" aceito-o com humildade. Aprendi com o tempo que a capacidade de ser ridículo é essencial ao ser humano. Há quem pretenda que o Homem seja um complexo biomecânico dotado de intelecto e governado pela razão e pela lógica. Sendo o Homem um bicho inteligente, espera-se dele que seja todo ciência e bom senso. Eu discordo dessa ideia e reclamo o meu direito à paixão e à veneração.

Pode parecer patético ter símbolos e idolatrar em pleno século XXI. Pode até sê-lo, para além de parecê-lo. Sucede que tenho mesmo ídolos e que hoje me despedi do maior de todos eles. E é isso que me faz triste, essa perda, esta despedida. Não são a surpresa nem a carga trágica do evento que me deixam de rastos, é o vazio e a ausência que ontem nasceram que me fazem sentir mais abandonado e, de um modo um tanto infantil, menos protegido.

No Estádio, a consternação ia sendo disfarçado pelos cânticos incansáveis das claques que pontualmente se alastravam aos milhares que povoavam o primeiro anel. Aguardava-se a chegada do Rei com paciência. Num momento de silêncio mais longo e pesado dei por mim a desejar que ele não chegasse, que fosse tudo um engano e que o speaker dissesse «meus amigos, o Rei Eusébio teve alta», mas o speaker ligou o microfone e disse, com voz grave, devagarinho, «vai entrar no Estádio Eusébio da Silva Ferreira» e ainda o «Ferreira» não estava completo já o aplauso soava, apoteótico.

Quando o carro parou, a multidão suspendeu-se sobre os gestos da cerimónia: abriram a porta e prepararam-se para tirar de lá de dentro o ataúde. Ao longe, vislumbrei o vermelho da nossa bandeira, a cabeça da águia no símbolo, várias mãos a arrumá-la sobre o tampo do esquife. E então Eusébio foi levado em ombros ao centro do relvado onde um trono horizonal o esperava e eu imaginei-o naquele seu gesto inesquecível, de mãos no ar, aplaudindo quem o aplaudia numa volta lenta de 360º sobre si mesmo.

Nunca o aplaudi enquanto, no relvado, nos defendeu a cor com a bola nos pés abençoados - descontando a ocasião do seu 50.º aniversário, mas então era um jogo de amigos. Nasci em 1979, no ano em que Eusébio se retirou. Não culpo os meus pais, que me fizeram quando puderam, mas tenho pena que os meus 34 anos de Eusébio tenham sido a vê-lo ora de fato e gravata, ora de fato de treino com a toalha branca enrolada na mão. Por isso hoje não poderia deixar de aplaudi-lo na sua última subida ao relvado, poucas horas antes de descer à terra, poucas horas depois de ter ascendido ao Panteão do futebol.

A urna regressou ao carro e eu vi o Eusébio a enxugar as lágrimas à camisola pela última vez. Começou então a marcha lenta da sua volta Olímpica, Eusébio escondido de braços sobre o peito, Eusébio de braço direito erguido acenando aos súbditos como quem se despede. E o aplauso geral começou com cadência mansinha. À medida que Eusébio corria devagarinho em redor da relva, o burburinho ia aumentando. Até que o carro parou na curva dos Rapazes Sem Nome e eu senti uma aflição na garganta e os olhos marejados. Ao meu lado, um senhor mais velho, daqueles que se lembram bem do Eusébio aos pontapés à bola, limpava as lágrimas com o lenço com que acenava. Eusébio passou depois em frente a mim, as pessoas atiravam-lhe cachecóis e eu não conseguia parar de aplaudir. Quando, na última curva, o cortejo voltou a estagnar, quis acenar-lhe um adeus sincero, um adeus visceral, do fundo do estômago, mas o meu corpo fez-me aplaudi-lo insanamente, como se todas as forças que fui juntando ao longo do dia tivessem como destino aquele aplauso frenético.

Depois o carro saiu, o Eusébio foi-se embora.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Nunca vou chegar a casa

Este luto não tem cor. Naturalmente, este luto é, para mim, vermelho. Encarnado.

- Então, senhor Manel? O nosso Eusébio...

- ... morreu-nos o Rei... o King...

- ...

- As televisões agora não param, é só Eusébio, Eusébio, Eusébio

- Nem podia ser doutra maneira.

- Nem podia ser doutra maneira... Mas é as televisões todas, é cá, é na Inglaterra, é na Espanha, é no Brasil...

Quando fico triste vou para casa. Hoje eu não tinha casa. O Estádio do Eusébio já não existe e o Eusébio morreu. É tudo um grande vazio. Fui à Típica beber uma cerveja e ver os noticiários a noticiar que o Eusébio morreu. O meu Eusébio. O nosso Eusébio.

Entre as garrafas de Real Companhia Velha, outras de que não me recordo e cachecóis do Benfica, lá estava ele, emoldurado e a cores, o Rei. Na televisão ainda dava o Real Sociedad - Athletic. Moldura de couro. Gente de outros clubes a dar os pêsames. Eu pedi mais uma cerveja, ia começar o noticiário.

O Eusébio era o nosso Eusébio, mas não para mim. O Eusébio não era vosso, era meu - era o meu tio mais velho, aquele que foi bem-sucedido, que era famoso, que conquistou coisas, que conseguiu feitos notáveis. O Eusébio era o orgulho da família. Da minha família.

Há o trisavô Cosme, de quem toda a gente conhece as histórias e os feitos. Foi ele quem começou esta aventura, quem sonhou esta coisa - esta coisa à qual boa parte da forma foi dada pelo meu tio Eusébio. Há avós variados: o Grande Rogério Pipi, o Enorme José Águas, o Mestre Coluna. «Senhor Coluna», diria o Eusébio. Mas o tio que a gente admirava mais era ele, o Eusébio.

Nos noticiários, diziam que o Eusébio era da Silva Ferreira, mas isso era derivado do seu nascimento. Porque o Eusébio era meu. Era do Benfica que eu herdei e que vai desaparecendo, que se vai consumindo em modernidades, com cadeirinhas encarnadas a toda a volta e vitórias que são quase, quase, quase, e grandes encaixes financeiros de sabe-se lá o quê, e de estruturas que ficam mais sólidas mas de que não se sabe bem o propósito. No fundo, o Eusébio jogava à bola como niguém e isso faz-me falta.

O Eusébio está morto, viva o Rei! Mas não temos príncipe herdeiro... E agora não sei o que fazer com isto, com este enorme Benfica que eu herdei e que se está a esvaír de heróis. Eu queria tanto dizer ao Eusébio para descansar em paz, queria recebê-lo à saída do campo, na linha do meio-campo, e dizer-lhe «descansa em paz, Eusébio, que o Rodrigo ou o Cardozo ou Lima vai e resolve o assunto». Mas não posso, eu nunca mentiria ao Eusébio.

A notícia foi-me dada assim: estava a dormir - eu durmo até tarde - e a Lady Verde chegou e disse «vamos lá a acordar...» e eu, a custo, abri os olhos para ela e ela disse «tenho uma notícia triste... uma notícia triste para o mundo... e para ti» e eu voltei-me de barriga para cima, olhei para ela e disse «o quê?» e ela disse com suavidade «o Eusébio morreu». «E é assim que me dás a notícia?!»

Levantei-me e fui tomar o pequeno-almoço, já era quase uma da tarde. Comi as torradas e bebi o café. Sabia-me tudo a desamparo, a solidão.

Cheguei da Típica e a Lady Verde estava a ver os noticiários. «Já chorei por causa do Eusébio», disse ela.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A marca da Vitória

Não sei bem por onde começar. Tenho passado o meu tempo de frente para o futebol, a vê-lo, a lê-lo e a escrevê-lo. O futebol é este meu ecrã e podia perfeitamente chamar-se Clube Desportivo Samsung (era o mais barato) ou Windows 8 Football Club.

É curioso que esta apropriação do futebol sobre mim tenha resultado num esfriar de relações entre mim e o Benfica. Não se trata de um distanciamento real, eu continuo lá, no Estádio, e continuo atento, mesmo quando estou longe. Mas tornou-se mais complicado escrever apaixonadamente sobre o assunto que mais me encanta.

Às vezes, algumas pessoas perguntam-me se vou acabar com o blogue. A pergunta é pertinente, até porque este ano tem sido, para mim, de roturas e desfechos mais ou menos bruscos. Às vezes, é preciso acabar com coisas, fechar ciclos, bater com portas, para ganhar um novo fôlego e algum balanço, para experimentar novidades. Resumindo, a rotina começava a entediar-me.

Mas não, não vou acabar com o blogue. Por quem sois, o nome disto é o meu número de sócio, faz parte da minha identidade, caramba. Na carteira, faz mesmo parte da minha identificação. Aliás, a minha identificação foi reforçada com um Redpass, que ocupa um lugar na hierarquia dos documentos à frente do Cartão do Cidadão, do Visa Electron e do cartão da Multicare, ao qual quase não dou uso e devia, que tenho um tratamento dentário a meio do caminho e esqueço-me sempre de marcar a porra das consultas, ainda bem que agora falo nisso, vou já tomar nota. Mas não vou pôr aparelho, não é isso: os dentes continuarão tortos - endireitá-los seria tornar-me um desconhecido perante mim mesmo, seria um transtorno da minha própria identidade quase tão grave quanto a anulação do meu número de sócio.

A minha estreia com o Redpass foi promissora: chego ao meu lugar, sector 6, 3.º anel, mesmo na curva por cima do sítio onde o Aimar batia os cantos - em todos jogos ainda espero vê-lo pegar na bola, tomar balanço e lavantar o braço, depois correr e chutar para a entrada da área, onde aparece o Gaitán a rematar de primeira, sem deixar bater -, e deparo-me com uma valente cagadela de pássaro - mas de um pássaro grande, forte, poderoso e belo - na minha cadeira. Já não era fresca, mas ninguém tratou de limpar e, como ainda não tinha chovido porque era Verão - foi no Benfica - Gil Vicente -, as marcas ainda lá estavam, com todo o contorno e preenchimento. Pensei para comigo ai, Vitória, Vitória... 65 mil luares no Estádio e foste logo escolher o meu, minha querida e a seguir sentei-me na minha magnífica poltrona encarnada com vistosa lista branca.

A verdade é que o Benfica ganhou dois a um, virando o resultado nos descontos, quando já muita gente acenava lenços brancos de papel, os mesmos com que alguns acabariam por secar as lágrimas de felicidade.

Os lenços brancos continuam por aí, em bolsos mais ou menos nervosos. O Benfica não nos descansa e a gente não dá descanso ao Benfica. Uns assobiam, outros pedem cabeças. O Presidente Vieira faz dez anos de poder, o Jesus vai a caminho dos cinco de comando no terreno, as vitrines estão pouco mais preenchidas do que estavam nos dias em que cada um deles chegou ao seu cargo. Isto, posto assim, sugere que a rotina está a pedir quebra. De qualquer modo, a época parece-me sem remédio, não nos vejo com alma fresca o suficiente para voltar àquele ponto maravilhoso em que nos encontrávamos a 5 de Maio de 2013.

Bom, mas hoje joga o Benfica e tudo o que eu tenho é saudades de vê-Lo jogar.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Dormir mal faz-me sonhos bizarros

Estava a chover e era de noite e eu não sei muito bem o que estava ali a fazer. Enrolei um cigarro encostado a uma árvore que me abrigava, ainda que precariamente. Um carro vermelho, vim a perceber depois que era um El Camino, parou do outro lado da estrada. Lá dentro vinham duas pessoas. O condutor saiu. Alto, de calças de ganga e t-shirt preta, fechou a porta com força e dirigiu-se a mim. Era o Tacuara.

Primeiro, fiquei confuso «Cardozo? Oscar Cardozo?!» e ele «si, si» e depois o telefone dele tocou. Atendeu e, pela conversa, percebi que se tratava de uma negociação. Mais precisamente, da sua própria transferência. Falava numa espécie de português com pronúncia espanholuguaia. «Vais-te embora? Vais deixar o Benfica?». E ele «si, si... estoy muy feliz. Vou para el Sporting». Ri-me bastante, pensei que era piada. «Verdad. Vou para el Sporting». Contemplei-o enquanto tentava processar a informação. Pediu-me que lhe enrolasse um cigarro. Fiz-lhe um cigarro.

«Estás a gozar... Vais para o Sporting fazer o quê?» Acendeu o cigarro e, com uma expressão muitíssimo feliz, disse «pagan muy bien» e sorriu enquanto travava o fumo - com demasiada força, na minha opinião; era apenas um Golden Virginia, não era skunk nem nada disso. Tentei dissuadi-lo. Perguntei-lhe quanto pagavam «oh, no voy a dicer... es mucho. Mucho mucho».

Tentei manter-me calmo e bem-disposto, brincar com a situação. Fumávamos os dois, sorridentes, a chuva caía, o outro ocupante do El Camino - pareceu-me ser uma mulher, mas só lhe vi a silhueta - fez sinais de luzes com impaciência. O Tacuara nem ligou. Aliás, até se riu. Lembro-me de ter ficado surpreendido, de o ter achado muito mais espirituoso do que alguma vez imaginara. Ele, que é carrancudo até quando fuzila um guarda-redes adversário, era afinal um tipo sorridente, com alegria - uma alegria suave, sem excessos; mas uma alegria boa, poderosa, confiante.

Foi então que lhe disse «Vou fazer um telefonema, vou ligar para Lisboa. Conheço gente capaz de te impedir de fazeres uma loucura dessas». Ele riu-se de novo, com gentileza. Atirou o cigarro para o chão e pisou-o para o apagar, embora a chuva pudesse ter tratado do assunto por ele. Despediu-se de mim e, enquanto se dirigia para o carro, dei por mim a fazer o telefonema «Pai?... ó pai, fogo, o Cardozo diz que se vai embora...» Ligou o carro e arrancou.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Mistério

Assisti ao jogo de sábado num restaurante ali perto do Campo das Cebolas. Ao jantar, éramos dois Benfiquistas, uma sportinguista, um belenense, um adepto do União de Coimbra - não sei como se designam os adeptos do União de Coimbra - e um número indefinido mas bastante generoso de adeptos portistas. Eram seis ou sete, talvez.

A constituição das equipas prenunciava um derby atípico: de um lado, havia mais portistas do que Benfiquistas e sportinguistas juntos; do outro, o Cortês era titular.

No final do jogo, antes de ir beber uma poncha, comentava com um dos portistas que aquilo que mais procuro enquanto apaixonado do futebol é, precisamente, a origem dessa paixão - ao mesmo tempo que o que mais me maravilha na minha paixão pelo futebol é exactamente a impossibilidade de a explicar e de lhe identificar a origem. O que me move é também o mistério disto de ser Benfiquista - essa maravilhosa conjugação genético-temporal que impediu que eu tivesse morrido antes de 1908.

Ontem passei o meu dia a colher a sementeira da noite anterior, tanto ao nível de paixão futebolística quanto das consequências dramáticas de uma poncha feita com sabedoria e sem delicadezas. Não sei se me doía mais a cabeça de pensar no jogo ou de ter bebido um terceiro copo.

Ainda ontem um amigo Benfiquista debatia comigo, via facebook, a tremenda pobreza deste derby. Contrapus que o jogo não fora mau e que o resultado me parecia justo, ao que ele respondeu sabiamente «o que mais me desilude num derby é que ele seja justo e como se espera». Hoje foi outro amigo que se insurgiu contra a falta de sal que este jogo, outrora maravilhoso, apresenta nos tempos recentes.

E a verdade é que a bonomia de que este derby - O Derby! - se revestiu vai contra a essência de alguns dos ingredientes que, seguramente, compõem o mistério por que me apaixonei nem sei bem quando, provavelmente ainda antes de ter nascido.

Dantes eu tinha nervos nas semanas que antecedem o jogo. Agora, sinto um leve aperto no estômago durante os primeiros minutos da partida, que é normalmente o período em que os jogadores adversários têm pernas. Mas depois passa-me. Pior ainda é chegar ao fim e ficar mais ou menos indiferente ao desfecho do jogo - «vá lá, o Markovic marcou, foi um grande golo e tal, empatámos, não é vergonha para ninguém» - e fico absolutamente desiludido comigo porque este sempre foi para mim O jogo dos jogos.

Não sei se o mal está em mim, mas sei que já não encontro mal neste jogo. O mal era um ingrediente vital, era a matéria pulsante que nos fazia vibrar. Eu não quero empatar um a um com o Sporting - se for para empatar, que seja dez a dez que é para eu ver esses gajos, pá, ir apanhar a bola dez vezes ao fundo da baliza. Andamos simpáticos, andamos meigos. Gosto muito de nos ver a todos civilizados e folgo em saber que os dois rivais conseguem ser rivais sem andar à porrada. Não é disso que estou a falar. Falo de uma atitude de cada adepto para consigo próprio. Talvez nos ande a faltar a chama que incendeia aqueles jogadores e os faça sentir que Aquele jogo não é um jogo qualquer.

Dou por mim a ter mais receio de ir à Madeira do que de ir a Alvalade, dou por mim a ver O derby entre portistas, dou por mim a não ter dores de barriga, dou por mim a ter mais incertezas quanto ao resultado que faremos em Coimbra do que ali e isto tudo amolece-me. Já não espero golear em Alvalade como não espero ser goleado. Já considero improvável que o Benfica perca. Mas, pior ainda, é constatar que os resultados destes derbys modernos se adequam, quase sempre ou pelo menos dentro de um limite razoável, ao futebol que foi praticado no campo. Isso pode ser justo mas eu aqui trocava a justiça por uma surpresa que me deixasse de rastos ou que me levasse às nuvens.

Se eu quiser ver justiça, vejo as séries da noite na SIC e na TVI. Se eu quisesse ver coisas adequadas, comprava um aquário e punha lá dentro dois peixes dourados. Eu quero ver é futebol por outra razão qualquer, que eu desconheço mas que me apaixona.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Episódios de uma barbearia de bairro

E discursava o barbeiro, como um sábio, de roda de um senhor de meia idade que aparava um corte muito clássico

-... porque a nossa equipa... ahn, ao contrário da deles... o nosso grupo nota-se que está unido. É um bom grupo...

Ao fundo da barbearia, folheando distraidamente A Bola, diz outro senhor

-Mas qual grupo? Não encontro o vosso... Já li isto de uma ponta à outra...

-Ó homem, o grupo... a equipa.

-Os grupinhos é que dão cabo das equipas. (sempre a ler o jornal, sem levantar os olhos do papel) No Benfica foi o dos russos, primeiro. E depois, foi o dos afilhados do Artur Jorge... esse filho de uma puta de média dimensão - porque naqueles genes, nada pode ser grande.

-Então, ó sôr Abílio... (tudo isto dito entre longas pausas, prolongadas por um sorriso desdenhoso que se intrometia na frase como um sinal de pontuação) e para amanhã, está com fé?

O barbeiro lançou ao sôr Abílio a pergunta, o olhar e o sorriso como três setas de pigmeu e suspendeu o tchic tchic tchic das tesouradas. O sôr Abílio nem levantou os olhos da página de jornal

-Este Rui Moreira... é um miserável, pá... Consegue ser pior que o outro bêbado. Esse ao menos... a gente dá o desconto.

-E o derby, sôr Abílio? O nosso derby? Não me diga que está com medo...

Houve um momento de suspensão, como se o universo de toda a barbearia tivesse sido castigado pela comissão disciplinar: nada acontecia. Até que o sôr Abilio fechou finalmente o jornal.

-Queres com Cardozo ou sem Cardozo?

Tchic tchic tchic tchic tchic tchic tchic tchic...

domingo, 25 de agosto de 2013

Da dificuldade de compreender o que é paradoxal e da impossibilidade de aceitar o que é inaceitável

«O Rodrigo?!... Oh, o Rodrigo é o melhor marcador de todos os tempos lá dos sub-21 espanhóis, mas tu já viste aquela equipa? Aquilo é uma equipa de sonho. Com aquela equipa, qualquer um é o melhor marcador de todos os tempos!»

Ouvi a frase à saída do Estádio e achei que era minha obrigação partilhá-la, registá-la, deixá-la para a posteridade. "O Benfica", esse conjunto heterogéneo, essa multidão diversa e dispersa, essa tribo sem raça, é constituído por muitos Benfiquistas diferentes. Para o bem e para o mal. Foquemo-nos no mal: há raciocínios singulares que, quando extrapolados, podem explicar muitas reacções da massa que compõe "o Benfica". Como é evidente, não confio muito na democracia. É uma ferramenta torta, enviesada.

Não consigo aceitar lenços brancos que se tiram do bolso quando se está a perder e que são euforicamente atirados ao ar no momento do golo. Não posso aceitar. Manter ou despedir um treinador é uma decisão fundamental para o destino do Clube, para o futuro da equipa. Não podemos ser levianos nem distraídos nem voláteis: temos de ser convictos. Não se trata de defender Jesus (que defenderei se achar que é possível ele ter mão na equipa - tenho dúvidas sobre este assunto) ou querer que Jesus saia (uma "refrescada" no balneário seria benéfica, caso se verifique que o treinador perdeu controlo - mas também não tenho a certeza que Jesus tenha perdido o pé); trata-se de exigir seriedade aos Benfiquistas. Eu sei que cada um pensa e diz aquilo que quiser. Pois bem: era isto que eu queria dizer, não me levem a mal.

Maxi, Lima e Cortês. Cortês não é apenas cortês: é um gentleman dos pés à cabeça, embora lhe falte qualidade, tanto nuns quanto noutra. Mas é gentil e sabe dar passagem a quem quer que se cruze com ele. Já ele próprio a cruzar é um bocadinho menos que assustador. No sentido em que "menos" significa "pior". Maxi, o meu querido Maxi, fez dos piores jogos de que me lembro com a Camisola vestida. Lima não é um ponta-de-lança, é um boicote ao golo (tal como o fora contra o Estoril, num jogo que haveria de nos custar o campeonato). Não me lixem: quando se constroem 8, 9, 10 ocasiões claras de golo que se falham e se tem um jogo controladíssimo e, depois, se sofre um golo com auto-assistência delicadinha, não é assoando um treinador com cleenexes que a coisa se resolve.

O ano passado gozei com os sportinguistas por terem festejado o segundo golo e a vitória por 2 a 1 contra o Gil Vicente como se de uma final da Champions se tratasse, com Sá Pinto aos comandos e, sim, a minha língua deita um líquido amargo. Salva-me um consolo - pequenino mas confortavelzinho: sentir que festejar com pouco é melhor do que amuar com nada. Deve ser a isto que se chama "humildade". Ok, já percebi, não é um tema complicado. Agora, podemos passar às vitórias gordas?

Vestir um par de calças

Há precisamente três semanas e um dia que a minha indumentária não sofre variações relevantes: visto uns calções de ganga, uma t-shirt ou uma camisa e enfio os chinelos. Mas hoje o meu dia é solene: vou inaugurar o meu cativo, estrear a minha casa nova. Vou vestir um par de calças, calçar os meus melhores ténis e atar no pulso o cachecol vintage.

Há três semanas e dois dias não me vesti: escrevi a carta de demissão, terminei o que me faltava fazer e deixei-me ficar por casa, como um vagabundo que tem a sorte de ter tecto, a desfrutar do prazer de agir de acordo com aquilo em que acredito. Há três semanas e três dias - e em muitos outros dias antes desse -, eu vestia camisas e calças, aparava a barba e o cabelo, mantinha-me, como se diz, "apresentável". Hoje sairei de casa com o cabelo desgrenhado e por aparar e ainda com a barba que o Benfica que me deu e que eu corrigi uma boa dúzia de vezes - mas que mantenho intocada há três semanas e dois dias, pelo menos.

Passo os olhos pela Imprensa enquanto faço tempo para ir para a Luz, Lisboa ardeu há 25 anos e eu vi na televisão. Hoje é um dia solene, de memórias fortes, de incêndios passados, de fogos por apagar e de incendiários à solta - um grupo de sócios marcou uma manifestação para as três da tarde nas imediações do Estádio. A escassa hora e picos do pontapé de saída. Não se faz. Partilhando das suas dores, preocupações e boa parte das exigências, não estou com eles. Primeiro está o Benfica e hoje joga o Benfica.

Lisboa já ardeu o quanto baste, mais que uma vez. Vou tomar um banho longo e cuidado que o dia é solene.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Falta-me Pablo Aimar

Dantes tínhamos esperança, depois ficámos confiantes. Às tantas, tínhamos até a certeza na vitória. Porém, o céu decidiu cair-nos em cima. A tudo isso, reagimos com lágrimas de inconformismo, mas também com a dignidade de quem sabe perder e o orgulho de quem reconhece aos seus jogadores o esforço e a dedicação de verdadeiros vencedores. Fomos cavalheiros no meio dos destroços.

No fim, chegámos ao Jamor vestidos a rigor e cheios de Benfiquismo. Bigodes, bonés e bandeiras para fazer a festa. E a festa não era ganhar. A festa era ser do Benfica e estar ali. Mas não podia ter acabado assim. Nós não merecíamos a inglória de uma equipa que desiste. Sobretudo, não merecíamos que esse final fosse o princípio do fim de uma era. Uma bonita era que não obteve resultados condizentes na forma de taças. Mas uma era que acreditei ser de renascimento, de regresso à condição que, ao longo de mais de um século, foi sendo construída e legitimada.

Compreendo hoje que essa era acabou, que não regressámos a sítio algum. E não acabou no desvio do Sami nem tão pouco no empurrão do Cardozo. Acabou no princípio do meu desalento quando, incrédulo, vi o Vitória fazer um-igual. Faltou-me então a voz, a força nas pernas, o discernimento e uns míseros 12 minutos de Pablo Aimar com a minha camisola. O futuro próximo estava escrito: havia um vazio à minha frente.

Quando a lista de convocados é publicada ou, mais tarde, o onze inicial é anunciado, eu olho e não encontro o que procuro. Se são a fé e a paixão quem me move, é, do mesmo modo, a esperança quem me alumia. E essa eu não encontro. Os jogadores estão lá e eu sei que são bons. Merecem o meu respeito e não esqueço o que fizeram por mim. Mas não me inspiram e eu não se conseguirei inspirá-los como devia. E isto de fazer-me de vítima faz-me sentir culpado, porque o Benfica parte de mim, sou eu e os milhares que lá estão quem carrega e carregará - e tem de carregar sempre - o Benfica ao colo. Mas faltam-me forças.

O Benfica é o meu espaço irracional, puro, exclusivamente emotivo, romântico, poético e trágico. E é no Benfica que encontro os meus ídolos. Mas eles não estão lá. Não me funesmorem, pá, eu quero um ídolo, porra!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Degraus inglórios

Estava a apanhar a roupa, antes de almoço, do estendal das traseiras, quando ouvi um ruído. Olhei para baixo e vi a tartaruga da minha vizinha de baixo a sair do seu caixote com água. É um caixote muito pequenino e o bicho, apesar de pré-histórico, há-de ter sentido o apelo da liberdade, do mundo lá fora. Decidiu partir à descoberta do universo, naturalmente. Por azar, o terraço onde se encontra é também ele pequenino e tem muros altos.

Apercebendo-se da dimensão reduzida do seu cosmos, a tartaruga tentou trepar os três degraus que aí existem e que levam apenas a mais uma parede intransponível. Apreciei a perseverança do animal, que conseguiu subir o primeiro degrau, sem ter noção do quão inglório era o seu esforço. A meio do segundo, no entanto, caiu e ficou de carapaça para baixo, naquela posição que inspira, ao mesmo tempo, riso e compaixão.

Suspendi a apanha da roupa quando ia começar a recolher e dobrar as t-shirts. Senti alguma aflição pela situação complicada do pequeno animal. E dei por mim, num reflexo inusitado, a fazer analogias estapafúrdias. Pensei no meu Redpass, reluzente e ainda por estrear, que faz de mim efémero proprietário de um lugar escolhido com cuidados e sentido estratégico, na curva mais bonita do Estádio.

Imaginei-me naquele anfiteatro gigantesco mas opressivo ao ponto de parecer do tamanho do terraço da minha vizinha, eu a tentar subir degraus para não chegar a lado algum ou para ver uma equipa que nem história fez, de pernas para o ar, a fazer-me pena.

A tartaruga entretanto conseguiu dar a volta sozinha. Balançou-se e caiu de pé. Eu aplaudi e cantei «tenham cuidado, ela é perigosa...» e depois, embaraçado, apanhei as t-shirts que restavam e as toalhas de praia.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Meu querido mês de Agosto

Na escola primária - na minha velha escola primária -, a Dona Laura ensinou-me que o Emigrante é a pessoa que migra para fora do seu país. Era uma definição simples que não demorei a apreender nem, tão pouco, a saber opor à de Imigrante - imediatamente percebi que eram emigrantes de outras paragens que se radicavam no meu país. Eu era uma criança que aprendia facilmente determinadas coisas.

Com o passar dos tempos veio o toldar dos conceitos, formaram-se-me preconceitos, preguei estereótipos nos pensamentos e passei a presumir coisas sem grande fundamento ou justificação. Por exemplo, os amigos que tenho espalhados pelo mundo - pelo Brasil, pela Inglaterra, pela Austrália, pela Coreia do Sul, por Angola, por Moçambique - não são, para mim, "emigrantes". São "pessoal que está lá fora". Não trabalham na construção civil nem a lavar escadas, não fugiram de comboio para a França para dar serventia, para a Suíça - para fazer chocolates e relógios, suponho -, nem para o Luxemburgo fazer o que quer que seja que se faz lá no Luxemburgo - deve ser dinheiro. Os meus amigos que estão lá fora não vêm de Audi A4 vermelho, com matrícula amarela, atravessando a Ibéria inteira para passar férias no parque de campismo de Monte Gordo e isso tira-lhes uma batelada de créditos no acesso ao estatuto de "emigrante" segundo os meus requisitos.

O emigrante, tal como eu o imagino, é uma categoria muito específica da portugalidade. As características que espalha, com generosidade, da respectiva terra-natal às praias cálidas e sobrelotadas do Sul do país, embelezam-me o mês de Agosto provocando-me sentimentos nem sempre fáceis de identificar ou conjugar. Há um lado nostálgico e melancólico que se acende em mim quando observo famílias de quatro gerações, cunhados, primos e avós, com farnéis e guarda-sóis, nas dunas da Galé. Imagino-os trabalhando e vivendo um ano inteiro com o pensamento focado naquele mês específico em que voltarão a ver os familiares distantes, as paisagens da sua infância ou, no caso dos mais novos, a conhecer os primos de quem só ouviram falar e as praias que só vislumbraram em fotografias tremidas, tiradas com kodaks descartáveis.

E, se as crianças me aborrecem com os seus guinchos e boladas ou com as cascas de melão que vão perdendo pelo areal, os mais velhos inspiram-me grande empatia, enquanto observam o que é também deles - o nosso Portugal - como quem o perdeu e tudo faz para desfrutar só mais um bocadinho daquilo de que abdicou para poder dar o conforto e o desafogo (que nunca teve) à sua descendência.

E depois há o pai de família. Não me refiro ao mais velho, ao ancião, não. Aponto ao macho alfa, o homem que paga as contas, o que mete a gasolina, o que consulta o mapa. O senhor de bigode com o boné do Benfica. É ele que mais me desperta sentimentos ambivalentes. É nele que encontro a definição de perseverança, a expressão de sucesso conseguido a pulso e com o suor. E é também naquele que reconheço aquele esgar de saudade, aquela ansiedade de rever a sua paixão, de regressar ao solo sagrado. É nele que adivinho o desejo de comprar jerseys encarnados para a toda a família - «menos para as mádâmes... não têm aquelas em cor-de-rosa, do Miccoli?» -, de agarrar o bronze maciço de Eusébio, fotografar tudo quanto mexa, fotografar muito a águia Vitória, que ela mexe-se muito, demorar horas nas filas para tudo e mais alguma coisa nas imediações do Estádio, nas bilheteiras, nas casas-de-banho, nas roulotes, nos torniquetes, nas escadas, na procura dos lugares «ora porra, que isto é uma confusão», «ó amigo, esse lugar é dois sectores mais à frente».

É nos lábios do Pai de Família que antevejo, sí-la-ba-por-sí-la-ba, «este Jesus... ma putain... já devia era de ter saído majé há muito tempe, ué...». E é quando olho para ele que imagino, com carinho, o meu bilhete para ver o Devendra no CCB, amanhã, à hora do jogo. Tenho tempo para o nosso Benfica. Espero que estes nossos compatriotas, forasteiros sazonais, perpétuos visitantes de Agosto, desfrutem à sua vontade do pouco tempo que têm para o nosso Clube. Mas, por favor, tenham cuidado com a minha cadeira.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Breve comunicação estival

A silly season inibe-me a escrita. Presumo que tal se deva à minha própria vaidade: mal me sinto lido por mais de dez pessoas, considero de imediato que devo escrever somente se tiver qualquer coisa importante para dizer. Muito provavelmente estou errado. A história encarregar-se-á de me dar razão. Nem que seja confirmando que estou errado, como ainda agora previ.

Durante estas últimas semanas, o Benfica tem-me feito falta, muita falta. Dei por mim a ocupar a mente - para entreter o coração - simulando paixões de Verão com equipas exóticas: primeiro, numa competição muito criativa chamada "taça das confederações", adoptei uma peculiar criação de Deus chamada Tahiti. Se olharmos para um planisfério em busca do Tahiti, possuindo uma noção vaga da região onde se situa, veremos uma imensa mancha azul chamada Pacífico. Algures lá para o meio existirão, ora mais para um lado, ora mais para outro, umas nódoas pequeninas que tanto podem ser as Fiji, Samoa, as Desventuradas, sujidade de mosca, Tuvalu ou o Tahiti. E eles, no Tahiti, jogam à bola: foram campeões da Oceania vencendo, na final, a Nova Caledónia. Que se situa na Melanésia... enfim, o melhor é procurar.

A participação do Tahiti na tal taça das confederações trouxe uma série de benefícios à competição. Um deles, porventura o maior de todos, terá sido prender-me a atenção. Depois de ter visto os jogos do Tahiti, entusiasmei-me e fui sempre puxando pelo mais fraco - só ganhei na final. Ainda assim, o momento mais entusiasmante da competição aconteceu logo na primeira jornada, com aquele golo à Nigéria. Aproveito, já agora, para dizer que há um avançado da Nigéria que talvez não tivesse lugar no onze inicial do Tahiti. Não sei como se chama - mas devia ter tomado nota, só por precaução (desde que li a revelação do Fernando Guerra acerca do Martin Pringle redobrei as minhas cautelas).

Depois disso, entre jogos do Majlby e do Malmöe, do Lodz e do Wisla Cracóvia, fui derivando, derivando, até que aportei numa equipa chamada Portugal numa competição chamada Mundial de sub-20. Ao nível do exotismo, é equipa para bater o pé ao Tahiti; em termos de futebol, joga melhor. Substancialmente melhor. E foi graças a esta equipa que descobri em mim muito mais de português do que de tahitiano: enquanto com o Tahiti senti o fervor tanto na hora da derrota, ainda que pesada, como na hora da derrota, quando esta foi ainda mais pesada, no caso de Portugal encontrei felicidade em cada uma das duas vitórias e uma substancial indiferença no momento da derrota. Não creio que exista maneira de ser mais português.

Entretanto, vou tentando arranjar maneiras de gastar o tempo até que chegue o dia 19, data em que a minha reserva do Redpass se torne efectiva. O campeonato da Lituânia, as sardinhas assadas e o Planalto bem fresco no Páteo 13 vão ajudando.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Natural do sítio errado, naturalmente do Benfica

Uma estranha conjugação de factores aliada a uma inusitada sucessão de eventos impediram que eu nascesse no Estádio da Luz.

No longínquo ano de 1979, tal como hoje, os meus pais viviam em Mafra. Em 1979, Mafra ficava longe de Lisboa. Na altura, para se "ir a Lisboa" faziam-se preparativos - levava-se, por exemplo, tupperwares com pastéis de bacalhau. Não havia auto-estrada e os carros bebiam muito - o meu pai tinha, salvo erro, um FIAT 1500, que não era propriamente um exemplo de como poupar - e andavam pouco.

Quando as pessoas de Mafra iam a outra terra, normalmente era à Ericeira, que tinha mar, ou à Malveira, que tinha feira. Não iam a Lisboa. Se alguém queria uma experiência mais urbana e cosmopolita, ia-se a Torres Vedras, que era uma espécie de Mafra mas em maior e tinha cinema. Não havia necessidade de perder uma hora e meia pela estrada nacional, atravessando, abreviadamente e por ordem, Alcainça, Malveira, Venda do Pinheiro, Lousa e Ponte de Lousa (nunca me lembro qual delas vem primeiro), Pinheiro de Loures, Loures ela própria, Flamenga e Carriche, roçando ainda as fronteiras de Ponte de Frielas e de Odivelas, lá mais à frente, até chegar à tabuleta que eu sempre achei grande mas não o suficiente para assinalar a entrada na capital do país.

Ia-se a Lisboa ao Jardim Zoológico, muito raramente, ou ver o Benfica, um pouco mais frequentemente. Mas não se passava a vida no Estádio da Luz: era mais as quartas-feiras europeias e os jogos para festejar o campeonato. Também se ia a Lisboa para apanhar a Ponte Sobre o Tejo que, na altura, ainda tinha o novo nome de 25 de Abril fresquinho e o nome velho de Oliveira Salazar enraizado.

Em 1979, as pessoas nasciam nas maternidades e cada um tinha a sua. Se hoje uma pessoa vai de Elvas a Badajoz para ser nascida, naquela altura nascia-se um pouco por toda a parte - exceptuando em Mafra, cuja maternidade possuía uma característica que sempre a distinguiu das demais: a intermitência. Ora funcionava, ora nem por isso. Dá-se inclusivamente o caso de haver crianças do mesmo ano, cujas famílias habitavam uma no segundo esquerdo, outra no segundo direito, de um mesmo prédio da Rua do Hospital, por exemplo, que são naturais uma de Torres Vedras (S. Pedro e Santiago) e outra de Mafra.

Eu poderia ser a criança do primeiro exemplo, porém nunca vivi na Rua do Hospital. A minha rua era a José Elias Garcia. Ruas elias garcias existem em praticamente todas as terras, por mais que não se compreenda assim de repente a extraordinária popularidade que esta personalidade praticamente desconhecida veio a ganhar ao nível da toponímia. Para simplificar a explicação, chamar-lhe-ei "inexorável fervor republicano". Não sendo eu um republicano, afeiçoei-me desde os meus 4 anos a Elias Garcia e cheguei, eu próprio, a sentir fervor quando me deparei com o seu nome numa outra placa de uma outra rua de uma outra terra qualquer: oh, o meu Elias Garcia. Não sabia quem fora o tal José, mas estava-lhe muito habituado. Uma pessoa afeiçoa-se.

Em 1979, ano longínquo, as pessoas não nasciam em estádios. Em 1979, em Mafra, as pessoas começavam a habituar-se à ideia de não nascer em casa, mas sem exageros: na Rua do Hospital ou em Torres Vedras, a ordem era para se nascer na maternidade. Em Agosto de 1979, a maternidade de Mafra estava encerrada, o que veio a fazer de mim, para efeitos de registo civil, um inesperado Torreense, ainda que o tempo que passei nessa fortaleza do Oeste tenha sido, na sua esmagadora maioria, dedicado ao Campo Manuel Marques, ora sobre a relva, ora nas suas bancadas ou ainda no relvado sintético que havia ao lado e que era quase tão abrasivo quanto o piso de Alcatrão do meu Ciclo de Mafra.

Esta dedicação Torreense de que falo só viria a dar-se, no entanto, em 1993-1994 e não justificaria, só por si, a naturalidade que trago no BI. O critério do Arquivo de Lisboa para me atribuir origem foi mesmo o da maternidade que me viu ver a luz do dia pela primeira vez. E é por isso que eu lamento profundamente que a Luz não tivesse sítio para se nascer - até porque o nome do Estádio é, talvez, o mais adequado para o efeito.

O meu nascimento noutro sítio que não o Estádio da Luz é, portanto e como se pode comprovar, fruto de uma anárquica conjuntura. Falo do assunto porque a 27 de Agosto de 2013 se comemoram os mais ou menos 27 anos da ocorrência do 27 de Agosto de 1979. E eu, que não nasci na Luz por manifesta infelicidade, pretendo fazer de um lugar junto ao varandim do piso 3 - sector 6 uma das minhas principais residências para 2013-2014, de modo a comemorar a efeméride de ter vindo ao mundo no sítio errado. Há coisas na vida que não podem ser emendadas mas que, ainda assim, vão a tempo de levar correcção.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

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Estava a falar com o meu amigo Moleirinho - que está em Moçambique a convalescer do Benfiquismo junto a águas tépidas, a panaceias de camarões com trinta centímetros - e perguntava-me ele «já estás recuperado?». E eu fiquei a pensar «estarei?».

Os dias passam e a possibilidade do esquecimento, ao invés de me apaziguar, deixa-me em pânico. Ainda não estou recuperado e ai de mim que venha a estar! Acordo todos os dias, desde o dia 20 de Maio, a acreditar que podemos ser campeões ainda este ano. E continuarei, creio eu, pela vida fora, perpetuando esta sensação insana, como se a época não terminasse nunca: 2012-2013 não teve nem vai ter desfecho. Não pode ter tido, já que eu não vi o Benfica a ser campeão e eu sei perfeitamente que o Benfica ia ser campeão. Vamos ser campeões, sim senhor, nem que seja no infinito. Qualquer outra possibilidade dá erro na minha compreensão: simplesmente não é processável.

Sinto saudades do Estádio da Luz, todos os dias penso nessa gigantesca casa de família ondulante e ruidosa. A propósito, lembro-me de estar no Jamor, durante o picnic de bigode. Depois de várias minis, naturalmente, fui persuadido pela natureza a estabelecer comunicação mais íntima com um eucalipto, um dos muitos que nos rodeavam. O ar livre, o cheiro a floresta e a febras na brasa, a brisa no rosto, os pés sobre as ervas e o primeiro pensamento que me ocorreu foi «estas casas-de-banho são muito bonitas... mas continuo a preferir as da Luz».

Não estou recuperado, não. Tenho o Benfiquismo a repousar no escuro, em cascos de carvalho, a ganhar gravidade e robustez. E, sobretudo, continuo à espera de ganhar, que isto ainda não acabou. Não pode ter acabado assim.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Agradecimento sincero e humilde aos campeões da Europa

Estava a ver fotos da equipa de hóquei a ser recebida no Pavilhão e pensei «como é que eu nunca fui ver um jogo de hóquei?». É nestas alturas que me apercebo do meu fundamentalismo futebolístico. É curioso: se me perguntarem se sou pelo Benfica ou pelo futebol, natural e imediatamente responderei «sou do Benfica», porque é ao Benfica que pertenço. Mas se pensar um pouco mais, noto que sou um Benfiquista primário do futebol, muito pouco dado a transigências ao ecletismo.

Durante toda a minha vida, vi o Benfica ser campeão da Europa duas vezes: uma em futsal, no Pavilhão Atlântico; outra em hóquei em patins, na caixa portista. Na primeira ocasião, tentei induzir em mim a sensação de "campeão europeu". O melhor que consegui foi um pequeno simulacro, como se, de repente, a Europa fosse uma coisa pequenina. Fiquei feliz, senti orgulho, uma leve exaltação, fiz um brinde e disse em voz alta "campeões da Europa". A frase soou muitíssimo bem.

Ontem o meu primeiro pensamento foi menos poético, mais sentimental: «que heróis», foi tudo o que me ocorreu. Em seguida, temi pelas carreiras dos atletas do Porto - para quando a extinção da modalidade no clube? -, mas logo voltei a focar-me nos nossos. Dei por mim feliz, novamente orgulhoso, a sentir uma leve exaltação, a querer fazer um brinde, a pronunciar para mim a frase mágica "campeões da Europa". Soa cada vez melhor.

Ser campeão da Europa será sempre um feito histórico. Ser campeão da Europa numa modalidade histórica e de grande tradição em Portugal no território do nosso maior adversário da actualidade dá-lhe um significado ainda mais nobre - e, sobretudo, levando em conta as circunstâncias que antecederam o jogo.

Eu queria chegar a um ponto e ando aqui a empatar tempo: na verdade, eu não me sinto campeão europeu. Campeões são eles, os que jogaram e quem os apoiou durante o ano, durante a carreira, durante a vida. Campeão europeu é o adepto que nunca se esqueceu deles durante toda a época, nos bons e nos maus momentos. Eu sou só um Benfiquista do futebol.

Estou muito, muito grato a toda a equipa de hóquei por ter elevado o nome do Benfica ao ponto mais alto, permitindo-me acrescentar um brilho de orgulho à minha paixão. Mas sinto alguma mágoa - na verdade, sinto-me de fora - por não lhes ter dado a atenção e o apoio que, como demonstraram, merecem. Sou mesmo um simples Benfiquista do futebol: ao mesmo tempo que me comprometo comigo a ir ver jogos de hóquei na época que vem, vou pensando no melhor lugar do Estádio - que saudades do Estádio - para o meu Red Pass. E é então que se me enche o peito e sinto uma exaltação grave, brilham-me os olhos.