quarta-feira, 26 de março de 2014

Carrega, Lolita!

Olá. Esta é a Lolita. Na verdade, é a Twiggy Lolita Josefina, assim, por extenso. Noto nos olhares desconfiados e nos sobrolhos franzidos de alguns dos leitores a curva intrigada da interrogação "mas por que caralho é que este mariconço me vem falar de cachorras com nomes compridos e esquisitos em dia de Clássico no Dragão?!". Se acham isso estranho, haviam de me ver em situações ainda mais embaraçosas. Eu, que li manuais sobre paternidades canídeas, eu, que sempre acreditei que um cão é um bicho e só um bicho, eu, que agora dou por mim com lenga-lengas cantaroladas "Lolita cabrita saltita" e algumas ainda piores, enquanto finto a cachorra sobre o tapete vermelho, para raiva dela e meu deleite.

Lolita aguarda, concentradíssima, a marcação do pontapé de canto.

Muita gente me tem perguntado "olha, e já a fizeste sócia?" e eu não tenho respondido, mas aqui fica o esclarecimento: não, ainda não fiz. Partilhando-a, como partilho, com a Lady Verde, considerei que talvez fosse demasiado arriscado registá-la logo assim, à bruta. Vamos com calma, temos tempo. Consegui, no entanto, persuadir a Lady em determinados assuntos - a trela e a coleira são encarnadas ("ó amor, esta cor vai tão bem com o branco dela... o branco e o preto, aliás"). E vai mesmo.

Lolita lançando-se sobre o esférico para um corte de excelência. A jovem estrela demonstra aqui todo o seu potencial físico, para além de uma garra fora de série.

Uma das coisas mais intrigantes, a roçar mesmo o bizarro, que me aconteceram quando fui buscar a cachorra foi, no momento em que a vi, ter pensado inusitadamente "em que posição é que ela pode jogar?". Não estou a exagerar nem a fantasiar: eu pensei mesmo isto. "Salta muito bem, tem boa elevação" foi logo a minha primeira impressão. Mais tarde, já em casa, atirei-lhe a bola. Não só não a dominou como imediatamente se desinteressou do lance e eu pensei "mau... tu queres ver?". No dia seguinte, vi-me obrigado a desafiá-la para uma peladinha intensa - reagiu bem e mostrou dotes, mas ainda se cansou depressa. Agora, passada uma semana desde a sua chegada, parece estar a atingir um pico de forma. Nos primeiros dias, lembrava-me o Javi Garcia: muito bem posicionalmente, saltava como poucos e ocupava bem os espaços - mas faltava-lhe algo mais; evoluiu para uma espécie de Matic: juntou ao poder nas alturas e à inteligência posicional, um domínio de bola com finésse e uma quase omni-presença sobre o terreno de jogo; hoje revelou-se um autêntico Enzo Pérez: joga e faz-me jogar, conduz a bola, atira-se-me às canelas, luta por cada milímetro, marca-me impiedosamente e ainda me dá cabo dos rins.

Lolita, depois de sair para receber os merecidos aplausos, ouve atentamente os cânticos do dono (que preferimos não reproduzir). Que grande exibição!

O aspecto que Lolita mais precisa de trabalhar é a disciplina táctica: impossibilitada de ir à rua, tem de aprender a fazer no jornal. Apesar dos claros sinais de progresso que apresenta, há ainda muito a melhorar. Abundam jornais velhos cá por casa - a maior parte deles são A Bola. Escolho, claro, cuidadosamente as páginas que uso para o efeito da educação dejectante do animal. Tenho evitado as páginas dedicadas ao desporto (normalmente, recorro à secção Outros Mundos, com especial incidência nas notícias sobre a crise, as eleições europeias ou anúncios de cortes). Mas hoje, excepcionalmente, recorri à secção do FC Porto - tem corrido razoavelmente, apesar de não poder falar em "sucesso retumbante" - já fui obrigado a servir-me da esfregona quatro vezes, inclusivamente. De qualquer modo, mantenho a esperança que este novo modelo de jogo resulte, abençoando a partida de logo à noite.

domingo, 16 de março de 2014

Os quatro, os três e os outros dois

Vou escrever um texto porque o Funes Mori conseguiu um póquer. Tem sido uma semana cheia de assuntos, mas vou focar-me primeiro naquele que mais mexeu comigo: o Lima, que chegou ao Benfica há quase dois anos por quase cinco milhões de euros, nunca conseguiu um póquer com a Digníssima vestida. Repito aqui o que escrevi na altura em que comprámos o Lima ao Braga: por esse preço, com aquela idade, oriundo daquele clube e com o fraco currículo que trazia, seria bom que rapidamente marcasse quatro num só jogo para que, na minha cabeça, toda a operação fizesse algum sentido. Hoje à tarde, um jogador que há três anos surgiu num sonho meu - um sonho normal de Benfiquista: sonhei que o tínhamos contratado, só isso... -, enfiou quatro nas redes de um Sporting (o da Covilhã) devidamente equipado com riscas verdes sobre fundo branco. Achei que este momento merecia ser assinalado neste blogue.

Sobre os outros temas da semana, gostaria de começar pelo assunto "Jorge Jesus e os três". Na minha opinião, foram poucos. Para aquilo que jogámos, devíamos ter metido mais um, pelo menos - e o Siqueira bem que podia tê-lo feito, mesmo no finalzinho do jogo. Não diria que fiquei indignado, até porque o resultado foi positivo. Mas compreendo a surpresa do Jesus quando perguntou, por gestos, "como é isto, só três?"

Sobre os roubos de que os nossos rivais se dizem vítimas, tenho a dizer muito pouco. Mas gostaria de deixar claro um ponto: a afirmação peremptória de uma opinião não a transforma necessariamente num facto nem obriga a generalidade das pessoas a aceitá-la. O levantamento supostamente isento que o jornal do Sporting fez deixa muito a desejar ao nível da seriedade (não peço, sequer, imparcialidade). A razão não se conquista repetindo centenas de vezes a mesma opinião - há que justificá-la com seriedade, com justiça e com factos, não com opiniões ou com meios-factos e omissões. Acredito que o Sporting tenha razão em algumas situações, mas discordo de que tenha vindo a ser sistematicamente prejudicado. Uma análise séria revelará, creio eu (e não fiz um levantamento rigoroso, isto é uma impressão), um equilíbrio entre o dever e o haver - tal como no caso do Benfica, já agora. Não será uma conferência de imprensa de voz grossa em horário nobre com a intenção de mobilizar os próprios adeptos a dizer "basta" que me vai convencer do contrário. Eu tenho olhos e ainda sei ver futebol.

Para o clássico de amanhã, desejo que o Sporting seja amplamente beneficiado, a bem das ironias da justiça desportiva, por um lado, mas sobretudo com vista à justiça poética. O resultado é-me indiferente (se bem que um empate não me caía mal).

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Não digo que vamos ser campeões

Ontem, após a boa vitória do Estoril num campo tradicionalmente difícil, houve quem alertasse - com alguma sabedoria, diga-se - para a possibilidade de os Benfiquistas "andarem outra vez a plantar melões para colher em Maio".

Por norma, dispenso os conselhos no que respeita ao bom senso, sobretudo porque me considero razoavelmente sensato. Não tenho o hábito de festejar antes do tempo e costumo ser céptico até ao último segundo - tirando o ano passado, quando, aos 91 minutos da penúltima jornada, pensei, lembro-me bem, "que se lixe, não festejamos hoje, festejamos para a semana". Não festejámos.

Custa muito perder, sempre; mas custa muito mais perder quando estamos à espera de ganhar. Agora, não sei o que será melhor: deixar fluir, sem disfarces, a felicidade e desfrutar dela quando estamos à beirinha da vitória, libertando o espírito e as amarras pessimistas dos "e se... e se não..." ou aguardarmos serenamente e em contenção um desfecho que nos seja favorável para que festejemos então?

A razão diz-me para optar pela primeira; mas o meu Benfiquismo e a minha razão mal se falam. Na verdade, nem sei se se conhecem. Por mais cautelas que eu use para segurar as euforias, por mais que consiga filtrar o que vai do que sinto até ao que deixo transparecer, a verdade é que a paixão e a fé me reduzem a um dos estados de que mais me orgulho: o do Benfiquista que sente que isto já está ganho.

E eu sei que não está. Estamos em Fevereiro. Nos últimos dois Fevereiros também íamos assim, a liderar a tabela, intocáveis, invencíveis, os mais fortes, os maiores, os futuros campeões. Os donos e senhores da montanha que tem a mania de parir ratos. Mas lá porque eu sei que não está ganho, tal não significa que eu não sinta que vamos ganhar. Como diria Mourinho «não digo que vamos ser campeões. Penso que vamos ser, mas não digo».

Em Setembro eu estava à espera - não no sentido de desejar, mas de contar que acontecesse - de mais um deslize para que o Jesus finalmente caísse, para que a direcção fosse contestada, para que a equipa se desfizesse: tudo me parecia bastante errado, desequilibrado e sem norte. Seis meses mais tarde, vejo o Benfica em primeiro, a mostrar-se superior aos adversários directos e em todas as competições - houve o deslize na Champions mas, ainda assim, um deslize com 10 pontos e algum azar à mistura, nada que envergonhe.

Eu sei que o mais provável é que logo, pelas dez da noite, quando eu vier a subir do Estádio para a roulote, eu venha a pensar «foda-se, como é que é possível?! Porque é que a gente nunca aproveita estes momentos, porque é que temos sempre de falhar?!» Se não for um empate merdoso, há-de ser um penalty habilidoso ou nove falhanços do Lima ou a expulsão prematura do Fejsa ou um frango do Oblak - alguma coisa há-de correr mal. Mas enquanto corre e não corre... obviamente, não digo que vamos ser campeões. Mas há coisas mais impossíveis.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Que haja jogo

Não era bem isto que eu tinha em mente quando desejei "um derby inesquecível". Nenhum derby deve terminar mais do que duas horas e meia após o apito inicial, sob pena de agravar os danos nervosos e o desgaste emocional que naturalmente inflige sobre os sofredores apenas porque existe - e acrescente-se que um derby começa a existir muitos dias antes do começo do jogo.

Há menos de um ano, queixava-me que O Derby já não me causava arrepios e dores de estômago como antigamente. Poucos meses passados, aqui tenho a minha resposta: um bónus de 48 horas extra para um sofrimento a que já não estava habituado. E, como se não bastasse a aparente melhoria em termos de menos miséria do lado do rival, a incerteza sobre o que irá acontecer amanhã não se ficará apenas pelo relvado - pelo contrário, passarei aquelas duas horas com um olho na relva e o outro no telhado.

Estou habituado a sair de casa e descer a rua, a caminho de Santa Apolónia, com o cachecol ao pescoço, determinado, sempre apreensivo e concentrado, a caminho do metro que me levará à Luz. Baixo a cabeça, foco-me no chão, nas pedras do caminho, na descida íngreme da Calçada do Forte. Mas consigo sentir os olhares das pessoas e os seus pensamentos «ali vai um Benfiquista», pensam elas, «lá vai ele a caminho do Estádio». Sinto, no meio das minhas conjecturas apreensivas e entre esquemas tácticos ideais que vou elaborando, uma espécie de vaidade, como se eu fosse um bravo artilheiro prestes a embarcar com destino a uma guerra longínqua. «Lá vai ele», suspiram as velhinhas às suas janelas, «tão jovem... vai para a Luz» sussurram para si mesmas, misturando medo, esperança e admiração por este seu soldado desconhecido.

Amanhã saírei de casa bem cedo. Quero apanhar ainda um resto de luz do dia para que as velhinhas possam ver-me passar, de cachecol ao pescoço, e exclamar entre dentes, numa espécie de oração, «que bravo é o nosso menino. Lá vai ele outra vez, sempre corajoso, mesmo perante a intempérie».

Não me censurem pela vaidade - o Benfiquismo concede-me estes pequenos luxos e sempre fui um Benfiquista orgulhoso. Trabalho apenas com a circunstância tentando extrair o melhor de toda a adversidade. E conto ouvir pelo caminho, como se fosse um piropo, «esperemos que hoje haja jogo» e que da janela em frente uma anciã responda de pronto «e que ganhe o nosso Benfica!».

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O Sócio Proponente

Afastado do Catolicismo, apesar do tradicional baptismo, não me restavam grandes esperanças de algum dia vir a ser padrinho. Até que o meu amigo Paulo me pediu, há uns dias, que apresentasse o seu filho Manuel - uma Manelinho nascido em finais de Setembro - à magia do Benfiquismo. Foi um grande orgulho para mim esse convite, senti-me profundamente honrado - não tenho palavras que cheguem para descrever a alegria comovida que senti. Hoje joga-se o primeiro derby do Benfiquismo do Manuel. Que o dia fique na história e que um dia eu possa falar-lhe deste jogo, dando-o como exemplo dos mais bonitos derbies.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Aquela palavra distinta

É uma das mais brilhantes palavras da língua portuguesa e chama-se "foda-se". Com o tempo e o uso, foi-se afastando lentamente do significado primordial que o latim lhe atribuía e a associava a escavação, perfuração, penetração ou rompimento, até se tornar, nos dias que correm, numa arma de arremesso verbal, muito mais do que num signo recheado de significado concreto.

Não se tratando de uma arma das mais pesadas ao nível da ofensa, tem a seu favor o efeito e os sinais de um impulso forte e a verdade franca que só as expressões de abstracção universalmente aceite podem conter. Um "foda-se" é uma explosão rápida mas intensa, simples mas incisivamente clara em relação a tudo o que se pensa e se quer dizer no milissegundo imediatamente anterior ao da sua detonação.

Curta, pobre nos contornos fonéticos, marginalizada em vários contextos sociais e atrelada a um breve mas pesado sufixo que a reflecte na direcção do próprio alvo ou de um abstracto inconcretizável, a palavra "foda-se" é, ao contrário do que a descrição pode sugerir, uma expressão rica em virtudes. Diria mesmo que tem uma existência nobre - sempre digna e composta, coexiste entre banalidades, palavrões e erudição com um à-vontade elegante.

De entre estas virtudes, destaco no "foda-se" uma raríssima - senão mesmo única - qualidade: apesar da sua essência verbal, a palavra nem sempre carece de verbalização. A sua peculiar elasticidade permitiu que, com a cultura, o jeito e o hábito, o ser humano aprendesse a revestir com ela o olhar, os lábios e a testa, acrescentando ao "foda-se" uma dimensão etérea e permitindo, deste modo, que a palavra se mantivesse implacável até no silêncio.

Quando Carlos Dias da Silva perguntou a Sílvio se «trocava a sua carreira pela vida do pai», houve um "foda-se" que se manifestou em todo o seu esplendor - não falo daquele na minha mente, mas antes do outro que, qual aparição, se iluminou na expressão genuína e pura do jogador. Creio que foi o "foda-se" mais bonito que vi em toda a minha vida.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Curta-metragem

-Olha, sabes... (ela, alongando o rosto - do pescoço para o espelho - e as pestanas - das pálpebras para o mundo - enquanto põe rimel) já sinto saudades do King...
-Também eu, baby... Desde o primeiro momento, aliás. Ele era muito importante para mim... Bom, para mim e para todos nós, Benfiquistas, claro. Com a partida dele, perdeu-se o maior símbolo vivo do Benfica. Vai ser difícil lidar com a sua ausência. Aquela despedia... tudo isto mexeu muito comigo. O peso dele sobre nós, sobre o Clube, sobre a equipa era... monumental.
-(Ela, pondo baton) Estava a falar do (pausa para fazer expressões frente ao espelho, ora alongando os lábrios, ora juntando-os como se beijasse a sua magnífica imagem) do cinema, querido... (comprimindo os lábios, espalhando o baton) Do cinema.
-Ah... claro...
-(ela, remexendo a mala, certificando-se de que já guardou as chaves de casa - não guardou, estão sobre a mesa da entrada, é lá que estão sempre) Mas pronto... (encontrou-as, guardou-as) não há King, contentemo-nos com o Monumental, como tu dizes. (ajeita o chapéu e abre a porta.)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O símbolo e a cor

Uma última homenagem deve obedecer a determinados preceitos. Comecei pela roupa. Este luto é encarnado, mas o cinzento triste deste dia e o carácter de despedida da ocasião empurraram-me até tons mais sorumbáticos: calças pretas, camisola cinzenta bem escura, casaco negro. Por dentro, uma camisa em quadrícula vermela e branca, porém discreta. Debaixo da camisa, uma t-shirt bordeaux. Experimentei vários cachecóis, todos eles encarnados. Mas o berrante da cor pareceu-me inapropriado - é dia de perda, não me apetece berrar com o cachecol. Preferi o bordeaux, uma vez mais. Partilhando com o vermelho a essência magenta, pareceu-me o tom adequado - mais sussurro, menos gritaria, a mesma natureza Benfiquista.

Há quem considere o luto nacional de três dias um exagero de Estado e há quem classifique a tristeza apaixonada de quem chora Eusébio como "ridícula". Sobre o luto nacional, não me pronuncio - eu faço o meu, à minha maneira, com ou sem Nação enlutada. Quanto ao "ridículo" aceito-o com humildade. Aprendi com o tempo que a capacidade de ser ridículo é essencial ao ser humano. Há quem pretenda que o Homem seja um complexo biomecânico dotado de intelecto e governado pela razão e pela lógica. Sendo o Homem um bicho inteligente, espera-se dele que seja todo ciência e bom senso. Eu discordo dessa ideia e reclamo o meu direito à paixão e à veneração.

Pode parecer patético ter símbolos e idolatrar em pleno século XXI. Pode até sê-lo, para além de parecê-lo. Sucede que tenho mesmo ídolos e que hoje me despedi do maior de todos eles. E é isso que me faz triste, essa perda, esta despedida. Não são a surpresa nem a carga trágica do evento que me deixam de rastos, é o vazio e a ausência que ontem nasceram que me fazem sentir mais abandonado e, de um modo um tanto infantil, menos protegido.

No Estádio, a consternação ia sendo disfarçado pelos cânticos incansáveis das claques que pontualmente se alastravam aos milhares que povoavam o primeiro anel. Aguardava-se a chegada do Rei com paciência. Num momento de silêncio mais longo e pesado dei por mim a desejar que ele não chegasse, que fosse tudo um engano e que o speaker dissesse «meus amigos, o Rei Eusébio teve alta», mas o speaker ligou o microfone e disse, com voz grave, devagarinho, «vai entrar no Estádio Eusébio da Silva Ferreira» e ainda o «Ferreira» não estava completo já o aplauso soava, apoteótico.

Quando o carro parou, a multidão suspendeu-se sobre os gestos da cerimónia: abriram a porta e prepararam-se para tirar de lá de dentro o ataúde. Ao longe, vislumbrei o vermelho da nossa bandeira, a cabeça da águia no símbolo, várias mãos a arrumá-la sobre o tampo do esquife. E então Eusébio foi levado em ombros ao centro do relvado onde um trono horizonal o esperava e eu imaginei-o naquele seu gesto inesquecível, de mãos no ar, aplaudindo quem o aplaudia numa volta lenta de 360º sobre si mesmo.

Nunca o aplaudi enquanto, no relvado, nos defendeu a cor com a bola nos pés abençoados - descontando a ocasião do seu 50.º aniversário, mas então era um jogo de amigos. Nasci em 1979, no ano em que Eusébio se retirou. Não culpo os meus pais, que me fizeram quando puderam, mas tenho pena que os meus 34 anos de Eusébio tenham sido a vê-lo ora de fato e gravata, ora de fato de treino com a toalha branca enrolada na mão. Por isso hoje não poderia deixar de aplaudi-lo na sua última subida ao relvado, poucas horas antes de descer à terra, poucas horas depois de ter ascendido ao Panteão do futebol.

A urna regressou ao carro e eu vi o Eusébio a enxugar as lágrimas à camisola pela última vez. Começou então a marcha lenta da sua volta Olímpica, Eusébio escondido de braços sobre o peito, Eusébio de braço direito erguido acenando aos súbditos como quem se despede. E o aplauso geral começou com cadência mansinha. À medida que Eusébio corria devagarinho em redor da relva, o burburinho ia aumentando. Até que o carro parou na curva dos Rapazes Sem Nome e eu senti uma aflição na garganta e os olhos marejados. Ao meu lado, um senhor mais velho, daqueles que se lembram bem do Eusébio aos pontapés à bola, limpava as lágrimas com o lenço com que acenava. Eusébio passou depois em frente a mim, as pessoas atiravam-lhe cachecóis e eu não conseguia parar de aplaudir. Quando, na última curva, o cortejo voltou a estagnar, quis acenar-lhe um adeus sincero, um adeus visceral, do fundo do estômago, mas o meu corpo fez-me aplaudi-lo insanamente, como se todas as forças que fui juntando ao longo do dia tivessem como destino aquele aplauso frenético.

Depois o carro saiu, o Eusébio foi-se embora.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Nunca vou chegar a casa

Este luto não tem cor. Naturalmente, este luto é, para mim, vermelho. Encarnado.

- Então, senhor Manel? O nosso Eusébio...

- ... morreu-nos o Rei... o King...

- ...

- As televisões agora não param, é só Eusébio, Eusébio, Eusébio

- Nem podia ser doutra maneira.

- Nem podia ser doutra maneira... Mas é as televisões todas, é cá, é na Inglaterra, é na Espanha, é no Brasil...

Quando fico triste vou para casa. Hoje eu não tinha casa. O Estádio do Eusébio já não existe e o Eusébio morreu. É tudo um grande vazio. Fui à Típica beber uma cerveja e ver os noticiários a noticiar que o Eusébio morreu. O meu Eusébio. O nosso Eusébio.

Entre as garrafas de Real Companhia Velha, outras de que não me recordo e cachecóis do Benfica, lá estava ele, emoldurado e a cores, o Rei. Na televisão ainda dava o Real Sociedad - Athletic. Moldura de couro. Gente de outros clubes a dar os pêsames. Eu pedi mais uma cerveja, ia começar o noticiário.

O Eusébio era o nosso Eusébio, mas não para mim. O Eusébio não era vosso, era meu - era o meu tio mais velho, aquele que foi bem-sucedido, que era famoso, que conquistou coisas, que conseguiu feitos notáveis. O Eusébio era o orgulho da família. Da minha família.

Há o trisavô Cosme, de quem toda a gente conhece as histórias e os feitos. Foi ele quem começou esta aventura, quem sonhou esta coisa - esta coisa à qual boa parte da forma foi dada pelo meu tio Eusébio. Há avós variados: o Grande Rogério Pipi, o Enorme José Águas, o Mestre Coluna. «Senhor Coluna», diria o Eusébio. Mas o tio que a gente admirava mais era ele, o Eusébio.

Nos noticiários, diziam que o Eusébio era da Silva Ferreira, mas isso era derivado do seu nascimento. Porque o Eusébio era meu. Era do Benfica que eu herdei e que vai desaparecendo, que se vai consumindo em modernidades, com cadeirinhas encarnadas a toda a volta e vitórias que são quase, quase, quase, e grandes encaixes financeiros de sabe-se lá o quê, e de estruturas que ficam mais sólidas mas de que não se sabe bem o propósito. No fundo, o Eusébio jogava à bola como niguém e isso faz-me falta.

O Eusébio está morto, viva o Rei! Mas não temos príncipe herdeiro... E agora não sei o que fazer com isto, com este enorme Benfica que eu herdei e que se está a esvaír de heróis. Eu queria tanto dizer ao Eusébio para descansar em paz, queria recebê-lo à saída do campo, na linha do meio-campo, e dizer-lhe «descansa em paz, Eusébio, que o Rodrigo ou o Cardozo ou Lima vai e resolve o assunto». Mas não posso, eu nunca mentiria ao Eusébio.

A notícia foi-me dada assim: estava a dormir - eu durmo até tarde - e a Lady Verde chegou e disse «vamos lá a acordar...» e eu, a custo, abri os olhos para ela e ela disse «tenho uma notícia triste... uma notícia triste para o mundo... e para ti» e eu voltei-me de barriga para cima, olhei para ela e disse «o quê?» e ela disse com suavidade «o Eusébio morreu». «E é assim que me dás a notícia?!»

Levantei-me e fui tomar o pequeno-almoço, já era quase uma da tarde. Comi as torradas e bebi o café. Sabia-me tudo a desamparo, a solidão.

Cheguei da Típica e a Lady Verde estava a ver os noticiários. «Já chorei por causa do Eusébio», disse ela.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A marca da Vitória

Não sei bem por onde começar. Tenho passado o meu tempo de frente para o futebol, a vê-lo, a lê-lo e a escrevê-lo. O futebol é este meu ecrã e podia perfeitamente chamar-se Clube Desportivo Samsung (era o mais barato) ou Windows 8 Football Club.

É curioso que esta apropriação do futebol sobre mim tenha resultado num esfriar de relações entre mim e o Benfica. Não se trata de um distanciamento real, eu continuo lá, no Estádio, e continuo atento, mesmo quando estou longe. Mas tornou-se mais complicado escrever apaixonadamente sobre o assunto que mais me encanta.

Às vezes, algumas pessoas perguntam-me se vou acabar com o blogue. A pergunta é pertinente, até porque este ano tem sido, para mim, de roturas e desfechos mais ou menos bruscos. Às vezes, é preciso acabar com coisas, fechar ciclos, bater com portas, para ganhar um novo fôlego e algum balanço, para experimentar novidades. Resumindo, a rotina começava a entediar-me.

Mas não, não vou acabar com o blogue. Por quem sois, o nome disto é o meu número de sócio, faz parte da minha identidade, caramba. Na carteira, faz mesmo parte da minha identificação. Aliás, a minha identificação foi reforçada com um Redpass, que ocupa um lugar na hierarquia dos documentos à frente do Cartão do Cidadão, do Visa Electron e do cartão da Multicare, ao qual quase não dou uso e devia, que tenho um tratamento dentário a meio do caminho e esqueço-me sempre de marcar a porra das consultas, ainda bem que agora falo nisso, vou já tomar nota. Mas não vou pôr aparelho, não é isso: os dentes continuarão tortos - endireitá-los seria tornar-me um desconhecido perante mim mesmo, seria um transtorno da minha própria identidade quase tão grave quanto a anulação do meu número de sócio.

A minha estreia com o Redpass foi promissora: chego ao meu lugar, sector 6, 3.º anel, mesmo na curva por cima do sítio onde o Aimar batia os cantos - em todos jogos ainda espero vê-lo pegar na bola, tomar balanço e lavantar o braço, depois correr e chutar para a entrada da área, onde aparece o Gaitán a rematar de primeira, sem deixar bater -, e deparo-me com uma valente cagadela de pássaro - mas de um pássaro grande, forte, poderoso e belo - na minha cadeira. Já não era fresca, mas ninguém tratou de limpar e, como ainda não tinha chovido porque era Verão - foi no Benfica - Gil Vicente -, as marcas ainda lá estavam, com todo o contorno e preenchimento. Pensei para comigo ai, Vitória, Vitória... 65 mil luares no Estádio e foste logo escolher o meu, minha querida e a seguir sentei-me na minha magnífica poltrona encarnada com vistosa lista branca.

A verdade é que o Benfica ganhou dois a um, virando o resultado nos descontos, quando já muita gente acenava lenços brancos de papel, os mesmos com que alguns acabariam por secar as lágrimas de felicidade.

Os lenços brancos continuam por aí, em bolsos mais ou menos nervosos. O Benfica não nos descansa e a gente não dá descanso ao Benfica. Uns assobiam, outros pedem cabeças. O Presidente Vieira faz dez anos de poder, o Jesus vai a caminho dos cinco de comando no terreno, as vitrines estão pouco mais preenchidas do que estavam nos dias em que cada um deles chegou ao seu cargo. Isto, posto assim, sugere que a rotina está a pedir quebra. De qualquer modo, a época parece-me sem remédio, não nos vejo com alma fresca o suficiente para voltar àquele ponto maravilhoso em que nos encontrávamos a 5 de Maio de 2013.

Bom, mas hoje joga o Benfica e tudo o que eu tenho é saudades de vê-Lo jogar.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Dormir mal faz-me sonhos bizarros

Estava a chover e era de noite e eu não sei muito bem o que estava ali a fazer. Enrolei um cigarro encostado a uma árvore que me abrigava, ainda que precariamente. Um carro vermelho, vim a perceber depois que era um El Camino, parou do outro lado da estrada. Lá dentro vinham duas pessoas. O condutor saiu. Alto, de calças de ganga e t-shirt preta, fechou a porta com força e dirigiu-se a mim. Era o Tacuara.

Primeiro, fiquei confuso «Cardozo? Oscar Cardozo?!» e ele «si, si» e depois o telefone dele tocou. Atendeu e, pela conversa, percebi que se tratava de uma negociação. Mais precisamente, da sua própria transferência. Falava numa espécie de português com pronúncia espanholuguaia. «Vais-te embora? Vais deixar o Benfica?». E ele «si, si... estoy muy feliz. Vou para el Sporting». Ri-me bastante, pensei que era piada. «Verdad. Vou para el Sporting». Contemplei-o enquanto tentava processar a informação. Pediu-me que lhe enrolasse um cigarro. Fiz-lhe um cigarro.

«Estás a gozar... Vais para o Sporting fazer o quê?» Acendeu o cigarro e, com uma expressão muitíssimo feliz, disse «pagan muy bien» e sorriu enquanto travava o fumo - com demasiada força, na minha opinião; era apenas um Golden Virginia, não era skunk nem nada disso. Tentei dissuadi-lo. Perguntei-lhe quanto pagavam «oh, no voy a dicer... es mucho. Mucho mucho».

Tentei manter-me calmo e bem-disposto, brincar com a situação. Fumávamos os dois, sorridentes, a chuva caía, o outro ocupante do El Camino - pareceu-me ser uma mulher, mas só lhe vi a silhueta - fez sinais de luzes com impaciência. O Tacuara nem ligou. Aliás, até se riu. Lembro-me de ter ficado surpreendido, de o ter achado muito mais espirituoso do que alguma vez imaginara. Ele, que é carrancudo até quando fuzila um guarda-redes adversário, era afinal um tipo sorridente, com alegria - uma alegria suave, sem excessos; mas uma alegria boa, poderosa, confiante.

Foi então que lhe disse «Vou fazer um telefonema, vou ligar para Lisboa. Conheço gente capaz de te impedir de fazeres uma loucura dessas». Ele riu-se de novo, com gentileza. Atirou o cigarro para o chão e pisou-o para o apagar, embora a chuva pudesse ter tratado do assunto por ele. Despediu-se de mim e, enquanto se dirigia para o carro, dei por mim a fazer o telefonema «Pai?... ó pai, fogo, o Cardozo diz que se vai embora...» Ligou o carro e arrancou.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Mistério

Assisti ao jogo de sábado num restaurante ali perto do Campo das Cebolas. Ao jantar, éramos dois Benfiquistas, uma sportinguista, um belenense, um adepto do União de Coimbra - não sei como se designam os adeptos do União de Coimbra - e um número indefinido mas bastante generoso de adeptos portistas. Eram seis ou sete, talvez.

A constituição das equipas prenunciava um derby atípico: de um lado, havia mais portistas do que Benfiquistas e sportinguistas juntos; do outro, o Cortês era titular.

No final do jogo, antes de ir beber uma poncha, comentava com um dos portistas que aquilo que mais procuro enquanto apaixonado do futebol é, precisamente, a origem dessa paixão - ao mesmo tempo que o que mais me maravilha na minha paixão pelo futebol é exactamente a impossibilidade de a explicar e de lhe identificar a origem. O que me move é também o mistério disto de ser Benfiquista - essa maravilhosa conjugação genético-temporal que impediu que eu tivesse morrido antes de 1908.

Ontem passei o meu dia a colher a sementeira da noite anterior, tanto ao nível de paixão futebolística quanto das consequências dramáticas de uma poncha feita com sabedoria e sem delicadezas. Não sei se me doía mais a cabeça de pensar no jogo ou de ter bebido um terceiro copo.

Ainda ontem um amigo Benfiquista debatia comigo, via facebook, a tremenda pobreza deste derby. Contrapus que o jogo não fora mau e que o resultado me parecia justo, ao que ele respondeu sabiamente «o que mais me desilude num derby é que ele seja justo e como se espera». Hoje foi outro amigo que se insurgiu contra a falta de sal que este jogo, outrora maravilhoso, apresenta nos tempos recentes.

E a verdade é que a bonomia de que este derby - O Derby! - se revestiu vai contra a essência de alguns dos ingredientes que, seguramente, compõem o mistério por que me apaixonei nem sei bem quando, provavelmente ainda antes de ter nascido.

Dantes eu tinha nervos nas semanas que antecedem o jogo. Agora, sinto um leve aperto no estômago durante os primeiros minutos da partida, que é normalmente o período em que os jogadores adversários têm pernas. Mas depois passa-me. Pior ainda é chegar ao fim e ficar mais ou menos indiferente ao desfecho do jogo - «vá lá, o Markovic marcou, foi um grande golo e tal, empatámos, não é vergonha para ninguém» - e fico absolutamente desiludido comigo porque este sempre foi para mim O jogo dos jogos.

Não sei se o mal está em mim, mas sei que já não encontro mal neste jogo. O mal era um ingrediente vital, era a matéria pulsante que nos fazia vibrar. Eu não quero empatar um a um com o Sporting - se for para empatar, que seja dez a dez que é para eu ver esses gajos, pá, ir apanhar a bola dez vezes ao fundo da baliza. Andamos simpáticos, andamos meigos. Gosto muito de nos ver a todos civilizados e folgo em saber que os dois rivais conseguem ser rivais sem andar à porrada. Não é disso que estou a falar. Falo de uma atitude de cada adepto para consigo próprio. Talvez nos ande a faltar a chama que incendeia aqueles jogadores e os faça sentir que Aquele jogo não é um jogo qualquer.

Dou por mim a ter mais receio de ir à Madeira do que de ir a Alvalade, dou por mim a ver O derby entre portistas, dou por mim a não ter dores de barriga, dou por mim a ter mais incertezas quanto ao resultado que faremos em Coimbra do que ali e isto tudo amolece-me. Já não espero golear em Alvalade como não espero ser goleado. Já considero improvável que o Benfica perca. Mas, pior ainda, é constatar que os resultados destes derbys modernos se adequam, quase sempre ou pelo menos dentro de um limite razoável, ao futebol que foi praticado no campo. Isso pode ser justo mas eu aqui trocava a justiça por uma surpresa que me deixasse de rastos ou que me levasse às nuvens.

Se eu quiser ver justiça, vejo as séries da noite na SIC e na TVI. Se eu quisesse ver coisas adequadas, comprava um aquário e punha lá dentro dois peixes dourados. Eu quero ver é futebol por outra razão qualquer, que eu desconheço mas que me apaixona.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Episódios de uma barbearia de bairro

E discursava o barbeiro, como um sábio, de roda de um senhor de meia idade que aparava um corte muito clássico

-... porque a nossa equipa... ahn, ao contrário da deles... o nosso grupo nota-se que está unido. É um bom grupo...

Ao fundo da barbearia, folheando distraidamente A Bola, diz outro senhor

-Mas qual grupo? Não encontro o vosso... Já li isto de uma ponta à outra...

-Ó homem, o grupo... a equipa.

-Os grupinhos é que dão cabo das equipas. (sempre a ler o jornal, sem levantar os olhos do papel) No Benfica foi o dos russos, primeiro. E depois, foi o dos afilhados do Artur Jorge... esse filho de uma puta de média dimensão - porque naqueles genes, nada pode ser grande.

-Então, ó sôr Abílio... (tudo isto dito entre longas pausas, prolongadas por um sorriso desdenhoso que se intrometia na frase como um sinal de pontuação) e para amanhã, está com fé?

O barbeiro lançou ao sôr Abílio a pergunta, o olhar e o sorriso como três setas de pigmeu e suspendeu o tchic tchic tchic das tesouradas. O sôr Abílio nem levantou os olhos da página de jornal

-Este Rui Moreira... é um miserável, pá... Consegue ser pior que o outro bêbado. Esse ao menos... a gente dá o desconto.

-E o derby, sôr Abílio? O nosso derby? Não me diga que está com medo...

Houve um momento de suspensão, como se o universo de toda a barbearia tivesse sido castigado pela comissão disciplinar: nada acontecia. Até que o sôr Abilio fechou finalmente o jornal.

-Queres com Cardozo ou sem Cardozo?

Tchic tchic tchic tchic tchic tchic tchic tchic...

domingo, 25 de agosto de 2013

Da dificuldade de compreender o que é paradoxal e da impossibilidade de aceitar o que é inaceitável

«O Rodrigo?!... Oh, o Rodrigo é o melhor marcador de todos os tempos lá dos sub-21 espanhóis, mas tu já viste aquela equipa? Aquilo é uma equipa de sonho. Com aquela equipa, qualquer um é o melhor marcador de todos os tempos!»

Ouvi a frase à saída do Estádio e achei que era minha obrigação partilhá-la, registá-la, deixá-la para a posteridade. "O Benfica", esse conjunto heterogéneo, essa multidão diversa e dispersa, essa tribo sem raça, é constituído por muitos Benfiquistas diferentes. Para o bem e para o mal. Foquemo-nos no mal: há raciocínios singulares que, quando extrapolados, podem explicar muitas reacções da massa que compõe "o Benfica". Como é evidente, não confio muito na democracia. É uma ferramenta torta, enviesada.

Não consigo aceitar lenços brancos que se tiram do bolso quando se está a perder e que são euforicamente atirados ao ar no momento do golo. Não posso aceitar. Manter ou despedir um treinador é uma decisão fundamental para o destino do Clube, para o futuro da equipa. Não podemos ser levianos nem distraídos nem voláteis: temos de ser convictos. Não se trata de defender Jesus (que defenderei se achar que é possível ele ter mão na equipa - tenho dúvidas sobre este assunto) ou querer que Jesus saia (uma "refrescada" no balneário seria benéfica, caso se verifique que o treinador perdeu controlo - mas também não tenho a certeza que Jesus tenha perdido o pé); trata-se de exigir seriedade aos Benfiquistas. Eu sei que cada um pensa e diz aquilo que quiser. Pois bem: era isto que eu queria dizer, não me levem a mal.

Maxi, Lima e Cortês. Cortês não é apenas cortês: é um gentleman dos pés à cabeça, embora lhe falte qualidade, tanto nuns quanto noutra. Mas é gentil e sabe dar passagem a quem quer que se cruze com ele. Já ele próprio a cruzar é um bocadinho menos que assustador. No sentido em que "menos" significa "pior". Maxi, o meu querido Maxi, fez dos piores jogos de que me lembro com a Camisola vestida. Lima não é um ponta-de-lança, é um boicote ao golo (tal como o fora contra o Estoril, num jogo que haveria de nos custar o campeonato). Não me lixem: quando se constroem 8, 9, 10 ocasiões claras de golo que se falham e se tem um jogo controladíssimo e, depois, se sofre um golo com auto-assistência delicadinha, não é assoando um treinador com cleenexes que a coisa se resolve.

O ano passado gozei com os sportinguistas por terem festejado o segundo golo e a vitória por 2 a 1 contra o Gil Vicente como se de uma final da Champions se tratasse, com Sá Pinto aos comandos e, sim, a minha língua deita um líquido amargo. Salva-me um consolo - pequenino mas confortavelzinho: sentir que festejar com pouco é melhor do que amuar com nada. Deve ser a isto que se chama "humildade". Ok, já percebi, não é um tema complicado. Agora, podemos passar às vitórias gordas?

Vestir um par de calças

Há precisamente três semanas e um dia que a minha indumentária não sofre variações relevantes: visto uns calções de ganga, uma t-shirt ou uma camisa e enfio os chinelos. Mas hoje o meu dia é solene: vou inaugurar o meu cativo, estrear a minha casa nova. Vou vestir um par de calças, calçar os meus melhores ténis e atar no pulso o cachecol vintage.

Há três semanas e dois dias não me vesti: escrevi a carta de demissão, terminei o que me faltava fazer e deixei-me ficar por casa, como um vagabundo que tem a sorte de ter tecto, a desfrutar do prazer de agir de acordo com aquilo em que acredito. Há três semanas e três dias - e em muitos outros dias antes desse -, eu vestia camisas e calças, aparava a barba e o cabelo, mantinha-me, como se diz, "apresentável". Hoje sairei de casa com o cabelo desgrenhado e por aparar e ainda com a barba que o Benfica que me deu e que eu corrigi uma boa dúzia de vezes - mas que mantenho intocada há três semanas e dois dias, pelo menos.

Passo os olhos pela Imprensa enquanto faço tempo para ir para a Luz, Lisboa ardeu há 25 anos e eu vi na televisão. Hoje é um dia solene, de memórias fortes, de incêndios passados, de fogos por apagar e de incendiários à solta - um grupo de sócios marcou uma manifestação para as três da tarde nas imediações do Estádio. A escassa hora e picos do pontapé de saída. Não se faz. Partilhando das suas dores, preocupações e boa parte das exigências, não estou com eles. Primeiro está o Benfica e hoje joga o Benfica.

Lisboa já ardeu o quanto baste, mais que uma vez. Vou tomar um banho longo e cuidado que o dia é solene.