segunda-feira, 17 de agosto de 2015
Às vezes engano-me e tenho sempre muitas muitas dúvidas
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Joly há-de crescer
Lembrei-me hoje de uma dessas histórias, contou-ma o outro rapaz, que se lembrou dela quando viu entrar, Oslo adentro, fogosa e enérgica, uma prostituta anã. Parece então que, na terra desse rapaz, uma aldeia nas costas do desconhecido e de frente para o inexplorado, "num recanto", dizia ele, "lindíssimo, uma coisa inexplicável, cheio de riachos e canaviais, mato rasteiro na planície baixa e árvores tortas quando as encostas se inclinam", lá nesse pequeno paraíso que há-de ter nome de santo ou de santa, havia uma mulher que não conseguia ter filhos. O marido acabou por deixá-la, alguns anos depois do casamento, que foi consumado mas que não deu frutos e que assim, estéril, continuou, estação após estação.
A mulher, abandonada e seca, não se conformava. Toda a aldeia paria, só ela é que não. Os anos passavam e ela, que já não era abastada de beleza, envelhecia e via-se a desesperar. Até que um dia passou o circo lá pela terra. Não ficou muito tempo, foram três ou quatro dias. Mas foi tempo bastante para que a mulher tivesse conhecido uma das atracções, um anão ruivo a quem chamavam Joly. Para surpresa de todos e por obra de misteriosos encantos, Joly abandonou o circo e ficou a viver em casa da mulher. Assim, de um dia para o outro e sem darem, nem um nem outro, explicações a ninguém.
E viveram juntos, vários anos. Ninguém sabe se eram felizes ou não. Eu acho que não foram. O tempo passou e chegou um novo Verão - há sempre um Verão fatal numa aldeia - e com o Verão veio um novo circo. Ainda a tenda principal não estava montada e já a mulher levava Joly pela mão, praticamente arrastado, esperneando e barafustando. O povo espreitava das janelas e das ombreiras das portas. A mulher foi reclamar com o director do circo. Ninguém conseguiu perceber os detalhes da conversa, mas toda a gente ouviu quando a mulher berrou "MAS ACHA QUE EU QUERO FICAR COM ELE?! ENTÃO SE O MIÚDO NÃO CRESCE MAIS QUE ISTO!..."
A história teve muito mais graça ao balcão do Oslo às três da manhã, a matar a sede com Bushmills. Mas hoje lembrei-me dela várias vezes, sempre que lia alguém na internet a defender que devemos "dar tempo a Rui Vitória" para "deixá-lo crescer".
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Não subestimemos Vitória
Por partes: admito que seja possível que aquela malta jogue de olhos fechados. A julgar pela desorganização da equipa e pela quantidade de passes errados e remates sem destino que os jogadores fazem durante o jogo, diria até que é provável. Mas discordo da segunda parte do raciocínio de Jesus: está a subestimar as capacidades de Rui Vitória - a quem tragicamente ainda resta mais uma semana de trabalho até ao jogo da Supertaça! - para incinerar tudo o que foi feito em matéria de ideia de jogo ao longo destes últimos seis anos. Da pressão à intensidade, do comprimento da equipa ao esquema táctico, acabando na noção fundamental do objectivo do próprio jogo - fico fascinado com a ausência da ideia de baliza na estratégia de Vitória -, tudo me dá a sensação de que a missão arturjorgiana deste treinador no Benfica é eliminar qualquer vestígio da passagem de Jorge Jesus pelo clube.
Custa-me aceitar que em 2015 um treinador do Benfica se comporte como se estivesse a preparar a equipa para a gloriosa época de 1987 e que o faça sem querer. Se for esse o caso, creio que Vitória se equivocou quando escolheu a profissão. De qualquer modo, alguém se enganou redondamente quando decidiu contratá-lo para treinador do Benfica.
terça-feira, 28 de julho de 2015
Sonhos agitados
Demorei dois cafés, um sumo de laranja e um croissant misto a perceber que o Benfica joga esta madrugada. O meu subconsciente parece estar mais alerta do que o Luisão, o que explicará a tal frase do sonho. Não me confundam: eu não quero vir aqui amanhã dizer "eu estou a avisar"; eu quero chegar aqui e escrever "felizmente, estava enganado... eu não percebo nada disto".
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Declaração de pânico e respectiva justificação
Eu próprio não gosto de pânicos nem de histerias. Acho que são ambas reacções simplórias de quem não consegue olhar calma e friamente para um fenómeno e pensar sobre o assunto até que, eventualmente, chega a uma conclusão. Sucede que dou por mim em pânico. Não consigo não estar, por mais ridículo que isso possa soar após apenas três jogos amigáveis. Mas tenho as minhas razões.
Felizmente, há benfiquistas que não estão em pânico. Ainda bem. Mas há alguns que dizem coisas como "assobiam o ano todo mas depois no fim estão aos pulos no Marquês" e sinto-me particularmente injustiçado por esta acusação foleira. Não me ouvem assobiar nem quando tudo está mal; vou ao Estádio todas as jornadas (menos no aniversário da minha mulher, que costuma teimosa e maldosamente coincidir com um jogo em casa); e, por exemplo, no ano passado fugi da festa do Marquês - fugi até do país - porque o que me importa não é a festa mas antes o caminho até ela (a época em que o meu fervor Benfiquista mais se exaltou foi a de 2012-2013 - não sei se têm presente a festança que fizemos no final).
Há outros benfiquistas que dizem que isto "são derrotas de pré-época e o ano passado também levámos 5 em Arsenal". Antes de mais, o ano passado éramos treinados pelo melhor treinador a treinar em Portugal e o melhor treinador que eu vi treinar o Benfica. Pode parecer um detalhe, mas os detalhes têm alguma importância. Voltando à questão, existe uma diferença grande entre uma derrota circunstancial e um erro de sistema. Como é que eu sei que há um erro de sistema? Digamos que é o meu sexto sentido que se agita de cada vez que os rapazes não sabem o que fazer à bola porque ainda ninguém lhes explicou a estratégia e o objectivo, passo por passo, em cada fase do jogo. "Ah, mas circulamos muito bem a bola", dizem-me e eu respondo "sim, antes do meio-campo e com seis jogadores em meia-lua; as combinações de ataque não existem e as poucas jogadas de perigo que conseguimos nasceram de iniciativas individuais espontâneas". Não entrarei em detalhes técnicos, para isso leiam o Lateral Esquerdo. Sou apenas um leigo que tem o capricho de gostar de ver as coisas afinadas, sincronizadas e, imagine-se, planeadas e treinadas. Não estão.
[Momento onanista:] Escrevo ainda, ou talvez escreva sobretudo, porque fiz uma analogia que achei muito engraçada numa resposta a um comentário no facebook do meu irmão e achei que seria um desperdício perder-se essa passagem - perdoem-me a vaidade - tão bonita da análise futebolística fora de horas e alimentada a minis. É acerca dos benfiquistas que acham que vai ficar tudo bem, que o tempo tudo cura e o destino tudo endireita: «outra coisa assustadora: os benfiquistas estão tão habituados a ganhar ultimamente que tomam por segura a vitória final. Não têm discernimento. Acham que isto é só uma fase. Como aquelas fases do casamento em que um gajo fica a fazer horas extraordinárias todos os dias e dois anos mais tarde larga a mulher para ir de férias para Cancún com a galdéria mamalhuda que lhe trata das fotocópias. É tudo passageiro.»
E agora, se não se importam, vou continuar em pânico a boiar em águas tépidas, à pressa, porque ao fim da tarde tenho de ir comer peixe grelhado e convém não sobrepor as actividades.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Adeus e obrigado
2014 deu-me o Benfica que eu imaginava há anos, uma espécie de abstracção fantasiosa do Benfica com o qual me deparava todas as épocas. Cresci a ouvir que "dantes a gente limpava tudo e ainda brilhávamos na Europa" e a ver-nos ficar em 3.º, em 2.º, uma vez em 6.º, a ganhar uma coisinha aqui, outra ali - conquistas separadas por anos de secura.
Não tive outro remédio senão agasalhar-me bem e chegar à roulote a tempo de arrefecer ainda mais as mãos com duas cervejas. Sagres. Nestas ocasiões, não há margem para errar. Não fui sozinho - e este tipo de fidelidade, a roçar a insanidade (4 graus: se eu deixasse sopa na varanda, ela não azedava de um dia para o outro), esquece facilmente as dificuldades e transforma-se em romaria de prazer quando temos companhia.
Já no Estádio, sentámo-nos por trás do banco dos nossos, a contar ver de perto a segunda parte. Mas o Nacional armou-se em Sporting e virou o campo ao contrário: a baliza grande calhou-nos logo na primeira metade. Melhor assim, vimos de perto e com detalhe o golo do magnífico Jonas (Jonas, essa inesperada bênção que nos chegou ao plantel não sei como, mas pela qual também estou imensamente grato).
O jogo foi aborrecido, quase sempre mal jogado. Gostei, uma vez mais, do Cristante - prefiro-o ao Samaris - e estou a aprender a apreciar o César. De resto, a equipa parece abalada pelas ausências, o jogo está tremido. Mas as vitórias surgem, o talento de Jonas e de Júlio César acabam por fazer diferença na hora da verdade. Às vezes, tem de ser assim.
Quando o jogo acabou, aplaudi com gosto. Aplaudi muito mais do que aqueles 90 minutos esforçados pobrezinhos. Aplaudi o campeonato, a Taça e a Taça da Liga, aplaudi Jesus por tudo o que tem feito, mesmo quando às vezes faz as coisas ao contrário do que eu lhe digo. Aplaudi também os que partiram, Eusébio e Coluna, e que não assistiram ao brilhante 2014.
Antes de irmos embora, parámos de novo na roulote. A rua estava quase vazia e não havia sinal de azáfama junto à chapa das bifanas ou às torneiras de imperial. 2015 não poderá ser igual, já se sabe. Mas estaremos lá para ver, mesmo que esteja frio.
domingo, 14 de dezembro de 2014
Relato de uma manhã de Outono
Dei-lhe de comer e, de seguida, o comprimido anti-stress. Desde que se auto-mutilou que anda em tratamento (entretanto já foi operada e está melhor, obrigado). Dar-lhe o comprimido implica enfiar-lhe uma minúscula cápsula dentro da garganta. Conseguiu cuspi-la duas vezes, não sei como, mesmo depois de eu me ter certificado de que a pequena pílula tinha sido enterrada já na fronteira do duodeno. À terceira lá deve ter engolido, pelo menos não encontrei nada no chão. Tudo isto antes das dez da manhã, com a Lady Verde a descansar traquilamente na cama. Se há coisas a que a Lady é imune é à cachorra - a partir do momento em que eu me levanto para tomar conta da ocorrência - e à ansiedade dos dias de Clássico. É uma pessoa feliz.
Aproveitei que já estava de pé e decidi dar início ao tradicional conjunto de coisas inúteis que faço de maneira a queimar tempo até à hora de jogo. Hoje comecei por consultar as listas de palpites que os meus amigos das Ligas de Palpites 1X2 fizeram para esta jornada. Fiquei muito surpreendido com a quantidade de gente a quem palpita que o Benfica não vem do Dragão com os 3 pontos. Senhores, tantas apostas em "1" ou em "X" - ou em "1/X", já que houve quem tentasse mascarar o pessimismo com um dupla enfezada. Eu apostei 2 de caras. Não sou capaz de ter como convicção que o Benfica não vai ganhar, seja que jogo for. E, mesmo que a tivesse, recusar-me-ia sempre a ganhar pontos, a acertar um palpite à custa da perda de pontos do Benfica. Deixei-lhes o recado "vocês deviam confiar mais no Jonas, rapazes". Deviam mesmo.
Feita a ronda deu-me a fome e a Lady Verde levantou-se da cama, muito mais bela do que já era, graças ao seu imenso e pacífico sono de beleza. Como não havia material suficiente para dignificar um pequeno-almoço de domingo, decidi descer ao Pingo Doce de Santa Apolónia e fazer umas compras. Aproveitei para comprar várias outras coisas para além do pão, da manteiga, das cápsulas de café e do queijo flamengo fatiado (também precisava de gel de banho, de guardanapos de papel e apetecia-me alfaces - não sei porquê, mas apetecia-me mesmo. Ainda não as comi, no entanto).
Frente à estação, o mundo enchia-se de Benfiquistas. Eu sei que às vezes sinto alguma repulsa pelos Benfiquistas em excesso, mas nestas ocasiões todos os Benfiquistas são honrosos e todos fazem falta. Multidão vermelha de sandes, minis e latas de cerveja na mão, gente espalhada pelo espaço, Benfiquistas sentados em bancos de espera, Benfiquistas deitados em degraus de espera, Benfiquistas tomando sol e Sagres em esplanadas de espera. Benfiquistas encostados a paredes, à espera. Estes Benfiquistas não apostaram nem um, nem xis, tenho a certeza. Estes são dos que apostam 2, de caras. Sempre.
Atravessava eu a multidão Encarnada pela segunda vez, já de regresso a casa, carregado de Renova, Mimosa e Vasenol, quando alguém me chamou. Um amigo, antigo colega de trabalho, homem do rock e da fotografia, grande Benfiquista, "vais lá acima?", "vou, claro, e tu?", "epá não posso..." Expliquei-lhe que ando concentrado no subsídio de desemprego. Quando digo concentrado, digo mesmo concentradinho, apertado, espremido, tão estreito, tão estreito que ir ao Dragão implicaria deixar contas por pagar. Ele está bem, "estou a trabalhar para o El País agora", disse-me, com felicidade. Fiquei contente, é bom ver amigos sorridentes, de bem com o mundo e a fazer o que gostam. Despedimo-nos com um abraço, "traz-me de lá esses três pontos", disse-lhe eu, e ele "não te preocupes". Virei as costas, enfiei a mão no bolso e pensei "eu não me preocupo. Eu confio no Jonas".
Vim para casa, a Lady Verde fez-me torradas, a cachorra entretanto está na varanda a apanhar o sol de Outono e eu estou a escrever este texto e a contar minutos.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
A propósito da contestação sistemática a Jorge Jesus após qualquer desaire...
Não raras vezes dou comigo a pensar que um dos principais problemas do Benfica, se não mesmo o principal, é o severo excesso de benfiquistas. Esta matéria devia ser alvo de reflexão, porque se aos jogadores se lhes pede que honrem e dignifiquem a camisola que Águas, Eusébio, Coluna e Cosme Damião, ele próprio, usaram, aos adeptos não deve exigir-se menos do que dignificar as bancadas - ainda que metafóricas - em que o meu Avô sentou o rabo.
Por vezes sinto que há muito quem se afirme Encarnado - e acredito que acreditem que o são -, mas que, na verdade, nasceu com outras vocações clubísticas. Como diria a Merkel, não temos todos de ser doutores, também fazem falta canalizadores especializados; da mesma forma, não temos todos de ser d'O Grande.
Estes adeptos a que me refiro encaram muito mal duas situações. A primeira é a derrota. Por alguma razão estranha, consideram ultrajante que o Benfica possa algum dia perder. Quando tal sucede, olham para o universo em busca de um sinal, de um indício, de uma pista que lhes possa sugerir um culpado. Normalmente, o culpado é "o Jesus". Se não for, é provável que a culpa seja do árbitro.
O que nos leva à segunda situação que esse tipo de benfiquista tem grande dificuldade em digerir: a existência do adversário. Para esse benfiquista, os 11 elementos do outro lado do campo são pinos que precisamos de contornar de modo a obter vários golos e assim cumprir o que estava destinado desde sempre: ganhar todos os jogos e de goleada. O próprio desafio, em si, a chamada "partida de futebol", é um mero cumprir de protocolo, necessário para validar as vitórias futuras.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Adestradores de bancada
O momento ideal para se ter um cão é mais ou menos semelhante ao momento perfeito para se ter um filho: não existe. Quando tem de ser, tem de ser e o que tiver de acontecer acontece. Ainda assim, quando comuniquei a boa-nova a quem me é mais próximo, não houve quem não tivesse um "mas" ou um "se" como adenda ao "opá, é tão linda!". Que vivo num apartamento, que trazem doenças, que têm pulgas - a tudo fui retorquindo que passo os dias em casa, pelo que posso dar-lhe atenção enquanto cresce e precisa de ser educada; ou que tinha um dinheirito de parte para as primeiras e mais pesadas despesas. Sempre senti que não conseguia, na altura, convencer ninguém da minha boa intenção nem das minhas capacidades para fazer da Lolis Regina uma cachorra feliz e bem sucedida.
Certo dia, tinha a pequena Lolita os seus 4 ou 5 meses e já eu começava a sentir-me desmotivado com tantas dúvidas e críticas, uma senhora fez-lhe uma festinha e disse "ai credo... ela tem um focinho tão esquisito, tão comprido" ao que eu respondi, sorridente, "ah ah, sabe, isso é da raça" e a senhora fez uma expressão intrigada, pelo que acrescentei "é uma fox terrier" sem que me apercebesse da irrelevância e da ineficácia de tal informação - respondeu-me com cara de "sério?! Pensei que fosse um cão".
Foi nesse instante que comecei a ganhar consciência: talvez muitas opiniões e conselhos adviessem da ignorância e não da experiência ou dos conhecimentos, como eu esperava. Seguiram-se muitos episódios com dicas mais ou menos recorrentes: que tinha de ser mais obediente, que precisava, se calhar, de correr, que era importante que soubesse andar sem trela, que tinha de vir ao meu chamamento, por aí fora. Factos como ter apenas 7 meses, ser de uma raça extremamente enérgica e, inicialmente, desatenta como se fosse hiperactiva, pareciam ser irrelevantes. Viver num sítio labiríntico, sujo, com trânsito e cheio de cães à solta nem sempre bem cuidados - e a cachorra ter apenas um palmo e meio - também parecia ter pouca importância. Porque havia quem tivesse visto o Encantador de Cães Cesar Milan e soubesse como se conduz uma trela, outros que tinham tido um primo, na infância, que tivera um pastor alemão que se sabia sentar, muita gente decidiu ter opinião sobre o modo como eu estava a criar a minha cadela.
Nos dias de hoje, em que toda a gente pode opinar e ter um público para a sua opinião, são muitos os que exercem o atiramento do bitaite de um modo quase compulsivo. É como se, só porque pode fazê-lo, uma pessoa se sentisse obrigada a fazê-lo realmente. A isto acresce que parece que a ignorância, que outrora inspirava medo aos humanos, se tornou entretanto num dos maiores motores da vontade de dizer coisas,mesmo quando não se sabe muito bem o quê e muito menos se tem fundamento para o porquê.
Hoje, aos 9 meses, a Lolinha vem quando a chamo, senta-se, deita-se e até sabe esperar que lhe sirvo a comida, sendo que só vai à gamela quando lhe dou licença, mesmo que a comida lá esteja à espera, em frente a ela. É uma boa cachorra. Educar um cão terá ciência, seguramente, mas assenta muito mais no conhecimento do que temos em mãos e na relação que se estabelece entre homem e cachorro do que em teorias que vemos pontualmente na televisão ou em opiniões imediatas, sem grandes fundamentos, que formamos quando olhamos para um cachorro uma vez por semana, durante 90 minutos, ora num ecrã via SportTV, ora a partir do terceiro anel. É que, depois, quando os resultados ficam à vista, dá-me vontade de perguntar ao adestrador de bancada "mas quem é que aqui sabe melhor do que eu o que eu tenho de fazer?!".
Adenda: não me interpretem mal. Não quero, com este texto, dar a entender que tudo é perfeito e maravilhoso, que nada poderia ser melhorado ou que sei tudo, absolutamente tudo e com plenas certezas acerca de como educar um cão. Há dias em que algumas coisas correm mal - uma peúga que desaparece e surge, misteriosamente, alguns dias mais tarde, ratada e debaixo do sofá; um sapato que é roído; uma mijinha que ela não consegue aguentar e vai mesmo ali no tapete. E tudo isso sucede, obviamente, por culpa minha e não dela - é minha responsabilidade levá-la a não fazer essas coisas. Contudo, são coisas que acontecem porque não conseguimos controlar tudo, sempre, a toda a hora. Por vezes, há episódios e contextos que nos impedem o total controlo. Não vale a pena pôr em causa todo o meu trabalho e dedicação a este magnífico animal só porque no fim-de-semana que passou ele não foi buscar o osso como a gente queria, como eu estava à espera...
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
As sapatilhas do pescador
Ontem a minha confiança era inabalável: com os Sanjo nos meus pés, o Benfica seria imbatível. A confiança durou até a bola ter passado pelo desastre do Jardel. Quando, minutos mais tarde, o Artur foi expulso, pensei "caramba... o que é que estas sapatilhas querem de mim, afinal? Na estreia, a perfeição; logo a seguir, o cataclismo. Não compreendo". Ao intervalo, mandei mensagens a amigos meus "vou dar as sapatilhas ao Jardel... a mim dão-me azar e ele pior também não fica".
E fui vendo, enquanto aguardava uma aparentemente inevitável goleada do Zenit, o Sálvio e o Maxi a correrem por quatro, o Enzo a esfolar-se, a arratar-se e a arregaçar os calções para tentar uma vez mais, o Gaitan e Eliseu a fazerem piscinas, para trás e para a frente, como se tudo ainda fosse possível, o Luisão e o Samaris a desdobrarem-se entre o centro defensivo, o transporte de jogo, a organização do ataque e até a finalização. Dei por mim à espera de ser goleado e a ter esperança na reviravolta, ao mesmo tempo.
No fim, quando já não havia forças para mais e tudo estava definitivamente perdido, o Zenit começou a trocar tranquilamente a bola. Os nossos, de rastos, pareciam ter baixado os braços. Foi então que o topo Sul deu o mote e o Estádio se levantou para um aplauso infinito, uma declaração de amor incondicional. E os rapazes, lá em baixo, ergueram a cabeça e tentaram uma vez mais num último fôlego inglório.
Tive vontade de chorar. Não sei o que sentiram os outros trinta mil, mas eu senti uma profunda gratidão por todos aqueles que Nos defenderam ali, naquele relvado. E por todos os que não os deixaram cair. Pelo Benfica e por ser Benfiquista.
É curioso que o futebol esteja tão presente nas minhas mais marcantes experiências de humildade. Certa vez, na escola primária, a minha equipa perdeu um jogo, discutimos todos. Acabámos chateados. Quando regressei à sala, senti uma tristeza tão grande que hoje parece impossível tê-la sentido. Mas não foi a derrota que me magoou. Foi a solidão. Naquele dia, naquele momento, senti que perdera todos os meus amigos. Fiquei sozinho.
De outra vez, no recreio do ATL, alguém me rasteirou maldosamente. Na altura fiquei irado. Mas, momentos mais tarde, aconteceu-me um fenómeno estranho: senti uma felicidade gigante, como se tudo naquele preciso instante fosse perfeito. E, nesse inusitado rasgo de harmonia, senti que tinha perdoado o sacana que acabara de me atirar ao chão.
Ontem foi a vez de tomar o peso à gratidão. É esmagador. E sinto-me igualmente grato aos meus amigos pelas Sanjo. Por me permitirem compreender o valor inestimável de um par de sapatilhas de aprender.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Corrector geográfico
Dou de barato a deselegância, afinal é de bola que se trata e não vale a pena andar aqui com mariquices. Mas, como sou sensível à vertente pedagógica e ao rigor, para além de não gostar de ver-vos fazer figura de urso, repito o que digo há anos: Carnide é uma simpática freguesia de Lisboa, já nas franjas da cidade, que acaba, a Sul, na segunda circular. Olhando para o mapa e associando-o à expressão, "o Carnide" tanto pode referir-se ao Benfica como ao Sporting ou ao Fofó.
Se querem mesmo amesquinhar com o nome do Clube que vos dá a sombra, chamem-lhe "o São Domingos" (é em São Domingos de Benfica que fica a Catedral onde ontem [anteontem] vos foi concedido o milagre). Se preferirem, usem diminutivo, "o sãodominguinhos", por exemplo. Qualquer coisa. Mas deixem de ser ignorantes.
Não têm de quê.
NOTA: esta é uma republicação de um texto originalmente escrito no facebook. Trata-se, como o leitor já terá concluído, de um fruto da preguiça de escrever coisas novas e, porque não, da falta de assunto, que eu não sei quem é o Cristante.
16 de Abril sempre!
Muito Benfiquismo se passou desde a última vez que aqui vim dizer qualquer coisa. A verdade é que não senti que tivesse o que quer que fosse de pertinente ou especial para partilhar com o mundo num formato que ultrapassasse as três ou quatro linhas que uma laracha de facebook demora. Depois, quando me apeteceu escrever, desatámos a ser campeões e a ganhar taças e a perder uefas mas só nos penalties. Quando se ganha, não há criatividade que resista: está tudo dito, ali, no campo, no placard, no troféu que o capitão ergue no ar, nos confétis, no Marquês de Pombal, na barbearia do Carlos aqui por baixo de minha casa, no mundo, no meu rosto, nos meus sonhos, no meu espelho ao acordar: "bom dia, seu campeão lindo...". Acrescentar-lhe o quê? Que lá estive para os aplaudir? Mal de mim se não estivesse - e nem faria lá falta.
Mais tarde, meteu-se o campeonato do Mundo, que é uma prova que está à vista de toda a gente, a toda a hora, em toda a parte. Se a senhora da padaria consegue comentar com a vizinha da frente um Alemanha - Portugal, para quê dar-me ao trabalho de acrescentar o que quer que seja? Se eu acho que o Pepe foi bem expulso? Eu acho que o Pepe é um bocadinho malcriadão, portanto comigo estará sempre fodido.
Entretanto, meteram-se as férias, deu-se a debandada da Luz, eu andei a trabalhar, houve calor mas pouco, fui à praia, tratei da cadela, passeei um bocadinho, aturei turistas, tuk-tuks e clics de iphones a fotografar em toda a parte, à minha porta, de frente para mim, nas minhas costas, enquanto me distraía, enquanto apanhava os cocós desta cabra que me está a roer os chinelos outra vez - puta que a pariu -, enquanto enrolava cigarros, enquanto bebia uma cerveja a olhar para as paredes do bairro, para os estrangeiros do bairro, para as francesas a falar inglês com o condutor do tuk-tuk que é italiano e que lhes está a contar a história de Lisboa e que é tudo quase cemporcento mentira. Nessa altura, abdiquei das aliterações e não me meti em metáforas. Foi um descanso santo. O mais intelectual que fiz foi ler qualquer coisa do Paul Auster - e foram três ou quatro semanas para pouco mais de 300 páginas. Paul Auster, vejam bem.
Quando me senti finalmente revigorado e pronto para falar do Benfica, do que é o Benfica ou, no mínimo, dos meus dramas de Benfiquista, veio o Valência e comprou quase tudo e eu estive quase para assinar por eles também, já estava afeiçoado a boa parte daquela equipa que eles têm agora. Disse-me um amigo «é uma espécie de Benfica a preto e branco» e quase me vieram as lágrimas aos olhos ao recordar-me da nossa Equipa quando ainda ganhava finais europeias. Mas recompus-me.
Senti tristeza quando dei por mim, campeão, a sentir-me descampionizado ainda a bola não tinha começado a rolar. Depois o Enzo ou ia ou ficava, mas quase de certeza que ia e se fosse descíamos à segunda divisão e o Clube mais valia fechar as portas. Dei comigo a querer escrever mas sem saber o que pensar. Por mim, não fecham as portas nunca, nem que o Enzo vá para o Sporting e a gente desça aos distritais. Mas o Enzo foi ficando, a defesa que era uma miséria não sofria golos, o Artur defendeu penalties, ganhámos uma supertaça e a seguir vinha o Sporting. Evidentemente, não escrevi, estava tudo a correr tão bem que eu não queria enguiçar esta merda.
Durante a pausa, perdi qualidades na contenção do vernáculo. Naturalmente, é falta de treino. No fim de contas, nem o Benfica ganhou ao Sporting, nem o Artur defendeu penalties do Nani, nem o Enzo foi para o Valência - e ainda bem que renovei o Redpass, assim sendo, em vez de ir atrás do Rodrigo e do outro miúdo.
Tem graça pensar no rapaz agora. É que foi ele, o André Gomes, quem fez surgir o título deste texto, iam decorridos uns oitenta minutos, mais ou menos, de um Benfica - Porto para a Taça de Portugal, jogávamos nós com dez, mais coisa, menos coisa. Estávamos, dias depois e na véspera dos 40 anos da Revolução, numa jantarada de amigos, imbuídos do espírito revolucionário e concluímos que o André Gomes foi o nosso pequeno Salgueiro Maia, símbolo maior da insurreição contra o poder instituído, ícone de um povo farto de ser submisso, transposição física para o relvado da vontade democrática de uma multidão oprimida.
Foi a 16 de Abril que virámos uma eliminatória contra o rival-novo, foi nesse dia que, em desvantagem, com tudo contra nós e como há muito tempo não se via, mostrámos a força, a garra e o talento para fazer melhor do que eles. «É desta que o regime cai», comentámos, brindando com uma bebida qualquer de elevado teor alcoólico enquanto um senhor declamava, sem jeito nenhum, o FMI do Zé Mário Branco - uma coisa medonha, não se deve ofender assim a poesia. «16 de Abril sempre!», gritámos, cheios de sonhos e de ingenuidade. E então prometi: «será esse o título do meu próximo texto». Aqui estou eu, a cumprir a promessa.
terça-feira, 1 de abril de 2014
Soberba crítica
Um Benfiquista que festeja, que celebra ou que simplesmente está feliz é automaticamente arrumado sob a etiqueta da tal «soberba». Não importa se tem razões para estar contente ou se simplesmente fala com alegria da equipa que o alegra: tem «soberba lampiónica», ponto.
Às vezes, ponho-me a pensar em quem nos avalia - nos nossos comentadores, no cidadão comum que é adepto de outro clube, nos nossos juízes de costumes, nos nossos críticos, nos nossos censores morais, de um modo geral. Em cada esquina há um olheiro que toma notas sobre o nosso comportamento - desde a nossa reacção no momento da vitória, às músicas que ouvimos ou fazemos, passando pela ideologia que defendemos (ou não) e a nossa relação com a política deste Estado: todas as escolhas que fazemos, seja na hora de criar, seja na hora de aceitar, são escrutinadas por terceiros.
Pois então, tenho umas coisas para vos dizer. Quando olho, por exemplo, para a nossa "crise" - que é tão comentada e tão avaliada por gente que, no fim do comentário, se mete no seu BMW X5, no seu Range Rover, no seu Porsche Carrera -, avalio-a como quem não apenas a olha de perto; sinto-a antes como alguém que chega ao ponto de a sentir na pele. Eu sei o que significa "crise". E não é nada daquilo que vocês dizem, com conceitos muito aparentemente técnicos e terminologia a transbordar de estrangeirismos - crise é não ter dinheiro nem trabalho. Isso é que é crise. Portanto, não me digam o que fazer com quem me governa, nem me apontem em quem devo votar ou se devo votar ou não - a minha vontade de meter uma cruz em alguma dessa gente vai muito para lá da caneta e do papel.
E quando ouço uma banda na rádio ou leio sobre ela na imprensa, tenho de a respeitar. Posso não gostar do que ouço, posso até nem simpatizar com a atitude ou com a pose - mas se estou a ouvi-la é porque, no mínimo, aquela gente trabalhou no duro o suficiente para chegar ali, aos meus ouvidos. E isso merece-me respeito. Portanto, quando a criticarem pensem nisso: aquela gente trabalhou, ensaiou, sofreu ao vivo, carregou amplificadores, baterias e guitarras, conquistou público, perdeu dinheiro e fez tudo isto por amor a uma única coisa: a sua própria música. Isto tem de merecer respeito.
Não me quero dispersar - eu tinha tanta coisa para dizer sobre o assunto -, quero mesmo apontar o dedo a quem mo aponta a mim: eu não vejo o Benfica no sofá, nem sequer num camarote. Vejo-o no Terceiro Anel e vejo-o sempre que joga em casa - seja quando vem de derrotas com o Marítimo na primeira jornada, seja quando está a um passo de se sagrar campeão, quer chova, faça sol ou voem pedaços de lã de rocha e placas de zinco. Eu estou lá.
Eu, que o ano passado perdi tudo em quinze dias, estou lá e continuarei a estar. Se sofri? Eu sofro até quando estamos a ganhar 3 a 0 à Académica e faltam sete minutos para acabar porque "isto ainda pode dar a volta". Portanto, quando Jesus caiu de joelhos, quando o Enzo caiu sobre o peito, em lágrimas, quando o Cardozo perdeu a cabeça, eu não sofri: eu mudei. Eu festejo o que me apetecer quando eu quiser e vou ao Marquês todos os dias se me aprouver, só para fazer o reconhecimento do terreno: eu ganhei esse direito naquele mês de Maio de 2013 que a minha memória não há-de apagar nunca. Não, não vou guardar os festejos para o fim. O ano passado o Benfica deu-me uma grande lição: festeja sempre que puderes. Pois, é isso que tenho feito. E a vossa soberba crítica é muito pior que a minha soberba lampiónica.
quarta-feira, 26 de março de 2014
Carrega, Lolita!
Olá. Esta é a Lolita. Na verdade, é a Twiggy Lolita Josefina, assim, por extenso. Noto nos olhares desconfiados e nos sobrolhos franzidos de alguns dos leitores a curva intrigada da interrogação "mas por que caralho é que este mariconço me vem falar de cachorras com nomes compridos e esquisitos em dia de Clássico no Dragão?!". Se acham isso estranho, haviam de me ver em situações ainda mais embaraçosas. Eu, que li manuais sobre paternidades canídeas, eu, que sempre acreditei que um cão é um bicho e só um bicho, eu, que agora dou por mim com lenga-lengas cantaroladas "Lolita cabrita saltita" e algumas ainda piores, enquanto finto a cachorra sobre o tapete vermelho, para raiva dela e meu deleite.
Lolita aguarda, concentradíssima, a marcação do pontapé de canto.
Muita gente me tem perguntado "olha, e já a fizeste sócia?" e eu não tenho respondido, mas aqui fica o esclarecimento: não, ainda não fiz. Partilhando-a, como partilho, com a Lady Verde, considerei que talvez fosse demasiado arriscado registá-la logo assim, à bruta. Vamos com calma, temos tempo. Consegui, no entanto, persuadir a Lady em determinados assuntos - a trela e a coleira são encarnadas ("ó amor, esta cor vai tão bem com o branco dela... o branco e o preto, aliás"). E vai mesmo.
Lolita lançando-se sobre o esférico para um corte de excelência. A jovem estrela demonstra aqui todo o seu potencial físico, para além de uma garra fora de série.
Uma das coisas mais intrigantes, a roçar mesmo o bizarro, que me aconteceram quando fui buscar a cachorra foi, no momento em que a vi, ter pensado inusitadamente "em que posição é que ela pode jogar?". Não estou a exagerar nem a fantasiar: eu pensei mesmo isto. "Salta muito bem, tem boa elevação" foi logo a minha primeira impressão. Mais tarde, já em casa, atirei-lhe a bola. Não só não a dominou como imediatamente se desinteressou do lance e eu pensei "mau... tu queres ver?". No dia seguinte, vi-me obrigado a desafiá-la para uma peladinha intensa - reagiu bem e mostrou dotes, mas ainda se cansou depressa. Agora, passada uma semana desde a sua chegada, parece estar a atingir um pico de forma. Nos primeiros dias, lembrava-me o Javi Garcia: muito bem posicionalmente, saltava como poucos e ocupava bem os espaços - mas faltava-lhe algo mais; evoluiu para uma espécie de Matic: juntou ao poder nas alturas e à inteligência posicional, um domínio de bola com finésse e uma quase omni-presença sobre o terreno de jogo; hoje revelou-se um autêntico Enzo Pérez: joga e faz-me jogar, conduz a bola, atira-se-me às canelas, luta por cada milímetro, marca-me impiedosamente e ainda me dá cabo dos rins.
Lolita, depois de sair para receber os merecidos aplausos, ouve atentamente os cânticos do dono (que preferimos não reproduzir). Que grande exibição!
O aspecto que Lolita mais precisa de trabalhar é a disciplina táctica: impossibilitada de ir à rua, tem de aprender a fazer no jornal. Apesar dos claros sinais de progresso que apresenta, há ainda muito a melhorar. Abundam jornais velhos cá por casa - a maior parte deles são A Bola. Escolho, claro, cuidadosamente as páginas que uso para o efeito da educação dejectante do animal. Tenho evitado as páginas dedicadas ao desporto (normalmente, recorro à secção Outros Mundos, com especial incidência nas notícias sobre a crise, as eleições europeias ou anúncios de cortes). Mas hoje, excepcionalmente, recorri à secção do FC Porto - tem corrido razoavelmente, apesar de não poder falar em "sucesso retumbante" - já fui obrigado a servir-me da esfregona quatro vezes, inclusivamente. De qualquer modo, mantenho a esperança que este novo modelo de jogo resulte, abençoando a partida de logo à noite.
domingo, 16 de março de 2014
Os quatro, os três e os outros dois
Sobre os outros temas da semana, gostaria de começar pelo assunto "Jorge Jesus e os três". Na minha opinião, foram poucos. Para aquilo que jogámos, devíamos ter metido mais um, pelo menos - e o Siqueira bem que podia tê-lo feito, mesmo no finalzinho do jogo. Não diria que fiquei indignado, até porque o resultado foi positivo. Mas compreendo a surpresa do Jesus quando perguntou, por gestos, "como é isto, só três?"
Sobre os roubos de que os nossos rivais se dizem vítimas, tenho a dizer muito pouco. Mas gostaria de deixar claro um ponto: a afirmação peremptória de uma opinião não a transforma necessariamente num facto nem obriga a generalidade das pessoas a aceitá-la. O levantamento supostamente isento que o jornal do Sporting fez deixa muito a desejar ao nível da seriedade (não peço, sequer, imparcialidade). A razão não se conquista repetindo centenas de vezes a mesma opinião - há que justificá-la com seriedade, com justiça e com factos, não com opiniões ou com meios-factos e omissões. Acredito que o Sporting tenha razão em algumas situações, mas discordo de que tenha vindo a ser sistematicamente prejudicado. Uma análise séria revelará, creio eu (e não fiz um levantamento rigoroso, isto é uma impressão), um equilíbrio entre o dever e o haver - tal como no caso do Benfica, já agora. Não será uma conferência de imprensa de voz grossa em horário nobre com a intenção de mobilizar os próprios adeptos a dizer "basta" que me vai convencer do contrário. Eu tenho olhos e ainda sei ver futebol.
Para o clássico de amanhã, desejo que o Sporting seja amplamente beneficiado, a bem das ironias da justiça desportiva, por um lado, mas sobretudo com vista à justiça poética. O resultado é-me indiferente (se bem que um empate não me caía mal).
