terça-feira, 8 de setembro de 2015

Comprovativo de reclamação porque ando um bocado farto disto

Caros senhores,

estou muito desapontado com o serviço prestado pelo Benfica aos seus sócios. Começo por sublinhar que preferia falar-vos usando outros termos, recorrendo a outra terminologia, não falar em "serviços prestados" - preferia falar em "família Benfiquista" ou no "meu Clube", por aí fora. Infelizmente, o Benfica tem vindo cada vez mais a tratar os seus sócios e adeptos como clientes e não como membros de uma gigantesca família. Não foi assim que nasci e cresci no Benfica, mas é a realidade que me apresentam. Contrariado, adapto-me: sou vosso cliente, negócio fechado.

Agora, enquanto vosso cliente, tenho algumas exigências a fazer. Por exemplo, exijo-vos que não sejam ridículos, que não me enviem mensagens de "feliz aniversário" com um mês de antecedência - são detalhes, eu sei, mas é o meu aniversário e não gosto. Faço anos todos os anos contra a minha vontade. Agradeço que, no mínimo, respeitem a data em que se arredonda o castigo que o tempo me inflige.

Tudo isto é um disparate porque é, como disse, ridículo. E também não gosto que me ofereçam como prenda de anos uma entrada gratuita no Museu Cosme Damião, à qual eu já tenho direito por ser sócio com as quotas em dia e ter redpass. Isso não é uma prenda. Isso é uma imbecilidade - eu entro no Museu quantas vezes quiser, não preciso de fazer anos e não preciso que me convidem e não preciso de pagar entrada.

Mas há coisas que me ofendem mais ainda. Ofende-me que me enviem um e-mail com as condições de aquisição do "pack Liga dos Campeões" e, na véspera de terminar o prazo, mudem as condições: de repente, deixei de poder pagar até dia 8 e tinha de pagar até dia 7. Isto o que é? Uma forma de pressão? Vamos esclarecer uma coisa: se o Benfica me vende tão orgulhosamente "produtos" e me presta tão empresarialmente "serviços", o assunto muda de figura. As condições do nosso negócio não se alteram só porque vos apetece. O Benfica não é o clube lá da aldeia em que o presidente de repente muda de ideias e, afinal, as rifas da quermesse para sortear a bola da Mikasa já não são a 50 cêntimos, passa a oitenta - e o sorteio não se faz ao intervalo, passa tudo para o fim do jogo, pode ser que se vendam mais algumas. Não podemos ser amigos e compreensivos e adeptos fervorosos para umas coisas e clientes tratados a frio, pagadores correntes e gente que financia um negócio para outras coisas. Tem de haver coerência. Tem de haver cuidado. E tem de haver respeito, quer eu seja vosso cliente ou vosso sócio.

Espero que compreendam uma coisa: eu nem tenho o hábito de reclamar, mesmo depois de alguns anos a pagar lugar cativo sem receber nada em troca e a ver o Benfica oferecer ao adepto de ocasião todas as formas de boas-vindas, bilhetes gratuitos, foguetes e medalhas. Eu vou ao Estádio com o maior dos gostos e não preciso que me seduzam para fazê-lo. É lá que gosto de estar. Mas quando recebo a inenarrável mensagem a cobrar-me por uma nova emissão do cartão de sócio, naturalmente fico nervoso. Estão mesmo a falar a sério? Vão-me cobrar cinco euros por um novo cartão de sócio? A seguir temos o quê, o Benfica manda-me os dados e eu próprio vou imprimir o redpass? Isto serve para quê? Para pagar à equipa de escuteiros nonagenários que demoraram quatro ou cinco meses a contar os papelinhos onde estavam anotados os nomes dos sócios? Por favor, não me envergonhem.

Saudações Benfiquistas,

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Trinta e seis

E então acordei e já não acreditava. É estranho: passas a vida a alimentar uma miragem e ela, que teima em não ganhar formas concretas, em não se concretizar, vai-se esvaziando como um balão sonolento, devagarinho, até que fica irremediavelmente murcha. Olho para o espelho e já não sou novo. O puto que andava a correr atrás da bola no largo do pelourinho, à frente da velha cadeia, é uma espécie de primo longínquo, muito mais novo que eu, de quem guardo boas recordações. Que terá ele feito da vida, pergunto-me às vezes.

Um bocadinho mais crescido, ia jogar para o campo do Mafra. Na altura os portões não se fechavam, aquilo era pouco mais que um clube de aldeia - duas dezenas de adeptos, um barracão a fazer de bar onde se vendiam as bifanas, os amendoins e a coca-cola (mais tarde vim a saber que também vendiam cerveja), uns balneários quase decentes, cabines de suplentes muito dignas, em pedra, porém pequeninas, uns eucaliptos enormes por trás da baliza poente e era nessa baliza, eternamente à sombra, que eu marcava penaltys com uma bola do Benfica (às vezes ia sozinho). Depois joguei mesmo no Mafra, com equipamento e tudo. E botas de futebol que a minha mãe engraxava com brio e com esperança. Tínhamos sonhos.

Porque eu depois ia jogar no Benfica. O plano era muito simples. Consistia em ir jogando à bola até que chegasse o dia em que o Benfica se apercebia do meu talento e então o Benfica mandava uma equipa de pessoas que chegavam, mandavam parar tudo e diziam ao meu pai "senhor Urbano, vamos levar o seu filho. Precisamos muito dele. Obrigado por tudo". A minha mãe fazia-me um lanchinho à pressa e passava-me a mochila com uma ou duas mudas de roupa e o chefe da equipa de pessoas dizia "não se preocupe com equipamento que temos lá tudo". E lá ia eu. A minha missão era livrar o mundo do poderoso Milão repondo a ordem natural das coisas com o Benfica no topo, acima de todos.

E eu fui tentando cumprir o plano, cada vez com mais esforço mas sempre carregadinho de esperança, uma esperança inabalável, como se tudo no universo, no tempo e na minha existência tivesse um destino óbvio: vestir aquela camisola 7, fazer a ala toda, encher o campo com cruzamentos milimétricos, passes de morte rasteirinhos e diagonais diabólicas.

A dada altura, apercebendo-me de que o Benfica demorava a aperceber-se de mim, tendo eu contas para pagar e um futuro urgente por resolver, decidi fazer uma pausa. Não era abandonar o futebol. Era apenas descansar. Apanhar ar, refrescar, ganhar balanço para um dia mais tarde reiniciar tudo, reentrar em campo - sempre com o pé direito (nunca me benzi, sempre achei ofensivo andar a chamar deus para um assunto de homens; nunca quis intromissões nem batotas, sempre fiz jogo limpo; nunca levei um amarelo na vida) -, levantar finalmente o Estádio com um golo de bandeira, um pontapé de fora da área capaz de fazer o Rui Costa comover-se. Eventualmente, ser campeão europeu como José Águas. A toda a hora ser digno de tudo o que se herda quando se enverga a mais bela das camisolas.

Mas hoje acordei e o Benfica ainda não tinha mandado uma equipa de especialistas em grandes jogadores do futuro e nos jornais ainda não tinha vindo escrito sobre mim que era "o prodígio escondido" ou "o génio esquecido" ou "um talento por revelar", pelo que perdi definitivamente a esperança. E eu estou velho. Hoje acordei e estava mais velho que Pablo Aimar. Nunca vou jogar no Benfica.

domingo, 23 de agosto de 2015

Acho que me enganei quando pensei que, afinal, me tinha enganado

Não se preocupem que ele cresce. Dêem-lhe tempo. Para a semana ganhamos 4-0 outra vez e havemos de ir assim por aí fora, de cruzamento em cruzamento, goleada-sim, goleada-não, derrota-sim, derrota-não, vergonha-sim, vergonha-não, de pontapé para a frente em pontapé para a frente, a meter muitos avançados, todos os que for possível, comprar dezenas de avançados e meter lá pelo menos uns dez ou onze, para irem para lá fazer tiro ao boneco, tiro à bancada, tiro à bandeirola, tiro para Estarreja, tiro para Ílhavo, tiro para Ovar, o que importa é chutar de força, ela há-de entrar. Nem que seja na próxima jornada. Dêem-lhe tempo que os zero jogadores que há ali no meio-capo hão-de multiplicar-se, como Jesus, o original, fez não sei onde quando as pessoas estavam cheias de sede mas não lhes apetecia água. Ai, não, ele fez isso foi com pães. Isto com um bocadinho de manteiga marcha tudo, é preciso é deixá-lo ser criativo, dar-lhe estímulo, dar-lhe tempo - sobretudo tempo - e esperar que a bola entre. A bola há-de entrar, nem que seja em Setembro ou Outubro, temos tempo. É impossível que a bola não entre pois se eles a atiram tantas vezes lá para a frente a coisa há-de ir ao sítio, é demasiado improvável que ela não entre nunca.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Às vezes engano-me e tenho sempre muitas muitas dúvidas

Não há muito para dizer. O jogo oscilou entre o medíocre e o mediano até à incrível entrada de Talisca - ou até à tardia saída de um Pizzi catastrófico. Ver o Jonas dentro do jogo, substituído na função de "inútil entre os centrais" pelo Mitroglou, deixou-me muito satisfeito e faz-me aceitar que talvez - talvez! - o Rui Vitória não seja tão ignorante e inábil quanto eu acho que é. Para já, vou defsrutar da maravilhosa possibilidade de estar profundamente enganado.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Joly há-de crescer

Há uns anos, fui com um amigo até ao Cais do Sodré. Costumávamos sair um bocado, normalmente até às tantas, sempre que ele vinha a Lisboa. Ele é do Porto e é portista, já agora, mas é bom rapaz. Nessa noite encontrámos um amigo dele, alguém com quem já tinha partilhado palco ou estúdio, não me recordo bem. Prosseguimos juntos, os três, uma tranquila maratona de copos percorrendo categorias diversas de álcool, acompanhando sempre com conversa e muitas histórias.

Lembrei-me hoje de uma dessas histórias, contou-ma o outro rapaz, que se lembrou dela quando viu entrar, Oslo adentro, fogosa e enérgica, uma prostituta anã. Parece então que, na terra desse rapaz, uma aldeia nas costas do desconhecido e de frente para o inexplorado, "num recanto", dizia ele, "lindíssimo, uma coisa inexplicável, cheio de riachos e canaviais, mato rasteiro na planície baixa e árvores tortas quando as encostas se inclinam", lá nesse pequeno paraíso que há-de ter nome de santo ou de santa, havia uma mulher que não conseguia ter filhos. O marido acabou por deixá-la, alguns anos depois do casamento, que foi consumado mas que não deu frutos e que assim, estéril, continuou, estação após estação.

A mulher, abandonada e seca, não se conformava. Toda a aldeia paria, só ela é que não. Os anos passavam e ela, que já não era abastada de beleza, envelhecia e via-se a desesperar. Até que um dia passou o circo lá pela terra. Não ficou muito tempo, foram três ou quatro dias. Mas foi tempo bastante para que a mulher tivesse conhecido uma das atracções, um anão ruivo a quem chamavam Joly. Para surpresa de todos e por obra de misteriosos encantos, Joly abandonou o circo e ficou a viver em casa da mulher. Assim, de um dia para o outro e sem darem, nem um nem outro, explicações a ninguém.

E viveram juntos, vários anos. Ninguém sabe se eram felizes ou não. Eu acho que não foram. O tempo passou e chegou um novo Verão - há sempre um Verão fatal numa aldeia - e com o Verão veio um novo circo. Ainda a tenda principal não estava montada e já a mulher levava Joly pela mão, praticamente arrastado, esperneando e barafustando. O povo espreitava das janelas e das ombreiras das portas. A mulher foi reclamar com o director do circo. Ninguém conseguiu perceber os detalhes da conversa, mas toda a gente ouviu quando a mulher berrou "MAS ACHA QUE EU QUERO FICAR COM ELE?! ENTÃO SE O MIÚDO NÃO CRESCE MAIS QUE ISTO!..."

A história teve muito mais graça ao balcão do Oslo às três da manhã, a matar a sede com Bushmills. Mas hoje lembrei-me dela várias vezes, sempre que lia alguém na internet a defender que devemos "dar tempo a Rui Vitória" para "deixá-lo crescer".

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Não subestimemos Vitória

Jorge Jesus - eu tinha prometido a mim mesmo que não voltaria a começar um texto com estas palavras, mas a realidade foi mais forte do que eu - disse que o Benfica é favorito para a Supertaça. Fê-lo durante mais um exercício típico de jorgismo em que alegou que o Benfica "joga de olhos fechados" porque "há seis anos" que a equipa trabalha de determinada maneira - em seguida, lubrificou o umbigo e enfiou lá dentro um cabo de vassoura.

Por partes: admito que seja possível que aquela malta jogue de olhos fechados. A julgar pela desorganização da equipa e pela quantidade de passes errados e remates sem destino que os jogadores fazem durante o jogo, diria até que é provável. Mas discordo da segunda parte do raciocínio de Jesus: está a subestimar as capacidades de Rui Vitória - a quem tragicamente ainda resta mais uma semana de trabalho até ao jogo da Supertaça! - para incinerar tudo o que foi feito em matéria de ideia de jogo ao longo destes últimos seis anos. Da pressão à intensidade, do comprimento da equipa ao esquema táctico, acabando na noção fundamental do objectivo do próprio jogo - fico fascinado com a ausência da ideia de baliza na estratégia de Vitória -, tudo me dá a sensação de que a missão arturjorgiana deste treinador no Benfica é eliminar qualquer vestígio da passagem de Jorge Jesus pelo clube.

Custa-me aceitar que em 2015 um treinador do Benfica se comporte como se estivesse a preparar a equipa para a gloriosa época de 1987 e que o faça sem querer. Se for esse o caso, creio que Vitória se equivocou quando escolheu a profissão. De qualquer modo, alguém se enganou redondamente quando decidiu contratá-lo para treinador do Benfica.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Sonhos agitados

Eu não quero ter razão, eu só quero ser feliz, a frase rimbombou-me no sonho e acordei sobressaltado, baralhado com o falso antagonismo estabelecido pelo raciocínio e com a pobreza do mesmo. Forcei-me a caminhar, ainda trôpego, até ao espelho onde esperei encontrar o reflexo do rosto de Pedro Chagas Freitas. Foi com surpresa que encontrei o meu próprio reflexo e não pude deixar de me sentir preocupado.

Demorei dois cafés, um sumo de laranja e um croissant misto a perceber que o Benfica joga esta madrugada. O meu subconsciente parece estar mais alerta do que o Luisão, o que explicará a tal frase do sonho. Não me confundam: eu não quero vir aqui amanhã dizer "eu estou a avisar"; eu quero chegar aqui e escrever "felizmente, estava enganado... eu não percebo nada disto".

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Declaração de pânico e respectiva justificação

Sou o Diego Armés, tenho 35 anos e o meu número - pelo menos, até que o velhinho que está com o caderno das contas acabe de agrupar os riscos na sebenta - é o 227218. Não escrevo aqui há 8 meses menos 4 dias. Interrompo a minha preguiça precisamente enquanto gozo umas tranquilas férias. E faço-o porque sinto necessidade de responder a certas acusações gerais aos benfiquistas que entram em pânico.

Eu próprio não gosto de pânicos nem de histerias. Acho que são ambas reacções simplórias de quem não consegue olhar calma e friamente para um fenómeno e pensar sobre o assunto até que, eventualmente, chega a uma conclusão. Sucede que dou por mim em pânico. Não consigo não estar, por mais ridículo que isso possa soar após apenas três jogos amigáveis. Mas tenho as minhas razões.

Felizmente, há benfiquistas que não estão em pânico. Ainda bem. Mas há alguns que dizem coisas como "assobiam o ano todo mas depois no fim estão aos pulos no Marquês" e sinto-me particularmente injustiçado por esta acusação foleira. Não me ouvem assobiar nem quando tudo está mal; vou ao Estádio todas as jornadas (menos no aniversário da minha mulher, que costuma teimosa e maldosamente coincidir com um jogo em casa); e, por exemplo, no ano passado fugi da festa do Marquês - fugi até do país - porque o que me importa não é a festa mas antes o caminho até ela (a época em que o meu fervor Benfiquista mais se exaltou foi a de 2012-2013 - não sei se têm presente a festança que fizemos no final).

Há outros benfiquistas que dizem que isto "são derrotas de pré-época e o ano passado também levámos 5 em Arsenal". Antes de mais, o ano passado éramos treinados pelo melhor treinador a treinar em Portugal e o melhor treinador que eu vi treinar o Benfica. Pode parecer um detalhe, mas os detalhes têm alguma importância. Voltando à questão, existe uma diferença grande entre uma derrota circunstancial e um erro de sistema. Como é que eu sei que há um erro de sistema? Digamos que é o meu sexto sentido que se agita de cada vez que os rapazes não sabem o que fazer à bola porque ainda ninguém lhes explicou a estratégia e o objectivo, passo por passo, em cada fase do jogo. "Ah, mas circulamos muito bem a bola", dizem-me e eu respondo "sim, antes do meio-campo e com seis jogadores em meia-lua; as combinações de ataque não existem e as poucas jogadas de perigo que conseguimos nasceram de iniciativas individuais espontâneas". Não entrarei em detalhes técnicos, para isso leiam o Lateral Esquerdo. Sou apenas um leigo que tem o capricho de gostar de ver as coisas afinadas, sincronizadas e, imagine-se, planeadas e treinadas. Não estão.

[Momento onanista:] Escrevo ainda, ou talvez escreva sobretudo, porque fiz uma analogia que achei muito engraçada numa resposta a um comentário no facebook do meu irmão e achei que seria um desperdício perder-se essa passagem - perdoem-me a vaidade - tão bonita da análise futebolística fora de horas e alimentada a minis. É acerca dos benfiquistas que acham que vai ficar tudo bem, que o tempo tudo cura e o destino tudo endireita: «outra coisa assustadora: os benfiquistas estão tão habituados a ganhar ultimamente que tomam por segura a vitória final. Não têm discernimento. Acham que isto é só uma fase. Como aquelas fases do casamento em que um gajo fica a fazer horas extraordinárias todos os dias e dois anos mais tarde larga a mulher para ir de férias para Cancún com a galdéria mamalhuda que lhe trata das fotocópias. É tudo passageiro.»

E agora, se não se importam, vou continuar em pânico a boiar em águas tépidas, à pressa, porque ao fim da tarde tenho de ir comer peixe grelhado e convém não sobrepor as actividades.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Adeus e obrigado

Estavam 6 graus e o telefone ainda acrescentava "but feels like 4". Como se eu soubesse distinguir entre 4 e 6 graus - abaixo de 15, é nórdico, ofensivo, uma injustiça!, bom para ficar em casa. Mas jogava o Benfica e eu não podia acomodar-me no sofá, enrolado em mantas, com os pés quentinhos. Não desta vez. Mais do que entrar no 2015 Benfiquista com o pé direito, eu queria sair do 2014 com as mãos juntas, em aplauso e em sinal de agradecimento.

2014 deu-me o Benfica que eu imaginava há anos, uma espécie de abstracção fantasiosa do Benfica com o qual me deparava todas as épocas. Cresci a ouvir que "dantes a gente limpava tudo e ainda brilhávamos na Europa" e a ver-nos ficar em 3.º, em 2.º, uma vez em 6.º, a ganhar uma coisinha aqui, outra ali - conquistas separadas por anos de secura.

Não tive outro remédio senão agasalhar-me bem e chegar à roulote a tempo de arrefecer ainda mais as mãos com duas cervejas. Sagres. Nestas ocasiões, não há margem para errar. Não fui sozinho - e este tipo de fidelidade, a roçar a insanidade (4 graus: se eu deixasse sopa na varanda, ela não azedava de um dia para o outro), esquece facilmente as dificuldades e transforma-se em romaria de prazer quando temos companhia.

Já no Estádio, sentámo-nos por trás do banco dos nossos, a contar ver de perto a segunda parte. Mas o Nacional armou-se em Sporting e virou o campo ao contrário: a baliza grande calhou-nos logo na primeira metade. Melhor assim, vimos de perto e com detalhe o golo do magnífico Jonas (Jonas, essa inesperada bênção que nos chegou ao plantel não sei como, mas pela qual também estou imensamente grato).

O jogo foi aborrecido, quase sempre mal jogado. Gostei, uma vez mais, do Cristante - prefiro-o ao Samaris - e estou a aprender a apreciar o César. De resto, a equipa parece abalada pelas ausências, o jogo está tremido. Mas as vitórias surgem, o talento de Jonas e de Júlio César acabam por fazer diferença na hora da verdade. Às vezes, tem de ser assim.

Quando o jogo acabou, aplaudi com gosto. Aplaudi muito mais do que aqueles 90 minutos esforçados pobrezinhos. Aplaudi o campeonato, a Taça e a Taça da Liga, aplaudi Jesus por tudo o que tem feito, mesmo quando às vezes faz as coisas ao contrário do que eu lhe digo. Aplaudi também os que partiram, Eusébio e Coluna, e que não assistiram ao brilhante 2014.

Antes de irmos embora, parámos de novo na roulote. A rua estava quase vazia e não havia sinal de azáfama junto à chapa das bifanas ou às torneiras de imperial. 2015 não poderá ser igual, já se sabe. Mas estaremos lá para ver, mesmo que esteja frio.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Relato de uma manhã de Outono

O plano "vou aproveitar para dormir até tarde" foi prematuramente abortado quando a cachorra decidiu acordar e acordar-me às oito da manhã. Aparentemente, estava aflita: não parava de saltar, de ganir, de raspar com as patas no soalho. Às nove cedi finalmente à sua persuasão, enfiei uma camisola de lã sobre a camisola do pijama, vesti umas calças, calcei as primeiras sapatilhas que apanhei - felizmente, faziam par -, peguei no gorro, no cachecol, no casacão, nos óculos de sol e no saquinho de apanhar cocó, pus-lhe a trela e descemos a correr. Chegada à rua, ficou sem vontades nem urgências. Após vinte minutos de passeio, lá soltou uma mijinha de estrumfe, mais por caridade do que por vontade séria, creio eu. Frustrado, eu, satisfeita, ela, voltámos para casa.

Dei-lhe de comer e, de seguida, o comprimido anti-stress. Desde que se auto-mutilou que anda em tratamento (entretanto já foi operada e está melhor, obrigado). Dar-lhe o comprimido implica enfiar-lhe uma minúscula cápsula dentro da garganta. Conseguiu cuspi-la duas vezes, não sei como, mesmo depois de eu me ter certificado de que a pequena pílula tinha sido enterrada já na fronteira do duodeno. À terceira lá deve ter engolido, pelo menos não encontrei nada no chão. Tudo isto antes das dez da manhã, com a Lady Verde a descansar traquilamente na cama. Se há coisas a que a Lady é imune é à cachorra - a partir do momento em que eu me levanto para tomar conta da ocorrência - e à ansiedade dos dias de Clássico. É uma pessoa feliz.

Aproveitei que já estava de pé e decidi dar início ao tradicional conjunto de coisas inúteis que faço de maneira a queimar tempo até à hora de jogo. Hoje comecei por consultar as listas de palpites que os meus amigos das Ligas de Palpites 1X2 fizeram para esta jornada. Fiquei muito surpreendido com a quantidade de gente a quem palpita que o Benfica não vem do Dragão com os 3 pontos. Senhores, tantas apostas em "1" ou em "X" - ou em "1/X", já que houve quem tentasse mascarar o pessimismo com um dupla enfezada. Eu apostei 2 de caras. Não sou capaz de ter como convicção que o Benfica não vai ganhar, seja que jogo for. E, mesmo que a tivesse, recusar-me-ia sempre a ganhar pontos, a acertar um palpite à custa da perda de pontos do Benfica. Deixei-lhes o recado "vocês deviam confiar mais no Jonas, rapazes". Deviam mesmo.

Feita a ronda deu-me a fome e a Lady Verde levantou-se da cama, muito mais bela do que já era, graças ao seu imenso e pacífico sono de beleza. Como não havia material suficiente para dignificar um pequeno-almoço de domingo, decidi descer ao Pingo Doce de Santa Apolónia e fazer umas compras. Aproveitei para comprar várias outras coisas para além do pão, da manteiga, das cápsulas de café e do queijo flamengo fatiado (também precisava de gel de banho, de guardanapos de papel e apetecia-me alfaces - não sei porquê, mas apetecia-me mesmo. Ainda não as comi, no entanto).

Frente à estação, o mundo enchia-se de Benfiquistas. Eu sei que às vezes sinto alguma repulsa pelos Benfiquistas em excesso, mas nestas ocasiões todos os Benfiquistas são honrosos e todos fazem falta. Multidão vermelha de sandes, minis e latas de cerveja na mão, gente espalhada pelo espaço, Benfiquistas sentados em bancos de espera, Benfiquistas deitados em degraus de espera, Benfiquistas tomando sol e Sagres em esplanadas de espera. Benfiquistas encostados a paredes, à espera. Estes Benfiquistas não apostaram nem um, nem xis, tenho a certeza. Estes são dos que apostam 2, de caras. Sempre.

Atravessava eu a multidão Encarnada pela segunda vez, já de regresso a casa, carregado de Renova, Mimosa e Vasenol, quando alguém me chamou. Um amigo, antigo colega de trabalho, homem do rock e da fotografia, grande Benfiquista, "vais lá acima?", "vou, claro, e tu?", "epá não posso..." Expliquei-lhe que ando concentrado no subsídio de desemprego. Quando digo concentrado, digo mesmo concentradinho, apertado, espremido, tão estreito, tão estreito que ir ao Dragão implicaria deixar contas por pagar. Ele está bem, "estou a trabalhar para o El País agora", disse-me, com felicidade. Fiquei contente, é bom ver amigos sorridentes, de bem com o mundo e a fazer o que gostam. Despedimo-nos com um abraço, "traz-me de lá esses três pontos", disse-lhe eu, e ele "não te preocupes". Virei as costas, enfiei a mão no bolso e pensei "eu não me preocupo. Eu confio no Jonas".

Vim para casa, a Lady Verde fez-me torradas, a cachorra entretanto está na varanda a apanhar o sol de Outono e eu estou a escrever este texto e a contar minutos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A propósito da contestação sistemática a Jorge Jesus após qualquer desaire...

[Originalmente publicado no facebook.]

Não raras vezes dou comigo a pensar que um dos principais problemas do Benfica, se não mesmo o principal, é o severo excesso de benfiquistas. Esta matéria devia ser alvo de reflexão, porque se aos jogadores se lhes pede que honrem e dignifiquem a camisola que Águas, Eusébio, Coluna e Cosme Damião, ele próprio, usaram, aos adeptos não deve exigir-se menos do que dignificar as bancadas - ainda que metafóricas - em que o meu Avô sentou o rabo.

Por vezes sinto que há muito quem se afirme Encarnado - e acredito que acreditem que o são -, mas que, na verdade, nasceu com outras vocações clubísticas. Como diria a Merkel, não temos todos de ser doutores, também fazem falta canalizadores especializados; da mesma forma, não temos todos de ser d'O Grande.

Estes adeptos a que me refiro encaram muito mal duas situações. A primeira é a derrota. Por alguma razão estranha, consideram ultrajante que o Benfica possa algum dia perder. Quando tal sucede, olham para o universo em busca de um sinal, de um indício, de uma pista que lhes possa sugerir um culpado. Normalmente, o culpado é "o Jesus". Se não for, é provável que a culpa seja do árbitro.

O que nos leva à segunda situação que esse tipo de benfiquista tem grande dificuldade em digerir: a existência do adversário. Para esse benfiquista, os 11 elementos do outro lado do campo são pinos que precisamos de contornar de modo a obter vários golos e assim cumprir o que estava destinado desde sempre: ganhar todos os jogos e de goleada. O próprio desafio, em si, a chamada "partida de futebol", é um mero cumprir de protocolo, necessário para validar as vitórias futuras.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Adestradores de bancada

Foi há sete meses e meio que tomei, sem ponderação excessiva nem exagero de impulso, a decisão de ter um cão. Não é um cão qualquer. Nem, tão pouco, é um cão, já que é uma cadela. Continuando, o que quero dizer é que não se tratou de querer um cão só porque sim, foi antes o realizar de um desejo já antigo: ter por companheiro um fox terrier.

O momento ideal para se ter um cão é mais ou menos semelhante ao momento perfeito para se ter um filho: não existe. Quando tem de ser, tem de ser e o que tiver de acontecer acontece. Ainda assim, quando comuniquei a boa-nova a quem me é mais próximo, não houve quem não tivesse um "mas" ou um "se" como adenda ao "opá, é tão linda!". Que vivo num apartamento, que trazem doenças, que têm pulgas - a tudo fui retorquindo que passo os dias em casa, pelo que posso dar-lhe atenção enquanto cresce e precisa de ser educada; ou que tinha um dinheirito de parte para as primeiras e mais pesadas despesas. Sempre senti que não conseguia, na altura, convencer ninguém da minha boa intenção nem das minhas capacidades para fazer da Lolis Regina uma cachorra feliz e bem sucedida.

Certo dia, tinha a pequena Lolita os seus 4 ou 5 meses e já eu começava a sentir-me desmotivado com tantas dúvidas e críticas, uma senhora fez-lhe uma festinha e disse "ai credo... ela tem um focinho tão esquisito, tão comprido" ao que eu respondi, sorridente, "ah ah, sabe, isso é da raça" e a senhora fez uma expressão intrigada, pelo que acrescentei "é uma fox terrier" sem que me apercebesse da irrelevância e da ineficácia de tal informação - respondeu-me com cara de "sério?! Pensei que fosse um cão".

Foi nesse instante que comecei a ganhar consciência: talvez muitas opiniões e conselhos adviessem da ignorância e não da experiência ou dos conhecimentos, como eu esperava. Seguiram-se muitos episódios com dicas mais ou menos recorrentes: que tinha de ser mais obediente, que precisava, se calhar, de correr, que era importante que soubesse andar sem trela, que tinha de vir ao meu chamamento, por aí fora. Factos como ter apenas 7 meses, ser de uma raça extremamente enérgica e, inicialmente, desatenta como se fosse hiperactiva, pareciam ser irrelevantes. Viver num sítio labiríntico, sujo, com trânsito e cheio de cães à solta nem sempre bem cuidados - e a cachorra ter apenas um palmo e meio - também parecia ter pouca importância. Porque havia quem tivesse visto o Encantador de Cães Cesar Milan e soubesse como se conduz uma trela, outros que tinham tido um primo, na infância, que tivera um pastor alemão que se sabia sentar, muita gente decidiu ter opinião sobre o modo como eu estava a criar a minha cadela.

Nos dias de hoje, em que toda a gente pode opinar e ter um público para a sua opinião, são muitos os que exercem o atiramento do bitaite de um modo quase compulsivo. É como se, só porque pode fazê-lo, uma pessoa se sentisse obrigada a fazê-lo realmente. A isto acresce que parece que a ignorância, que outrora inspirava medo aos humanos, se tornou entretanto num dos maiores motores da vontade de dizer coisas,mesmo quando não se sabe muito bem o quê e muito menos se tem fundamento para o porquê.

Hoje, aos 9 meses, a Lolinha vem quando a chamo, senta-se, deita-se e até sabe esperar que lhe sirvo a comida, sendo que só vai à gamela quando lhe dou licença, mesmo que a comida lá esteja à espera, em frente a ela. É uma boa cachorra. Educar um cão terá ciência, seguramente, mas assenta muito mais no conhecimento do que temos em mãos e na relação que se estabelece entre homem e cachorro do que em teorias que vemos pontualmente na televisão ou em opiniões imediatas, sem grandes fundamentos, que formamos quando olhamos para um cachorro uma vez por semana, durante 90 minutos, ora num ecrã via SportTV, ora a partir do terceiro anel. É que, depois, quando os resultados ficam à vista, dá-me vontade de perguntar ao adestrador de bancada "mas quem é que aqui sabe melhor do que eu o que eu tenho de fazer?!".

Adenda: não me interpretem mal. Não quero, com este texto, dar a entender que tudo é perfeito e maravilhoso, que nada poderia ser melhorado ou que sei tudo, absolutamente tudo e com plenas certezas acerca de como educar um cão. Há dias em que algumas coisas correm mal - uma peúga que desaparece e surge, misteriosamente, alguns dias mais tarde, ratada e debaixo do sofá; um sapato que é roído; uma mijinha que ela não consegue aguentar e vai mesmo ali no tapete. E tudo isso sucede, obviamente, por culpa minha e não dela - é minha responsabilidade levá-la a não fazer essas coisas. Contudo, são coisas que acontecem porque não conseguimos controlar tudo, sempre, a toda a hora. Por vezes, há episódios e contextos que nos impedem o total controlo. Não vale a pena pôr em causa todo o meu trabalho e dedicação a este magnífico animal só porque no fim-de-semana que passou ele não foi buscar o osso como a gente queria, como eu estava à espera...

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

As sapatilhas do pescador

Quando me deram um saco de papel do Benfica "toma lá a tua prenda de anos" pensei que me estivessem a oferecer aquela camisola clássica, com a gola branca e o símbolo num pedaço de pano oval cosido ao peito. Essa camisola é a mais bela de todas. Mas peguei no saco e percebi que lá dentro vinha uma caixa. Uma caixa de sapatos. Abri a caixa e aposto que os meus olhos brilharam: uns Sanjo SLB, pretos com uma lista encarnada. Toquei-lhes e o Salvio marcou um golo, "estão abençoados", gracejou-se à mesa da Típica. De cada vez que os fui mostrando, o Benfica foi marcando mais um golo.

Ontem a minha confiança era inabalável: com os Sanjo nos meus pés, o Benfica seria imbatível. A confiança durou até a bola ter passado pelo desastre do Jardel. Quando, minutos mais tarde, o Artur foi expulso, pensei "caramba... o que é que estas sapatilhas querem de mim, afinal? Na estreia, a perfeição; logo a seguir, o cataclismo. Não compreendo". Ao intervalo, mandei mensagens a amigos meus "vou dar as sapatilhas ao Jardel... a mim dão-me azar e ele pior também não fica".

E fui vendo, enquanto aguardava uma aparentemente inevitável goleada do Zenit, o Sálvio e o Maxi a correrem por quatro, o Enzo a esfolar-se, a arratar-se e a arregaçar os calções para tentar uma vez mais, o Gaitan e Eliseu a fazerem piscinas, para trás e para a frente, como se tudo ainda fosse possível, o Luisão e o Samaris a desdobrarem-se entre o centro defensivo, o transporte de jogo, a organização do ataque e até a finalização. Dei por mim à espera de ser goleado e a ter esperança na reviravolta, ao mesmo tempo.

No fim, quando já não havia forças para mais e tudo estava definitivamente perdido, o Zenit começou a trocar tranquilamente a bola. Os nossos, de rastos, pareciam ter baixado os braços. Foi então que o topo Sul deu o mote e o Estádio se levantou para um aplauso infinito, uma declaração de amor incondicional. E os rapazes, lá em baixo, ergueram a cabeça e tentaram uma vez mais num último fôlego inglório.

Tive vontade de chorar. Não sei o que sentiram os outros trinta mil, mas eu senti uma profunda gratidão por todos aqueles que Nos defenderam ali, naquele relvado. E por todos os que não os deixaram cair. Pelo Benfica e por ser Benfiquista.

É curioso que o futebol esteja tão presente nas minhas mais marcantes experiências de humildade. Certa vez, na escola primária, a minha equipa perdeu um jogo, discutimos todos. Acabámos chateados. Quando regressei à sala, senti uma tristeza tão grande que hoje parece impossível tê-la sentido. Mas não foi a derrota que me magoou. Foi a solidão. Naquele dia, naquele momento, senti que perdera todos os meus amigos. Fiquei sozinho.

De outra vez, no recreio do ATL, alguém me rasteirou maldosamente. Na altura fiquei irado. Mas, momentos mais tarde, aconteceu-me um fenómeno estranho: senti uma felicidade gigante, como se tudo naquele preciso instante fosse perfeito. E, nesse inusitado rasgo de harmonia, senti que tinha perdoado o sacana que acabara de me atirar ao chão.

Ontem foi a vez de tomar o peso à gratidão. É esmagador. E sinto-me igualmente grato aos meus amigos pelas Sanjo. Por me permitirem compreender o valor inestimável de um par de sapatilhas de aprender.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Corrector geográfico

Nada como um empatezão - um empatezorro! - na Luz para ressuscitar o segundo clube preferido dos sportinguistas: "o Carnide". "O Carnide" invadiu, desde ontem [anteontem] à noite, tudo o que é forum dessa internet, dos comentários d'A Bola aos blogues, passando por grupos do facebook.

Dou de barato a deselegância, afinal é de bola que se trata e não vale a pena andar aqui com mariquices. Mas, como sou sensível à vertente pedagógica e ao rigor, para além de não gostar de ver-vos fazer figura de urso, repito o que digo há anos: Carnide é uma simpática freguesia de Lisboa, já nas franjas da cidade, que acaba, a Sul, na segunda circular. Olhando para o mapa e associando-o à expressão, "o Carnide" tanto pode referir-se ao Benfica como ao Sporting ou ao Fofó.

Se querem mesmo amesquinhar com o nome do Clube que vos dá a sombra, chamem-lhe "o São Domingos" (é em São Domingos de Benfica que fica a Catedral onde ontem [anteontem] vos foi concedido o milagre). Se preferirem, usem diminutivo, "o sãodominguinhos", por exemplo. Qualquer coisa. Mas deixem de ser ignorantes.

Não têm de quê.

NOTA: esta é uma republicação de um texto originalmente escrito no facebook. Trata-se, como o leitor já terá concluído, de um fruto da preguiça de escrever coisas novas e, porque não, da falta de assunto, que eu não sei quem é o Cristante.

16 de Abril sempre!

Se escrever crónicas fosse como andar de bicicleta, é certinho que eu ainda saberia como começar este texto. Sim, estou a assumir que já soube escrever crónicas - contestem à vossa vontade, é só uma opinião. Estou a presumir que ainda alguém lê o que escrevo - e contrariem-me se não me estiverem a ler.

Muito Benfiquismo se passou desde a última vez que aqui vim dizer qualquer coisa. A verdade é que não senti que tivesse o que quer que fosse de pertinente ou especial para partilhar com o mundo num formato que ultrapassasse as três ou quatro linhas que uma laracha de facebook demora. Depois, quando me apeteceu escrever, desatámos a ser campeões e a ganhar taças e a perder uefas mas só nos penalties. Quando se ganha, não há criatividade que resista: está tudo dito, ali, no campo, no placard, no troféu que o capitão ergue no ar, nos confétis, no Marquês de Pombal, na barbearia do Carlos aqui por baixo de minha casa, no mundo, no meu rosto, nos meus sonhos, no meu espelho ao acordar: "bom dia, seu campeão lindo...". Acrescentar-lhe o quê? Que lá estive para os aplaudir? Mal de mim se não estivesse - e nem faria lá falta.

Mais tarde, meteu-se o campeonato do Mundo, que é uma prova que está à vista de toda a gente, a toda a hora, em toda a parte. Se a senhora da padaria consegue comentar com a vizinha da frente um Alemanha - Portugal, para quê dar-me ao trabalho de acrescentar o que quer que seja? Se eu acho que o Pepe foi bem expulso? Eu acho que o Pepe é um bocadinho malcriadão, portanto comigo estará sempre fodido.

Entretanto, meteram-se as férias, deu-se a debandada da Luz, eu andei a trabalhar, houve calor mas pouco, fui à praia, tratei da cadela, passeei um bocadinho, aturei turistas, tuk-tuks e clics de iphones a fotografar em toda a parte, à minha porta, de frente para mim, nas minhas costas, enquanto me distraía, enquanto apanhava os cocós desta cabra que me está a roer os chinelos outra vez - puta que a pariu -, enquanto enrolava cigarros, enquanto bebia uma cerveja a olhar para as paredes do bairro, para os estrangeiros do bairro, para as francesas a falar inglês com o condutor do tuk-tuk que é italiano e que lhes está a contar a história de Lisboa e que é tudo quase cemporcento mentira. Nessa altura, abdiquei das aliterações e não me meti em metáforas. Foi um descanso santo. O mais intelectual que fiz foi ler qualquer coisa do Paul Auster - e foram três ou quatro semanas para pouco mais de 300 páginas. Paul Auster, vejam bem.

Quando me senti finalmente revigorado e pronto para falar do Benfica, do que é o Benfica ou, no mínimo, dos meus dramas de Benfiquista, veio o Valência e comprou quase tudo e eu estive quase para assinar por eles também, já estava afeiçoado a boa parte daquela equipa que eles têm agora. Disse-me um amigo «é uma espécie de Benfica a preto e branco» e quase me vieram as lágrimas aos olhos ao recordar-me da nossa Equipa quando ainda ganhava finais europeias. Mas recompus-me.

Senti tristeza quando dei por mim, campeão, a sentir-me descampionizado ainda a bola não tinha começado a rolar. Depois o Enzo ou ia ou ficava, mas quase de certeza que ia e se fosse descíamos à segunda divisão e o Clube mais valia fechar as portas. Dei comigo a querer escrever mas sem saber o que pensar. Por mim, não fecham as portas nunca, nem que o Enzo vá para o Sporting e a gente desça aos distritais. Mas o Enzo foi ficando, a defesa que era uma miséria não sofria golos, o Artur defendeu penalties, ganhámos uma supertaça e a seguir vinha o Sporting. Evidentemente, não escrevi, estava tudo a correr tão bem que eu não queria enguiçar esta merda.

Durante a pausa, perdi qualidades na contenção do vernáculo. Naturalmente, é falta de treino. No fim de contas, nem o Benfica ganhou ao Sporting, nem o Artur defendeu penalties do Nani, nem o Enzo foi para o Valência - e ainda bem que renovei o Redpass, assim sendo, em vez de ir atrás do Rodrigo e do outro miúdo.

Tem graça pensar no rapaz agora. É que foi ele, o André Gomes, quem fez surgir o título deste texto, iam decorridos uns oitenta minutos, mais ou menos, de um Benfica - Porto para a Taça de Portugal, jogávamos nós com dez, mais coisa, menos coisa. Estávamos, dias depois e na véspera dos 40 anos da Revolução, numa jantarada de amigos, imbuídos do espírito revolucionário e concluímos que o André Gomes foi o nosso pequeno Salgueiro Maia, símbolo maior da insurreição contra o poder instituído, ícone de um povo farto de ser submisso, transposição física para o relvado da vontade democrática de uma multidão oprimida.

Foi a 16 de Abril que virámos uma eliminatória contra o rival-novo, foi nesse dia que, em desvantagem, com tudo contra nós e como há muito tempo não se via, mostrámos a força, a garra e o talento para fazer melhor do que eles. «É desta que o regime cai», comentámos, brindando com uma bebida qualquer de elevado teor alcoólico enquanto um senhor declamava, sem jeito nenhum, o FMI do Zé Mário Branco - uma coisa medonha, não se deve ofender assim a poesia. «16 de Abril sempre!», gritámos, cheios de sonhos e de ingenuidade. E então prometi: «será esse o título do meu próximo texto». Aqui estou eu, a cumprir a promessa.