segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Toques de cabeça

Ele passou por mim na entrada da casa-de-banho, eu estava a enxugar as mãos e ele estava com aquela cara de merda, de alguém que forçava um sorriso e buscava simpatia entre o ácido borbulhante do azedume, e disse-me "eu sei que você é benfiquista. Vou-lhe dizer que nunca vos tinha visto festejar tanto. Parecia que aquele golo vos tinha dado a taça dos campeões" e eu encolhi os ombros, nem sorri, nem respondi, guardei para mim um pensamento cristalino "se aquele golo me tivesse dado a taça dos campeões, tinha-te arrancado a cabeça e a esta hora estava lá fora a dar toques com ela, a celebrar, cão". Não gosto dele. É um sarnento. Anda por ali, sussurra de um lado, provoca do outro. Semeia o veneno e finge ser simpático. Eu finjo que o ignoro, é mais fácil. Mas não ignoro. É um velhaco. O Benfica possível fez das baixas vitamina e foi ao Dragão manter o Porto à mesma distância que estava antes de começar o jogo. Um golo poético - como é que um golo pode ser, em simultâneo, tão injusto e tão justo? - no minuto do destino permitiu que tudo acontecesse assim. Por esse motivo fiquei feliz. O que me fez saltar e gritar foi saber que aquele pedaço de nojo que é como um fantasma negativo iria passar o resto da noite a engolir o próprio fel e a morder a própria língua.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O vestido de noiva

Ela comentou comigo, estava eu ainda à mesa na sala de jantar porque gosto de terminar o meu copo de vinho enquanto executo mais um lance desastroso de xadrez no chess.com e fumo um cigarro, ela estava estendida de lado no sofá, que é na sala contígua, o que faz com que tenhamos de falar bastante mais alto do que falaríamos se estivéssemos como pertence, frente-a-frente ou lado a lado, especialmente quando a televisão está ligada, o que sucede quase sempre, e tudo porque tentamos evitar o recurso ao whatsapp quando nos encontramos na mesma casa, a menos de oito metros de distância, "já viste que o Benfica lançou uma linha de vestidos de noiva?".

Não respondi. Para todos os efeitos, podia perfeitamente nem ter ouvido. "Mas isto existe mesmo? LOL", perguntou ela dirigindo-se a ninguém em particular com aquele riso expresso em letras com que as pessoas se riem agora quando pretendem ser sarcásticas e azedas e más para o Benfica. "Babe, o Benfica pensa em tudo", retorqui. "Até nas nossas mulheres", acrescentei. E espreitei como um gato que estende a cabeça lenta e furtivamente detrás da porta entreaberta. Ela espreitava de volta com um sorriso muito sarcástico naquele rosto sportinguista e magnífico. Apeteceu-me pedi-la em casamento só por causa daquele ar deliciosamente malicioso e para ela aprender que com o Benfica não se brinca, mesmo quando o assunto são os vestidos de noiva.

"Tudo muito bonito" disse ela, virando-se de novo para a TV, citando-me das vezes em que cito um senhor de uma loja chinesa que dizia sempre que "neste estabelecimento, tudo muito bonito. Muuuito bonito". E eu voltei ao meu xadrez mas sem conseguir tirar da ideia a imagem dela vestida com aquele vestido de noiva vermelho, justo e do Benfica, já convertida ao Benfiquismo.

Acendi mais um cigarro e observei de novo o tabuleiro onde as brancas eram cada vez menos e as pretas estavam cada vez mais perto e pensei em como seria um absurdo convertê-la e, assim, amputá-la de uma das suas mais fascinantes e misteriosas facetas: a de mulher sportingusita que ama um benfiquista como eu. Não sei se algum dia casaremos. Mas não há vestido de casamento tão valioso quanto isto.

domingo, 2 de outubro de 2016

Por falar em ódio de estimação

Carrillo merece todos os nossos lamentos. Não sei se isto é unânime mas espero que seja. Há um senhor atrás de mim no sector 6 que o ofende sempre que ele toca na bola, o que é não só condenável no que respeita à conduta imprópria e ao linguajar corriqueiro num sítio nobre como é aquele recanto do estádio, como, feitas as contas, é manifestamente desproporcionado, por defeito, se tivermos em conta a quantidade de desaforos e impropérios com que o peruano merece ser brindado - isto é, caso não fôssemos estóicos nesta convicção de que os jogadores do Benfica não são para ofender. Dou de barato que Carrillo é jogador e do Benfica, atenção.

Vem esta introdução a propósito de alguns comentários críticos e legítimos de que fui alvo quando falei sobre Pizzi. É que houve alguma distorção do que foi escrito por quem escreveu esses comentários. O meu fel para Pizzi não é de ódio, é de amor. É um jogador que terá sempre de provar, a cada jogo, que a versão que leva para o campo é a do Pizzi Bom e não a do Pizzi que dá a bola ao avançado do Vitória de Setúbal mesmo à entrada dos descontos, mesmo à saída do meio campo e que nos podia ter custado um campeonato. Que fique claro que o Pizzi não é o meu ódio de estimação. O Pizzi é o meu amor pobre e torto. Mas, ainda assim, no meu coração, está no sector do amor, não do ódio.

Como afirmei no texto anterior, outros houve que carregaram esse alvo nas costas, no peito e sobretudo nos pés. E fizeram-no sempre sob o meu aplauso contrariado ou o meu nariz torcido e lábio franzido, como quem diz "este gajo, pá". Mas o ódio é outra coisa e não tenho pelos que mo despertam ou despertaram a menor estima.

Podemos começar por Carrillo precisamente, um pequeno mercenário fraco de personalidade. Sempre tive preconceito em relação a gente que cospe no prato de onde comeu. Relembro sempre Carlos Martins, essa fraude outrora careca e sempre de curta duração, que será a epítome definidora do conceito. Aplaudi um golo seu, um único. E só porque foi contra o Porto, instituição que surgia, à época, abaixo do próprio Martins na minha escala da estima. Se fosse hoje, agradecia o golo e nem me dava ao trabalho de o festejar.

De volta a Carrillo. Fico surpreendido de cada vez que o veja equipado à Benfica. Depois da surpresa, sinto algum transtorno. Não é uma sensação que se possa agrupar nas frustrações ou das desilusões. É antes uma constatação que me desagrada imensamente: temo-lo connosco, entre nós, na nossa relva e com as nossas roupas. É disso que não gosto. O Carrilo é uma reedição de Fernando Mendes com menos estupefacientes. O Carrillo não merece sequer o meu protesto. Sinto somente um espanto desagradável, negativo, quase embaraçoso, de cada vez que o vejo com aquela camisola vestida.

sábado, 1 de outubro de 2016

We should talk about Pizzi

ou de como Nem Sempre O Amor É Amável.

Vejo muita gente empolgada com Pizzi, até li recentemente apologias do médio. E acho que alguém anda a ver um génio onde eu só vejo um tipo com dupla personalidade e uma lamentável capacidade de passe curto. Onde alguns vislumbram um talento incompreendido, eu pressinto um cidadão com algumas dificuldades para compreender a complexa simplicidade da linha recta, da tabelinha ou da função básica de soltar a bola depois de um ou dois toques. Onde muitos, ao que parece, adivinham um brilhante pensador de jogo, eu aposto que existe um homem de espírito contemplativo que prefere pensar na vida quando é hora de ajudar a defesa.

É possível que Pizzi seja o meu alvo de estimação. A paixão futebolística e o amor clubista nunca foram essências da composição do raciocínio razoável. Já tive outros no lugar que Pizzi ocupa hoje, não no campo mas no meu coração. O último foi Lima. E eu sei que nem sempre sou brilhante de opinião. Creio que não exagero se afirmar que é globalmente aceite a noção de que sou um dos piores profetas do futebol de todos os tempos. Há um ano e 45 dias, por exemplo, previ sem hesitação o inevitável descalabro do Benfica, uma descida aos infernos que terminou no Marquês 9 ou 10 meses mais tarde. Contudo, o facto de prever muito mal não me inibe de formar opiniões.

E às vezes tenho razão. E, mesmo quando me respondem com números, é possível que eu consiga responder com factos. Lima tinha chegado ao Benfica com quase 30 anos e custou 5 milhões de euros pagos a um clube que nos recebia com bolas de golfe. Começámos logo mal. Depois, não festejava golos quando marcava ao Braga, o que é inaceitável - não engulo essa treta do "respeito ao clube por onde passou"; então e o respeito ao clube que lhe paga? E aos adeptos desse clube? Logo Lima, que só passou por 18 ou 19 clubes ao longo da carreira.

Relembro ainda que Lima, apesar de todos os golos que marcou - e marcou aquele golo do Gaitán ao Sporting, por exemplo -, falhou uns quantos que não podia ter falhado. Nomeadamente, uns 16 contra o Estoril numa soalheira tarde de Maio de 2013 e outros tantos, cerca de um ano mais tarde, numa noite amena em Turim. Aplaudi-o em todos os golos mas o meu amor por ele pulsava-me com fel no sangue.

Com Pizzi acontece o mesmo. Não consigo gostar sem mácula de alguém que complica tanto e tantas vezes. Tem o meu aplauso e o meu amor enquanto vestir aquela camisola abençoada, mas nunca terá a minha mão prometida ou o meu olhar embevecido. Os meus sentimentos por Pizzi são tortos como os seus passes. E todos os que pensaram que eu ia dizer "os seus olhos" devem penitenciar-se.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Bom jogo de cabeça: Portugal - Islândia

Tenho lido e ouvido por aí coisas que acho disparatadas ou erradas ou, no extremo, ignorantes acerca do Portugal - Islândia. Os equívocos são vários e revelam uma vasta panóplia de deficiências no processamento de um jogo de futebol, primeiro, e na reflexão sobre o mesmo, depois.

O entusiasmo nacional-ronaldista e a certeza de que somos, à imagem de Ronaldo, aliás, os melhores, mais bonitos, mais fortes, mais espertos, mais rápidos e, no fundo, mais melhores de todos só pode ser justificado com a nossa percepção equivocada do futebol. Para começar, há uma noção fundamental que é conveniente adquirirmos: existe um adversário em cada jogo. Sim, é espantoso e, na maior parte das vezes, até desnecessário porque acabamos quase sempre por ganhar. Mas a regra diz que é assim e que tem de estar lá alguém a fazer de adereço para que Ronaldo possa talentosa e fabulosamente contornar todos os pinos humanos, voltar para trás e disparar um míssil a 365 quilómetros por hora a 57 metros da baliza com a bola a ir ao ângulo. Isto, umas sete ou oito vezes por jogo.

O treinadorismo de bancada também não está em grande forma. Dantes, um simples "epá, isto em 4-4-2 não vai lá, tem de ser em 4-3-3" ou o mais pensado "tirava o Nani e metia o Quaresma" bastariam para contestar Fernando Santos, homem praticamente inexperiente nisto do futebol e que, por deficiência sensitiva ou cognitiva, não consegue ver que Quaresma está ali, mesmo ao lado e quando, ao fim de quase 80 minutos, repara no craque, bate com a mão na testa e diz "epá, estavas aí... que porra, pá. Podias estar lá tu em vez do Nani, merda para isto e para as minhas cataratas". Mas desde que Freitas Lobo introduziu as basculações, as transições, a intensidade e a segunda bola neste desporto que, na sua origem milenar, sempre foi disputado por duas facções tentando levar um e um só objecto até à torre de menagem da facção opositora, dizia que eu que Freitas Lobo tinha de vir com esse novo palavreado para complicar o assunto e agora, em qualquer balcão de qualquer café, ouvimos qualquer um dizer, muito senhor de si, que "estamos a circular mal a bola". Assim não vai dar.

A verdade é que a nossa tendência crítica é muito manca devido, sobretudo, aos dois motivos acima mencionados e que, no fundo, são só um: excesso de entusiasmo connosco mesmos. Somos um povo arrogante. Normalmente não falamos no assunto porque não gostamos de ter noção de uma série de coisas, incluindo dos nossos próprios defeitos. Mas somos. E foi mesmo por aí que Portugal deitou fora dois pontos, que não eram nem preciosos nem fundamentais, mas que até seriam justos.

Portugal jogou bem. Não jogou bem o jogo todo, até porque lhe perdeu o controlo e lhe soltou as rédeas a partir de um certo ponto. Mas jogou bastante bem. Depois de uma investida venenosa, a frio, em que a Islândia podia ter marcado, os portugueses assentaram jogo, definiram estratégias e chegaram à baliza adversária muitas vezes e com perigo, ao mesmo tempo que a Islândia não conseguia qualquer iniciativa atacante digna desse nome. Isto durou dos 8 aos 45 minutos e foi avassalador. Criámos cerca de 15 oportunidades de remate, umas 5 ou 6 claramente para golo. Fizemos mais de 500 passes com uma taxa de aproveitamento acima dos 85%, pelo que, enfim, lá se vai a teoria da circulação de bola daquele senhor de bigode e faces rosadas. E ganhámos praticamente todos os lances aéreos antes do intervalo - temos de exceptuar os patéticos cruzamentos para a pequena área, invariavelmente arrumados nas mãos do guarda-redes. Recolhemos ao balneário a merecer ganhar, sem dúvida, mas a ganhar por muito pouco ainda.

Aparentemente, ninguém do lado português ligou nenhuma ao assunto. Ninguém leu o jogo e sublinhou o que tínhamos feito de melhor e eles de pior. É que, se o tivéssemos feito, teríamos sabido o que eles tentariam corrigir. E teríamos estabelecido uma contra-resposta. Mas não, somos Portugal, temos o Ronaldo, estamos a merecer ganhar e eles vão levantar a bandeira branca aos 5 a 0 e pronto, vai tudo para casa. Esquecemo-nos que a Islândia já não é composta por padeiros e malta da faina do mar, eles também têm jogadores profissionais. Não são do Real Madrid, mas são de futebol de alta competição. E, se são de alta competição, é porque alguma competência eles hão-de ter. E se eles tiverem um treinador que, antes deste jogo, já sacou três empates em quatro jogos contra Portugal, então configura-se aqui aquilo que, com azar, pode vir a ser o chamado "bico d'obra".

Regressámos então para a segunda parte com a inabalável confiança lusitana e a soberba, certamente genuína mas, ainda assim, desagradável, de quem tem, não me canso de o repetir, Ronaldo. Ronaldo diz-se Rónáldo em momentos de grande exaltação nacional e fervor patriótico. Acredito que há 600 anos, às portas de cada batalha, o povo também admitisse perante as câmaras que o seu favorito e o melhor do mundo e aquele que iria aviar os espanhóis todos era o Nónálvares. Nónálvares era o craque, era o melhor e o que colecionava hat-tricks de cabeças castelhanas. Temos sempre alguém que é o máiór nestas situações. Voltaram então Rónáldo e os amigos para, enfim, trocar a bola enquanto matavam o tempo até à vitória decretada pelas bancadas, pelos comentadores, pelo próprio Rónáldo, por várias pessoas à porta do estádio e, admito, por mim próprio, quando a Islândia comete a deslealdade de alterar a estratégia e de nos tirar a bola. Como é que eles fizeram isso? Ninguém viu? Foi simples, impediram-nos de jogar pelo chão - aumentaram a pressão a um ponto incrível - e não nos deixaram ficar com as bolas pelo ar. Mas como, se na primeira parte ganhávamos todos os lances aéreos? Danilo, Pepe e Carvalho estavam imperiais e já não estamos no tempo em que o português médio tem um metro e cinquenta e picos ao passo que os vikings chegam com dois metros e catorze, fora o capacete com os cornos. Agora mede tudo o mesmo. Sucede que os islandeses descobriram que, empurrando os portugueses para fora do espaço, ou ganhavam a bola e seguiam a jogar, ou o árbitro dava falta e as perdas de jogo aéreo já não se traduziam em ganhos portugueses com a Islândia desarrumada. Esta estratégia parece inofensiva, à primeira vista. Mas o certo é que ficámos sem bola.

A isto somou-se uma outra deslealdade. O flanco direito islandês, que passara toda a primeira parte a deixar que Raphael Guerreiro fosse fazer companhia a João Mário e Rónáldo, de repente decide fazer um ataque. Assim, do nada, dá-lhes na cabeça e sobem pelo flanco que só não tinha pó porque, na primeira parte, o jogo era ao contrário. E deu golo. Reclamem o que quiserem com Pepe e Vieirinha, mas eu vi muito bem 6 portugueses na área contra 2 islandeses e só um dos islandeses estava marcado. O avançado levou tão bem o Pepe para onde quis que o Vieirinha, deslumbrado, nem deu por aquele loirinho muito bonito a aparecer-lhe nas costas, solitário e tosco, a rematar com a canela que tinha mais à mão e a meter bola fora do alcance do Patrício, coisa que Nani com a sua cabeça tão esperta e milionária não conseguiu fazer por 4 ou 5 vezes, uma delas a dois palmos da linha de golo.

Portugal produziu muito ataque e produziu bem. Falhou na concretização. Acontece. Não devia acontecer, mas acontece. Houve jogadores que jogaram melhor do que outros mas, enquanto equipa, as coisas funcionaram. Não entendo as críticas a André Gomes, a Danilo ou a Moutinho. Mesmo Nani falhou muito mas fez um golo. Rónáldo mexeu-se pouco e, ainda assim, trabalhou. João Mário esteve apagado, mas não o vi falhar passes e contribuiu para a boa circulação de bola. Não fomos nós que perdemos o ponto, foram eles que o conquistaram, com mérito. Os islandeses ganharam este ponto graças ao seu jogo de cabeça - da parte de dentro da cabeça.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Em penitência

Eu achei mesmo que tudo ia correr mal. Eu achei mesmo que o Rui Vitória não era treinador para o Benfica, achei mesmo que aquele futebol medonho dos primeiros meses - atenção, não foram semanas, foram meses - nunca iria melhorar, eu acreditei mesmo que as derrotas contra os rivais Sporting e Porto nos condenavam a um remoto terceiro ou quarto lugar a mais de uma dezena de pontos do campeão. Felizmente, existe uma coisa que se chama realidade e essa realidade tratou de me dar uma lição de humildade demonstrando duas coisas muitíssimo simples: a minha opinião não vale nada e sou péssimo a prever o futuro em assuntos futebolísticos.

Esta pessoa que, ontem, no estádio, se ajoelhou e aplaudiu de cabeça baixa, em penitência, a passagem de Rui Vitória pela passadeira dos campeões, sou mesmo eu

Este texto em que me retracto podia ter sido escrito há duas ou cinco ou oito jornadas, pouco importa. A partir de um determinado ponto, ficou claro que, afinal de contas, o burro sou eu e tanto Vieira como Vitória sabem o que fazem. Não precisava sequer que o Benfica se sagrasse campeão para assumir toda a minha azelhice. Se não o escrevi antes foi porque o Benfica ia em primeiro comigo calado e, nestas coisas, em equipa que ganha não se mexe. Jimmy Floyd Hasselbaink diria que a superstição é a primeira das fraquezas e eu concordo, sim senhor. Mas longe de mim ser responsável pela derrota do Benfica por causa de não saber estar calado.

Agora, em relação aos que clamam "ah, hoje festejas mas há uns tempos criticavas", tenho aqui em baixo duas fotos para vos mostrar.

É que ter opinião, por mais idiota que ela venha a revelar-se - como se revelou -, é um direito de que não abdico. Da mesma maneira que não abdico de ir ver o meu clube, sempre que posso, do lugar que decidi comprar no dia 26 de Maio de 2013, quando adeptos do Vitória me esfregavam cachecóis brancos na cara e me chamavam cabeçudo-mouro-filho-da-puta (não é fácil ver jogos no meio da claque do VSC) naquele que terá sido, ao mesmo tempo, o momento mais difícil de todo o meu benfiquismo e o momento em que o meu benfiquismo se revelou com mais força, determinação e paixão. Desde esse dia e até hoje, o K4 do sector 6 é meu. Com Rui Vitória, com JJ ou com quem lá estiver, porque o meu clube é muito maior do que eles todos juntos. Mesmo que eles nasçam 10 vezes. Se não treina o Jorge, treina o Manel. Isso não interessa para nada.

Viva o Benfica, tricampeão de Portugal e, acima de tudo, o clube mais bonito do mundo!

quinta-feira, 10 de março de 2016

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

107658

Não aguentei mais e fui buscar um cartão de sócio. O meu plano era simples: ia almoçar com o Jonu e comprava bilhetes para terça-feira, para mim e para o Eduardo. Mas o Jonu foi fazer uma segunda via do cartão dele e eu pensei "ah, que se foda, faço um também", paguei os tais cinco euros e, um minuto depois, tinha o cartão novo na mão. Ainda me perguntaram se eu queria fotografia, eu perguntei "sei lá. O que é que é preciso fazer?" e o empregado "nada, podemos usar a velha" e eu "então faz isso". Um minuto e cinco euros, foi o quanto me custou fazer uma cartão de sócio novo. O velhinho 227218 foi desactivado. O novo nome do blogue fica como homenagem à origem, à raiz, à semente do sócio Benfiquista que há em mim. E, ao mesmo tempo, ao plano para o caos estratégico com que sonho quando concebo um mundo em que o futebol é perfeito: bola p'rá frente, mini na mão direita e a mão esquerda a gesticular com a equipa de arbitragem. O segredo é não complicar.

domingo, 22 de novembro de 2015

I hate to say I told you so

Podem continuar a alimentar o Joly como se ele fosse um ganso para foie gras: não vai crescer. Esqueçam. E qual é o problema? O problema é que já no fim de Julho dava para perceber que Rui Vitória era um enormíssimo erro de casting. Rui Vitória não precisa de tempo; Rui Vitória precisa de uma nova profissão. Em Julho o carro parou na linha de comboio e a maior parte, vendo o comboio a aproximar-se a alta velocidade, em vez de fugir dali, em vez de mudar de planos, em vez de emendar o erro, dizia eu que a maior parte exclamou "esperem, vamos ver no que isto dá". Agora que o comboio vai passando lentamente sobre todos nós, gostava de vos deixar uma pergunta: valeu a pena?

sábado, 31 de outubro de 2015

Constatação simples

Há um bando de tipos talentosos e pontualmente inspirados que nos engana. O Benfica não ganha jogos, o Benfica limita-se a confirmar desfechos inevitáveis. O mais doloroso no meio de tudo isto é que não senti pena dos adeptos do Tondela - merecedores de todo o orgulho que possam ter sentido por terem defrontado o Benfica num jogo da primeira liga; senti antes pena de todos os benfiquistas que possam ter sentido alegria nesta vitória robustinha num jogo absolutamente miserável contra uma equipa cuja existência se desenrola numa realidade paralela, num universo muito abaixo do nosso padrão de exigência e de competência.

Não estou a perseguir Rui Vitória. Dispensam-se perseguições pessoais. A única coisa que persigo é a necessidade de excelência - porque é do Benfica que se trata; porque me habituei a tê-la com regularidade. Aquilo que vejo varia entre o medíocre inspirado e sem oposição e a esperança numa inspiração que é rapidamente aniquilada pela competência científica de quem sabe compreender, programar e concretizar o jogo de futebol. No meio existirão nuances - derrotas curtas, derrotas embaraçosas, empates patéticos e vitórias quase sempre gordas contra adversários necessariamente débeis.

É com tristeza que o escrevo: este Benfica não dá para mais. E pensar no episódio de Madrid como exemplo é acreditar que a excepção sortuda algum dia fará jurisprudência e, assim, se tornará regra. Desenganem-se. O jogo de hoje foi embaraçoso de tão mal jogado. Não estou a ser pessimista nem do contra, estou apenas a experimentar a sensação de ver a bola enquanto vejo o Benfica jogar. E não é bonito.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Incidente de trabalho

Ele há coincidências. Soube do sorteio da Taça de Portugal quando estava a escrever o texto que se segue para um próximo trabalho:

"O primeiro derby lisboeta foi disputado a 1 de Dezembro de 1907. O Sporting venceu por 2 – 1, nem eles sabem como. Este derby selou definitivamente uma rivalidade que nascera meses antes, quando os riquinhos manhosos do Sporting haviam aliciado vários jogadores do Benfica – oito desses peseteros miseráveis de merda mudaram-se mesmo para o Sporting.

-Desde 1907, realizaram-se 295 jogos oficiais entre os dois clubes. O Benfica ganhou a maior parte deles, o Sporting ganhou alguns mas com sorte e com aquelas ajudas e ainda houve 61 empates, porque de vez em quando as equipas empatam, mesmo quando são de categorias muito distintas. O Benfica marcou 505 golaços e o Sporting teve sorte pouco mais de 400 vezes.

-Para o campeonato nacional, disputaram-se 161 jogos. O Benfica ganhou quase todos, o Sporting nem chegou aos 50 e houve 41 empates.

[ESTES NÚMEROS TÊM DE SER ACTUALIZADOS DOMINGO CERCA DAS 19.00]"

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Em busca do Zen

A minha samana de derby começou muito mal. Fiquei sem meias, por causa da chuva. Choveu tanto que nem deu para lavar e estender roupa. Então só me sobraram daquelas peúgas anãs que não chegam nem ao tornozelo. Os soquetes, como se diz no Brasil. E estes já são velhotes, o elástico perdeu a força. Então vim trabalhar com metade dos soquetes debaixo dos calcanhares, tudo enrolado dentro das sapatilhas. A primeira coisa que fiz quando cheguei ao trabalho foi descalçar-me e puxar as mini-peúgas para cima.

Eu levo estas coisas a sério. Para a maioria, pode parecer ridículo ou sem importância. Mas eu acho pouco digno. Começar um derby desconfortável dos pés não é o melhor dos presságios. Naturalmente, estou agitado. Não vai ser fácil dormir com tranquilidade até domingo. Parece que há jogo da Champions a meio da semana. O ideal seria enviar a equipa B para a Turquia e poupar os titulares para domingo.

Há uma semana acordei - isto é tão verdade que quase sinto vergonha - com um grito. Um grito meu. Acordei a berrar "caralho pró Sporing!" e fiquei assustado com o sobressalto, com o próprio grito e com o conteúdo do grito. E depois lembrei-me do sonho: o Benfica perdia um a zero, outra vez, e aparecia uma retrospectiva na televisão "desde que Jorge Jesus chegou ao Sporting, o clube de Alvalade bateu sempre o seu rival por um a zero".

Estou inquieto. Apreensivo estava na sexta-feira, antes de o Jardel marcar aquele golo à campeão. Agora estou muito pior. E pior ainda é que acho que estas premonições estão todas erradas e vamos ganhar à antiga. Isso dá-me esperança. E ter esperança é uma enormíssima merda. O melhor antes de um grande jogo é não querer nada e não pensar em nada, é transformarmo-nos num receptáculo cósmico onde tudo cabe e tudo se digere.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Do maravilhoso imprevisível

Se há coisa que um dia posso vir a agradecer a Rui Vitória é a devolução do futebolismo ao futebol do Benfica. Não, ainda não estou na fase de dar palmadinhas nas costas do nosso treinador. Quando chegar o dia - se esse dia chegar - de engolir os sapos por tudo o que penso, disse e escrevi sobre Vitória, sugiro que troquem os tais sapos por pernas de rã (e então abro uma garrafa de champgne sério e caro e atiro-me ao castigo com a gula do perdedor que, no fim das contas, saiu claramente a ganhar).

Mas não chegámos tão longe, o nosso caminho ainda é curto. Estou a falar de futebolismo. Ontem, respondendo a várias solicitações do tipo "então e logo?", reagi com a ingenuidade legítima de quem não faz ideia do que pensar sobre "logo". E é a recuperação desse lado místico e indecifrável que eu poderei um dia agradecer a Rui Vitória.

O passado recente habituou-me a sistemas lógicos em que o Benfica ganhava uma enormíssima percentagem dos jogos que tinha que ganhar e em que nunca conseguia contrariar as probabilidades e desfazer as derrotas que se adivinhavam no horizonte. O futuro era simples, as previsões eram fáceis: se era de ganhar, ganhávamos quase sempre; se era de perder, perdíamos sem oscilações ou sobressaltos. O Benfica era científico, metódico e rigoroso, concretizava expectativas sem espaço para devaneios, variações ou exuberâncias. E agora tudo mudou.

Bem sei que escrever a posteriori soa sempre a prognóstico de João Pinto. Mas acreditem que não é o caso. Tive esta conversa várias vezes ao longo do dia de ontem. Não sei muito bem onde está o segredo esotérico de tudo isto (porém, alguma coisa há-de estar bem feita, concedo). Mas eu ontem acreditava que era possível - embora altamente improvável - ganhar ao Atlético de Madrid. Porquê? Sei lá. Porque às vezes acontecem coisas.

Não estou com cabeça para explicar muito melhor o que quero dizer. Passei uma manhã nas finanças a tentar perceber como funciona isso do IVA e, antes disso, fiquei uma hora à espera do metro na Linha Azul - até que desisti e pedi o livro de reclamações, enfim, passei uma manhã entre a indignação, a incompreensão e a sensação de estar a ser profundamente injustiçado pelo mundo. Felizmente, levava comigo A Bola e, a cada contrariedade, respondia com uma espreitadela à capa, com Jonas e Gaitán à solta, em festejos.

No fundo, encanta-me esta dimensão em que o Benfica não cria expectativas mas permite ter esperanças legítimas. Não saber o que esperar é muito melhor do que ter exactamente aquilo que se espera, a toda a hora. Percebo agora que tinha, por pudor e excesso de realismo, censurado os meus desejos Benfiquistas. Andava aqui só a ser espectador. Tinha as minhas superstições, claro, calçava as sapatilhas certas, enfiava as meias certas, levava o casaco certo, bebia a cerveja certa - tudo para que nada falhasse. Mas sabia que era a ciência quem mandava, permitia e explicava tudo o que acabava por acontecer. Hoje sinto-me mais livre. Permito-me certos optimismos e tudo. Porque não? A ideia é desfrutar. Às vezes, isto é tudo tão bonito.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Um assunto melhor que os outros

Tenho pensado muito no assunto. Começas a sentir-te mais velho e apetece-te fechar o punho e pousar sobre ele o queixo pesado, ficar assim longamente pensativo. A gente chega a uma altura em que tem de parar e perguntar "mas afinal o que é que aconteceu aqui?". O que é que aconteceu comigo, claro. Presumimos que a vida falhou, sabemos que qualquer coisa não correu bem, nem tudo é como esperávamos. Mas precisamos de saber como, queremos saber porquê.

Eu era medíocre, sempre fui e nem o meu complexo de messias impediu que, nas horas lúcidas, eu soubesse que não dava mais do que aquilo. Disfarçava esse estado com arrancadas diabólicas, picos de velocidade admiráveis e um ou outro golo apontados, na maioria das vezes, em estados que hoje me parecem uma espécie de transe - não guardo nenhuma memória clara de um golo que tenha marcado em jogos a sério; tudo o que me ficou são reconstituições coladas com o cuspe dos comentários alheios - do meu pai, do meu avô, do treinador, dos companheiros de equipa - e um ou outro flash muito tremido e desfocado do momento em que inusitadamente fiz com que a bola entrasse na baliza adversária. Os golos que marquei - felizmente não foram muitos - são o mais próximo que experimentei da levitação extracorporal: são fragmentos de um limbo entre o real e a fantasia que aconteceram, sem qualquer explicação, mais ou menos comigo ou com uma entidade fantástica da qual eu, naquele momento, participava.

Porém, a mediocridade, quando bem disfarçada, pode levar longe uma pessoa determinada e perseverante. Eu era convicto e cheio de sonhos. E acreditava profundamente que esses sonhos haveriam de realizar-se embora não encontrasse uma explicação lógica e razoável para conseguir demonstrar a mim próprio que sim, que era possível e que havia de acontecer num momento específico devido a qualquer coisa. Agora que reflicto sem pressas, penso que essa qualquer coisa talvez fosse um fenómeno aparentado a milagre que me permitisse, de um dia para o outro, passar a ser talentoso num campo de futebol. Esse fenómeno nunca aconteceu ou, então, esse dia ainda está para vir. Em todo o caso, temo que já seja demasiado tarde para eu ser abençoado com genialidade - e prefiro mesmo continuar tosco até ao fim dos dias, recuso peremptoriamente a possibilidade de um dia ser o Maradona da ala geriátrica.

Acho que o que me falhou foi a inadequação das expectativas. O pragmatismo que me falta em praticamente tudo na vida sobrava-me na maneira como encarava a minha futura carreira de futebolista: ia jogar no Torreense, para começar, e a seguir ia ser o número 7 do Benfica. O plano era bastante simples. Aliás, tão simples que nem sei como é possível ter falhado.

Dava comigo a imaginar o Estádio da Luz cheio - às vezes era domingo à tarde e jogávamos com o Espinho ou com o Chaves, outras vezes era quarta-feira à noite e recebíamos equipas como o Steaua de Bucareste ou o Malines -, a relva cortada curta e aparada em desenhos vistosos para quem estivesse a ver do Terceiro Anel, as redes penduradas, não muito esticadas, à espera daquele barulhinho fofo e demorado de quando a bola desliza a roçar-se nelas, o som macio dos chutos dados por adidas world cup em bolas da select. Mas a relva, a relva curta e bem tratada era o elemento fundamental. A relva muda tudo. Num pelado, o melhor que uma pessoa conseguia era dar pontapés à bola. Na relva era diferente. A bola tornava-se dócil e muito mais arredondada. Os meus pés, definitivamente ergonómicos, perfeitamente adequados à curva infinita daquele objecto fundamental, lidavam com o assunto como se eu calçasse pantufas. A relva suaviza o som de todas as coisas - a correria, as passadas fortes, os saltos, as quedas, os passes, as recepções. O jogo passa a ser sereno. Na relva não há lugar para coisas como o desespero porque desesperar num relvado seria uma enormíssima falta de respeito pelo chão que se pisa.

Joguei na relva do Campo Manuel Marques - o melhor relvado que alguma vez tive a sorte de pisar - numa única ocasião. Entrei na segunda parte e marquei um golo de pé esquerdo num pontapé de moinho à entrada da área. Foi este jogador - um prodígio de talento, um caprichoso esteta - que o futebol perdeu quando decidiu insistir que eu andasse por aí, de pelado em pelado, a tentar perceber os ressaltos de bolas mikasa em São João da Talha, na Póvoa de Santa Iria, em Alhandra, na Lourinhã, nos Olivais Sul ou em Alcabideche. Eu só precisava de mais relva e de outro glamour. Levantar-me cedo aos domingos para me ir equipar em cabines que eram pouco mais que barracas em terras mal semeadas entre os subúrbios de Lisboa e a província da Estremadura não era o meu sonho. O meu sonho nunca foi simplesmente jogar futebol; o que eu queria era jogar futebol em relvados bonitos. E foi isso que falhou.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Comprovativo de reclamação porque ando um bocado farto disto

Caros senhores,

estou muito desapontado com o serviço prestado pelo Benfica aos seus sócios. Começo por sublinhar que preferia falar-vos usando outros termos, recorrendo a outra terminologia, não falar em "serviços prestados" - preferia falar em "família Benfiquista" ou no "meu Clube", por aí fora. Infelizmente, o Benfica tem vindo cada vez mais a tratar os seus sócios e adeptos como clientes e não como membros de uma gigantesca família. Não foi assim que nasci e cresci no Benfica, mas é a realidade que me apresentam. Contrariado, adapto-me: sou vosso cliente, negócio fechado.

Agora, enquanto vosso cliente, tenho algumas exigências a fazer. Por exemplo, exijo-vos que não sejam ridículos, que não me enviem mensagens de "feliz aniversário" com um mês de antecedência - são detalhes, eu sei, mas é o meu aniversário e não gosto. Faço anos todos os anos contra a minha vontade. Agradeço que, no mínimo, respeitem a data em que se arredonda o castigo que o tempo me inflige.

Tudo isto é um disparate porque é, como disse, ridículo. E também não gosto que me ofereçam como prenda de anos uma entrada gratuita no Museu Cosme Damião, à qual eu já tenho direito por ser sócio com as quotas em dia e ter redpass. Isso não é uma prenda. Isso é uma imbecilidade - eu entro no Museu quantas vezes quiser, não preciso de fazer anos e não preciso que me convidem e não preciso de pagar entrada.

Mas há coisas que me ofendem mais ainda. Ofende-me que me enviem um e-mail com as condições de aquisição do "pack Liga dos Campeões" e, na véspera de terminar o prazo, mudem as condições: de repente, deixei de poder pagar até dia 8 e tinha de pagar até dia 7. Isto o que é? Uma forma de pressão? Vamos esclarecer uma coisa: se o Benfica me vende tão orgulhosamente "produtos" e me presta tão empresarialmente "serviços", o assunto muda de figura. As condições do nosso negócio não se alteram só porque vos apetece. O Benfica não é o clube lá da aldeia em que o presidente de repente muda de ideias e, afinal, as rifas da quermesse para sortear a bola da Mikasa já não são a 50 cêntimos, passa a oitenta - e o sorteio não se faz ao intervalo, passa tudo para o fim do jogo, pode ser que se vendam mais algumas. Não podemos ser amigos e compreensivos e adeptos fervorosos para umas coisas e clientes tratados a frio, pagadores correntes e gente que financia um negócio para outras coisas. Tem de haver coerência. Tem de haver cuidado. E tem de haver respeito, quer eu seja vosso cliente ou vosso sócio.

Espero que compreendam uma coisa: eu nem tenho o hábito de reclamar, mesmo depois de alguns anos a pagar lugar cativo sem receber nada em troca e a ver o Benfica oferecer ao adepto de ocasião todas as formas de boas-vindas, bilhetes gratuitos, foguetes e medalhas. Eu vou ao Estádio com o maior dos gostos e não preciso que me seduzam para fazê-lo. É lá que gosto de estar. Mas quando recebo a inenarrável mensagem a cobrar-me por uma nova emissão do cartão de sócio, naturalmente fico nervoso. Estão mesmo a falar a sério? Vão-me cobrar cinco euros por um novo cartão de sócio? A seguir temos o quê, o Benfica manda-me os dados e eu próprio vou imprimir o redpass? Isto serve para quê? Para pagar à equipa de escuteiros nonagenários que demoraram quatro ou cinco meses a contar os papelinhos onde estavam anotados os nomes dos sócios? Por favor, não me envergonhem.

Saudações Benfiquistas,