Paulo Jorge Santos refere-se, aqui, ao Manchester United - Chelsea de hoje à tarde, da maneira seguinte:
"o duelo entre as equipas que dominam o soccer desde 2004".
domingo, 18 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Domingos e domingos de impaciência…
Ultimamente, tenho tido presença assídua no Estádio da Luz. Porém, nem sempre foi assim – e irei falar sobre o assunto, logo que consiga digerir uma passagem absolutamente notável do Fever Pitch de Nick Hornby a propósito do público e do jogo da bola. Esta digestão poderá processar-se, ou não, no decorrer da escrita deste texto. É um dos encantos com que a minha própria escrita me seduz: até a mim surpreende. Traçar um plano narrativo equivale, para mim, a abrir um novo documento em Word. Mas concentremo-nos.
Dizia eu que agora vou muitas vezes à Luz, se compararmos com o que me era normal. Este ano, assisti a três jogos da Europa e a um do campeonato. O ano passado, fui a 15 ou 16 encontros, no total da época. Há uns tempos atrás, era menino para ir meia-dúzia de vezes à Catedral durante um ano inteiro (houve um ano de excepção: na época 2009-2010, não vi um único jogo ao vivo; na primeira metade da época, por circunstâncias pessoais; na segunda, para não estragar uma coisa que estava a correr tão bem – assim, abstendo-me de azarar a equipa, fiz com que o Benfica fosse campeão. Não precisam de agradecer, o título é recompensa suficiente).
Isto de ir ver os jogos europeus é muito giro e muito bom, mas deixa-me uma sensação de que estou a perder algo. Surpreendido por esta impressão inesperada, mesmo após a exibição e o ambiente com o United, indaguei: de onde vens tu, ó ingrata impressão? Só no dia seguinte, ao ver os telejornais, é que cheguei a uma conclusão – não menos surpreendente do que a sensação em si.
Quando eu não ia tantas vezes ao Estádio, via os jogos, quase sem excepção, na Gelataria Típica de Alfama que, ao contrário do que o nome pode sugerir, de gelataria tem a arca da Camy e de típico tem o facto de ser uma tasca do mais charmoso que se pode encontrar, num registo simples e sóbrio (até ao intervalo dos jogos; depois disso, a coisa muda e o adjectivo deixa de poder ser usado com propriedade, a não ser que estejamos a fazer planos para o futuro). No entanto, é absolutamente verídico que se situa em Alfama.
Nestas incursões pelo futebol de balcão, havia vários momentos que eu considerava – e ainda hoje considero – sagrados: o entoar do Hino do Benfica, com a voz de Luís Piçarra diluída nas nossas, antes do pontapé de saída; as flash interviews e as conferências de imprensa no final do jogo. Podemos considerar, se formos muito rigorosos, três momentos, separando as flash das conferências. Para mim, no entanto, vai tudo dar ao mesmo. O meu interesse não é em saber que a equipa fez tudo o que estava ao alcance, que o grupo está unido, que o jogador está contente pelo golo mas o que importa é (sic) os três pontos ou que vão continuar a trabalhar, semana após semana, um jogo de cada vez porque, lamentavelmente, o futebol é assim mesmo e há que levantar a cabeça.
O que mais me importava nos momentos em que os protagonistas se acercavam de câmaras e microfones era mesmo ouvir Jorge Jesus. Jorge Jesus criou todo um novo e admirável léxico dentro do já de si riquíssimo e exótico mundo das palavras futebólicas. Eu ouvi Jesus dizer que viu um lance “nídito”. Isto, já depois de nos ter levado longe na “óroliga”, após termos sido eliminados da “champiõs liga”. Uma resposta de Jorge Jesus, a qualquer que seja a questão, é uma chapada de luva branca a quem perde tempo a discutir se o acordo ortográfico é bom ou é mau: para Jesus, simplesmente não se aplica. A língua muda, o povo escreve e fala diferente. Jesus nem dá por ela – nunca deu.
E eis que é isto que perco enquanto como uma bifana e bebo uma imperial naquele intervalo entre a Ti Rosa e o Manelito. Onde está o meu bom Jesus a encantar-me com suas palavras, tal como os seus discípulos me encantam com os seus passes, as suas fintas e os seus golos? No Estádio há a vantagem de o ver esbracejar e saltar e berrar como alguém que atravessa uma profunda crise de nervos e não se consegue fazer entender porque os jogadores não o ouvem – ou ouvem mas não lhe ligam. Percebe-se: nenhum é português. Porém, não estou seguro de que os jogadores o compreendessem melhor se o sangue que lhes corre nas veias fosse milenarmente lusitano.
Este ano, e apesar de me ter saciado com jogos internacionais frente a Trabzonspor, Twente e Manchester United, não saboreei aquele momento de clímax em que Jesus pronunciou, com a segurança de um Cardozo a bater um livre descaído sobre a direita, “tranzá-espór”, “twenty” – num claro revivalismo futriano – e “náite, máster náite”. Não é perda pouca. Gosto muito de assistir ao vivo à agitação do mister. Mas gostava de estar mais perto, porque não consigo ouvir o que diz. E gostava, sobretudo, de o ouvir discorrer sobre… enfim, sobre assuntos. Em geral. Gostava que a Judite de Sousa ainda estivesse na RTP1 e que Jorge Jesus conseguisse fazer do Benfica campeão europeu só – atentem: SÓ! – para poder ter o prazer de assistir a uma Grande Entrevista com o nosso treinador.
Perdidos, irremediavelmente perdidos, estes momentos de antologia, vejo-me a ficar impaciente pelo primeiro jogo entre Benfica e Sporting. Não é habitual em mim. Tendo, por norma, a desejar que este jogo não chegue – dá-me angústias, dá-me ansiedades, perco o apetite, tenho sonhos maus, fico confuso e stressado. Mas este ano dou comigo em pulgas. E o Benfica até pode ganhar só por quatro ou cinco a um, mas com uma condição: o golo do Sporting tem de ser apontado por Van Wolfswinkel. Só isso. E depois, venha a conferência de imprensa.
Dizia eu que agora vou muitas vezes à Luz, se compararmos com o que me era normal. Este ano, assisti a três jogos da Europa e a um do campeonato. O ano passado, fui a 15 ou 16 encontros, no total da época. Há uns tempos atrás, era menino para ir meia-dúzia de vezes à Catedral durante um ano inteiro (houve um ano de excepção: na época 2009-2010, não vi um único jogo ao vivo; na primeira metade da época, por circunstâncias pessoais; na segunda, para não estragar uma coisa que estava a correr tão bem – assim, abstendo-me de azarar a equipa, fiz com que o Benfica fosse campeão. Não precisam de agradecer, o título é recompensa suficiente).
Isto de ir ver os jogos europeus é muito giro e muito bom, mas deixa-me uma sensação de que estou a perder algo. Surpreendido por esta impressão inesperada, mesmo após a exibição e o ambiente com o United, indaguei: de onde vens tu, ó ingrata impressão? Só no dia seguinte, ao ver os telejornais, é que cheguei a uma conclusão – não menos surpreendente do que a sensação em si.
Quando eu não ia tantas vezes ao Estádio, via os jogos, quase sem excepção, na Gelataria Típica de Alfama que, ao contrário do que o nome pode sugerir, de gelataria tem a arca da Camy e de típico tem o facto de ser uma tasca do mais charmoso que se pode encontrar, num registo simples e sóbrio (até ao intervalo dos jogos; depois disso, a coisa muda e o adjectivo deixa de poder ser usado com propriedade, a não ser que estejamos a fazer planos para o futuro). No entanto, é absolutamente verídico que se situa em Alfama.
Nestas incursões pelo futebol de balcão, havia vários momentos que eu considerava – e ainda hoje considero – sagrados: o entoar do Hino do Benfica, com a voz de Luís Piçarra diluída nas nossas, antes do pontapé de saída; as flash interviews e as conferências de imprensa no final do jogo. Podemos considerar, se formos muito rigorosos, três momentos, separando as flash das conferências. Para mim, no entanto, vai tudo dar ao mesmo. O meu interesse não é em saber que a equipa fez tudo o que estava ao alcance, que o grupo está unido, que o jogador está contente pelo golo mas o que importa é (sic) os três pontos ou que vão continuar a trabalhar, semana após semana, um jogo de cada vez porque, lamentavelmente, o futebol é assim mesmo e há que levantar a cabeça.
O que mais me importava nos momentos em que os protagonistas se acercavam de câmaras e microfones era mesmo ouvir Jorge Jesus. Jorge Jesus criou todo um novo e admirável léxico dentro do já de si riquíssimo e exótico mundo das palavras futebólicas. Eu ouvi Jesus dizer que viu um lance “nídito”. Isto, já depois de nos ter levado longe na “óroliga”, após termos sido eliminados da “champiõs liga”. Uma resposta de Jorge Jesus, a qualquer que seja a questão, é uma chapada de luva branca a quem perde tempo a discutir se o acordo ortográfico é bom ou é mau: para Jesus, simplesmente não se aplica. A língua muda, o povo escreve e fala diferente. Jesus nem dá por ela – nunca deu.
E eis que é isto que perco enquanto como uma bifana e bebo uma imperial naquele intervalo entre a Ti Rosa e o Manelito. Onde está o meu bom Jesus a encantar-me com suas palavras, tal como os seus discípulos me encantam com os seus passes, as suas fintas e os seus golos? No Estádio há a vantagem de o ver esbracejar e saltar e berrar como alguém que atravessa uma profunda crise de nervos e não se consegue fazer entender porque os jogadores não o ouvem – ou ouvem mas não lhe ligam. Percebe-se: nenhum é português. Porém, não estou seguro de que os jogadores o compreendessem melhor se o sangue que lhes corre nas veias fosse milenarmente lusitano.
Este ano, e apesar de me ter saciado com jogos internacionais frente a Trabzonspor, Twente e Manchester United, não saboreei aquele momento de clímax em que Jesus pronunciou, com a segurança de um Cardozo a bater um livre descaído sobre a direita, “tranzá-espór”, “twenty” – num claro revivalismo futriano – e “náite, máster náite”. Não é perda pouca. Gosto muito de assistir ao vivo à agitação do mister. Mas gostava de estar mais perto, porque não consigo ouvir o que diz. E gostava, sobretudo, de o ouvir discorrer sobre… enfim, sobre assuntos. Em geral. Gostava que a Judite de Sousa ainda estivesse na RTP1 e que Jorge Jesus conseguisse fazer do Benfica campeão europeu só – atentem: SÓ! – para poder ter o prazer de assistir a uma Grande Entrevista com o nosso treinador.
Perdidos, irremediavelmente perdidos, estes momentos de antologia, vejo-me a ficar impaciente pelo primeiro jogo entre Benfica e Sporting. Não é habitual em mim. Tendo, por norma, a desejar que este jogo não chegue – dá-me angústias, dá-me ansiedades, perco o apetite, tenho sonhos maus, fico confuso e stressado. Mas este ano dou comigo em pulgas. E o Benfica até pode ganhar só por quatro ou cinco a um, mas com uma condição: o golo do Sporting tem de ser apontado por Van Wolfswinkel. Só isso. E depois, venha a conferência de imprensa.
Aquela língua suja...
Há, no mundo da bola, personagens que se distinguem pela coerência. Existem outras que se distinguem pela estupidez. Mas apenas uma elite consegue a sua distinção por ser coerentemente estúpida. José António Saraiva é um clássico de cada vez que abordo este tema e, por isso, hoje poupá-lo-ei. A não ser que mude de ideias enquanto escrevo o texto. Há quem fale de Rui Santos quando a temática é esta, mas estou em crer que tal se deve mais a questões de tradição e de hábito do que a conhecimento de causa (sinceramente: quem é que ainda lê o Rui Santos?). Sinto muitas saudades de José António Lima, esse pequeno verme acobardado, habitante de um exíguo enclave algures entre o pretensiosismo intelectual e a profunda ignorância - tanto do futebol quanto das letras. Olímpio Bento, por seu lado e com as suas tenebrosas analogias, deixa perceber facilmente que é de outro campeonato e não deverá ser avaliado segundo parâmetros do mundo civilizado. Miguel Sousa Tavares, quando sóbrio, é uma grande desilusão. Tornou-se simplesmente desinteressante. Resta-nos quem? O leitor mais atento e perspicaz já terá adivinhado. Quantos portistas boçais (descontando o próprio presidente, que, como se sabe, é um prodígio da “fina ironia” e da “bicada ao rival”) conseguem escrever isto [nota: as vírgulas estão transcritas segundo a pontuação do autor]: “mais um capítulo ridículo, de branqueamento despudorado, ao melhor estilo da velha senhora”; “o andor benfiquista voltou e em força”; “o Benfica vai colhendo frutos das benesses das arbitragens”.
Repito: é um portista. Eu toleraria esta revolta, ainda que enganada, a um sportinguista – diga-se a verdade: este ano, o Sporting já foi prejudicado várias vezes. Não me é difícil compreender que um adepto do Sporting se sinta discriminado quando a favor do Benfica se assinalam, no mesmo jogo, três grandes penalidades (sendo que uma, ainda por cima, não existe), enquanto que o seu clube já foi privado de dois golos limpos, entre outras injustiças menores.
Qualquer adepto que não seja muito imbecil conseguirá admitir, apesar de se lhe revoltarem entranhas, que o árbitro esteve bem ao assinalar os dois primeiros penalties e que esteve mal ao assinalar o terceiro (e ao não assinalar um anterior, por mão de Alex a cortar cruzamento de Emerson). Não custa muito, basta olhar para as imagens e ser objectivo. Mas eu nem quero isso – na minha humilde opinião, a vossa opinião importa-me muito pouco, só para ser simpático. O que eu gostava era que o (reparem no desprezo no “o”) - dizia eu que gostava que o Rui Moreira tivesse um pouco mais de vergonha na cara. Mas também não quero pedir o impossível: se não é capaz, que se deixe estar. Cada um vive com o que tem.
Repito: é um portista. Eu toleraria esta revolta, ainda que enganada, a um sportinguista – diga-se a verdade: este ano, o Sporting já foi prejudicado várias vezes. Não me é difícil compreender que um adepto do Sporting se sinta discriminado quando a favor do Benfica se assinalam, no mesmo jogo, três grandes penalidades (sendo que uma, ainda por cima, não existe), enquanto que o seu clube já foi privado de dois golos limpos, entre outras injustiças menores.
Qualquer adepto que não seja muito imbecil conseguirá admitir, apesar de se lhe revoltarem entranhas, que o árbitro esteve bem ao assinalar os dois primeiros penalties e que esteve mal ao assinalar o terceiro (e ao não assinalar um anterior, por mão de Alex a cortar cruzamento de Emerson). Não custa muito, basta olhar para as imagens e ser objectivo. Mas eu nem quero isso – na minha humilde opinião, a vossa opinião importa-me muito pouco, só para ser simpático. O que eu gostava era que o (reparem no desprezo no “o”) - dizia eu que gostava que o Rui Moreira tivesse um pouco mais de vergonha na cara. Mas também não quero pedir o impossível: se não é capaz, que se deixe estar. Cada um vive com o que tem.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Citando Hornby
O irredutível galês
Há certos privilégios que são ainda mais raros do que o “privilégio” regular – já de si disponível apenas a uma elite. Por exemplo: eu já tive o privilégio de ver Ryan Giggs jogar ao vivo. Por duas vezes. A última das quais, jogou em simultâneo e na equipa oposta à de Pablo Aimar. Isto, sim, é um privilégio à séria. É um momento raro.
Há jogadores muito bons, que jogam muito bem, que incendeiam plateias, fazem explodir euforias, levam pessoas ao delírio. E depois há aqueles a que gosto de chamar “masters” – o termo “mestre” não tem a carga de “poder” que a palavra inglesa carrega.
Ser master não é só “jogar muito”. Por exemplo, Cristiano Ronaldo não é um master. É um craque – um super-craque (e bonito e milionário). Mas master é o Messi. O master pensa com agilidade, corre com imaginação, executa com felicidade e sem esforço e faz o jogo depender de si – porque tem esse poder, porque é superior. Não apenas futebolisticamente. Não. É em absoluto superior. Rooney nunca será um master, por melhor jogador que seja. “O” master foi Zidane, provavelmente o maior e mais potente que vi jogar (falamos desta estirpe; continuo a preferir, enquanto jogador, Ronalducho Nazário e Diego Maradona).
Ontem, entre quase 64 mil pessoas, num ambiente inexplicável – nem me vou dar ao trabalho de tentar -, vi no mesmo relvado dois dos raros masters da actualidade. Pablito, o nosso enorme Aimar. E Giggs, um britânico com um tremendo azar geográfico que o destino quis ver confinado a uma das mais pobres selecções da Europa, hoje em dia. Ver Giggs retirar-se da selecção do País de Gales em 2007 provocou-me aproximadamente a mesma sensação que assistir à despedida de Henry do Arsenal. Acabava ali uma era - sem a glória merecida. Mas com muita honra. E é também isso que distingue masters de craques. É esse prolongamento dos pés e da cabeça até ao coração e ao carácter (não estou a pensar em episódios da vida familiar, conjugal ou extra-conjugal, claro; falo apenas de personalidade).
Ontem vi-me deliciado perante a inteligência, a elegância, o toque, a suavidade, a importância daquele senhor dentro do campo. É uma maravilha. À beira dos 38 anos, trocou a sua personalidade de craque dos extremos pela bênção de quem sabe o que faz e o que quer fazer no centro do terreno. Só pela honra que é vê-lo vale a pena ir a um estádio.
PS - Um amigo alertou-me para a tremenda falha deste post: Dennis Bergkamp. Obviamente, Bergkamp é um dos expoentes máximos do ser master. Por estas e por outras é que não tenho como escapar ao Arsenal. Mesmo quando se leva oito do Náite.
Há jogadores muito bons, que jogam muito bem, que incendeiam plateias, fazem explodir euforias, levam pessoas ao delírio. E depois há aqueles a que gosto de chamar “masters” – o termo “mestre” não tem a carga de “poder” que a palavra inglesa carrega.
Ser master não é só “jogar muito”. Por exemplo, Cristiano Ronaldo não é um master. É um craque – um super-craque (e bonito e milionário). Mas master é o Messi. O master pensa com agilidade, corre com imaginação, executa com felicidade e sem esforço e faz o jogo depender de si – porque tem esse poder, porque é superior. Não apenas futebolisticamente. Não. É em absoluto superior. Rooney nunca será um master, por melhor jogador que seja. “O” master foi Zidane, provavelmente o maior e mais potente que vi jogar (falamos desta estirpe; continuo a preferir, enquanto jogador, Ronalducho Nazário e Diego Maradona).
Ontem, entre quase 64 mil pessoas, num ambiente inexplicável – nem me vou dar ao trabalho de tentar -, vi no mesmo relvado dois dos raros masters da actualidade. Pablito, o nosso enorme Aimar. E Giggs, um britânico com um tremendo azar geográfico que o destino quis ver confinado a uma das mais pobres selecções da Europa, hoje em dia. Ver Giggs retirar-se da selecção do País de Gales em 2007 provocou-me aproximadamente a mesma sensação que assistir à despedida de Henry do Arsenal. Acabava ali uma era - sem a glória merecida. Mas com muita honra. E é também isso que distingue masters de craques. É esse prolongamento dos pés e da cabeça até ao coração e ao carácter (não estou a pensar em episódios da vida familiar, conjugal ou extra-conjugal, claro; falo apenas de personalidade).
Ontem vi-me deliciado perante a inteligência, a elegância, o toque, a suavidade, a importância daquele senhor dentro do campo. É uma maravilha. À beira dos 38 anos, trocou a sua personalidade de craque dos extremos pela bênção de quem sabe o que faz e o que quer fazer no centro do terreno. Só pela honra que é vê-lo vale a pena ir a um estádio.
PS - Um amigo alertou-me para a tremenda falha deste post: Dennis Bergkamp. Obviamente, Bergkamp é um dos expoentes máximos do ser master. Por estas e por outras é que não tenho como escapar ao Arsenal. Mesmo quando se leva oito do Náite.
Hoje os posts saem ao parágrafo
Vou começar pelo fim, pela discussão que menos importa e que, normalmente, só ocupa a mente e as discussões dos adeptos de equipas que não estão em jogo. Fóruns e blogues, twittéres e facebooks, um pouco por todo o lado se lêem vozes de quem está de fora e não racha lenha. “They didn’t even play with Nolito in the eleven, you fucks”, “What?! Who the fuck is that Brazilian, man? What about Capdevilla?”, “I can’t believe Saviola wasn’t even in the pitch… these guys must be kidding”, “Well, this Jesus guy makes me laugh… Is this for real? Rubem Amorim? Who is he? Is he a real footballer?”… Podia continuar. Aparentemente, os adeptos do Liverpool e do Arsenal, e sobretudo do Chelsea e do City não gostaram de ver Jorge Jesus escolher uma equipa para o jogo de ontem já a pensar no jogo com a Académica. Eu próprio fiquei um pouco surpreendido. Mas não vejo a coisa como uma “falta de consideração” ou um “subestimar o adversário”. Apesar das opções B, Jesus estruturou bem a equipa, que fez um bom jogo e só não ficou com os 3 pontos porque teve algum azar. Oportunidades não faltaram. Essas más línguas são apenas manifestações da azia dos adversários que provavelmente esperavam que o Benfica humilhasse historicamente o United…
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Confiança, rapazes
Um amigo meu, sportinguista, perguntava-me ontem “então, estás com medo, para amanhã?” e eu “não, pá”. Ficou surpreendido. “Como não? É o Manchester!” “O importante é não sobrestimá-los”. Depois fiz aquela expressão assim confiante e sábia, cerrando suavemente os olhos, esticando de modo ligeiro os lábios bem fechados. Calou-se.
Eles fizeram 18 golos em quatro jogos do campeonato. Inclusivamente, marcaram oito ao Arsenal - o Arsenal seria a minha equipa se um cataclismo apocalíptico varresse o Benfica da face da Terra e se, chegado esse inimaginável dia, o Desportivo de Mafra, o Grande Dépor, não tivesse ainda chegado à primeira liga. 18 golos em quatro jogos… é susceptível de causar alguma apreensão. Mas também não exageremos. Podem ter tido sorte.
Eles têm pontos fracos. Têm de ter. Eu não queria fazer uma abordagem xenófoba do assunto, mas... há que considerar, por exemplo, que eles têm um português. Vantagem nossa logo aí.
Não podemos ter medo deles. Não quando em Lisboa há manchesterianos bêbados desde ontem de manhã. Não sei se eles já nascem neste estado ou se simplesmente a Sagres lhes cai mal - não é para meninos. Certo é que cambaleiam como se não houvesse amanhã (que seria hoje, no caso dos que estão neste estado desde ontem). Grupos de dez e de quinze homenzarrões muito brancos e volumosos caminhando incertos pela cidade que maldosamente não pára de se mexer...
Financeiramente falando, eles têm mais receitas sozinhos do que toda a liga portuguesa junta. Ou seja, eles podiam ter o Aimar, se quisessem. Ou o Cardozo. Ou até o Witsel. Ou o Javi. Ou o Maxi. Ou o Nolito, ou o Luisão, ou o Artur, ou o Emerson, ou o Gaitán ou o Garay. Ou todos. Mas não! Em vez disso, têm aqueles gajos. Têm muito dinheiro mas percebem pouco de bola.
Pela minha parte, fiz o que sempre faço: enervar cosmicamente o adversário. Assim, esta semana cumpri uma série de pequenos rituais especialmente dolorosos para o United. Sair à noite? Só para o Liverpool. Comer e beber? Só na Rua do Arsenal. Ir ao Shopping? Só ao City. Há que desmoralizá-los.
Eles fizeram 18 golos em quatro jogos do campeonato. Inclusivamente, marcaram oito ao Arsenal - o Arsenal seria a minha equipa se um cataclismo apocalíptico varresse o Benfica da face da Terra e se, chegado esse inimaginável dia, o Desportivo de Mafra, o Grande Dépor, não tivesse ainda chegado à primeira liga. 18 golos em quatro jogos… é susceptível de causar alguma apreensão. Mas também não exageremos. Podem ter tido sorte.
Eles têm pontos fracos. Têm de ter. Eu não queria fazer uma abordagem xenófoba do assunto, mas... há que considerar, por exemplo, que eles têm um português. Vantagem nossa logo aí.
Não podemos ter medo deles. Não quando em Lisboa há manchesterianos bêbados desde ontem de manhã. Não sei se eles já nascem neste estado ou se simplesmente a Sagres lhes cai mal - não é para meninos. Certo é que cambaleiam como se não houvesse amanhã (que seria hoje, no caso dos que estão neste estado desde ontem). Grupos de dez e de quinze homenzarrões muito brancos e volumosos caminhando incertos pela cidade que maldosamente não pára de se mexer...
Financeiramente falando, eles têm mais receitas sozinhos do que toda a liga portuguesa junta. Ou seja, eles podiam ter o Aimar, se quisessem. Ou o Cardozo. Ou até o Witsel. Ou o Javi. Ou o Maxi. Ou o Nolito, ou o Luisão, ou o Artur, ou o Emerson, ou o Gaitán ou o Garay. Ou todos. Mas não! Em vez disso, têm aqueles gajos. Têm muito dinheiro mas percebem pouco de bola.
Pela minha parte, fiz o que sempre faço: enervar cosmicamente o adversário. Assim, esta semana cumpri uma série de pequenos rituais especialmente dolorosos para o United. Sair à noite? Só para o Liverpool. Comer e beber? Só na Rua do Arsenal. Ir ao Shopping? Só ao City. Há que desmoralizá-los.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Não pensou bem...
Noticia A Bola, à página 12 da edição de hoje, que o meu mui estimado Gabriel, o Pensador, aproveitou a estadia em Portugal para visitar o Estádio de Alvalade - onde assistiu ao Sporting - Marítimo (2-3) - e a Academia leonina. Que fique registado que Gabriel é brasileiro e acabou por tornar-se rapper. Não percebe de futebol, portanto.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
É que há maneiras e maneiras..
Em dois blogues que muito aprecio e frequento com regularidade, deparei-me com textos de polos completamente opostos.
No primeiro, critica-se duramente a política de aquisições do Benfica - isto, numa sequência já longa de críticas deste blogue a quem dirige o clube.
No segundo, elogia-se o planeamento e a construção da equipa para a época que ainda agora começou.
É extraordinário, antes de mais, concluir que os autores estão a referir-se ao mesmo clube, dirigido pelas mesmíssimas pessoas. Mais extraordinário é constatar que se tratam ambos de adeptos fervorosos do Grande Clube que é o meu. Mas notável mesmo à séria é saber que ambos os textos contêm verdades impolutas. Tudo depende agora da maneira como olhamos para elas e queremos interpretá-las.
Para ambos e para os poucos que me lêem, aqui deixo os meus 5 cêntimos, correndo o risco de vos dar aquilo que não vos interessa nem um bocadinho: não sou nem nunca fui partidário de Vieira - sempre mantive espírito crítico relativamente ao presidente da Instituição (e manterei, com ele ou com qualquer outro); não sou de presidentes - nem de treinadores, nem de capitães de equipa, nem de outros jogadores, já agora. Sou do Benfica e isso me envaidece. Mas, pesando factos e argumentos, desta vez - e isto sem qualquer prognóstico, constatando apenas a realidade presente - estou com a direcção do Benfica. A ela, ao presidente, ao Rui Costa e a Jorge Jesus, os meus parabéns. Vocês estiveram bem.
No primeiro, critica-se duramente a política de aquisições do Benfica - isto, numa sequência já longa de críticas deste blogue a quem dirige o clube.
No segundo, elogia-se o planeamento e a construção da equipa para a época que ainda agora começou.
É extraordinário, antes de mais, concluir que os autores estão a referir-se ao mesmo clube, dirigido pelas mesmíssimas pessoas. Mais extraordinário é constatar que se tratam ambos de adeptos fervorosos do Grande Clube que é o meu. Mas notável mesmo à séria é saber que ambos os textos contêm verdades impolutas. Tudo depende agora da maneira como olhamos para elas e queremos interpretá-las.
Para ambos e para os poucos que me lêem, aqui deixo os meus 5 cêntimos, correndo o risco de vos dar aquilo que não vos interessa nem um bocadinho: não sou nem nunca fui partidário de Vieira - sempre mantive espírito crítico relativamente ao presidente da Instituição (e manterei, com ele ou com qualquer outro); não sou de presidentes - nem de treinadores, nem de capitães de equipa, nem de outros jogadores, já agora. Sou do Benfica e isso me envaidece. Mas, pesando factos e argumentos, desta vez - e isto sem qualquer prognóstico, constatando apenas a realidade presente - estou com a direcção do Benfica. A ela, ao presidente, ao Rui Costa e a Jorge Jesus, os meus parabéns. Vocês estiveram bem.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
A pena submissa e outros parágrafos
Encaremos este texto como uma espécie de roteiro ou de síntese de uma série de coisas que gostaria de mencionar mas que, por me faltar o tempo, não tenho tido oportunidade de partilhar convosco.
Começo pelas coisas que me aborrecem. Neste caso, enerva-me um pouco, até. Falo de Alfredo Barroso. Sob um discurso aparentemente educado e comedido, leio nas suas crónicas os desabafos de uma personagem escondida e por revelar. A submissão sempre polida e educada ao Porto é deveras enervante. Barroso não é capaz de dizer com todas as letras o que pensa e sente – inveja e raiva? – em relação ao Porto e ao portismo. Disfarça sempre uma espécie de demónio infernal latente com “que me perdoem os meus amigos portistas”, ao que acrescenta uma espécie de chave ideológica que invariavelmente vai de uma de duas maneiras: ou “mas com o Benfica ainda é pior” ou “mas quem diz o Porto, diz o Benfica”. O Benfica, portanto, é o símbolo da iniquidade no mundo e é, por isso, omnipresente no discurso baixinho e invejoso de Alfredo Barroso. Um discurso submisso, fraco e cobardezinho, sempre vergado a esse Porto que ele verdadeiramente não admira: antes inveja e cobiça.
Depois de Barroso, viremo-nos para o mundo civilizado. De futebol, muito se tem falado. Dissecou-se o Benfica – Twente e as partes do Nacional – Benfica que o nevoeiro deixou ver. Tenho para mim que ninguém do Nacional viu, por exemplo, o Bruno César na hora do golo. Ele foi sempre em frente sempre em frente sempre em frente sempre em frente e ninguém lhe saiu ao caminho. Como é que vocês explicam isto? Falta de visibilidade, evidentemente. Estava, até, a ouvir o relato na Renascença e, a dada altura, um jogador do Nacional pergunta a outro “onde é que se meteu a porra da bola, c&$&%$#&?” e a seguir foi golo. Depois o outro respondeu “ah, então por isso é que aquele gordinho passou aqui a correr com tanta pressa”. A sério. E foi pela mesma razão que Bruno César chutou de força: para que a bola fizesse ricochete na rede e, assim, saltasse à vista. Fez bem, mostrou clarividência depois de ter mostrado discrição ao longo de 60 metros. Gostei. Se ele fosse bonito, era dos meus preferidos a esta hora.
Ainda nesse jogo de nebulosa memória, Cardozo, para quem não se lembra, voltou a fazer golo e um jogo de esforço e de combate. Só há um motivo que me impede de trazer para este blogue a discussão sobre o valor (atenção: não falei em qualidade técnica) de Cardozo na frente de ataque do Benfica: é o facto de a discussão ser desnecessária e ridícula. Implicar com Cardozo só pode ser fruto de teimosia.
Por falar em teimosia: Jorge Jesus. Fico agradado por vê-lo ceder e ser menos teimoso. Sentou Saviola e fez muito bem. Eu sou um profundo admirador do Saviola, atenção. Mas não está em forma, parece desmotivado e esconde-se dos jogos, quando dantes assumia a iniciativa de ataque e pedia jogo constantemente. Por outro lado, esta estratégia, com Witsel no meio e Aimar mais solto, oferece uma equipa mais compacta a gerir a bola e a defender, com uma frente de ataque mais móvel e poderosa – Cardozo, nesta espécie de 4-3-3-mais-ou-menos, é um homem novo, solto, agressivo, com iniciativa. Gosto de ver. Neste momento, só é preciso articular melhor a acção dos extremos nas acções defensivas. Gaitán mexe-se pouco; Nolito nem sempre auxilia bem.
Hum, ora, deixa cá ver as notas… Do Artur não vale a pena dizer o óbvio… Ah, o Emerson. Aparentemente, Emerson é o que Maxi Pereira foi quando chegou ao Benfica: ninguém entendia o que é que ele estava ali a fazer. Eu, homem prevenido e com visão de futuro, digo-vos: não preciso de esperar pelo futuro, caramba. Então o homem não joga tão bem? Valha-me Deus… Com o Twente, só não foi o melhor em campo porque lá estavam Witsel e Aimar. Na segunda-feira teve dificuldades, mas esteve bem e na hora H salvou a equipa com rapidez de raciocínio e de execução. Capdevilla tem tudo para eu gostar dele, menos o facto de não ser mulher. Mas, por mim, vai ter de mostrar que merece o lugar.
Acho que havia mais coisas, mas por hoje é tudo. Amanhã a ver se tenho mais de 20 segundos, que isto assim é muito complicado, tudo à pressa, tudo à pressa…
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Uma perda de tempo
Cento e oitenta minutos, dois golos do Nolito e mais um de outra pessoa que não se me recorda agora, para eliminar o Trabzonspor, e vai que os turcos vão à fase de grupos da Champions à mesma. Ok, eu até compreendo... perder com o Benfica não significa falta de qualidade; é apenas sinal de azar por se ter cruzado com o Grande. Por mim, até se podia tirar o Otelul Galati do pote 4 e metia-se lá o Twente. A equipa não é nada má e têm o Ruiz e o Tiendalli, jogadores que não mereciam ter tido que defrontar o Benfica.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
A síntese aos seus pés
No futebol, como em muitas outras artes e disciplinas, o poder de síntese é importante. Partindo desta premissa, decidi testar a minha capacidade de sintetizar. Assim, sábado passado a minha ida à Luz foi várias coisas ao mesmo tempo: uma ida à bola – com bifana e coirato incluídos -, uma festa de aniversário e uma homenagem a Cesária Évora. Ou seja, sou poderosamente sintético. Bom, mas, como é hábito, proponho que nos foquemos no que realmente importa: a homenagem a Cesária Évora. Nunca tinha pisado um grande palco descalço. Na verdade, continuo sem ter pisado um grande palco descalço. Mas pisei, pelo menos, a bancada da Luz sem intermediários entre os pés e o betão que tanto estimamos e tão bem nos suporta, semana após semana, época após época. Foi com uma sensação libertadora que entrei na Catedral de chinelos e calções. Senti-me mais próximo da essência divina que a sede física do Benfiquismo materializa. E aqui vos deixo uma nota curiosa: quando o Maxi correu para entregar a Cardozo aquela bola que só podia dar golo, primeiro; e quando o meu anafadinho (quase) preferido, com três pulinhos e três toques, arrumou a questão, depois, pensei para comigo “bolas, esta táctica à Cesária resulta mesmo!”. O meu obrigado à diva de Cabo Verde. Resulta muito melhor do que o meu cachecol da sorte.
Isto dos pés e da síntese tem que se lhe diga. Pessoa sintética por definição, Pablo Aimar personifica, em pouco mais de 165 centímetros de altitude, a excelência da qualidade em quantidade generosa num invólucro de dimensões reduzidas. A cada jogo, Pablito parece aumentar, crescer, expandir-se autenticamente pelo planeta do futebol, pelo universo do Benfica. Quando deixa o relvado sob o aplauso da multidão, no entanto, é possível constatar que é pequeno e magrinho. Depois o público entoa o seu cântico e o enorme 10 agiganta-se de novo, agradecendo com a humildade e a graça de quem só pode ser o maior de todos. E, se pensarmos um pouco, compreendemos o que é óbvio: os pés talentosos de Aimar começam-lhe na inestimável cabeça. Talvez a curta distância entre ambas as extremidades lhe facilitem a vida.
Há, porém, quem tenha bons pés mas seja desprovido de poder de síntese. Saviola é um exemplo claríssimo do que afirmo. Aliás, neste momento, é um dos expoentes máximos da prática da complicação. Se o desacerto pontual se lhe perdoa – como deve perdoar-se a todo quanto é génio –, já a sua infinita capacidade para tornar complexo o que é muito simples complica-me com os nervos. Isso e a sua aversão a partilhar a bola com Cardozo – mais um senhor que, apesar da sua alongada e corpulenta existência física, sintetiza muitíssimo bem na hora de finalizar.
Há casos mais estranhos. Gaitán, por exemplo. Se pés não lhe faltam, poder síntese muito menos: consegue fazer tudo o que tem a fazer em apenas três ou quatro lances por jogo – aqueles em que se digna a fazer parte da equipa e a jogar um bocadinho à bola. Se aquela bola que bateu no poste tivesse terminado no interior das malhas, a situação seria menos grave. Mas não terminou e, assim, para a história fica a lição que Bruno César lhe deixa: podes jogar poucochinho e ser mandrião, desde que metas a bola lá dentro com classe e com estilo.
Por falar em ficar para a história: esta estreia de Capdevilla soube-me a muito pouco. Escondeu-se do jogo, evitou participar nele a não ser nos momentos absolutamente indispensáveis. Fica o benefício da dúvida – creio que o ritmo da super-estrela espanhola ainda é muito baixo. Mas se sintetizarmos a sua produção frente ao Feirense, obtemos apenas dois lances: num, fez uma abertura notável para Nolito, com a bola a chegar direitinha, redonda e ligeira – diria “suave” – aos pés do goleador da extrema-esquerda (futebolisticamente falando, claro); noutro, após uma extraordinária troca de bola ao primeiro toque, em que a defesa e o meio-campo do Benfica tentavam sair a jogar (e bem…), Capdevilla perdeu a bola no centro do terreno num lance que podia ter trazido grande perigo para Artur. Fica a minha humilde sugestão para o ultra-campeão pela Espanha: para a próxima faça como Cesária, jogue descalço. Comigo resultou.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Adeus Falcao...
Não costumo - e nem gosto de - meter-me, sobretudo de forma séria, em assuntos que não me dizem respeito. Acontece, neste caso, que me tornei absolutamente fã de Radamel Falcao. Poderia enumerar todas as qualidades que fazem dele um avançado de eleição, um ungido das grandes áreas, um predestinado do golo. Mas se tu, assalariado que se distrai com a Internet, estás a ler este blogue, é poque alguma coisa de bola hás-de perceber (ou terás, pelo menos, essa convicção) e dispensas bem os meus sermões laudatórios do colombiano que teve a infelicidade de escolher sempre o clube errado na vida. Com a confirmação do negócio, que teve ainda o condão de ser de tão péssimo gosto que juntou no mesmo pacote esse génio matador e um dos madeirenses mais irritantes do planeta, fiquei desiludido. Diria até um pouco triste. Esperava mesmo ver-me livre de Falcao - quem gosta de o ter como adversário? Mas também esperava vê-lo entre a elite na galeria das super-estrelas da bola e sentir um estranho orgulho por tê-lo visto na Luz, ao vivo (não me levem a mal, eu gosto quando os adversários têm grande classe). Hoje comentei, a propósito, um desabafo de um amigo portista. Partilho aqui convoso o comentário. Não é grandioso, mas é sincero.
"O negócio é admirável, mas fico francamente desapontado com o Radamel. Um jogador daquela categoria só devia sair do Porto para ir para o topo do mundo. É quase ofensivo imaginar o - quanto a mim - melhor ponta-de-lança da actualidade a fazer golos para consolidar o quarto lugar no campeonato ou para eliminar o Guimarães da Liga Europa. Mais: um adepto doSporting Atlético de Madrid a dizer no Telejornal que "bom... não é o Agüero... mas é um bom avançado" quase me deu um vómito. Espero que a aventura lhe corra muito mal e que regresse a Portugal para voltar a ter a admiração que merece - ao serviço do Benfica."
"O negócio é admirável, mas fico francamente desapontado com o Radamel. Um jogador daquela categoria só devia sair do Porto para ir para o topo do mundo. É quase ofensivo imaginar o - quanto a mim - melhor ponta-de-lança da actualidade a fazer golos para consolidar o quarto lugar no campeonato ou para eliminar o Guimarães da Liga Europa. Mais: um adepto do
terça-feira, 16 de agosto de 2011
O regresso da normalidade
Há coisas que me deixam tremendamente satisfeito. Uma delas é recuperar o bom senso. Quis a magia negra do futebol que eu viesse, de há uns tempos para cá, a desenvolver uma estranha e preocupante admiração por Falcao, jogador que NÃO É do Benfica. A sua elegância em campo, a relação fatal com a bola, a demonstração de inclemência perante os adversários, fizeram-me criar por Falcao uma imagem de ponta-de-lança ideal: um portento de técnica, com uma overdose de finésse e de elegância, senhor de um brilho e de um imediatismo demonstradores de elevada intelectualidade sobre a relva. Afinal, e depois de o ouvir dizer que a mudança para o Sporting de Madrid era "uma boa oportunidade" na sua carreira, concluo que Falcao tem apenas duas coisas: estilo e sorte. Tudo o resto era pura ilusão. Até me sinto melhor.
Algumas notas que tirei ao Sol e outras que, mentalmente, apontei mesmo dentro de água
Eu não estou amuado. Eu estive mesmo de férias.
Dantes, quando estava de férias, não lia jornais, não via telejornais e não comia carne de porco. Mas entretanto modernizei-me e sou, de um modo sofisticado, portador de um aparelho vagamente aparentado ao telefone. Uma chulice geek com acesso à Internet que, basicamente, me permite tirar fotografias para o facebook e ler A Bola online. Adiante, o que importa reter daqui é que, apesar de calado, eu andei atento, com a leitura em dia. E, sobre estes assuntos que A Bola ia noticiando, tenho coisas que pensei e que agora me apetece dizer. E nestas férias comi entremeada – mas só uma vez.
Para além d’A Bola, fui sendo actualizado, sempre que jogava O Grande, através da telefonia. O velho relato da Antena 1 continua a empolgar-me incomparavelmente mais do que o António Tadeia e os outros todos. O relato com o Arsenal foi muito bonito. Antes disso, vi com o Trázon Spor, na Luz e na Turquia (na Turquia pela televisão, entenda-se). Também gostei muito.
Mas…
Na sexta-feira, a caminho de Lisboa, ouvi o relato de Barcelos. E não queria acreditar. Portanto, ora… o Jorge Jesus. Eu não sei como hei-de pôr isto. Eu não sou anti-JJ, que fique bem claro. Surpreendeu-me que o Benfica o tivesse contratado (nunca, antes disso, achei que tivesse nível para um grande) mas não pus em causa a sua qualidade e, na primeira época, obteve bons resultados no campeonato (Óroliga e Taça de Portugal foram para esquecer). Na época passada, falhou nos momentos-chave. Mas, ainda assim, a equipa produziu bom futebol e quando falhou foi sobretudo contra uma das melhores equipas que vi jogar nos últimos anos – reconheça-se-lhes o mérito: o Porto do ano passado era de colheita histórica.
No entanto, em ambas as épocas ficou a sensação que Jesus não era capaz de fazer melhor, que atingira o seu limite. É um treinador com um grande poder de motivação, é trabalhador, é aguerrido e possui um enorme gosto pelo ataque e por fazer golos. Mas faltam-lhe características importantes para o topo da alta competição, como o são as competições europeias ou os jogos com o Porto. Tentei, por isso, identificar os maiores problemas de JJ. De entre os vários que o caracterizam, há um que claramente prejudica a equipa – e que o faz espalhar-se recorrentemente ao comprido. Talvez por sentir que tem algo a provar, que tem de fazer qualquer coisa que deixe a sua marca na história do futebol, Jesus tem tendência para inventar como se inovasse, para tentar surpreender como se isso o distinguisse enquanto génio inventivo. Porém, engana-se. Diz-nos a história que as grandes equipas se construíram sedimentando-se, ganhando consistência. Mas Jesus não liga a isso da história, Jesus é um homem de rasgo, de inspiração. O trabalho, o esquema, as rotinas, tudo isso são coisas de meninos quando comparados com a luz que Jorge Jesus recebe no seu espírito antes de cada jogo. Normalmente, cinco ou dez minutos antes do apito inicial, para ser mais preciso.
Desta pré-época Benfiquista há várias coisas a reter. Julgo que existe unanimidade quanto à qualidade de Nolito, de Garay ou de Artur. Foram boas aquisições, acrescentaram algo à equipa. Existem algumas dúvidas quanto a outros. As opiniões dividem-se em vários casos. Vou deixar aqui as minhas. Gostei muito de Matic, penso que tem qualidade e que pode vir a ser muito útil. Em certos casos, pode mesmo substituir Javi Garcia. Há ali qualquer coisa Jonas Thern. Também gosto muito do Emerson. Tem recebido muitas críticas, é claramente o elo mais fraco dos que chegaram para agarrar o lugar: poucos o conhecem e o único crédito que tem é ter sido o titular da equipa campeã de França o ano passado (e na sua sombra tem um Capdevilla, jogador de topo, campeão da Europa e do mundo ao serviço – sempre a titular – de uma das melhores selecções da história). Mas eu gosto de Emerson. Defende bem, é abnegado, sabe estar em campo, é forte, tem técnica q.b. e razoável qualidade de passe. Não é o cometa Coentrão (que, by the way, jamais será lateral-esquerdo no Real Madrid, nas mãos de Mourinho…), mas é um defesa seguro que se entende bem com o miolo e que sobe sempre pela certa. A ver, com calma.
Mas, de entre tudo, fiquei deslumbrado – é mesmo o termo – com o potencial da dupla Witsel – Aimar no meio-campo. Pablito, que é mestre desde que nasceu, duplica a qualidade do seu jogo ao lado deste belga cheio de classe que, acredito piamente, longe do nosso Pablo, não jogará mais do que metade do que joga quando está a seu lado. Juntá-los é aumentá-los, é fazê-los grandes, ainda maiores do que são. Esta dupla fascina-me. Para já, fascina-me na medida em que nenhum comentador desportivo consegue identificar o papel de cada um deles quando estão em campo em simultâneo. Aparentemente, os simuladores de Football Manager não conseguem decifrar o 4-3-3 com dois interiores que se vão revezando na condução do jogo e que sobem apoiando-se mutuamente. Para quem ainda não reparou: Nolito, Gaitán e Saviola são avançados. Mesmo. Daqueles à séria, que ficam lá à frente e só servem para atacar e fazer golos. Aimar e Witsel apoiam Javi nas tarefas mais defensivas, fechando, cada um, o corredor da sua proximidade (pelo pouco que observei, a norma é: Aimar apoia Emerson; Witsel apoia Maxi; mas julgo que também varia). Bom, mas isto são peanuts. O que importa reter daqui é: como é possível que Jesus ainda não tenha reparado que esta dupla é a jóia da sua coroa? Distracção? Ou quando chegou a Barcelos o deus que o ilumina voltou a dizer-lhe “ó Jorge, tu tens é de inventar, pá: tira o Witsel e mete o Jara, joga em 4-4-2, que assim os comentadores da TVI conseguem perceber a táctica”? Não se pode culpar JJ pela mania que Laionel tem de nos estragar as primeiras jornadas com golos do meio da rua. Mas, caramba, porquê esta mania de Jejus de fazer as coisas pelos atalhos, de dificultar o que é fácil, de complicar o que é simples e claro? Eu não quero ser surpreendido, Jorge. Eu quero entrar em campo com a melhor equipa que temos, com todos no lugar certo. Apenas isso.
Logo, ao fim da tarde, espero ver um Benfica de classe. Com a jóia da coroa em campo. O adversário é um bom tira-teimas: não é fraco, mas não é nenhum tubarão. Fico desapontado se não ganharmos.
PS – O Enzo Pérez é uma espécie de dark side do Quaresma.
Dantes, quando estava de férias, não lia jornais, não via telejornais e não comia carne de porco. Mas entretanto modernizei-me e sou, de um modo sofisticado, portador de um aparelho vagamente aparentado ao telefone. Uma chulice geek com acesso à Internet que, basicamente, me permite tirar fotografias para o facebook e ler A Bola online. Adiante, o que importa reter daqui é que, apesar de calado, eu andei atento, com a leitura em dia. E, sobre estes assuntos que A Bola ia noticiando, tenho coisas que pensei e que agora me apetece dizer. E nestas férias comi entremeada – mas só uma vez.
Para além d’A Bola, fui sendo actualizado, sempre que jogava O Grande, através da telefonia. O velho relato da Antena 1 continua a empolgar-me incomparavelmente mais do que o António Tadeia e os outros todos. O relato com o Arsenal foi muito bonito. Antes disso, vi com o Trázon Spor, na Luz e na Turquia (na Turquia pela televisão, entenda-se). Também gostei muito.
Mas…
Na sexta-feira, a caminho de Lisboa, ouvi o relato de Barcelos. E não queria acreditar. Portanto, ora… o Jorge Jesus. Eu não sei como hei-de pôr isto. Eu não sou anti-JJ, que fique bem claro. Surpreendeu-me que o Benfica o tivesse contratado (nunca, antes disso, achei que tivesse nível para um grande) mas não pus em causa a sua qualidade e, na primeira época, obteve bons resultados no campeonato (Óroliga e Taça de Portugal foram para esquecer). Na época passada, falhou nos momentos-chave. Mas, ainda assim, a equipa produziu bom futebol e quando falhou foi sobretudo contra uma das melhores equipas que vi jogar nos últimos anos – reconheça-se-lhes o mérito: o Porto do ano passado era de colheita histórica.
No entanto, em ambas as épocas ficou a sensação que Jesus não era capaz de fazer melhor, que atingira o seu limite. É um treinador com um grande poder de motivação, é trabalhador, é aguerrido e possui um enorme gosto pelo ataque e por fazer golos. Mas faltam-lhe características importantes para o topo da alta competição, como o são as competições europeias ou os jogos com o Porto. Tentei, por isso, identificar os maiores problemas de JJ. De entre os vários que o caracterizam, há um que claramente prejudica a equipa – e que o faz espalhar-se recorrentemente ao comprido. Talvez por sentir que tem algo a provar, que tem de fazer qualquer coisa que deixe a sua marca na história do futebol, Jesus tem tendência para inventar como se inovasse, para tentar surpreender como se isso o distinguisse enquanto génio inventivo. Porém, engana-se. Diz-nos a história que as grandes equipas se construíram sedimentando-se, ganhando consistência. Mas Jesus não liga a isso da história, Jesus é um homem de rasgo, de inspiração. O trabalho, o esquema, as rotinas, tudo isso são coisas de meninos quando comparados com a luz que Jorge Jesus recebe no seu espírito antes de cada jogo. Normalmente, cinco ou dez minutos antes do apito inicial, para ser mais preciso.
Desta pré-época Benfiquista há várias coisas a reter. Julgo que existe unanimidade quanto à qualidade de Nolito, de Garay ou de Artur. Foram boas aquisições, acrescentaram algo à equipa. Existem algumas dúvidas quanto a outros. As opiniões dividem-se em vários casos. Vou deixar aqui as minhas. Gostei muito de Matic, penso que tem qualidade e que pode vir a ser muito útil. Em certos casos, pode mesmo substituir Javi Garcia. Há ali qualquer coisa Jonas Thern. Também gosto muito do Emerson. Tem recebido muitas críticas, é claramente o elo mais fraco dos que chegaram para agarrar o lugar: poucos o conhecem e o único crédito que tem é ter sido o titular da equipa campeã de França o ano passado (e na sua sombra tem um Capdevilla, jogador de topo, campeão da Europa e do mundo ao serviço – sempre a titular – de uma das melhores selecções da história). Mas eu gosto de Emerson. Defende bem, é abnegado, sabe estar em campo, é forte, tem técnica q.b. e razoável qualidade de passe. Não é o cometa Coentrão (que, by the way, jamais será lateral-esquerdo no Real Madrid, nas mãos de Mourinho…), mas é um defesa seguro que se entende bem com o miolo e que sobe sempre pela certa. A ver, com calma.
Mas, de entre tudo, fiquei deslumbrado – é mesmo o termo – com o potencial da dupla Witsel – Aimar no meio-campo. Pablito, que é mestre desde que nasceu, duplica a qualidade do seu jogo ao lado deste belga cheio de classe que, acredito piamente, longe do nosso Pablo, não jogará mais do que metade do que joga quando está a seu lado. Juntá-los é aumentá-los, é fazê-los grandes, ainda maiores do que são. Esta dupla fascina-me. Para já, fascina-me na medida em que nenhum comentador desportivo consegue identificar o papel de cada um deles quando estão em campo em simultâneo. Aparentemente, os simuladores de Football Manager não conseguem decifrar o 4-3-3 com dois interiores que se vão revezando na condução do jogo e que sobem apoiando-se mutuamente. Para quem ainda não reparou: Nolito, Gaitán e Saviola são avançados. Mesmo. Daqueles à séria, que ficam lá à frente e só servem para atacar e fazer golos. Aimar e Witsel apoiam Javi nas tarefas mais defensivas, fechando, cada um, o corredor da sua proximidade (pelo pouco que observei, a norma é: Aimar apoia Emerson; Witsel apoia Maxi; mas julgo que também varia). Bom, mas isto são peanuts. O que importa reter daqui é: como é possível que Jesus ainda não tenha reparado que esta dupla é a jóia da sua coroa? Distracção? Ou quando chegou a Barcelos o deus que o ilumina voltou a dizer-lhe “ó Jorge, tu tens é de inventar, pá: tira o Witsel e mete o Jara, joga em 4-4-2, que assim os comentadores da TVI conseguem perceber a táctica”? Não se pode culpar JJ pela mania que Laionel tem de nos estragar as primeiras jornadas com golos do meio da rua. Mas, caramba, porquê esta mania de Jejus de fazer as coisas pelos atalhos, de dificultar o que é fácil, de complicar o que é simples e claro? Eu não quero ser surpreendido, Jorge. Eu quero entrar em campo com a melhor equipa que temos, com todos no lugar certo. Apenas isso.
Logo, ao fim da tarde, espero ver um Benfica de classe. Com a jóia da coroa em campo. O adversário é um bom tira-teimas: não é fraco, mas não é nenhum tubarão. Fico desapontado se não ganharmos.
PS – O Enzo Pérez é uma espécie de dark side do Quaresma.
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