quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Adestradores de bancada

Foi há sete meses e meio que tomei, sem ponderação excessiva nem exagero de impulso, a decisão de ter um cão. Não é um cão qualquer. Nem, tão pouco, é um cão, já que é uma cadela. Continuando, o que quero dizer é que não se tratou de querer um cão só porque sim, foi antes o realizar de um desejo já antigo: ter por companheiro um fox terrier.

O momento ideal para se ter um cão é mais ou menos semelhante ao momento perfeito para se ter um filho: não existe. Quando tem de ser, tem de ser e o que tiver de acontecer acontece. Ainda assim, quando comuniquei a boa-nova a quem me é mais próximo, não houve quem não tivesse um "mas" ou um "se" como adenda ao "opá, é tão linda!". Que vivo num apartamento, que trazem doenças, que têm pulgas - a tudo fui retorquindo que passo os dias em casa, pelo que posso dar-lhe atenção enquanto cresce e precisa de ser educada; ou que tinha um dinheirito de parte para as primeiras e mais pesadas despesas. Sempre senti que não conseguia, na altura, convencer ninguém da minha boa intenção nem das minhas capacidades para fazer da Lolis Regina uma cachorra feliz e bem sucedida.

Certo dia, tinha a pequena Lolita os seus 4 ou 5 meses e já eu começava a sentir-me desmotivado com tantas dúvidas e críticas, uma senhora fez-lhe uma festinha e disse "ai credo... ela tem um focinho tão esquisito, tão comprido" ao que eu respondi, sorridente, "ah ah, sabe, isso é da raça" e a senhora fez uma expressão intrigada, pelo que acrescentei "é uma fox terrier" sem que me apercebesse da irrelevância e da ineficácia de tal informação - respondeu-me com cara de "sério?! Pensei que fosse um cão".

Foi nesse instante que comecei a ganhar consciência: talvez muitas opiniões e conselhos adviessem da ignorância e não da experiência ou dos conhecimentos, como eu esperava. Seguiram-se muitos episódios com dicas mais ou menos recorrentes: que tinha de ser mais obediente, que precisava, se calhar, de correr, que era importante que soubesse andar sem trela, que tinha de vir ao meu chamamento, por aí fora. Factos como ter apenas 7 meses, ser de uma raça extremamente enérgica e, inicialmente, desatenta como se fosse hiperactiva, pareciam ser irrelevantes. Viver num sítio labiríntico, sujo, com trânsito e cheio de cães à solta nem sempre bem cuidados - e a cachorra ter apenas um palmo e meio - também parecia ter pouca importância. Porque havia quem tivesse visto o Encantador de Cães Cesar Milan e soubesse como se conduz uma trela, outros que tinham tido um primo, na infância, que tivera um pastor alemão que se sabia sentar, muita gente decidiu ter opinião sobre o modo como eu estava a criar a minha cadela.

Nos dias de hoje, em que toda a gente pode opinar e ter um público para a sua opinião, são muitos os que exercem o atiramento do bitaite de um modo quase compulsivo. É como se, só porque pode fazê-lo, uma pessoa se sentisse obrigada a fazê-lo realmente. A isto acresce que parece que a ignorância, que outrora inspirava medo aos humanos, se tornou entretanto num dos maiores motores da vontade de dizer coisas,mesmo quando não se sabe muito bem o quê e muito menos se tem fundamento para o porquê.

Hoje, aos 9 meses, a Lolinha vem quando a chamo, senta-se, deita-se e até sabe esperar que lhe sirvo a comida, sendo que só vai à gamela quando lhe dou licença, mesmo que a comida lá esteja à espera, em frente a ela. É uma boa cachorra. Educar um cão terá ciência, seguramente, mas assenta muito mais no conhecimento do que temos em mãos e na relação que se estabelece entre homem e cachorro do que em teorias que vemos pontualmente na televisão ou em opiniões imediatas, sem grandes fundamentos, que formamos quando olhamos para um cachorro uma vez por semana, durante 90 minutos, ora num ecrã via SportTV, ora a partir do terceiro anel. É que, depois, quando os resultados ficam à vista, dá-me vontade de perguntar ao adestrador de bancada "mas quem é que aqui sabe melhor do que eu o que eu tenho de fazer?!".

Adenda: não me interpretem mal. Não quero, com este texto, dar a entender que tudo é perfeito e maravilhoso, que nada poderia ser melhorado ou que sei tudo, absolutamente tudo e com plenas certezas acerca de como educar um cão. Há dias em que algumas coisas correm mal - uma peúga que desaparece e surge, misteriosamente, alguns dias mais tarde, ratada e debaixo do sofá; um sapato que é roído; uma mijinha que ela não consegue aguentar e vai mesmo ali no tapete. E tudo isso sucede, obviamente, por culpa minha e não dela - é minha responsabilidade levá-la a não fazer essas coisas. Contudo, são coisas que acontecem porque não conseguimos controlar tudo, sempre, a toda a hora. Por vezes, há episódios e contextos que nos impedem o total controlo. Não vale a pena pôr em causa todo o meu trabalho e dedicação a este magnífico animal só porque no fim-de-semana que passou ele não foi buscar o osso como a gente queria, como eu estava à espera...

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

As sapatilhas do pescador

Quando me deram um saco de papel do Benfica "toma lá a tua prenda de anos" pensei que me estivessem a oferecer aquela camisola clássica, com a gola branca e o símbolo num pedaço de pano oval cosido ao peito. Essa camisola é a mais bela de todas. Mas peguei no saco e percebi que lá dentro vinha uma caixa. Uma caixa de sapatos. Abri a caixa e aposto que os meus olhos brilharam: uns Sanjo SLB, pretos com uma lista encarnada. Toquei-lhes e o Salvio marcou um golo, "estão abençoados", gracejou-se à mesa da Típica. De cada vez que os fui mostrando, o Benfica foi marcando mais um golo.

Ontem a minha confiança era inabalável: com os Sanjo nos meus pés, o Benfica seria imbatível. A confiança durou até a bola ter passado pelo desastre do Jardel. Quando, minutos mais tarde, o Artur foi expulso, pensei "caramba... o que é que estas sapatilhas querem de mim, afinal? Na estreia, a perfeição; logo a seguir, o cataclismo. Não compreendo". Ao intervalo, mandei mensagens a amigos meus "vou dar as sapatilhas ao Jardel... a mim dão-me azar e ele pior também não fica".

E fui vendo, enquanto aguardava uma aparentemente inevitável goleada do Zenit, o Sálvio e o Maxi a correrem por quatro, o Enzo a esfolar-se, a arratar-se e a arregaçar os calções para tentar uma vez mais, o Gaitan e Eliseu a fazerem piscinas, para trás e para a frente, como se tudo ainda fosse possível, o Luisão e o Samaris a desdobrarem-se entre o centro defensivo, o transporte de jogo, a organização do ataque e até a finalização. Dei por mim à espera de ser goleado e a ter esperança na reviravolta, ao mesmo tempo.

No fim, quando já não havia forças para mais e tudo estava definitivamente perdido, o Zenit começou a trocar tranquilamente a bola. Os nossos, de rastos, pareciam ter baixado os braços. Foi então que o topo Sul deu o mote e o Estádio se levantou para um aplauso infinito, uma declaração de amor incondicional. E os rapazes, lá em baixo, ergueram a cabeça e tentaram uma vez mais num último fôlego inglório.

Tive vontade de chorar. Não sei o que sentiram os outros trinta mil, mas eu senti uma profunda gratidão por todos aqueles que Nos defenderam ali, naquele relvado. E por todos os que não os deixaram cair. Pelo Benfica e por ser Benfiquista.

É curioso que o futebol esteja tão presente nas minhas mais marcantes experiências de humildade. Certa vez, na escola primária, a minha equipa perdeu um jogo, discutimos todos. Acabámos chateados. Quando regressei à sala, senti uma tristeza tão grande que hoje parece impossível tê-la sentido. Mas não foi a derrota que me magoou. Foi a solidão. Naquele dia, naquele momento, senti que perdera todos os meus amigos. Fiquei sozinho.

De outra vez, no recreio do ATL, alguém me rasteirou maldosamente. Na altura fiquei irado. Mas, momentos mais tarde, aconteceu-me um fenómeno estranho: senti uma felicidade gigante, como se tudo naquele preciso instante fosse perfeito. E, nesse inusitado rasgo de harmonia, senti que tinha perdoado o sacana que acabara de me atirar ao chão.

Ontem foi a vez de tomar o peso à gratidão. É esmagador. E sinto-me igualmente grato aos meus amigos pelas Sanjo. Por me permitirem compreender o valor inestimável de um par de sapatilhas de aprender.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Corrector geográfico

Nada como um empatezão - um empatezorro! - na Luz para ressuscitar o segundo clube preferido dos sportinguistas: "o Carnide". "O Carnide" invadiu, desde ontem [anteontem] à noite, tudo o que é forum dessa internet, dos comentários d'A Bola aos blogues, passando por grupos do facebook.

Dou de barato a deselegância, afinal é de bola que se trata e não vale a pena andar aqui com mariquices. Mas, como sou sensível à vertente pedagógica e ao rigor, para além de não gostar de ver-vos fazer figura de urso, repito o que digo há anos: Carnide é uma simpática freguesia de Lisboa, já nas franjas da cidade, que acaba, a Sul, na segunda circular. Olhando para o mapa e associando-o à expressão, "o Carnide" tanto pode referir-se ao Benfica como ao Sporting ou ao Fofó.

Se querem mesmo amesquinhar com o nome do Clube que vos dá a sombra, chamem-lhe "o São Domingos" (é em São Domingos de Benfica que fica a Catedral onde ontem [anteontem] vos foi concedido o milagre). Se preferirem, usem diminutivo, "o sãodominguinhos", por exemplo. Qualquer coisa. Mas deixem de ser ignorantes.

Não têm de quê.

NOTA: esta é uma republicação de um texto originalmente escrito no facebook. Trata-se, como o leitor já terá concluído, de um fruto da preguiça de escrever coisas novas e, porque não, da falta de assunto, que eu não sei quem é o Cristante.

16 de Abril sempre!

Se escrever crónicas fosse como andar de bicicleta, é certinho que eu ainda saberia como começar este texto. Sim, estou a assumir que já soube escrever crónicas - contestem à vossa vontade, é só uma opinião. Estou a presumir que ainda alguém lê o que escrevo - e contrariem-me se não me estiverem a ler.

Muito Benfiquismo se passou desde a última vez que aqui vim dizer qualquer coisa. A verdade é que não senti que tivesse o que quer que fosse de pertinente ou especial para partilhar com o mundo num formato que ultrapassasse as três ou quatro linhas que uma laracha de facebook demora. Depois, quando me apeteceu escrever, desatámos a ser campeões e a ganhar taças e a perder uefas mas só nos penalties. Quando se ganha, não há criatividade que resista: está tudo dito, ali, no campo, no placard, no troféu que o capitão ergue no ar, nos confétis, no Marquês de Pombal, na barbearia do Carlos aqui por baixo de minha casa, no mundo, no meu rosto, nos meus sonhos, no meu espelho ao acordar: "bom dia, seu campeão lindo...". Acrescentar-lhe o quê? Que lá estive para os aplaudir? Mal de mim se não estivesse - e nem faria lá falta.

Mais tarde, meteu-se o campeonato do Mundo, que é uma prova que está à vista de toda a gente, a toda a hora, em toda a parte. Se a senhora da padaria consegue comentar com a vizinha da frente um Alemanha - Portugal, para quê dar-me ao trabalho de acrescentar o que quer que seja? Se eu acho que o Pepe foi bem expulso? Eu acho que o Pepe é um bocadinho malcriadão, portanto comigo estará sempre fodido.

Entretanto, meteram-se as férias, deu-se a debandada da Luz, eu andei a trabalhar, houve calor mas pouco, fui à praia, tratei da cadela, passeei um bocadinho, aturei turistas, tuk-tuks e clics de iphones a fotografar em toda a parte, à minha porta, de frente para mim, nas minhas costas, enquanto me distraía, enquanto apanhava os cocós desta cabra que me está a roer os chinelos outra vez - puta que a pariu -, enquanto enrolava cigarros, enquanto bebia uma cerveja a olhar para as paredes do bairro, para os estrangeiros do bairro, para as francesas a falar inglês com o condutor do tuk-tuk que é italiano e que lhes está a contar a história de Lisboa e que é tudo quase cemporcento mentira. Nessa altura, abdiquei das aliterações e não me meti em metáforas. Foi um descanso santo. O mais intelectual que fiz foi ler qualquer coisa do Paul Auster - e foram três ou quatro semanas para pouco mais de 300 páginas. Paul Auster, vejam bem.

Quando me senti finalmente revigorado e pronto para falar do Benfica, do que é o Benfica ou, no mínimo, dos meus dramas de Benfiquista, veio o Valência e comprou quase tudo e eu estive quase para assinar por eles também, já estava afeiçoado a boa parte daquela equipa que eles têm agora. Disse-me um amigo «é uma espécie de Benfica a preto e branco» e quase me vieram as lágrimas aos olhos ao recordar-me da nossa Equipa quando ainda ganhava finais europeias. Mas recompus-me.

Senti tristeza quando dei por mim, campeão, a sentir-me descampionizado ainda a bola não tinha começado a rolar. Depois o Enzo ou ia ou ficava, mas quase de certeza que ia e se fosse descíamos à segunda divisão e o Clube mais valia fechar as portas. Dei comigo a querer escrever mas sem saber o que pensar. Por mim, não fecham as portas nunca, nem que o Enzo vá para o Sporting e a gente desça aos distritais. Mas o Enzo foi ficando, a defesa que era uma miséria não sofria golos, o Artur defendeu penalties, ganhámos uma supertaça e a seguir vinha o Sporting. Evidentemente, não escrevi, estava tudo a correr tão bem que eu não queria enguiçar esta merda.

Durante a pausa, perdi qualidades na contenção do vernáculo. Naturalmente, é falta de treino. No fim de contas, nem o Benfica ganhou ao Sporting, nem o Artur defendeu penalties do Nani, nem o Enzo foi para o Valência - e ainda bem que renovei o Redpass, assim sendo, em vez de ir atrás do Rodrigo e do outro miúdo.

Tem graça pensar no rapaz agora. É que foi ele, o André Gomes, quem fez surgir o título deste texto, iam decorridos uns oitenta minutos, mais ou menos, de um Benfica - Porto para a Taça de Portugal, jogávamos nós com dez, mais coisa, menos coisa. Estávamos, dias depois e na véspera dos 40 anos da Revolução, numa jantarada de amigos, imbuídos do espírito revolucionário e concluímos que o André Gomes foi o nosso pequeno Salgueiro Maia, símbolo maior da insurreição contra o poder instituído, ícone de um povo farto de ser submisso, transposição física para o relvado da vontade democrática de uma multidão oprimida.

Foi a 16 de Abril que virámos uma eliminatória contra o rival-novo, foi nesse dia que, em desvantagem, com tudo contra nós e como há muito tempo não se via, mostrámos a força, a garra e o talento para fazer melhor do que eles. «É desta que o regime cai», comentámos, brindando com uma bebida qualquer de elevado teor alcoólico enquanto um senhor declamava, sem jeito nenhum, o FMI do Zé Mário Branco - uma coisa medonha, não se deve ofender assim a poesia. «16 de Abril sempre!», gritámos, cheios de sonhos e de ingenuidade. E então prometi: «será esse o título do meu próximo texto». Aqui estou eu, a cumprir a promessa.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Soberba crítica

«Soberba lampiónica». Se eu ganhasse um cêntimo por cada vez que ouço ou leio esta expressão sempre que o Benfica está no caminho do sucesso, a esta hora já podia pagar duas ou três cervejas no Manelito. Agora, façam as contas.

Um Benfiquista que festeja, que celebra ou que simplesmente está feliz é automaticamente arrumado sob a etiqueta da tal «soberba». Não importa se tem razões para estar contente ou se simplesmente fala com alegria da equipa que o alegra: tem «soberba lampiónica», ponto.

Às vezes, ponho-me a pensar em quem nos avalia - nos nossos comentadores, no cidadão comum que é adepto de outro clube, nos nossos juízes de costumes, nos nossos críticos, nos nossos censores morais, de um modo geral. Em cada esquina há um olheiro que toma notas sobre o nosso comportamento - desde a nossa reacção no momento da vitória, às músicas que ouvimos ou fazemos, passando pela ideologia que defendemos (ou não) e a nossa relação com a política deste Estado: todas as escolhas que fazemos, seja na hora de criar, seja na hora de aceitar, são escrutinadas por terceiros.

Pois então, tenho umas coisas para vos dizer. Quando olho, por exemplo, para a nossa "crise" - que é tão comentada e tão avaliada por gente que, no fim do comentário, se mete no seu BMW X5, no seu Range Rover, no seu Porsche Carrera -, avalio-a como quem não apenas a olha de perto; sinto-a antes como alguém que chega ao ponto de a sentir na pele. Eu sei o que significa "crise". E não é nada daquilo que vocês dizem, com conceitos muito aparentemente técnicos e terminologia a transbordar de estrangeirismos - crise é não ter dinheiro nem trabalho. Isso é que é crise. Portanto, não me digam o que fazer com quem me governa, nem me apontem em quem devo votar ou se devo votar ou não - a minha vontade de meter uma cruz em alguma dessa gente vai muito para lá da caneta e do papel.

E quando ouço uma banda na rádio ou leio sobre ela na imprensa, tenho de a respeitar. Posso não gostar do que ouço, posso até nem simpatizar com a atitude ou com a pose - mas se estou a ouvi-la é porque, no mínimo, aquela gente trabalhou no duro o suficiente para chegar ali, aos meus ouvidos. E isso merece-me respeito. Portanto, quando a criticarem pensem nisso: aquela gente trabalhou, ensaiou, sofreu ao vivo, carregou amplificadores, baterias e guitarras, conquistou público, perdeu dinheiro e fez tudo isto por amor a uma única coisa: a sua própria música. Isto tem de merecer respeito.

Não me quero dispersar - eu tinha tanta coisa para dizer sobre o assunto -, quero mesmo apontar o dedo a quem mo aponta a mim: eu não vejo o Benfica no sofá, nem sequer num camarote. Vejo-o no Terceiro Anel e vejo-o sempre que joga em casa - seja quando vem de derrotas com o Marítimo na primeira jornada, seja quando está a um passo de se sagrar campeão, quer chova, faça sol ou voem pedaços de lã de rocha e placas de zinco. Eu estou lá.

Eu, que o ano passado perdi tudo em quinze dias, estou lá e continuarei a estar. Se sofri? Eu sofro até quando estamos a ganhar 3 a 0 à Académica e faltam sete minutos para acabar porque "isto ainda pode dar a volta". Portanto, quando Jesus caiu de joelhos, quando o Enzo caiu sobre o peito, em lágrimas, quando o Cardozo perdeu a cabeça, eu não sofri: eu mudei. Eu festejo o que me apetecer quando eu quiser e vou ao Marquês todos os dias se me aprouver, só para fazer o reconhecimento do terreno: eu ganhei esse direito naquele mês de Maio de 2013 que a minha memória não há-de apagar nunca. Não, não vou guardar os festejos para o fim. O ano passado o Benfica deu-me uma grande lição: festeja sempre que puderes. Pois, é isso que tenho feito. E a vossa soberba crítica é muito pior que a minha soberba lampiónica.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Carrega, Lolita!

Olá. Esta é a Lolita. Na verdade, é a Twiggy Lolita Josefina, assim, por extenso. Noto nos olhares desconfiados e nos sobrolhos franzidos de alguns dos leitores a curva intrigada da interrogação "mas por que caralho é que este mariconço me vem falar de cachorras com nomes compridos e esquisitos em dia de Clássico no Dragão?!". Se acham isso estranho, haviam de me ver em situações ainda mais embaraçosas. Eu, que li manuais sobre paternidades canídeas, eu, que sempre acreditei que um cão é um bicho e só um bicho, eu, que agora dou por mim com lenga-lengas cantaroladas "Lolita cabrita saltita" e algumas ainda piores, enquanto finto a cachorra sobre o tapete vermelho, para raiva dela e meu deleite.

Lolita aguarda, concentradíssima, a marcação do pontapé de canto.

Muita gente me tem perguntado "olha, e já a fizeste sócia?" e eu não tenho respondido, mas aqui fica o esclarecimento: não, ainda não fiz. Partilhando-a, como partilho, com a Lady Verde, considerei que talvez fosse demasiado arriscado registá-la logo assim, à bruta. Vamos com calma, temos tempo. Consegui, no entanto, persuadir a Lady em determinados assuntos - a trela e a coleira são encarnadas ("ó amor, esta cor vai tão bem com o branco dela... o branco e o preto, aliás"). E vai mesmo.

Lolita lançando-se sobre o esférico para um corte de excelência. A jovem estrela demonstra aqui todo o seu potencial físico, para além de uma garra fora de série.

Uma das coisas mais intrigantes, a roçar mesmo o bizarro, que me aconteceram quando fui buscar a cachorra foi, no momento em que a vi, ter pensado inusitadamente "em que posição é que ela pode jogar?". Não estou a exagerar nem a fantasiar: eu pensei mesmo isto. "Salta muito bem, tem boa elevação" foi logo a minha primeira impressão. Mais tarde, já em casa, atirei-lhe a bola. Não só não a dominou como imediatamente se desinteressou do lance e eu pensei "mau... tu queres ver?". No dia seguinte, vi-me obrigado a desafiá-la para uma peladinha intensa - reagiu bem e mostrou dotes, mas ainda se cansou depressa. Agora, passada uma semana desde a sua chegada, parece estar a atingir um pico de forma. Nos primeiros dias, lembrava-me o Javi Garcia: muito bem posicionalmente, saltava como poucos e ocupava bem os espaços - mas faltava-lhe algo mais; evoluiu para uma espécie de Matic: juntou ao poder nas alturas e à inteligência posicional, um domínio de bola com finésse e uma quase omni-presença sobre o terreno de jogo; hoje revelou-se um autêntico Enzo Pérez: joga e faz-me jogar, conduz a bola, atira-se-me às canelas, luta por cada milímetro, marca-me impiedosamente e ainda me dá cabo dos rins.

Lolita, depois de sair para receber os merecidos aplausos, ouve atentamente os cânticos do dono (que preferimos não reproduzir). Que grande exibição!

O aspecto que Lolita mais precisa de trabalhar é a disciplina táctica: impossibilitada de ir à rua, tem de aprender a fazer no jornal. Apesar dos claros sinais de progresso que apresenta, há ainda muito a melhorar. Abundam jornais velhos cá por casa - a maior parte deles são A Bola. Escolho, claro, cuidadosamente as páginas que uso para o efeito da educação dejectante do animal. Tenho evitado as páginas dedicadas ao desporto (normalmente, recorro à secção Outros Mundos, com especial incidência nas notícias sobre a crise, as eleições europeias ou anúncios de cortes). Mas hoje, excepcionalmente, recorri à secção do FC Porto - tem corrido razoavelmente, apesar de não poder falar em "sucesso retumbante" - já fui obrigado a servir-me da esfregona quatro vezes, inclusivamente. De qualquer modo, mantenho a esperança que este novo modelo de jogo resulte, abençoando a partida de logo à noite.

domingo, 16 de março de 2014

Os quatro, os três e os outros dois

Vou escrever um texto porque o Funes Mori conseguiu um póquer. Tem sido uma semana cheia de assuntos, mas vou focar-me primeiro naquele que mais mexeu comigo: o Lima, que chegou ao Benfica há quase dois anos por quase cinco milhões de euros, nunca conseguiu um póquer com a Digníssima vestida. Repito aqui o que escrevi na altura em que comprámos o Lima ao Braga: por esse preço, com aquela idade, oriundo daquele clube e com o fraco currículo que trazia, seria bom que rapidamente marcasse quatro num só jogo para que, na minha cabeça, toda a operação fizesse algum sentido. Hoje à tarde, um jogador que há três anos surgiu num sonho meu - um sonho normal de Benfiquista: sonhei que o tínhamos contratado, só isso... -, enfiou quatro nas redes de um Sporting (o da Covilhã) devidamente equipado com riscas verdes sobre fundo branco. Achei que este momento merecia ser assinalado neste blogue.

Sobre os outros temas da semana, gostaria de começar pelo assunto "Jorge Jesus e os três". Na minha opinião, foram poucos. Para aquilo que jogámos, devíamos ter metido mais um, pelo menos - e o Siqueira bem que podia tê-lo feito, mesmo no finalzinho do jogo. Não diria que fiquei indignado, até porque o resultado foi positivo. Mas compreendo a surpresa do Jesus quando perguntou, por gestos, "como é isto, só três?"

Sobre os roubos de que os nossos rivais se dizem vítimas, tenho a dizer muito pouco. Mas gostaria de deixar claro um ponto: a afirmação peremptória de uma opinião não a transforma necessariamente num facto nem obriga a generalidade das pessoas a aceitá-la. O levantamento supostamente isento que o jornal do Sporting fez deixa muito a desejar ao nível da seriedade (não peço, sequer, imparcialidade). A razão não se conquista repetindo centenas de vezes a mesma opinião - há que justificá-la com seriedade, com justiça e com factos, não com opiniões ou com meios-factos e omissões. Acredito que o Sporting tenha razão em algumas situações, mas discordo de que tenha vindo a ser sistematicamente prejudicado. Uma análise séria revelará, creio eu (e não fiz um levantamento rigoroso, isto é uma impressão), um equilíbrio entre o dever e o haver - tal como no caso do Benfica, já agora. Não será uma conferência de imprensa de voz grossa em horário nobre com a intenção de mobilizar os próprios adeptos a dizer "basta" que me vai convencer do contrário. Eu tenho olhos e ainda sei ver futebol.

Para o clássico de amanhã, desejo que o Sporting seja amplamente beneficiado, a bem das ironias da justiça desportiva, por um lado, mas sobretudo com vista à justiça poética. O resultado é-me indiferente (se bem que um empate não me caía mal).

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Não digo que vamos ser campeões

Ontem, após a boa vitória do Estoril num campo tradicionalmente difícil, houve quem alertasse - com alguma sabedoria, diga-se - para a possibilidade de os Benfiquistas "andarem outra vez a plantar melões para colher em Maio".

Por norma, dispenso os conselhos no que respeita ao bom senso, sobretudo porque me considero razoavelmente sensato. Não tenho o hábito de festejar antes do tempo e costumo ser céptico até ao último segundo - tirando o ano passado, quando, aos 91 minutos da penúltima jornada, pensei, lembro-me bem, "que se lixe, não festejamos hoje, festejamos para a semana". Não festejámos.

Custa muito perder, sempre; mas custa muito mais perder quando estamos à espera de ganhar. Agora, não sei o que será melhor: deixar fluir, sem disfarces, a felicidade e desfrutar dela quando estamos à beirinha da vitória, libertando o espírito e as amarras pessimistas dos "e se... e se não..." ou aguardarmos serenamente e em contenção um desfecho que nos seja favorável para que festejemos então?

A razão diz-me para optar pela primeira; mas o meu Benfiquismo e a minha razão mal se falam. Na verdade, nem sei se se conhecem. Por mais cautelas que eu use para segurar as euforias, por mais que consiga filtrar o que vai do que sinto até ao que deixo transparecer, a verdade é que a paixão e a fé me reduzem a um dos estados de que mais me orgulho: o do Benfiquista que sente que isto já está ganho.

E eu sei que não está. Estamos em Fevereiro. Nos últimos dois Fevereiros também íamos assim, a liderar a tabela, intocáveis, invencíveis, os mais fortes, os maiores, os futuros campeões. Os donos e senhores da montanha que tem a mania de parir ratos. Mas lá porque eu sei que não está ganho, tal não significa que eu não sinta que vamos ganhar. Como diria Mourinho «não digo que vamos ser campeões. Penso que vamos ser, mas não digo».

Em Setembro eu estava à espera - não no sentido de desejar, mas de contar que acontecesse - de mais um deslize para que o Jesus finalmente caísse, para que a direcção fosse contestada, para que a equipa se desfizesse: tudo me parecia bastante errado, desequilibrado e sem norte. Seis meses mais tarde, vejo o Benfica em primeiro, a mostrar-se superior aos adversários directos e em todas as competições - houve o deslize na Champions mas, ainda assim, um deslize com 10 pontos e algum azar à mistura, nada que envergonhe.

Eu sei que o mais provável é que logo, pelas dez da noite, quando eu vier a subir do Estádio para a roulote, eu venha a pensar «foda-se, como é que é possível?! Porque é que a gente nunca aproveita estes momentos, porque é que temos sempre de falhar?!» Se não for um empate merdoso, há-de ser um penalty habilidoso ou nove falhanços do Lima ou a expulsão prematura do Fejsa ou um frango do Oblak - alguma coisa há-de correr mal. Mas enquanto corre e não corre... obviamente, não digo que vamos ser campeões. Mas há coisas mais impossíveis.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Que haja jogo

Não era bem isto que eu tinha em mente quando desejei "um derby inesquecível". Nenhum derby deve terminar mais do que duas horas e meia após o apito inicial, sob pena de agravar os danos nervosos e o desgaste emocional que naturalmente inflige sobre os sofredores apenas porque existe - e acrescente-se que um derby começa a existir muitos dias antes do começo do jogo.

Há menos de um ano, queixava-me que O Derby já não me causava arrepios e dores de estômago como antigamente. Poucos meses passados, aqui tenho a minha resposta: um bónus de 48 horas extra para um sofrimento a que já não estava habituado. E, como se não bastasse a aparente melhoria em termos de menos miséria do lado do rival, a incerteza sobre o que irá acontecer amanhã não se ficará apenas pelo relvado - pelo contrário, passarei aquelas duas horas com um olho na relva e o outro no telhado.

Estou habituado a sair de casa e descer a rua, a caminho de Santa Apolónia, com o cachecol ao pescoço, determinado, sempre apreensivo e concentrado, a caminho do metro que me levará à Luz. Baixo a cabeça, foco-me no chão, nas pedras do caminho, na descida íngreme da Calçada do Forte. Mas consigo sentir os olhares das pessoas e os seus pensamentos «ali vai um Benfiquista», pensam elas, «lá vai ele a caminho do Estádio». Sinto, no meio das minhas conjecturas apreensivas e entre esquemas tácticos ideais que vou elaborando, uma espécie de vaidade, como se eu fosse um bravo artilheiro prestes a embarcar com destino a uma guerra longínqua. «Lá vai ele», suspiram as velhinhas às suas janelas, «tão jovem... vai para a Luz» sussurram para si mesmas, misturando medo, esperança e admiração por este seu soldado desconhecido.

Amanhã saírei de casa bem cedo. Quero apanhar ainda um resto de luz do dia para que as velhinhas possam ver-me passar, de cachecol ao pescoço, e exclamar entre dentes, numa espécie de oração, «que bravo é o nosso menino. Lá vai ele outra vez, sempre corajoso, mesmo perante a intempérie».

Não me censurem pela vaidade - o Benfiquismo concede-me estes pequenos luxos e sempre fui um Benfiquista orgulhoso. Trabalho apenas com a circunstância tentando extrair o melhor de toda a adversidade. E conto ouvir pelo caminho, como se fosse um piropo, «esperemos que hoje haja jogo» e que da janela em frente uma anciã responda de pronto «e que ganhe o nosso Benfica!».

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O Sócio Proponente

Afastado do Catolicismo, apesar do tradicional baptismo, não me restavam grandes esperanças de algum dia vir a ser padrinho. Até que o meu amigo Paulo me pediu, há uns dias, que apresentasse o seu filho Manuel - uma Manelinho nascido em finais de Setembro - à magia do Benfiquismo. Foi um grande orgulho para mim esse convite, senti-me profundamente honrado - não tenho palavras que cheguem para descrever a alegria comovida que senti. Hoje joga-se o primeiro derby do Benfiquismo do Manuel. Que o dia fique na história e que um dia eu possa falar-lhe deste jogo, dando-o como exemplo dos mais bonitos derbies.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Aquela palavra distinta

É uma das mais brilhantes palavras da língua portuguesa e chama-se "foda-se". Com o tempo e o uso, foi-se afastando lentamente do significado primordial que o latim lhe atribuía e a associava a escavação, perfuração, penetração ou rompimento, até se tornar, nos dias que correm, numa arma de arremesso verbal, muito mais do que num signo recheado de significado concreto.

Não se tratando de uma arma das mais pesadas ao nível da ofensa, tem a seu favor o efeito e os sinais de um impulso forte e a verdade franca que só as expressões de abstracção universalmente aceite podem conter. Um "foda-se" é uma explosão rápida mas intensa, simples mas incisivamente clara em relação a tudo o que se pensa e se quer dizer no milissegundo imediatamente anterior ao da sua detonação.

Curta, pobre nos contornos fonéticos, marginalizada em vários contextos sociais e atrelada a um breve mas pesado sufixo que a reflecte na direcção do próprio alvo ou de um abstracto inconcretizável, a palavra "foda-se" é, ao contrário do que a descrição pode sugerir, uma expressão rica em virtudes. Diria mesmo que tem uma existência nobre - sempre digna e composta, coexiste entre banalidades, palavrões e erudição com um à-vontade elegante.

De entre estas virtudes, destaco no "foda-se" uma raríssima - senão mesmo única - qualidade: apesar da sua essência verbal, a palavra nem sempre carece de verbalização. A sua peculiar elasticidade permitiu que, com a cultura, o jeito e o hábito, o ser humano aprendesse a revestir com ela o olhar, os lábios e a testa, acrescentando ao "foda-se" uma dimensão etérea e permitindo, deste modo, que a palavra se mantivesse implacável até no silêncio.

Quando Carlos Dias da Silva perguntou a Sílvio se «trocava a sua carreira pela vida do pai», houve um "foda-se" que se manifestou em todo o seu esplendor - não falo daquele na minha mente, mas antes do outro que, qual aparição, se iluminou na expressão genuína e pura do jogador. Creio que foi o "foda-se" mais bonito que vi em toda a minha vida.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Curta-metragem

-Olha, sabes... (ela, alongando o rosto - do pescoço para o espelho - e as pestanas - das pálpebras para o mundo - enquanto põe rimel) já sinto saudades do King...
-Também eu, baby... Desde o primeiro momento, aliás. Ele era muito importante para mim... Bom, para mim e para todos nós, Benfiquistas, claro. Com a partida dele, perdeu-se o maior símbolo vivo do Benfica. Vai ser difícil lidar com a sua ausência. Aquela despedia... tudo isto mexeu muito comigo. O peso dele sobre nós, sobre o Clube, sobre a equipa era... monumental.
-(Ela, pondo baton) Estava a falar do (pausa para fazer expressões frente ao espelho, ora alongando os lábrios, ora juntando-os como se beijasse a sua magnífica imagem) do cinema, querido... (comprimindo os lábios, espalhando o baton) Do cinema.
-Ah... claro...
-(ela, remexendo a mala, certificando-se de que já guardou as chaves de casa - não guardou, estão sobre a mesa da entrada, é lá que estão sempre) Mas pronto... (encontrou-as, guardou-as) não há King, contentemo-nos com o Monumental, como tu dizes. (ajeita o chapéu e abre a porta.)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O símbolo e a cor

Uma última homenagem deve obedecer a determinados preceitos. Comecei pela roupa. Este luto é encarnado, mas o cinzento triste deste dia e o carácter de despedida da ocasião empurraram-me até tons mais sorumbáticos: calças pretas, camisola cinzenta bem escura, casaco negro. Por dentro, uma camisa em quadrícula vermela e branca, porém discreta. Debaixo da camisa, uma t-shirt bordeaux. Experimentei vários cachecóis, todos eles encarnados. Mas o berrante da cor pareceu-me inapropriado - é dia de perda, não me apetece berrar com o cachecol. Preferi o bordeaux, uma vez mais. Partilhando com o vermelho a essência magenta, pareceu-me o tom adequado - mais sussurro, menos gritaria, a mesma natureza Benfiquista.

Há quem considere o luto nacional de três dias um exagero de Estado e há quem classifique a tristeza apaixonada de quem chora Eusébio como "ridícula". Sobre o luto nacional, não me pronuncio - eu faço o meu, à minha maneira, com ou sem Nação enlutada. Quanto ao "ridículo" aceito-o com humildade. Aprendi com o tempo que a capacidade de ser ridículo é essencial ao ser humano. Há quem pretenda que o Homem seja um complexo biomecânico dotado de intelecto e governado pela razão e pela lógica. Sendo o Homem um bicho inteligente, espera-se dele que seja todo ciência e bom senso. Eu discordo dessa ideia e reclamo o meu direito à paixão e à veneração.

Pode parecer patético ter símbolos e idolatrar em pleno século XXI. Pode até sê-lo, para além de parecê-lo. Sucede que tenho mesmo ídolos e que hoje me despedi do maior de todos eles. E é isso que me faz triste, essa perda, esta despedida. Não são a surpresa nem a carga trágica do evento que me deixam de rastos, é o vazio e a ausência que ontem nasceram que me fazem sentir mais abandonado e, de um modo um tanto infantil, menos protegido.

No Estádio, a consternação ia sendo disfarçado pelos cânticos incansáveis das claques que pontualmente se alastravam aos milhares que povoavam o primeiro anel. Aguardava-se a chegada do Rei com paciência. Num momento de silêncio mais longo e pesado dei por mim a desejar que ele não chegasse, que fosse tudo um engano e que o speaker dissesse «meus amigos, o Rei Eusébio teve alta», mas o speaker ligou o microfone e disse, com voz grave, devagarinho, «vai entrar no Estádio Eusébio da Silva Ferreira» e ainda o «Ferreira» não estava completo já o aplauso soava, apoteótico.

Quando o carro parou, a multidão suspendeu-se sobre os gestos da cerimónia: abriram a porta e prepararam-se para tirar de lá de dentro o ataúde. Ao longe, vislumbrei o vermelho da nossa bandeira, a cabeça da águia no símbolo, várias mãos a arrumá-la sobre o tampo do esquife. E então Eusébio foi levado em ombros ao centro do relvado onde um trono horizonal o esperava e eu imaginei-o naquele seu gesto inesquecível, de mãos no ar, aplaudindo quem o aplaudia numa volta lenta de 360º sobre si mesmo.

Nunca o aplaudi enquanto, no relvado, nos defendeu a cor com a bola nos pés abençoados - descontando a ocasião do seu 50.º aniversário, mas então era um jogo de amigos. Nasci em 1979, no ano em que Eusébio se retirou. Não culpo os meus pais, que me fizeram quando puderam, mas tenho pena que os meus 34 anos de Eusébio tenham sido a vê-lo ora de fato e gravata, ora de fato de treino com a toalha branca enrolada na mão. Por isso hoje não poderia deixar de aplaudi-lo na sua última subida ao relvado, poucas horas antes de descer à terra, poucas horas depois de ter ascendido ao Panteão do futebol.

A urna regressou ao carro e eu vi o Eusébio a enxugar as lágrimas à camisola pela última vez. Começou então a marcha lenta da sua volta Olímpica, Eusébio escondido de braços sobre o peito, Eusébio de braço direito erguido acenando aos súbditos como quem se despede. E o aplauso geral começou com cadência mansinha. À medida que Eusébio corria devagarinho em redor da relva, o burburinho ia aumentando. Até que o carro parou na curva dos Rapazes Sem Nome e eu senti uma aflição na garganta e os olhos marejados. Ao meu lado, um senhor mais velho, daqueles que se lembram bem do Eusébio aos pontapés à bola, limpava as lágrimas com o lenço com que acenava. Eusébio passou depois em frente a mim, as pessoas atiravam-lhe cachecóis e eu não conseguia parar de aplaudir. Quando, na última curva, o cortejo voltou a estagnar, quis acenar-lhe um adeus sincero, um adeus visceral, do fundo do estômago, mas o meu corpo fez-me aplaudi-lo insanamente, como se todas as forças que fui juntando ao longo do dia tivessem como destino aquele aplauso frenético.

Depois o carro saiu, o Eusébio foi-se embora.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Nunca vou chegar a casa

Este luto não tem cor. Naturalmente, este luto é, para mim, vermelho. Encarnado.

- Então, senhor Manel? O nosso Eusébio...

- ... morreu-nos o Rei... o King...

- ...

- As televisões agora não param, é só Eusébio, Eusébio, Eusébio

- Nem podia ser doutra maneira.

- Nem podia ser doutra maneira... Mas é as televisões todas, é cá, é na Inglaterra, é na Espanha, é no Brasil...

Quando fico triste vou para casa. Hoje eu não tinha casa. O Estádio do Eusébio já não existe e o Eusébio morreu. É tudo um grande vazio. Fui à Típica beber uma cerveja e ver os noticiários a noticiar que o Eusébio morreu. O meu Eusébio. O nosso Eusébio.

Entre as garrafas de Real Companhia Velha, outras de que não me recordo e cachecóis do Benfica, lá estava ele, emoldurado e a cores, o Rei. Na televisão ainda dava o Real Sociedad - Athletic. Moldura de couro. Gente de outros clubes a dar os pêsames. Eu pedi mais uma cerveja, ia começar o noticiário.

O Eusébio era o nosso Eusébio, mas não para mim. O Eusébio não era vosso, era meu - era o meu tio mais velho, aquele que foi bem-sucedido, que era famoso, que conquistou coisas, que conseguiu feitos notáveis. O Eusébio era o orgulho da família. Da minha família.

Há o trisavô Cosme, de quem toda a gente conhece as histórias e os feitos. Foi ele quem começou esta aventura, quem sonhou esta coisa - esta coisa à qual boa parte da forma foi dada pelo meu tio Eusébio. Há avós variados: o Grande Rogério Pipi, o Enorme José Águas, o Mestre Coluna. «Senhor Coluna», diria o Eusébio. Mas o tio que a gente admirava mais era ele, o Eusébio.

Nos noticiários, diziam que o Eusébio era da Silva Ferreira, mas isso era derivado do seu nascimento. Porque o Eusébio era meu. Era do Benfica que eu herdei e que vai desaparecendo, que se vai consumindo em modernidades, com cadeirinhas encarnadas a toda a volta e vitórias que são quase, quase, quase, e grandes encaixes financeiros de sabe-se lá o quê, e de estruturas que ficam mais sólidas mas de que não se sabe bem o propósito. No fundo, o Eusébio jogava à bola como niguém e isso faz-me falta.

O Eusébio está morto, viva o Rei! Mas não temos príncipe herdeiro... E agora não sei o que fazer com isto, com este enorme Benfica que eu herdei e que se está a esvaír de heróis. Eu queria tanto dizer ao Eusébio para descansar em paz, queria recebê-lo à saída do campo, na linha do meio-campo, e dizer-lhe «descansa em paz, Eusébio, que o Rodrigo ou o Cardozo ou Lima vai e resolve o assunto». Mas não posso, eu nunca mentiria ao Eusébio.

A notícia foi-me dada assim: estava a dormir - eu durmo até tarde - e a Lady Verde chegou e disse «vamos lá a acordar...» e eu, a custo, abri os olhos para ela e ela disse «tenho uma notícia triste... uma notícia triste para o mundo... e para ti» e eu voltei-me de barriga para cima, olhei para ela e disse «o quê?» e ela disse com suavidade «o Eusébio morreu». «E é assim que me dás a notícia?!»

Levantei-me e fui tomar o pequeno-almoço, já era quase uma da tarde. Comi as torradas e bebi o café. Sabia-me tudo a desamparo, a solidão.

Cheguei da Típica e a Lady Verde estava a ver os noticiários. «Já chorei por causa do Eusébio», disse ela.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A marca da Vitória

Não sei bem por onde começar. Tenho passado o meu tempo de frente para o futebol, a vê-lo, a lê-lo e a escrevê-lo. O futebol é este meu ecrã e podia perfeitamente chamar-se Clube Desportivo Samsung (era o mais barato) ou Windows 8 Football Club.

É curioso que esta apropriação do futebol sobre mim tenha resultado num esfriar de relações entre mim e o Benfica. Não se trata de um distanciamento real, eu continuo lá, no Estádio, e continuo atento, mesmo quando estou longe. Mas tornou-se mais complicado escrever apaixonadamente sobre o assunto que mais me encanta.

Às vezes, algumas pessoas perguntam-me se vou acabar com o blogue. A pergunta é pertinente, até porque este ano tem sido, para mim, de roturas e desfechos mais ou menos bruscos. Às vezes, é preciso acabar com coisas, fechar ciclos, bater com portas, para ganhar um novo fôlego e algum balanço, para experimentar novidades. Resumindo, a rotina começava a entediar-me.

Mas não, não vou acabar com o blogue. Por quem sois, o nome disto é o meu número de sócio, faz parte da minha identidade, caramba. Na carteira, faz mesmo parte da minha identificação. Aliás, a minha identificação foi reforçada com um Redpass, que ocupa um lugar na hierarquia dos documentos à frente do Cartão do Cidadão, do Visa Electron e do cartão da Multicare, ao qual quase não dou uso e devia, que tenho um tratamento dentário a meio do caminho e esqueço-me sempre de marcar a porra das consultas, ainda bem que agora falo nisso, vou já tomar nota. Mas não vou pôr aparelho, não é isso: os dentes continuarão tortos - endireitá-los seria tornar-me um desconhecido perante mim mesmo, seria um transtorno da minha própria identidade quase tão grave quanto a anulação do meu número de sócio.

A minha estreia com o Redpass foi promissora: chego ao meu lugar, sector 6, 3.º anel, mesmo na curva por cima do sítio onde o Aimar batia os cantos - em todos jogos ainda espero vê-lo pegar na bola, tomar balanço e lavantar o braço, depois correr e chutar para a entrada da área, onde aparece o Gaitán a rematar de primeira, sem deixar bater -, e deparo-me com uma valente cagadela de pássaro - mas de um pássaro grande, forte, poderoso e belo - na minha cadeira. Já não era fresca, mas ninguém tratou de limpar e, como ainda não tinha chovido porque era Verão - foi no Benfica - Gil Vicente -, as marcas ainda lá estavam, com todo o contorno e preenchimento. Pensei para comigo ai, Vitória, Vitória... 65 mil luares no Estádio e foste logo escolher o meu, minha querida e a seguir sentei-me na minha magnífica poltrona encarnada com vistosa lista branca.

A verdade é que o Benfica ganhou dois a um, virando o resultado nos descontos, quando já muita gente acenava lenços brancos de papel, os mesmos com que alguns acabariam por secar as lágrimas de felicidade.

Os lenços brancos continuam por aí, em bolsos mais ou menos nervosos. O Benfica não nos descansa e a gente não dá descanso ao Benfica. Uns assobiam, outros pedem cabeças. O Presidente Vieira faz dez anos de poder, o Jesus vai a caminho dos cinco de comando no terreno, as vitrines estão pouco mais preenchidas do que estavam nos dias em que cada um deles chegou ao seu cargo. Isto, posto assim, sugere que a rotina está a pedir quebra. De qualquer modo, a época parece-me sem remédio, não nos vejo com alma fresca o suficiente para voltar àquele ponto maravilhoso em que nos encontrávamos a 5 de Maio de 2013.

Bom, mas hoje joga o Benfica e tudo o que eu tenho é saudades de vê-Lo jogar.