sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Episódios de uma barbearia de bairro

E discursava o barbeiro, como um sábio, de roda de um senhor de meia idade que aparava um corte muito clássico

-... porque a nossa equipa... ahn, ao contrário da deles... o nosso grupo nota-se que está unido. É um bom grupo...

Ao fundo da barbearia, folheando distraidamente A Bola, diz outro senhor

-Mas qual grupo? Não encontro o vosso... Já li isto de uma ponta à outra...

-Ó homem, o grupo... a equipa.

-Os grupinhos é que dão cabo das equipas. (sempre a ler o jornal, sem levantar os olhos do papel) No Benfica foi o dos russos, primeiro. E depois, foi o dos afilhados do Artur Jorge... esse filho de uma puta de média dimensão - porque naqueles genes, nada pode ser grande.

-Então, ó sôr Abílio... (tudo isto dito entre longas pausas, prolongadas por um sorriso desdenhoso que se intrometia na frase como um sinal de pontuação) e para amanhã, está com fé?

O barbeiro lançou ao sôr Abílio a pergunta, o olhar e o sorriso como três setas de pigmeu e suspendeu o tchic tchic tchic das tesouradas. O sôr Abílio nem levantou os olhos da página de jornal

-Este Rui Moreira... é um miserável, pá... Consegue ser pior que o outro bêbado. Esse ao menos... a gente dá o desconto.

-E o derby, sôr Abílio? O nosso derby? Não me diga que está com medo...

Houve um momento de suspensão, como se o universo de toda a barbearia tivesse sido castigado pela comissão disciplinar: nada acontecia. Até que o sôr Abilio fechou finalmente o jornal.

-Queres com Cardozo ou sem Cardozo?

Tchic tchic tchic tchic tchic tchic tchic tchic...

domingo, 25 de agosto de 2013

Da dificuldade de compreender o que é paradoxal e da impossibilidade de aceitar o que é inaceitável

«O Rodrigo?!... Oh, o Rodrigo é o melhor marcador de todos os tempos lá dos sub-21 espanhóis, mas tu já viste aquela equipa? Aquilo é uma equipa de sonho. Com aquela equipa, qualquer um é o melhor marcador de todos os tempos!»

Ouvi a frase à saída do Estádio e achei que era minha obrigação partilhá-la, registá-la, deixá-la para a posteridade. "O Benfica", esse conjunto heterogéneo, essa multidão diversa e dispersa, essa tribo sem raça, é constituído por muitos Benfiquistas diferentes. Para o bem e para o mal. Foquemo-nos no mal: há raciocínios singulares que, quando extrapolados, podem explicar muitas reacções da massa que compõe "o Benfica". Como é evidente, não confio muito na democracia. É uma ferramenta torta, enviesada.

Não consigo aceitar lenços brancos que se tiram do bolso quando se está a perder e que são euforicamente atirados ao ar no momento do golo. Não posso aceitar. Manter ou despedir um treinador é uma decisão fundamental para o destino do Clube, para o futuro da equipa. Não podemos ser levianos nem distraídos nem voláteis: temos de ser convictos. Não se trata de defender Jesus (que defenderei se achar que é possível ele ter mão na equipa - tenho dúvidas sobre este assunto) ou querer que Jesus saia (uma "refrescada" no balneário seria benéfica, caso se verifique que o treinador perdeu controlo - mas também não tenho a certeza que Jesus tenha perdido o pé); trata-se de exigir seriedade aos Benfiquistas. Eu sei que cada um pensa e diz aquilo que quiser. Pois bem: era isto que eu queria dizer, não me levem a mal.

Maxi, Lima e Cortês. Cortês não é apenas cortês: é um gentleman dos pés à cabeça, embora lhe falte qualidade, tanto nuns quanto noutra. Mas é gentil e sabe dar passagem a quem quer que se cruze com ele. Já ele próprio a cruzar é um bocadinho menos que assustador. No sentido em que "menos" significa "pior". Maxi, o meu querido Maxi, fez dos piores jogos de que me lembro com a Camisola vestida. Lima não é um ponta-de-lança, é um boicote ao golo (tal como o fora contra o Estoril, num jogo que haveria de nos custar o campeonato). Não me lixem: quando se constroem 8, 9, 10 ocasiões claras de golo que se falham e se tem um jogo controladíssimo e, depois, se sofre um golo com auto-assistência delicadinha, não é assoando um treinador com cleenexes que a coisa se resolve.

O ano passado gozei com os sportinguistas por terem festejado o segundo golo e a vitória por 2 a 1 contra o Gil Vicente como se de uma final da Champions se tratasse, com Sá Pinto aos comandos e, sim, a minha língua deita um líquido amargo. Salva-me um consolo - pequenino mas confortavelzinho: sentir que festejar com pouco é melhor do que amuar com nada. Deve ser a isto que se chama "humildade". Ok, já percebi, não é um tema complicado. Agora, podemos passar às vitórias gordas?

Vestir um par de calças

Há precisamente três semanas e um dia que a minha indumentária não sofre variações relevantes: visto uns calções de ganga, uma t-shirt ou uma camisa e enfio os chinelos. Mas hoje o meu dia é solene: vou inaugurar o meu cativo, estrear a minha casa nova. Vou vestir um par de calças, calçar os meus melhores ténis e atar no pulso o cachecol vintage.

Há três semanas e dois dias não me vesti: escrevi a carta de demissão, terminei o que me faltava fazer e deixei-me ficar por casa, como um vagabundo que tem a sorte de ter tecto, a desfrutar do prazer de agir de acordo com aquilo em que acredito. Há três semanas e três dias - e em muitos outros dias antes desse -, eu vestia camisas e calças, aparava a barba e o cabelo, mantinha-me, como se diz, "apresentável". Hoje sairei de casa com o cabelo desgrenhado e por aparar e ainda com a barba que o Benfica que me deu e que eu corrigi uma boa dúzia de vezes - mas que mantenho intocada há três semanas e dois dias, pelo menos.

Passo os olhos pela Imprensa enquanto faço tempo para ir para a Luz, Lisboa ardeu há 25 anos e eu vi na televisão. Hoje é um dia solene, de memórias fortes, de incêndios passados, de fogos por apagar e de incendiários à solta - um grupo de sócios marcou uma manifestação para as três da tarde nas imediações do Estádio. A escassa hora e picos do pontapé de saída. Não se faz. Partilhando das suas dores, preocupações e boa parte das exigências, não estou com eles. Primeiro está o Benfica e hoje joga o Benfica.

Lisboa já ardeu o quanto baste, mais que uma vez. Vou tomar um banho longo e cuidado que o dia é solene.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Falta-me Pablo Aimar

Dantes tínhamos esperança, depois ficámos confiantes. Às tantas, tínhamos até a certeza na vitória. Porém, o céu decidiu cair-nos em cima. A tudo isso, reagimos com lágrimas de inconformismo, mas também com a dignidade de quem sabe perder e o orgulho de quem reconhece aos seus jogadores o esforço e a dedicação de verdadeiros vencedores. Fomos cavalheiros no meio dos destroços.

No fim, chegámos ao Jamor vestidos a rigor e cheios de Benfiquismo. Bigodes, bonés e bandeiras para fazer a festa. E a festa não era ganhar. A festa era ser do Benfica e estar ali. Mas não podia ter acabado assim. Nós não merecíamos a inglória de uma equipa que desiste. Sobretudo, não merecíamos que esse final fosse o princípio do fim de uma era. Uma bonita era que não obteve resultados condizentes na forma de taças. Mas uma era que acreditei ser de renascimento, de regresso à condição que, ao longo de mais de um século, foi sendo construída e legitimada.

Compreendo hoje que essa era acabou, que não regressámos a sítio algum. E não acabou no desvio do Sami nem tão pouco no empurrão do Cardozo. Acabou no princípio do meu desalento quando, incrédulo, vi o Vitória fazer um-igual. Faltou-me então a voz, a força nas pernas, o discernimento e uns míseros 12 minutos de Pablo Aimar com a minha camisola. O futuro próximo estava escrito: havia um vazio à minha frente.

Quando a lista de convocados é publicada ou, mais tarde, o onze inicial é anunciado, eu olho e não encontro o que procuro. Se são a fé e a paixão quem me move, é, do mesmo modo, a esperança quem me alumia. E essa eu não encontro. Os jogadores estão lá e eu sei que são bons. Merecem o meu respeito e não esqueço o que fizeram por mim. Mas não me inspiram e eu não se conseguirei inspirá-los como devia. E isto de fazer-me de vítima faz-me sentir culpado, porque o Benfica parte de mim, sou eu e os milhares que lá estão quem carrega e carregará - e tem de carregar sempre - o Benfica ao colo. Mas faltam-me forças.

O Benfica é o meu espaço irracional, puro, exclusivamente emotivo, romântico, poético e trágico. E é no Benfica que encontro os meus ídolos. Mas eles não estão lá. Não me funesmorem, pá, eu quero um ídolo, porra!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Degraus inglórios

Estava a apanhar a roupa, antes de almoço, do estendal das traseiras, quando ouvi um ruído. Olhei para baixo e vi a tartaruga da minha vizinha de baixo a sair do seu caixote com água. É um caixote muito pequenino e o bicho, apesar de pré-histórico, há-de ter sentido o apelo da liberdade, do mundo lá fora. Decidiu partir à descoberta do universo, naturalmente. Por azar, o terraço onde se encontra é também ele pequenino e tem muros altos.

Apercebendo-se da dimensão reduzida do seu cosmos, a tartaruga tentou trepar os três degraus que aí existem e que levam apenas a mais uma parede intransponível. Apreciei a perseverança do animal, que conseguiu subir o primeiro degrau, sem ter noção do quão inglório era o seu esforço. A meio do segundo, no entanto, caiu e ficou de carapaça para baixo, naquela posição que inspira, ao mesmo tempo, riso e compaixão.

Suspendi a apanha da roupa quando ia começar a recolher e dobrar as t-shirts. Senti alguma aflição pela situação complicada do pequeno animal. E dei por mim, num reflexo inusitado, a fazer analogias estapafúrdias. Pensei no meu Redpass, reluzente e ainda por estrear, que faz de mim efémero proprietário de um lugar escolhido com cuidados e sentido estratégico, na curva mais bonita do Estádio.

Imaginei-me naquele anfiteatro gigantesco mas opressivo ao ponto de parecer do tamanho do terraço da minha vizinha, eu a tentar subir degraus para não chegar a lado algum ou para ver uma equipa que nem história fez, de pernas para o ar, a fazer-me pena.

A tartaruga entretanto conseguiu dar a volta sozinha. Balançou-se e caiu de pé. Eu aplaudi e cantei «tenham cuidado, ela é perigosa...» e depois, embaraçado, apanhei as t-shirts que restavam e as toalhas de praia.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Meu querido mês de Agosto

Na escola primária - na minha velha escola primária -, a Dona Laura ensinou-me que o Emigrante é a pessoa que migra para fora do seu país. Era uma definição simples que não demorei a apreender nem, tão pouco, a saber opor à de Imigrante - imediatamente percebi que eram emigrantes de outras paragens que se radicavam no meu país. Eu era uma criança que aprendia facilmente determinadas coisas.

Com o passar dos tempos veio o toldar dos conceitos, formaram-se-me preconceitos, preguei estereótipos nos pensamentos e passei a presumir coisas sem grande fundamento ou justificação. Por exemplo, os amigos que tenho espalhados pelo mundo - pelo Brasil, pela Inglaterra, pela Austrália, pela Coreia do Sul, por Angola, por Moçambique - não são, para mim, "emigrantes". São "pessoal que está lá fora". Não trabalham na construção civil nem a lavar escadas, não fugiram de comboio para a França para dar serventia, para a Suíça - para fazer chocolates e relógios, suponho -, nem para o Luxemburgo fazer o que quer que seja que se faz lá no Luxemburgo - deve ser dinheiro. Os meus amigos que estão lá fora não vêm de Audi A4 vermelho, com matrícula amarela, atravessando a Ibéria inteira para passar férias no parque de campismo de Monte Gordo e isso tira-lhes uma batelada de créditos no acesso ao estatuto de "emigrante" segundo os meus requisitos.

O emigrante, tal como eu o imagino, é uma categoria muito específica da portugalidade. As características que espalha, com generosidade, da respectiva terra-natal às praias cálidas e sobrelotadas do Sul do país, embelezam-me o mês de Agosto provocando-me sentimentos nem sempre fáceis de identificar ou conjugar. Há um lado nostálgico e melancólico que se acende em mim quando observo famílias de quatro gerações, cunhados, primos e avós, com farnéis e guarda-sóis, nas dunas da Galé. Imagino-os trabalhando e vivendo um ano inteiro com o pensamento focado naquele mês específico em que voltarão a ver os familiares distantes, as paisagens da sua infância ou, no caso dos mais novos, a conhecer os primos de quem só ouviram falar e as praias que só vislumbraram em fotografias tremidas, tiradas com kodaks descartáveis.

E, se as crianças me aborrecem com os seus guinchos e boladas ou com as cascas de melão que vão perdendo pelo areal, os mais velhos inspiram-me grande empatia, enquanto observam o que é também deles - o nosso Portugal - como quem o perdeu e tudo faz para desfrutar só mais um bocadinho daquilo de que abdicou para poder dar o conforto e o desafogo (que nunca teve) à sua descendência.

E depois há o pai de família. Não me refiro ao mais velho, ao ancião, não. Aponto ao macho alfa, o homem que paga as contas, o que mete a gasolina, o que consulta o mapa. O senhor de bigode com o boné do Benfica. É ele que mais me desperta sentimentos ambivalentes. É nele que encontro a definição de perseverança, a expressão de sucesso conseguido a pulso e com o suor. E é também naquele que reconheço aquele esgar de saudade, aquela ansiedade de rever a sua paixão, de regressar ao solo sagrado. É nele que adivinho o desejo de comprar jerseys encarnados para a toda a família - «menos para as mádâmes... não têm aquelas em cor-de-rosa, do Miccoli?» -, de agarrar o bronze maciço de Eusébio, fotografar tudo quanto mexa, fotografar muito a águia Vitória, que ela mexe-se muito, demorar horas nas filas para tudo e mais alguma coisa nas imediações do Estádio, nas bilheteiras, nas casas-de-banho, nas roulotes, nos torniquetes, nas escadas, na procura dos lugares «ora porra, que isto é uma confusão», «ó amigo, esse lugar é dois sectores mais à frente».

É nos lábios do Pai de Família que antevejo, sí-la-ba-por-sí-la-ba, «este Jesus... ma putain... já devia era de ter saído majé há muito tempe, ué...». E é quando olho para ele que imagino, com carinho, o meu bilhete para ver o Devendra no CCB, amanhã, à hora do jogo. Tenho tempo para o nosso Benfica. Espero que estes nossos compatriotas, forasteiros sazonais, perpétuos visitantes de Agosto, desfrutem à sua vontade do pouco tempo que têm para o nosso Clube. Mas, por favor, tenham cuidado com a minha cadeira.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Breve comunicação estival

A silly season inibe-me a escrita. Presumo que tal se deva à minha própria vaidade: mal me sinto lido por mais de dez pessoas, considero de imediato que devo escrever somente se tiver qualquer coisa importante para dizer. Muito provavelmente estou errado. A história encarregar-se-á de me dar razão. Nem que seja confirmando que estou errado, como ainda agora previ.

Durante estas últimas semanas, o Benfica tem-me feito falta, muita falta. Dei por mim a ocupar a mente - para entreter o coração - simulando paixões de Verão com equipas exóticas: primeiro, numa competição muito criativa chamada "taça das confederações", adoptei uma peculiar criação de Deus chamada Tahiti. Se olharmos para um planisfério em busca do Tahiti, possuindo uma noção vaga da região onde se situa, veremos uma imensa mancha azul chamada Pacífico. Algures lá para o meio existirão, ora mais para um lado, ora mais para outro, umas nódoas pequeninas que tanto podem ser as Fiji, Samoa, as Desventuradas, sujidade de mosca, Tuvalu ou o Tahiti. E eles, no Tahiti, jogam à bola: foram campeões da Oceania vencendo, na final, a Nova Caledónia. Que se situa na Melanésia... enfim, o melhor é procurar.

A participação do Tahiti na tal taça das confederações trouxe uma série de benefícios à competição. Um deles, porventura o maior de todos, terá sido prender-me a atenção. Depois de ter visto os jogos do Tahiti, entusiasmei-me e fui sempre puxando pelo mais fraco - só ganhei na final. Ainda assim, o momento mais entusiasmante da competição aconteceu logo na primeira jornada, com aquele golo à Nigéria. Aproveito, já agora, para dizer que há um avançado da Nigéria que talvez não tivesse lugar no onze inicial do Tahiti. Não sei como se chama - mas devia ter tomado nota, só por precaução (desde que li a revelação do Fernando Guerra acerca do Martin Pringle redobrei as minhas cautelas).

Depois disso, entre jogos do Majlby e do Malmöe, do Lodz e do Wisla Cracóvia, fui derivando, derivando, até que aportei numa equipa chamada Portugal numa competição chamada Mundial de sub-20. Ao nível do exotismo, é equipa para bater o pé ao Tahiti; em termos de futebol, joga melhor. Substancialmente melhor. E foi graças a esta equipa que descobri em mim muito mais de português do que de tahitiano: enquanto com o Tahiti senti o fervor tanto na hora da derrota, ainda que pesada, como na hora da derrota, quando esta foi ainda mais pesada, no caso de Portugal encontrei felicidade em cada uma das duas vitórias e uma substancial indiferença no momento da derrota. Não creio que exista maneira de ser mais português.

Entretanto, vou tentando arranjar maneiras de gastar o tempo até que chegue o dia 19, data em que a minha reserva do Redpass se torne efectiva. O campeonato da Lituânia, as sardinhas assadas e o Planalto bem fresco no Páteo 13 vão ajudando.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Natural do sítio errado, naturalmente do Benfica

Uma estranha conjugação de factores aliada a uma inusitada sucessão de eventos impediram que eu nascesse no Estádio da Luz.

No longínquo ano de 1979, tal como hoje, os meus pais viviam em Mafra. Em 1979, Mafra ficava longe de Lisboa. Na altura, para se "ir a Lisboa" faziam-se preparativos - levava-se, por exemplo, tupperwares com pastéis de bacalhau. Não havia auto-estrada e os carros bebiam muito - o meu pai tinha, salvo erro, um FIAT 1500, que não era propriamente um exemplo de como poupar - e andavam pouco.

Quando as pessoas de Mafra iam a outra terra, normalmente era à Ericeira, que tinha mar, ou à Malveira, que tinha feira. Não iam a Lisboa. Se alguém queria uma experiência mais urbana e cosmopolita, ia-se a Torres Vedras, que era uma espécie de Mafra mas em maior e tinha cinema. Não havia necessidade de perder uma hora e meia pela estrada nacional, atravessando, abreviadamente e por ordem, Alcainça, Malveira, Venda do Pinheiro, Lousa e Ponte de Lousa (nunca me lembro qual delas vem primeiro), Pinheiro de Loures, Loures ela própria, Flamenga e Carriche, roçando ainda as fronteiras de Ponte de Frielas e de Odivelas, lá mais à frente, até chegar à tabuleta que eu sempre achei grande mas não o suficiente para assinalar a entrada na capital do país.

Ia-se a Lisboa ao Jardim Zoológico, muito raramente, ou ver o Benfica, um pouco mais frequentemente. Mas não se passava a vida no Estádio da Luz: era mais as quartas-feiras europeias e os jogos para festejar o campeonato. Também se ia a Lisboa para apanhar a Ponte Sobre o Tejo que, na altura, ainda tinha o novo nome de 25 de Abril fresquinho e o nome velho de Oliveira Salazar enraizado.

Em 1979, as pessoas nasciam nas maternidades e cada um tinha a sua. Se hoje uma pessoa vai de Elvas a Badajoz para ser nascida, naquela altura nascia-se um pouco por toda a parte - exceptuando em Mafra, cuja maternidade possuía uma característica que sempre a distinguiu das demais: a intermitência. Ora funcionava, ora nem por isso. Dá-se inclusivamente o caso de haver crianças do mesmo ano, cujas famílias habitavam uma no segundo esquerdo, outra no segundo direito, de um mesmo prédio da Rua do Hospital, por exemplo, que são naturais uma de Torres Vedras (S. Pedro e Santiago) e outra de Mafra.

Eu poderia ser a criança do primeiro exemplo, porém nunca vivi na Rua do Hospital. A minha rua era a José Elias Garcia. Ruas elias garcias existem em praticamente todas as terras, por mais que não se compreenda assim de repente a extraordinária popularidade que esta personalidade praticamente desconhecida veio a ganhar ao nível da toponímia. Para simplificar a explicação, chamar-lhe-ei "inexorável fervor republicano". Não sendo eu um republicano, afeiçoei-me desde os meus 4 anos a Elias Garcia e cheguei, eu próprio, a sentir fervor quando me deparei com o seu nome numa outra placa de uma outra rua de uma outra terra qualquer: oh, o meu Elias Garcia. Não sabia quem fora o tal José, mas estava-lhe muito habituado. Uma pessoa afeiçoa-se.

Em 1979, ano longínquo, as pessoas não nasciam em estádios. Em 1979, em Mafra, as pessoas começavam a habituar-se à ideia de não nascer em casa, mas sem exageros: na Rua do Hospital ou em Torres Vedras, a ordem era para se nascer na maternidade. Em Agosto de 1979, a maternidade de Mafra estava encerrada, o que veio a fazer de mim, para efeitos de registo civil, um inesperado Torreense, ainda que o tempo que passei nessa fortaleza do Oeste tenha sido, na sua esmagadora maioria, dedicado ao Campo Manuel Marques, ora sobre a relva, ora nas suas bancadas ou ainda no relvado sintético que havia ao lado e que era quase tão abrasivo quanto o piso de Alcatrão do meu Ciclo de Mafra.

Esta dedicação Torreense de que falo só viria a dar-se, no entanto, em 1993-1994 e não justificaria, só por si, a naturalidade que trago no BI. O critério do Arquivo de Lisboa para me atribuir origem foi mesmo o da maternidade que me viu ver a luz do dia pela primeira vez. E é por isso que eu lamento profundamente que a Luz não tivesse sítio para se nascer - até porque o nome do Estádio é, talvez, o mais adequado para o efeito.

O meu nascimento noutro sítio que não o Estádio da Luz é, portanto e como se pode comprovar, fruto de uma anárquica conjuntura. Falo do assunto porque a 27 de Agosto de 2013 se comemoram os mais ou menos 27 anos da ocorrência do 27 de Agosto de 1979. E eu, que não nasci na Luz por manifesta infelicidade, pretendo fazer de um lugar junto ao varandim do piso 3 - sector 6 uma das minhas principais residências para 2013-2014, de modo a comemorar a efeméride de ter vindo ao mundo no sítio errado. Há coisas na vida que não podem ser emendadas mas que, ainda assim, vão a tempo de levar correcção.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

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Estava a falar com o meu amigo Moleirinho - que está em Moçambique a convalescer do Benfiquismo junto a águas tépidas, a panaceias de camarões com trinta centímetros - e perguntava-me ele «já estás recuperado?». E eu fiquei a pensar «estarei?».

Os dias passam e a possibilidade do esquecimento, ao invés de me apaziguar, deixa-me em pânico. Ainda não estou recuperado e ai de mim que venha a estar! Acordo todos os dias, desde o dia 20 de Maio, a acreditar que podemos ser campeões ainda este ano. E continuarei, creio eu, pela vida fora, perpetuando esta sensação insana, como se a época não terminasse nunca: 2012-2013 não teve nem vai ter desfecho. Não pode ter tido, já que eu não vi o Benfica a ser campeão e eu sei perfeitamente que o Benfica ia ser campeão. Vamos ser campeões, sim senhor, nem que seja no infinito. Qualquer outra possibilidade dá erro na minha compreensão: simplesmente não é processável.

Sinto saudades do Estádio da Luz, todos os dias penso nessa gigantesca casa de família ondulante e ruidosa. A propósito, lembro-me de estar no Jamor, durante o picnic de bigode. Depois de várias minis, naturalmente, fui persuadido pela natureza a estabelecer comunicação mais íntima com um eucalipto, um dos muitos que nos rodeavam. O ar livre, o cheiro a floresta e a febras na brasa, a brisa no rosto, os pés sobre as ervas e o primeiro pensamento que me ocorreu foi «estas casas-de-banho são muito bonitas... mas continuo a preferir as da Luz».

Não estou recuperado, não. Tenho o Benfiquismo a repousar no escuro, em cascos de carvalho, a ganhar gravidade e robustez. E, sobretudo, continuo à espera de ganhar, que isto ainda não acabou. Não pode ter acabado assim.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Agradecimento sincero e humilde aos campeões da Europa

Estava a ver fotos da equipa de hóquei a ser recebida no Pavilhão e pensei «como é que eu nunca fui ver um jogo de hóquei?». É nestas alturas que me apercebo do meu fundamentalismo futebolístico. É curioso: se me perguntarem se sou pelo Benfica ou pelo futebol, natural e imediatamente responderei «sou do Benfica», porque é ao Benfica que pertenço. Mas se pensar um pouco mais, noto que sou um Benfiquista primário do futebol, muito pouco dado a transigências ao ecletismo.

Durante toda a minha vida, vi o Benfica ser campeão da Europa duas vezes: uma em futsal, no Pavilhão Atlântico; outra em hóquei em patins, na caixa portista. Na primeira ocasião, tentei induzir em mim a sensação de "campeão europeu". O melhor que consegui foi um pequeno simulacro, como se, de repente, a Europa fosse uma coisa pequenina. Fiquei feliz, senti orgulho, uma leve exaltação, fiz um brinde e disse em voz alta "campeões da Europa". A frase soou muitíssimo bem.

Ontem o meu primeiro pensamento foi menos poético, mais sentimental: «que heróis», foi tudo o que me ocorreu. Em seguida, temi pelas carreiras dos atletas do Porto - para quando a extinção da modalidade no clube? -, mas logo voltei a focar-me nos nossos. Dei por mim feliz, novamente orgulhoso, a sentir uma leve exaltação, a querer fazer um brinde, a pronunciar para mim a frase mágica "campeões da Europa". Soa cada vez melhor.

Ser campeão da Europa será sempre um feito histórico. Ser campeão da Europa numa modalidade histórica e de grande tradição em Portugal no território do nosso maior adversário da actualidade dá-lhe um significado ainda mais nobre - e, sobretudo, levando em conta as circunstâncias que antecederam o jogo.

Eu queria chegar a um ponto e ando aqui a empatar tempo: na verdade, eu não me sinto campeão europeu. Campeões são eles, os que jogaram e quem os apoiou durante o ano, durante a carreira, durante a vida. Campeão europeu é o adepto que nunca se esqueceu deles durante toda a época, nos bons e nos maus momentos. Eu sou só um Benfiquista do futebol.

Estou muito, muito grato a toda a equipa de hóquei por ter elevado o nome do Benfica ao ponto mais alto, permitindo-me acrescentar um brilho de orgulho à minha paixão. Mas sinto alguma mágoa - na verdade, sinto-me de fora - por não lhes ter dado a atenção e o apoio que, como demonstraram, merecem. Sou mesmo um simples Benfiquista do futebol: ao mesmo tempo que me comprometo comigo a ir ver jogos de hóquei na época que vem, vou pensando no melhor lugar do Estádio - que saudades do Estádio - para o meu Red Pass. E é então que se me enche o peito e sinto uma exaltação grave, brilham-me os olhos.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

E então o Horatio salvou-me

O Horatio Kane entrou em cena e eu, curioso por saber qual das donas de casa teria espetado as facadas no malandro do Don Juan que entregava encomendas e sorrisos ao domicílio, eu, ávido pelas descobertas «look... a drop of blood» de uma equipa de investigação super equipada, super treinada, super «there's something here... looks like... fabric» perspicaz e super eficiente, eu deixei-me dormir. Foi o meu sono dos justos e aconteceu na terça-feira, quando adormeci no sofá, no meu mini sofá do Ikea, enrolado numa manta.

Desde domingo, tive sonhos febris e agitados, daqueles elípticos, em que eu fazia substituições, umas atrás das outras, mas tirava sempre o Rodrigo, sempre o Rodrigo, sempre o Rodrigo e metia o Lima e o Lima, de repente, já era o Rodrigo. Depois, a equipa subia escadas para ir levantar taças, mas chegava lá acima e estava escuro e o Jesus caía de joelhos, primeiro, e pelas escadas abaixo, depois. E então eu substituía o Rodrigo e lá aparecia o Rodrigo a falhar golos e a equipa a subir escadas e o Jesus a cair de joelhos e a cair das escadas. Uivos na escuridão e o Cardozo, muito raivoso, a gesticular, a tirar o Rodrigo pelos colarinhos e depois, ele próprio, o Cardozo, a transformar-se no Rodrigo. O Jesus caía de joelhos e vinha o Carlos Martins e apanhava-o e eu tirava o Martins e depois a equipa subia as escadas e eles eram todos o Carlos Martins e caíam todos de joelhos, todos pelas escadas abaixo.

Tive febre, transpirei, acordei gelado, às três, às quatro, às cinco da manhã, acordei cansado, acordei por dormir. Tentava adormecer e só via o Artur estendido sobre a relva a esticar os braços, a esticar as mãos, a esticar as luvas, a esticar os postes, e aquela bola, sempre aquela bola, a bater no fundo das redes. Chutavam um de cada vez: o Ricardo, o Kelvin, o Ivanovic, o Jefferson, o Soudani, o Ricardo, o Kelvin, o Ivanovic, o Jefferson, o Soudani, o Ricardo, o Kelvin, o Ivanovic, o Jefferson, o Soudani. Sem parar. E o Artur a esticar-se e o poste a esticar-se e a deixar o Artur indefeso, uma e outra vez, uma e outra vez.

Até que na noite de terça-feira, enquanto o Horatio «it looks like someone was... on fire» deduzia coisas brilhantes de um cenário ensanguentado, eu adormeci sem dar por nada, sem querer, sem ter vontade, vencido pelo cansaço. Acordei de madrugada, a televisão já estava desligada, ainda não havia sol lá fora e tudo estava em silêncio. Tenho dormido melhor, mais descansado. O Jesus, pelo menos, já não cai escadas abaixo e o Carlos Martins desapareceu.

Um pontapé na agulha

Percebi hoje que a outra equipa que desceu foi o Beira-Mar. Entenda-se por "outra" como "aquela para além do Moreirense". Não desprezei o Beira-Mar ou qualquer outro que estivesse para descer. Simplesmente, não conseguia olhar para tabelas classificativas. Acontecia-me uma espécie de colapso sempre que olhava para uma classificação. Ficava tonto, confuso, baralhado, desorganizado. Algo ali não bate certo. O meu instinto assinala aquele alinhamento com o alarme de "erro" e, a partir desse momento, todo o processamento de informação se torna impossível para mim.

Mas hoje consegui. Forcei-me a abrir o site da Liga e olhei imediatamente para a o fundo da tabela, evitando mais um choque. Lamento pelo Beira-Mar, não me parece que tenha sido a pior equipa da liga. Gil Vicente, Académica e Vitória de Setúbal foram, do que vi, as equipas menos competentes e com futebol mais "segunda liga" da competição.

Tem sido uma semana calma, mas difícil de suportar. A agitação em torno do Benfica, o fica-não-fica de Jesus, as críticas muitas vezes a quente, mal fundamentadas, mal pensadas, que vejo debitar um pouco por toda a parte «deita abaixo, que isto assim não funciona» e eu só penso «puta que pariu a bisavó do Kelvin, que estragou isto tudo».

E vejo o adversário - a hiena faminta que se revela num determinado tipo de adepto adversário - que na segunda-feira apreciava Jesus e que dele dizia «vocês não sabem apreciá-lo, não o merecem» e que agora que Jesus ameaça ficar e que Vieira promete continuar em frente - é que se não fosse aquele pontapé macaco do Kelvin... - se torna um crítico desdenhoso «isso... ahah... fiquem com o Jesus... ahah... isso, fiquem com o Vieira» e eu penso «por que carga de água havia esta gente de querer o nosso bem?».

O pontapé do Kelvin mudou o campeonato e, com isso, muito provavelmente, mudou a agulha dos carris que estavam prontos para nos levar à glória. Mas não entendo por que razão o pontapé do Kelvin tem de mudar também o rumo do meu Clube. Continuo: o rumo está certo. Saíamos foi na estação errada - pois foi, mudaram-nos a agulha. Mas o rumo está certo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Haverá sempre uma bandeirinha que se agita

Hoje ao almoço estava a comer o meu resto da telepizza da véspera, aquecida no micro-ondas e pensei «é isto: a era que estás a viver tem a sua metáfora nesta refeição». Telepizza requentada no micro-ondas: nada - nem um ingrediente - ali é remotamente comestível. Só cedi à ingestão do detrito porque a escolha era entre isso e o jejum. O meu mês de Maio de 2013, que terminará dia 31 - como previsto - numa cadeira de dentista - como não surpreende - é apenas um período de tempo, uma nuvem de cronologia que teima em demorar-se sobre mim mas que eu estou à espera que me passe de maneira a que eu possa voltar a ter uma vida sossegada e equilibrada, da qual conceitos como "lógica", "expectativa" ou "conquista" possam voltar a fazer parte.


Vergonha?! mas qual vergonha?

Enquanto mastigava, com algum custo, aquela matéria ressequida com um sabor aproximado a tomate, ranço e miolo de camarão do Lidl fora do prazo de validade, tentava elaborar mentalmente uma lista de coisas que posso fazer durante os próximos dois meses e que não fiz durante estes últimos nove:

-passar fins-de-semana fora com a Lady Verde, totalmente focado apenas nisso
-visitar os meus pais com frequência
-poupar dinheiro
-não comer muitas bifanas
-fumar menos, muito menos
-nada, absolutamente nada
-música
-passear aos sábados
-ver filmes "no I.Q. required" aos domingos
-vestir cores mais variadas
-ir à praia
-ver o pôr-do-sol
-ler menos A Bola
-ler mais literatura
-cortar a barba duas vezes por mês
-jogar à bola às quartas-feiras
-sofrer menos


Isto era só o vento.

Quando a bola entrou pela segunda vez, senti as pernas perderem força, senti uma profunda confusão mental como se a matéria cerebral se dissolvesse - juraria que podia ter-me escorrido pelo nariz, naquele momento -, faltou-me o ar. Tudo me falhou. Desejei ardentemente teleportar-me para casa, para a cama e deixar que a febre me consumisse. Não consegui falar.

É a quarta vez que me acontece isto no espaço de vinte dias. Andei 9 meses a ganhar como se não houvesse amanhã; ando há 20 dias a perder não sabendo se haverá realmente um amanhã. Qualquer coisa acabou ontem quando o Jorge Sousa soprou para o apito final e eu não sei se foi o mundo ou se foi a época. Mas foi grave.

Não me despedi de Pablo Aimar e não tive forças para assistir à coroação do Vitória. Não foi falta de educação, foi falta de tudo o resto. Não vi grande coisa depois disso no caminho até ao carro. Lembro-me de pedir os óculos de sol de volta. Não consegui encarar o mundo, não consegui pensar no Cardozo, no Jesus, no pontapé do Artur. Tudo o que sentia era uma dor muito pesada, em todo o peito, em todo o estômago, na garganta, nas têmporas.

Quando, mais tarde, na Típica, comecei a lamber a feridas, dei por mim a ter uma das mais inusitadas e inesperadas reacções. Peguei na bandeirinha, agitei-a e, com a voz ainda muito fraca, gritei baixinho «Benfiiiica! Benfiiiiica!» e senti-me como se tivesse outra vez seis anos e imaginei o meu pai a olhar para mim, a abanar a cabeça e a dizer «não sei como é que consegues».

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Uma barba e depois um deserto

Estamos perante uma equipa que tratou de perder cinco finais sem auxílio paranormal - o Vitória nunca precisou de maldições de béla-guttmanns para sair derrotado, fê-lo sempre pelo seu próprio pé (suponho que seja esquerdo e que seja frio).

Falo do assunto porque vivemos uma época em que Murphy e as suas probabilidades incontornáveis tomaram conta da ocorrência Benfiquista - mesmo quando as probabilidades eram bastante improváveis (eu não me esqueço de Vítor Pereira a dizer, poucos dias antes de se lhe inchar muito muito muito o peito, que «o Benfica vai ganhar, de uma maneira ou de outra, eu sei que vai ganhar... neste momento, já não acredito que possamos chegar lá»).

Ontem, conversava com um amigo acerca do que "falhou" no Benfica este ano. Eis o que falhou no Benfica: o Kelvin, aos 92 minutos, na situação inversa, com a camisola do Benfica vestida (sem querer repugnar o Kelvin - espero que o miúdo não leia isto), faria dois golos em 100 pontapés daqueles - no Porto, fê-lo à primeira; o Ivanovic, numa situação perfeitamente inversa, aos 92 minutos, em 90 cabeçadas daquelas, mataria 83 pombos e magoaria dois stewards e um apanha-bolas - contra o Benfica, acertou à primeira. Todas as nossas camisolas deviam dizer "Murphy"; a do Artur devia dizer "D Day Murphy".

Olhando para o panorama, as probabilidades acumulam-se: o Benfica ganhou 24 Taças em 33 finais disputadas; o Vitória perdeu as 5 finais que disputou. Não percebo de estatística nem de números grandes, porém, há-de haver uma ponta qualquer por onde a frase de Murphy possa pegar e aplicar-se, uma vez que as coisas podem correr mal.

Não digo que esteja pessimista. Tento apenas prever o próximo lance do adversário. Por "adversário" entenda-se o filho da mãe - que nem mãe tem, esse filho de um buraco negro - do Mefistófeles que me levou demasiado à letra quando, num desabafo pleno de entusiasmo pueril, eu afirmei que «trocava este campeonato pela vitória na UEFA e na Taça de Portugal». O "adversário" quer deixar-me a zeros.

Dormi muito mal esta noite. Tive daqueles sonhos circulares, sem início nem desfecho, sem passado nem futuro, uma linha contínua, sempre a repetir o mesmo momento «está zero a zero, está zero a zero, está zero a zero, está zero a zero» como um mantra infinito dedicado ao tédio que existe em não ganhar. Acordei cansado, desgastado, até mesmo preocupado. E se a gente não ganha? Aliás: e se a gente não ganha "outra vez"?

Tenho uma coisa para dizer ao tal de Mefistófeles e a toda a companhia do pé de cabra, do pé esquerdo e do pé frio: tenho aqui uma barba com quase um ano e meio de construção; tenho aqui um bigode à espera de ser libertado e de vos mostrar o seu poder; e tenho um deserto à minha frente a seguir a domingo. Por isso, NÃO brinquem comigo.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Dois euros e setenta

Parámos em Sete Rios num semáforo que estava vermelho, passei o meu telefone à Lady Verde, disse-lhe «guarda isto, eu ligo-te quando estiver despachado» e saí do carro. Ela não percebeu o que se passava nem sabia o que ia acontecer, mas também não fez perguntas.

Desci à estação de metro, direcção Santa Apolónia. No cais oposto, dezenas de pessoas com cachecóis e camisolas do Benfica e eu, num impulso, quis mudar de direcção, ir com eles, juntar-me a eles, rumar ao Estádio. Mas não tinha telemóvel, não tinha como falar com o André e desmarcar tudo. Contive-me e segui o plano.

O caminho até aos Restauradores foi penoso: sem telefone, sem um livro, sem nada que me distraísse, vendo pessoas nas estações por que ia passando, no sentido oposto, vestidas de Encarnado, não me restava senão sentir remorsos, como se estivesse a abandoná-las no último momento.

Não cheguei logo ao destino que tinha em mente, saí à rua ainda na estação da Avenida, não aguentava mais a viagem. Desci o restante a pé. Havia algum movimento, as esplanadas estavam cheias. Entrei, por fim, num café nos Restauradores, perguntei pelas cervejas «é Super Bock» e eu «não tem outras?», «tenho Carlsberg: dois euros e setenta, quer?», «claro, dê-me uma». Dois euros e setenta por 25 centilitros de cerveja dinamarquesa. Eu posso pagar dois euros e setenta por isso. Da última vez que toquei em Super Bock, o Benfica empatou em casa com o Estoril. Eu era capaz de pagar 27 euros por um cálice de Carlsberg. Mal aviado.

Sentei-me na esplanada, sozinho, e esperei. Tínhamos marcado para as seis e um quarto. Fui bebendo devagar, ainda faltavam uns minutos. Na minha cabeça as palavras do empregado para um cliente aparentemente habitual, ao balcão, «vocês não limpam nada, nem a taça... o Guimarães faz-vos a folha». Dois euros e setenta. Dois euros e setenta. Dois euros e setenta e o André atrasado e a cerveja a chegar ao fim.

Enrolei um cigarro, acendi-o, levantei-me, caminhei para trás e para diante. A impaciência a tomar conta do assunto. O assunto, sempre presente. Para trás e para a frente, dando a volta à boca do metro «mas este gajo nunca mais chega?», eram quase seis e meia. Ao fundo, vejo o meu amigo David, baterista, com a tralha às costas. Cumprimentamo-nos e ele, a estranhar-me, «o que é que estás a fazer aqui?», o David não liga muito à bola, ele é mais jazz, ele é mais rock. Não tentei explicar, disse só «pá... estou numa espécie de... experiência espiritual». Recuou dois passos «tu vê lá no que te metes, meu... cuidado com essas merdas». «Não te preocupes, o pior que pode acontecer é... correr mal». Correu mal.

O André não chegava e já passava das seis e meia. Mais um cigarro enrolado, mais voltas para baixo e para cima, para a frente e para trás. Todo o português espera, em algum momento da sua vida, por um Dom Sebastião. Este era o meu momento e aquele filho da mãe sem horários era O Encoberto, já ia quase um quarto de hora sobre o primeiro apito de cada um dos jogos. De todos os lados, nem nevoeiro, nem Dom Sebastião: sol, sombra e gente de passagem.

Chega o André, entretanto, vem do lado do Rossio, vem de passo acelerado, vem com vontade de pedir desculpas e de dar justificações. Não temos tempo, «vamos mas é ali ao Pingo Doce buscar cerveja, senão não me aguento». Fomos, comprámos duas litrosas de Sagres, bem mornas, aparentemente deixaram de as ter frescas. Antes disso testámos a câmara, testámos o gravador de som. «Está tudo em ordem? Tem bateria que chegue?», perguntei. «Foi tudo acabado de carregar», respondeu ele.

Lembro-me de, na escola primária, a minha professora me ter falado duma experiência com ratos em gaiolas na Avenida da Liberdade. Pretendiam perceber se esta era muito poluída. Era. O monóxido de carbono matou os ratos em pouco mais de um hora. Lembro-me de ter lido coisas acerca de privação sensorial. Lembro-me de ter, em Maio de 2005, imaginado uma situação em que eu, de cachecol ao pescoço, me deslocaria ao Marquês à espera das primeiras buzinas, sem saber o resultado do Benfica no Bessa. Lembro-me de não ter concretizado essa ideia. No domingo concretizei-a. No domingo, quando tudo podia correr mal, quando o domingo tinha tudo para correr mal. Correu mal.

Filmámos a caminhada e gravámos as conversas, fomos subindo e filmando e falando e gravando e bebendo. Sentámo-nos num banco no início da Avenida razoavelmente próximo de uma esplanada. Uma banda tocava covers. Pink Floyd e Doors e outros clássicos. E, de repente, calam-se e o jogo surge em alto som, o da Luz, num ecrã grande. Fugimos rapidamente evitando a informação. Nós não podíamos saber o que se passava.

Subimos mais, com as mãos ocupadas com garrafas, câmara, gravador e cigarros acesos, cada um com as suas funções. Mais acima, outra esplanada, outro ecrã, outra vez o locutor aos berros com o Benfica. Tapei os ouvidos e corri, avenida acima. O André também correu, mas ainda ouviu qualquer coisa. «Não me digas nada, não quero saber nada. Não possa saber nada». Por mais que tentes fugir, a informação persegue-te. Tu não queres saber mas há sempre alguém que quer que saibas. «Vamos para o Parque, lá não há esplanadas nem televisões nem rádios». Fomos.

«Pá, preciso só de dar uma mija», «boa, a seguir vou eu». O Parque quase deserto permite que o processo decorra sem sobressaltos. «Foda-se, a câmara ficou sem bateria». «Guarda-se para o fim, para as primeiras buzinas». «Vou tentar com o telefone, faz aí uma claquete». «Merda, caralho... o gravador também está a ficar sem bateria... que se foda a claquete. Olha, isto é mau dizer foda-se e caralho? É sobre bola, no fundo...». «Não, é na boa». «Foda-se, caralho, foda-se, caralho, fod» «pode-se dizer... não é obrigatório», «ok, desculpa... foda-se, é dos nervos, caralho».

Sentámo-nos na relva, o sol descia, equilibrámos o telemóvel-câmara na mala da câmara-mesmo-câmara «ao menos, que sirva para alguma coisa». Serviu de pouco, aquela merda nem se equilibrava. «Ok, um filma o outro vai falando e vamo-nos revezando... tentamos aparecer os dois no plano». Pareceu-me um plano. Cerveja cada vez mais quente, nervos cada vez mais nervosos, o sol cada vez mais baixo, pardais a chegarem-se perto, sem vergonha nenhuma. «Bom presságio, bom presságio... são aves, são aves como a Águia Vitória».

Empatámos tempo como se fôssemos Ola Johns agarrados às canelas, cheios de esperanças, cheios da esperança possível, cheios com a esperança mais mínima e ridícula que alguém pode ter, sem esperança nenhuma mas com uma fé que não desarma, com conversas que envergonhariam qualquer surrealista puro. E ouviu-se a primeira buzina. «Olha... espera». E ouviu-se outra. E depois algum silêncio. E depois algum silêncio mais. E depois algum silêncio até às oito e vinte e eu disse «foda-se, caralho... aqueles cabrões ganharam esta merda outra vez. Nem sei para que é que ainda tenho esperanças». Pegámos nas coisas, começámos a descer. Quando atravessámos a estrada, junto ao Marquês, já havia meia-dúzia de eufóricos aos pés da estátua e uma dúzia de carros em torno dela, apitando, agitando bandeiras. «Que se foda. Anda, vamos comer uma bifana à Típica». Também comemos caracóis.