sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O velho mal do novo mundial

A minha opinião acerca do projecto de alargamento do Mundial de futebol - e do futebol contemporâneo, de um modo geral. Publicado originalmente na GQ Portugal.

"Está aí o projeto para a americanização definitiva do futebol, no sentido de o transformar em desporto de consumo light, como o são o basebol ou o futebol americano, tornando o soccer ainda mais plástico, superficial e desprovido de paixão e romance do que já está, circunscrevendo-o a desporto de arena para ser observado enquanto se come pipocas na bancada ou diante de qualquer dispositivo de imagem.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, apresentou na segunda-feira um alargamento do Campeonato do Mundo de seleções para 48 equipas, em vez das 32 atuais, a partir de 2026.

Para quê fomentar a paixão e a exigência se podemos entreter as classes privilegiadas durante mais tempo, com bilhetes mais caros e vender mais jerseys com nomes de craques, não é? A tendência não nasceu anteontem e não foi o infeliz Infantino quem inventou o vírus que vai consumindo o futebol moderno.

Faço aqui um parêntesis para tentar situar o tal futebol moderno. Depois da fundação da UEFA e da implementação das competições europeias de clubes, época que podemos classificar como a idade dourada do futebol – expoente do romantismo futebolístico e a era em que o belo-desporto se tornou definitivamente rei -, entrámos numa fase ambiciosa de crescimento. A expansão do fenómeno a territórios que não são naturalmente fanáticos desta nossa bola constitui aquilo a que podemos chamar de futebol moderno.

O Mundial de Itália, em 1990, terá sido o último estertor da segunda idade – essa tal que é dourada – do futebol. No ano seguinte, a versão experimental da Liga dos Campeões era o prenúncio do fim da era. Não nos esqueçamos também do facto de haver novos países nascidos do fim da URSS e da Jugoslávia, o que acabou por fornecer matéria-prima adicional para esta expansão de competições. Demos por nós em 1994 a jogar um Mundial nos Estados Unidos em relvados estranhos e em estádios concebidos para outros desportos, repletos de público na sua maioria incapaz de distinguir um fora-de-jogo de uma entrada de pé em riste. Concordemos em estabelecer 1994 como o começo oficial do futebol moderno.

Daí em diante, assistiu-se a um desvirtuamento quase total de algumas das essências do jogo, a começar pelo que são as equipas. O que é hoje uma equipa de um clube? Ainda no outro dia eu ouvia o brilhante Antonio Conte queixar-se de que era indecente o que os chineses andam a fazer, gastando alarvemente milhões de dólares para comprarem, na Europa, jogadores que são famosos mas que não valem um décimo daqueles valores. Achei graça porque Conte é o treinador do Chelsea, clube detido por um magnata do petróleo russo que comprou não só o clube como tudo quanto mexia e falava português em 2004, por exemplo, e por valores muito superiores ao esperado.

Ou seja, isto de fazer equipas plásticas com dinheiro fresco ainda a cheirar a ouro negro (ou de outras cores e diferentes proveniências) não é uma coisa de agora. É por isso que olhar para as equipas dos anos oitenta me causa tanta nostalgia. Os clubes tinham culto, tanto nas bancadas como no balneário. Já havia dinheiro, claro, e os mais ricos tinham vantagem natural, mas era assim no futebol como o era em todos os outros aspetos da vida contemporânea.

Hoje, a discrepância atinge o nível do insulto – em Inglaterra, por exemplo, uma equipa da segunda divisão, é capaz de gastar 80 ou 90 milhões de libras em contratações de pré-época, coisa que nenhum dos clubes grandes portugueses é capaz de gastar numa só época – se calhar, nem os três juntos gastam tanto dinheiro. É apenas um exemplo, mas haverá mais e igualmente ofensivos.

Olhamos em redor e os miúdos tendem mais a ser adeptos dos Cristianos Ronaldos e dos Messis do que de um clube em particular – e estes dois super-jogadores até são bons exemplos de lealdade aos seus clubes. Se pensarmos no contemporâneo Axel Witsel ou, em versões mais vintage de craques, em Kluivert, por exemplo, verificamos que não passam de trota-mundos que dão o seu espetáculo como os saltimbancos de antigamente, assentando arraiais ora aqui, ora ali, e cobrando bilhete à população local pela sua dose de entretenimento. Fazem-no com zero por cento de apreço pela camisola que vestem e medida semelhante de paixão pelo clube que defendem. E não são os únicos e não se pode culpar apenas os jogadores por se ter chegado a este ponto. Se os próprios clubes cultivam mais o comércio do que a paixão ou se o têm de fazer para conseguir sobreviver num mundo em que os gigantes opulentos do futebol compram tudo o que lhes apetecer, que moral há para que se exija lealdade e amor à camisola aos jogadores?

Este futebol de agora vai triturando o futebol sentimental que conhecíamos em troca dos milhões das audiências e de estádios tão asseados quanto assépticos, concebidos à medida de quem tem dinheiro para ir à bola como quem dantes ia à ópera.

O Mundial de 48 equipas, que Infantino justifica ridiculamente com a democratização do acesso à competição porque “há muitas equipas que nunca lá chegaram”, não passa de uma farsa futebolística. Num desporto de alta competição, baixar-se a fasquia quando tantos lutam para se superar todos os dias é um absoluto ultraje.

Mas tudo bem, vamos ter 80 jogos em vez dos atuais 64. Um terço desses jogos não terá a menor qualidade, o mais pequeno interesse. Porém, com certeza haverá quem possa pagar mais bilhetes de ópera para se sentar nas cadeiras acolchoadas a comer pipocas."

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

107658: a linhagem de Ronaldo

"Voltando o Ronaldo, é curioso perceber que a sua linhagem começou num centralão chamado Ronaldo – durante o Mundial dos Estados Unidos, em 1994, havia uma novidade entre os convocados, um miúdo com uns dentes engraçados e um génio ainda por descobrir, a quem chamavam Ronaldinho. Não chegou a jogar pela seleção brasileira dessa vez lá na América, mas fez parte da equipa. Na altura, chamavam-lhe Ronaldinho porque Ronaldo já havia um na Canarinha, que era o tal defesa-central a quem até chamavam Ronaldão." Texto completo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Muito amor, muita saudade - 107658

"Jonas é tão bonito a jogar à bola que consegue fazer-me sentir saudades dele até durante a semana, quanto mais quando se lesiona durante quatro meses." "Cardozo é Charles Bronson a entrar num pub e a pedir um bourbon enquanto ajeita o palito no canto da boca." Isto e mais ainda na crónica desta semana.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

#107658: até para o ano

De manhã, enquanto descia em direção à estação de Santa Apolónia, lá estava o grupo dos vagabundos, reunidos junto à esquina do kebab, de cervejas na mão. E um dizia “em Inglaterra, no dia logo a seguir ao Natal, eles têm o black day. Passam o dia inteiro a jogar à bola, é de manhã à noite. Na América há o black friday, os ingleses têm o black day. É a mesma coisa só que a jogar à bola”. (...) A mim e aos meus benfiquistas toca-nos todos os anos uma versão reduzida e refrigerada do evento, que é o tradicional jogo de despedida do ano no Estádio da Luz, habitualmente a contar para a Taça da Liga e contra uma equipa da Madeira. Este ano, excepcionalmente, é contra o Paços de Ferreira. Ler versão integral.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Antes que o ano acabe

Bem sei que não temos falado muito ultimamente. Mas aconteceram coisas, eventos, situações, que mereceram crónica. Por exemplo, uma vista ao Sheffield Wendnesday, com direito a pisar a relva de Hillsborough. Depois jogou-se o derby dos derbies. Deu muito que falar, anda tudo louco. A mim, faz-me dores de cabeça. E, como diz o título, antes que o ano acabe, há que falar sobre o que é tão inevitável que acaba sempre por acontecer.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sócio 107658, #2

"Ninguém disse nada sobre a exibição do Pizzi porque há coisas que são tão evidentes que é descabido trazê-las à conversa. Dizer de Pizzi que “fez um jogão“, que “encheu o campo” ou que “esteve em todo o lado” seria o equivalente a apontar e dizer “o estádio é ali em baixo”. A resposta só poderia ser uma, “pois, pois é”." Texto integral.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

107658 para a GQ

Tentando resolver os graves problemas de assiduidade que afectam, decidi assumir um compromisso semanal. Aqui, levarei o espírito Dois-dois-sete, outrora 227218, ao mundo, agora com o número actualizado: 107658. Eis a primeira crónica.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Toques de cabeça

Ele passou por mim na entrada da casa-de-banho, eu estava a enxugar as mãos e ele estava com aquela cara de merda, de alguém que forçava um sorriso e buscava simpatia entre o ácido borbulhante do azedume, e disse-me "eu sei que você é benfiquista. Vou-lhe dizer que nunca vos tinha visto festejar tanto. Parecia que aquele golo vos tinha dado a taça dos campeões" e eu encolhi os ombros, nem sorri, nem respondi, guardei para mim um pensamento cristalino "se aquele golo me tivesse dado a taça dos campeões, tinha-te arrancado a cabeça e a esta hora estava lá fora a dar toques com ela, a celebrar, cão". Não gosto dele. É um sarnento. Anda por ali, sussurra de um lado, provoca do outro. Semeia o veneno e finge ser simpático. Eu finjo que o ignoro, é mais fácil. Mas não ignoro. É um velhaco. O Benfica possível fez das baixas vitamina e foi ao Dragão manter o Porto à mesma distância que estava antes de começar o jogo. Um golo poético - como é que um golo pode ser, em simultâneo, tão injusto e tão justo? - no minuto do destino permitiu que tudo acontecesse assim. Por esse motivo fiquei feliz. O que me fez saltar e gritar foi saber que aquele pedaço de nojo que é como um fantasma negativo iria passar o resto da noite a engolir o próprio fel e a morder a própria língua.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O vestido de noiva

Ela comentou comigo, estava eu ainda à mesa na sala de jantar porque gosto de terminar o meu copo de vinho enquanto executo mais um lance desastroso de xadrez no chess.com e fumo um cigarro, ela estava estendida de lado no sofá, que é na sala contígua, o que faz com que tenhamos de falar bastante mais alto do que falaríamos se estivéssemos como pertence, frente-a-frente ou lado a lado, especialmente quando a televisão está ligada, o que sucede quase sempre, e tudo porque tentamos evitar o recurso ao whatsapp quando nos encontramos na mesma casa, a menos de oito metros de distância, "já viste que o Benfica lançou uma linha de vestidos de noiva?".

Não respondi. Para todos os efeitos, podia perfeitamente nem ter ouvido. "Mas isto existe mesmo? LOL", perguntou ela dirigindo-se a ninguém em particular com aquele riso expresso em letras com que as pessoas se riem agora quando pretendem ser sarcásticas e azedas e más para o Benfica. "Babe, o Benfica pensa em tudo", retorqui. "Até nas nossas mulheres", acrescentei. E espreitei como um gato que estende a cabeça lenta e furtivamente detrás da porta entreaberta. Ela espreitava de volta com um sorriso muito sarcástico naquele rosto sportinguista e magnífico. Apeteceu-me pedi-la em casamento só por causa daquele ar deliciosamente malicioso e para ela aprender que com o Benfica não se brinca, mesmo quando o assunto são os vestidos de noiva.

"Tudo muito bonito" disse ela, virando-se de novo para a TV, citando-me das vezes em que cito um senhor de uma loja chinesa que dizia sempre que "neste estabelecimento, tudo muito bonito. Muuuito bonito". E eu voltei ao meu xadrez mas sem conseguir tirar da ideia a imagem dela vestida com aquele vestido de noiva vermelho, justo e do Benfica, já convertida ao Benfiquismo.

Acendi mais um cigarro e observei de novo o tabuleiro onde as brancas eram cada vez menos e as pretas estavam cada vez mais perto e pensei em como seria um absurdo convertê-la e, assim, amputá-la de uma das suas mais fascinantes e misteriosas facetas: a de mulher sportingusita que ama um benfiquista como eu. Não sei se algum dia casaremos. Mas não há vestido de casamento tão valioso quanto isto.

domingo, 2 de outubro de 2016

Por falar em ódio de estimação

Carrillo merece todos os nossos lamentos. Não sei se isto é unânime mas espero que seja. Há um senhor atrás de mim no sector 6 que o ofende sempre que ele toca na bola, o que é não só condenável no que respeita à conduta imprópria e ao linguajar corriqueiro num sítio nobre como é aquele recanto do estádio, como, feitas as contas, é manifestamente desproporcionado, por defeito, se tivermos em conta a quantidade de desaforos e impropérios com que o peruano merece ser brindado - isto é, caso não fôssemos estóicos nesta convicção de que os jogadores do Benfica não são para ofender. Dou de barato que Carrillo é jogador e do Benfica, atenção.

Vem esta introdução a propósito de alguns comentários críticos e legítimos de que fui alvo quando falei sobre Pizzi. É que houve alguma distorção do que foi escrito por quem escreveu esses comentários. O meu fel para Pizzi não é de ódio, é de amor. É um jogador que terá sempre de provar, a cada jogo, que a versão que leva para o campo é a do Pizzi Bom e não a do Pizzi que dá a bola ao avançado do Vitória de Setúbal mesmo à entrada dos descontos, mesmo à saída do meio campo e que nos podia ter custado um campeonato. Que fique claro que o Pizzi não é o meu ódio de estimação. O Pizzi é o meu amor pobre e torto. Mas, ainda assim, no meu coração, está no sector do amor, não do ódio.

Como afirmei no texto anterior, outros houve que carregaram esse alvo nas costas, no peito e sobretudo nos pés. E fizeram-no sempre sob o meu aplauso contrariado ou o meu nariz torcido e lábio franzido, como quem diz "este gajo, pá". Mas o ódio é outra coisa e não tenho pelos que mo despertam ou despertaram a menor estima.

Podemos começar por Carrillo precisamente, um pequeno mercenário fraco de personalidade. Sempre tive preconceito em relação a gente que cospe no prato de onde comeu. Relembro sempre Carlos Martins, essa fraude outrora careca e sempre de curta duração, que será a epítome definidora do conceito. Aplaudi um golo seu, um único. E só porque foi contra o Porto, instituição que surgia, à época, abaixo do próprio Martins na minha escala da estima. Se fosse hoje, agradecia o golo e nem me dava ao trabalho de o festejar.

De volta a Carrillo. Fico surpreendido de cada vez que o veja equipado à Benfica. Depois da surpresa, sinto algum transtorno. Não é uma sensação que se possa agrupar nas frustrações ou das desilusões. É antes uma constatação que me desagrada imensamente: temo-lo connosco, entre nós, na nossa relva e com as nossas roupas. É disso que não gosto. O Carrilo é uma reedição de Fernando Mendes com menos estupefacientes. O Carrillo não merece sequer o meu protesto. Sinto somente um espanto desagradável, negativo, quase embaraçoso, de cada vez que o vejo com aquela camisola vestida.

sábado, 1 de outubro de 2016

We should talk about Pizzi

ou de como Nem Sempre O Amor É Amável.

Vejo muita gente empolgada com Pizzi, até li recentemente apologias do médio. E acho que alguém anda a ver um génio onde eu só vejo um tipo com dupla personalidade e uma lamentável capacidade de passe curto. Onde alguns vislumbram um talento incompreendido, eu pressinto um cidadão com algumas dificuldades para compreender a complexa simplicidade da linha recta, da tabelinha ou da função básica de soltar a bola depois de um ou dois toques. Onde muitos, ao que parece, adivinham um brilhante pensador de jogo, eu aposto que existe um homem de espírito contemplativo que prefere pensar na vida quando é hora de ajudar a defesa.

É possível que Pizzi seja o meu alvo de estimação. A paixão futebolística e o amor clubista nunca foram essências da composição do raciocínio razoável. Já tive outros no lugar que Pizzi ocupa hoje, não no campo mas no meu coração. O último foi Lima. E eu sei que nem sempre sou brilhante de opinião. Creio que não exagero se afirmar que é globalmente aceite a noção de que sou um dos piores profetas do futebol de todos os tempos. Há um ano e 45 dias, por exemplo, previ sem hesitação o inevitável descalabro do Benfica, uma descida aos infernos que terminou no Marquês 9 ou 10 meses mais tarde. Contudo, o facto de prever muito mal não me inibe de formar opiniões.

E às vezes tenho razão. E, mesmo quando me respondem com números, é possível que eu consiga responder com factos. Lima tinha chegado ao Benfica com quase 30 anos e custou 5 milhões de euros pagos a um clube que nos recebia com bolas de golfe. Começámos logo mal. Depois, não festejava golos quando marcava ao Braga, o que é inaceitável - não engulo essa treta do "respeito ao clube por onde passou"; então e o respeito ao clube que lhe paga? E aos adeptos desse clube? Logo Lima, que só passou por 18 ou 19 clubes ao longo da carreira.

Relembro ainda que Lima, apesar de todos os golos que marcou - e marcou aquele golo do Gaitán ao Sporting, por exemplo -, falhou uns quantos que não podia ter falhado. Nomeadamente, uns 16 contra o Estoril numa soalheira tarde de Maio de 2013 e outros tantos, cerca de um ano mais tarde, numa noite amena em Turim. Aplaudi-o em todos os golos mas o meu amor por ele pulsava-me com fel no sangue.

Com Pizzi acontece o mesmo. Não consigo gostar sem mácula de alguém que complica tanto e tantas vezes. Tem o meu aplauso e o meu amor enquanto vestir aquela camisola abençoada, mas nunca terá a minha mão prometida ou o meu olhar embevecido. Os meus sentimentos por Pizzi são tortos como os seus passes. E todos os que pensaram que eu ia dizer "os seus olhos" devem penitenciar-se.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Bom jogo de cabeça: Portugal - Islândia

Tenho lido e ouvido por aí coisas que acho disparatadas ou erradas ou, no extremo, ignorantes acerca do Portugal - Islândia. Os equívocos são vários e revelam uma vasta panóplia de deficiências no processamento de um jogo de futebol, primeiro, e na reflexão sobre o mesmo, depois.

O entusiasmo nacional-ronaldista e a certeza de que somos, à imagem de Ronaldo, aliás, os melhores, mais bonitos, mais fortes, mais espertos, mais rápidos e, no fundo, mais melhores de todos só pode ser justificado com a nossa percepção equivocada do futebol. Para começar, há uma noção fundamental que é conveniente adquirirmos: existe um adversário em cada jogo. Sim, é espantoso e, na maior parte das vezes, até desnecessário porque acabamos quase sempre por ganhar. Mas a regra diz que é assim e que tem de estar lá alguém a fazer de adereço para que Ronaldo possa talentosa e fabulosamente contornar todos os pinos humanos, voltar para trás e disparar um míssil a 365 quilómetros por hora a 57 metros da baliza com a bola a ir ao ângulo. Isto, umas sete ou oito vezes por jogo.

O treinadorismo de bancada também não está em grande forma. Dantes, um simples "epá, isto em 4-4-2 não vai lá, tem de ser em 4-3-3" ou o mais pensado "tirava o Nani e metia o Quaresma" bastariam para contestar Fernando Santos, homem praticamente inexperiente nisto do futebol e que, por deficiência sensitiva ou cognitiva, não consegue ver que Quaresma está ali, mesmo ao lado e quando, ao fim de quase 80 minutos, repara no craque, bate com a mão na testa e diz "epá, estavas aí... que porra, pá. Podias estar lá tu em vez do Nani, merda para isto e para as minhas cataratas". Mas desde que Freitas Lobo introduziu as basculações, as transições, a intensidade e a segunda bola neste desporto que, na sua origem milenar, sempre foi disputado por duas facções tentando levar um e um só objecto até à torre de menagem da facção opositora, dizia que eu que Freitas Lobo tinha de vir com esse novo palavreado para complicar o assunto e agora, em qualquer balcão de qualquer café, ouvimos qualquer um dizer, muito senhor de si, que "estamos a circular mal a bola". Assim não vai dar.

A verdade é que a nossa tendência crítica é muito manca devido, sobretudo, aos dois motivos acima mencionados e que, no fundo, são só um: excesso de entusiasmo connosco mesmos. Somos um povo arrogante. Normalmente não falamos no assunto porque não gostamos de ter noção de uma série de coisas, incluindo dos nossos próprios defeitos. Mas somos. E foi mesmo por aí que Portugal deitou fora dois pontos, que não eram nem preciosos nem fundamentais, mas que até seriam justos.

Portugal jogou bem. Não jogou bem o jogo todo, até porque lhe perdeu o controlo e lhe soltou as rédeas a partir de um certo ponto. Mas jogou bastante bem. Depois de uma investida venenosa, a frio, em que a Islândia podia ter marcado, os portugueses assentaram jogo, definiram estratégias e chegaram à baliza adversária muitas vezes e com perigo, ao mesmo tempo que a Islândia não conseguia qualquer iniciativa atacante digna desse nome. Isto durou dos 8 aos 45 minutos e foi avassalador. Criámos cerca de 15 oportunidades de remate, umas 5 ou 6 claramente para golo. Fizemos mais de 500 passes com uma taxa de aproveitamento acima dos 85%, pelo que, enfim, lá se vai a teoria da circulação de bola daquele senhor de bigode e faces rosadas. E ganhámos praticamente todos os lances aéreos antes do intervalo - temos de exceptuar os patéticos cruzamentos para a pequena área, invariavelmente arrumados nas mãos do guarda-redes. Recolhemos ao balneário a merecer ganhar, sem dúvida, mas a ganhar por muito pouco ainda.

Aparentemente, ninguém do lado português ligou nenhuma ao assunto. Ninguém leu o jogo e sublinhou o que tínhamos feito de melhor e eles de pior. É que, se o tivéssemos feito, teríamos sabido o que eles tentariam corrigir. E teríamos estabelecido uma contra-resposta. Mas não, somos Portugal, temos o Ronaldo, estamos a merecer ganhar e eles vão levantar a bandeira branca aos 5 a 0 e pronto, vai tudo para casa. Esquecemo-nos que a Islândia já não é composta por padeiros e malta da faina do mar, eles também têm jogadores profissionais. Não são do Real Madrid, mas são de futebol de alta competição. E, se são de alta competição, é porque alguma competência eles hão-de ter. E se eles tiverem um treinador que, antes deste jogo, já sacou três empates em quatro jogos contra Portugal, então configura-se aqui aquilo que, com azar, pode vir a ser o chamado "bico d'obra".

Regressámos então para a segunda parte com a inabalável confiança lusitana e a soberba, certamente genuína mas, ainda assim, desagradável, de quem tem, não me canso de o repetir, Ronaldo. Ronaldo diz-se Rónáldo em momentos de grande exaltação nacional e fervor patriótico. Acredito que há 600 anos, às portas de cada batalha, o povo também admitisse perante as câmaras que o seu favorito e o melhor do mundo e aquele que iria aviar os espanhóis todos era o Nónálvares. Nónálvares era o craque, era o melhor e o que colecionava hat-tricks de cabeças castelhanas. Temos sempre alguém que é o máiór nestas situações. Voltaram então Rónáldo e os amigos para, enfim, trocar a bola enquanto matavam o tempo até à vitória decretada pelas bancadas, pelos comentadores, pelo próprio Rónáldo, por várias pessoas à porta do estádio e, admito, por mim próprio, quando a Islândia comete a deslealdade de alterar a estratégia e de nos tirar a bola. Como é que eles fizeram isso? Ninguém viu? Foi simples, impediram-nos de jogar pelo chão - aumentaram a pressão a um ponto incrível - e não nos deixaram ficar com as bolas pelo ar. Mas como, se na primeira parte ganhávamos todos os lances aéreos? Danilo, Pepe e Carvalho estavam imperiais e já não estamos no tempo em que o português médio tem um metro e cinquenta e picos ao passo que os vikings chegam com dois metros e catorze, fora o capacete com os cornos. Agora mede tudo o mesmo. Sucede que os islandeses descobriram que, empurrando os portugueses para fora do espaço, ou ganhavam a bola e seguiam a jogar, ou o árbitro dava falta e as perdas de jogo aéreo já não se traduziam em ganhos portugueses com a Islândia desarrumada. Esta estratégia parece inofensiva, à primeira vista. Mas o certo é que ficámos sem bola.

A isto somou-se uma outra deslealdade. O flanco direito islandês, que passara toda a primeira parte a deixar que Raphael Guerreiro fosse fazer companhia a João Mário e Rónáldo, de repente decide fazer um ataque. Assim, do nada, dá-lhes na cabeça e sobem pelo flanco que só não tinha pó porque, na primeira parte, o jogo era ao contrário. E deu golo. Reclamem o que quiserem com Pepe e Vieirinha, mas eu vi muito bem 6 portugueses na área contra 2 islandeses e só um dos islandeses estava marcado. O avançado levou tão bem o Pepe para onde quis que o Vieirinha, deslumbrado, nem deu por aquele loirinho muito bonito a aparecer-lhe nas costas, solitário e tosco, a rematar com a canela que tinha mais à mão e a meter bola fora do alcance do Patrício, coisa que Nani com a sua cabeça tão esperta e milionária não conseguiu fazer por 4 ou 5 vezes, uma delas a dois palmos da linha de golo.

Portugal produziu muito ataque e produziu bem. Falhou na concretização. Acontece. Não devia acontecer, mas acontece. Houve jogadores que jogaram melhor do que outros mas, enquanto equipa, as coisas funcionaram. Não entendo as críticas a André Gomes, a Danilo ou a Moutinho. Mesmo Nani falhou muito mas fez um golo. Rónáldo mexeu-se pouco e, ainda assim, trabalhou. João Mário esteve apagado, mas não o vi falhar passes e contribuiu para a boa circulação de bola. Não fomos nós que perdemos o ponto, foram eles que o conquistaram, com mérito. Os islandeses ganharam este ponto graças ao seu jogo de cabeça - da parte de dentro da cabeça.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Em penitência

Eu achei mesmo que tudo ia correr mal. Eu achei mesmo que o Rui Vitória não era treinador para o Benfica, achei mesmo que aquele futebol medonho dos primeiros meses - atenção, não foram semanas, foram meses - nunca iria melhorar, eu acreditei mesmo que as derrotas contra os rivais Sporting e Porto nos condenavam a um remoto terceiro ou quarto lugar a mais de uma dezena de pontos do campeão. Felizmente, existe uma coisa que se chama realidade e essa realidade tratou de me dar uma lição de humildade demonstrando duas coisas muitíssimo simples: a minha opinião não vale nada e sou péssimo a prever o futuro em assuntos futebolísticos.

Esta pessoa que, ontem, no estádio, se ajoelhou e aplaudiu de cabeça baixa, em penitência, a passagem de Rui Vitória pela passadeira dos campeões, sou mesmo eu

Este texto em que me retracto podia ter sido escrito há duas ou cinco ou oito jornadas, pouco importa. A partir de um determinado ponto, ficou claro que, afinal de contas, o burro sou eu e tanto Vieira como Vitória sabem o que fazem. Não precisava sequer que o Benfica se sagrasse campeão para assumir toda a minha azelhice. Se não o escrevi antes foi porque o Benfica ia em primeiro comigo calado e, nestas coisas, em equipa que ganha não se mexe. Jimmy Floyd Hasselbaink diria que a superstição é a primeira das fraquezas e eu concordo, sim senhor. Mas longe de mim ser responsável pela derrota do Benfica por causa de não saber estar calado.

Agora, em relação aos que clamam "ah, hoje festejas mas há uns tempos criticavas", tenho aqui em baixo duas fotos para vos mostrar.

É que ter opinião, por mais idiota que ela venha a revelar-se - como se revelou -, é um direito de que não abdico. Da mesma maneira que não abdico de ir ver o meu clube, sempre que posso, do lugar que decidi comprar no dia 26 de Maio de 2013, quando adeptos do Vitória me esfregavam cachecóis brancos na cara e me chamavam cabeçudo-mouro-filho-da-puta (não é fácil ver jogos no meio da claque do VSC) naquele que terá sido, ao mesmo tempo, o momento mais difícil de todo o meu benfiquismo e o momento em que o meu benfiquismo se revelou com mais força, determinação e paixão. Desde esse dia e até hoje, o K4 do sector 6 é meu. Com Rui Vitória, com JJ ou com quem lá estiver, porque o meu clube é muito maior do que eles todos juntos. Mesmo que eles nasçam 10 vezes. Se não treina o Jorge, treina o Manel. Isso não interessa para nada.

Viva o Benfica, tricampeão de Portugal e, acima de tudo, o clube mais bonito do mundo!

quinta-feira, 10 de março de 2016

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

107658

Não aguentei mais e fui buscar um cartão de sócio. O meu plano era simples: ia almoçar com o Jonu e comprava bilhetes para terça-feira, para mim e para o Eduardo. Mas o Jonu foi fazer uma segunda via do cartão dele e eu pensei "ah, que se foda, faço um também", paguei os tais cinco euros e, um minuto depois, tinha o cartão novo na mão. Ainda me perguntaram se eu queria fotografia, eu perguntei "sei lá. O que é que é preciso fazer?" e o empregado "nada, podemos usar a velha" e eu "então faz isso". Um minuto e cinco euros, foi o quanto me custou fazer uma cartão de sócio novo. O velhinho 227218 foi desactivado. O novo nome do blogue fica como homenagem à origem, à raiz, à semente do sócio Benfiquista que há em mim. E, ao mesmo tempo, ao plano para o caos estratégico com que sonho quando concebo um mundo em que o futebol é perfeito: bola p'rá frente, mini na mão direita e a mão esquerda a gesticular com a equipa de arbitragem. O segredo é não complicar.