quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sem Título

Eram nove e meia quando aterrei em Faro. Assim que as rodas tocaram no chão, não aguentei mais: liguei o telefone e abri o site d' A Bola. «Benfica entrega título ao Porto». «Vês? Vês?» disse eu para a Lady. É que eu sonhei com este desfecho. E só não postei a previsão no facebook porque ela não deixou, «oh, larga isso, estamos com pressa» e eu larguei, bem-mandado que sou.

No meu sonho, estávamos a jogar hóquei em patins. Contra o Gil Vicente, fora. Não me peçam para explicar. Estava dois a dois e o relógio fazia a sua contagem decrescente. Nós, Benfiquistas, sofríamos e eu dei por mim a sofrer muito mais do que seria suposto com um jogo de hóquei em patins – repito: contra o Gil Vicente. A dada altura, começam a ouvir-se cânticos «campeões, campeões, nós somos campeões» e eu, baralhado, olho em redor, buscando a claque do Gil Vicente. Tudo estava sereno, os próprios jogadores, no ringue, pareciam serenos. Até que vislumbrei, num topo, vinte ou trinta rapazes, vestidos de azul e branco, aos saltos, a cantar e a deitar foguetes. Acordei, sobressaltado e esclarecido: o campeonato não passava daquele dia, estava escrito.

Saí do avião e liguei para a minha mãe. Notei-a tímida, um pouco embaraçada. Não tocou no assunto e perguntou-me se a viagem tinha sido boa. Disse que sim. E foi, de facto. Durante a última semana, desliguei-me de todos os assuntos por vontade própria. Do único que não queria desligar-me, vi-me forçado a fazê-lo: voei das seis e meia da tarde às nove e meia da noite, precisamente durante a hora do jogo e mais uns tostões. A minha mente estava limpa e o meu coração sossegado. Quando li A Bola, percebi que o empate e a perda matemática do campeonato eram apenas um momento definitivo, cristalizado como a morte de uma vizinha que sofria de cancro do pulmão já há meses. É triste, mas é pacífico. Dói menos a hora da morte do que a expectativa da morte. Ver-nos definhar foi, sim, doloroso. Ver-nos perder de uma vez por todas foi apenas uma inevitabilidade. Era uma questão de tempo. Agora ou para a semana, não faria diferença. Vale-me o consolo de não me encontrar em solo nacional à hora precisa do óbito e do início dos festejos mórbidos.

A minha mãe liga-me sempre após – e, às vezes, durante – os jogos do Benfica. No domingo, não só não o fez como não tocou no assunto. Deduzi que preferisse saber de mim, da viagem, da estadia, se me tinham rebentado os tímpanos (Manel: grande abraço, sábado tens direito a duas médias, aquelas gotas são um pequeno milagre) na aterragem. Estranhei, mas não fiquei profundamente impressionado. No dia seguinte, a minha mãe ligou-me de novo, a saber como estava e para falar um pouco mais sobre a jornada inglesa. Aguardei pelo toque no futebol. Nada. Sempre que o assunto podia resvalar para o campeonato, esgueirava-se, torcia a conversa «então e o Big Ben, gostaste?» e eu «ah, não é feio, mas gostei mais do Emirates» e ela «então e a Tower Bridge?» e eu «infelizmente, não consegui foi ir a Wembley – mas vi Stamford Bridge e o campo do Crystal Palace» e ela logo a atalhar «pois, filho… e eu que gostava tanto de ir a Buckingham, ver os soldadinhos».

As mães têm um instinto maternal apuradíssimo. E a minha, derivado deste filho que tem, possui um redobrado. A minha mãe estava a tentar proteger-me, procurando adiar o choque. Não me queria dar a notícia «sabes, filho… tenho uma coisa para te dizer. O Porto já é campeão». Ela não sabia que eu já sabia. Ontem, voltámos a falar. Mais uma vez, a viagem foi o tema da conversa. Sobre bola, nem uma palavra. E o diálogo foi fluindo «filho, tenho cá favas, não queres vir o fim-de-semana?» e eu senti que era a minha oportunidade «não, mãe… sábado quero ir à Luz».

Houve um silêncio prolongado. Houve embaraço do outro lado da ligação. Então, a minha mãe lá ganhou coragem e disse «vais lá fazer o quê, filho? Eles já perderam…» e ouvi o meu pai lá por trás «o quê, ele ainda perde tempo com ‘isso’?». «Mãe, eu não sou do Benfica só quando ganhamos. E não vou deixá-los sozinhos, nunca – nem que descêssemos à terceira. Sábado, vou lá estar. Preciso de lá estar».

7 comentários:

Filipe Araújo disse...

"Mai" nada, na saúde e na doença! Na alegria e na tristeza! Muito bem! Sábado, como é óbvio, também lá estarei!


PS: que gotinhas são essas milagrosas? É que eu também sofro do mesmo quando ando de avião...

Diego Armés disse...

Neo Sinefrina (comprei com receita médica).

Hugo disse...

Obrigado pá!

Nesta semana de luto nacional, ler isto é qualquer coisa de gratificante...

E sim, desistir, nunca!

Abraço...

JPAzevedo disse...

Bruto...é assim mesmo adorei o final...tambem lá estarei...c muita dor de ver a enorme familia chateada....mas acima de tudo o Benfica!

Germano Bettencourt disse...

Lindo. Não a foto de perfil que publicas. O texto sim. É esse o espírito.

A Neo Sinefrina é um MNSRM. Podem ir à farmácia e pedir.

Abraço

JC disse...

Não desvalorizando o resto da posta, a cena das gotas interessou-me sobremaneira.

M. disse...

Na altura em que me pediste a receita, o prontuário online estava em baixo, portanto fiquei sem saber se precisava de ta passar ou não. Agora fiquei a saber pelo Germano que não (médico?).
Os teus textos são uma maravilha, foda-se. E o foda-se não é nada despiciendo, porque irrita quem escreve assim tão bem, caralho.
Um abraço