segunda-feira, 27 de maio de 2013

Haverá sempre uma bandeirinha que se agita

Hoje ao almoço estava a comer o meu resto da telepizza da véspera, aquecida no micro-ondas e pensei «é isto: a era que estás a viver tem a sua metáfora nesta refeição». Telepizza requentada no micro-ondas: nada - nem um ingrediente - ali é remotamente comestível. Só cedi à ingestão do detrito porque a escolha era entre isso e o jejum. O meu mês de Maio de 2013, que terminará dia 31 - como previsto - numa cadeira de dentista - como não surpreende - é apenas um período de tempo, uma nuvem de cronologia que teima em demorar-se sobre mim mas que eu estou à espera que me passe de maneira a que eu possa voltar a ter uma vida sossegada e equilibrada, da qual conceitos como "lógica", "expectativa" ou "conquista" possam voltar a fazer parte.


Vergonha?! mas qual vergonha?

Enquanto mastigava, com algum custo, aquela matéria ressequida com um sabor aproximado a tomate, ranço e miolo de camarão do Lidl fora do prazo de validade, tentava elaborar mentalmente uma lista de coisas que posso fazer durante os próximos dois meses e que não fiz durante estes últimos nove:

-passar fins-de-semana fora com a Lady Verde, totalmente focado apenas nisso
-visitar os meus pais com frequência
-poupar dinheiro
-não comer muitas bifanas
-fumar menos, muito menos
-nada, absolutamente nada
-música
-passear aos sábados
-ver filmes "no I.Q. required" aos domingos
-vestir cores mais variadas
-ir à praia
-ver o pôr-do-sol
-ler menos A Bola
-ler mais literatura
-cortar a barba duas vezes por mês
-jogar à bola às quartas-feiras
-sofrer menos


Isto era só o vento.

Quando a bola entrou pela segunda vez, senti as pernas perderem força, senti uma profunda confusão mental como se a matéria cerebral se dissolvesse - juraria que podia ter-me escorrido pelo nariz, naquele momento -, faltou-me o ar. Tudo me falhou. Desejei ardentemente teleportar-me para casa, para a cama e deixar que a febre me consumisse. Não consegui falar.

É a quarta vez que me acontece isto no espaço de vinte dias. Andei 9 meses a ganhar como se não houvesse amanhã; ando há 20 dias a perder não sabendo se haverá realmente um amanhã. Qualquer coisa acabou ontem quando o Jorge Sousa soprou para o apito final e eu não sei se foi o mundo ou se foi a época. Mas foi grave.

Não me despedi de Pablo Aimar e não tive forças para assistir à coroação do Vitória. Não foi falta de educação, foi falta de tudo o resto. Não vi grande coisa depois disso no caminho até ao carro. Lembro-me de pedir os óculos de sol de volta. Não consegui encarar o mundo, não consegui pensar no Cardozo, no Jesus, no pontapé do Artur. Tudo o que sentia era uma dor muito pesada, em todo o peito, em todo o estômago, na garganta, nas têmporas.

Quando, mais tarde, na Típica, comecei a lamber a feridas, dei por mim a ter uma das mais inusitadas e inesperadas reacções. Peguei na bandeirinha, agitei-a e, com a voz ainda muito fraca, gritei baixinho «Benfiiiica! Benfiiiiica!» e senti-me como se tivesse outra vez seis anos e imaginei o meu pai a olhar para mim, a abanar a cabeça e a dizer «não sei como é que consegues».

6 comentários:

Lmsoa1 disse...

Deixa lá, é só futebol melhores tempos virão.

Qualquer coisa vai para o azul que aí é mais alegre, ou para o verde que aí ainda é mais alegre visto que já lhes desceu o orgulho, já nem se importam se ganham ou perdem.

Fora a brincadeira. eu vejo isto desta maneira, fizeram o que conseguiram, ficaram muito bem vistos em todas as competições onde concorreram. Lembro que perderam estes recentes jogos com muito azar, foi uma das melhores épocas do Benfica da actualidade e é de lembrar isso! Pois sei que se mantiverem a cabeça no sitio, para o ano há grandes possibilidades de repetir a proeza de estar em 3 ou até 4 finais!

E não te esqueças que o Sporting também passou por isto bem recentemente, a ver é se o Benfica não vem por aí abaixo com este acontecimento, como aconteceu com os senhores de verde.

PS: Sabes também que nenhum dos jogos era fácil, se calhar é esse foi o problema da taça, achar que era fácil demais.

PSS: Mais uma coisa que se diz aqui na minha zona: "Sócio que é sócio nunca perde, seja qual for o resultado".

Unknown disse...

Grande grande texto! Obrigado!

Rosana disse...

Eu já faço do 227218 terapia. As tuas palavras trazem sempre um bocadinho de conforto a este pobre coração Benfiquista. Para mim, que no ínicio da temporada decidi multiplicar por 10 os 300km que me separavam da Grandiosa Luz, os jogos não só encurtavam a distância como duplicavam a alegria a cada semana, qual função exponencial. Uma pessoa já só pensava no próximo, como que a prever a Glória que há tanto almejamos.
A penúltima jornada feriu-me de tal maneira que me senti a ser teletransportada para dentro do furacão que nos foi devastando a cada final. Como que se eu também tivesse um bocadinho de culpa no meio disto tudo. Encontrei no silêncio o melhor caminho para superar estas três semanas. Agora, só me quero ver livre deste mês que me vê envelhecer a cada ano que passa. Aproveitar estes próximos dois para limpar os estilhaços e recompor o jardim. O furacão passou, deixou as suas marcas, mas a casa, essa, continua bem firme e pronta para abrigar mais Invernos destes, se os houver.

Obrigada por continuares a partilhar connosco o teu Benfiquismo, Diego.

Viva ao Benfica!
Rosana.

Germano Bettencourt disse...

Mete aí nessa lista uns dias para vir aos Açores e passa por São Jorge. Sinta-se convidado.

Mais não posso fazer, pois estou igual a ti. Mas o pensamento tem de ser esse, "desistir, NUNCA".

PS: Vi vários grupos de bigodes no Jamor, nenhum deles foi o teu. Senão teria ido cumprimentar-te. Se bem que não sei se te reconheceria sem a barba. :P

Jota disse...

Como eu te compreendo, irmão!

John Doe disse...

Post brilhante. Foi tão isto que ate me arrepiei passadas 48horas desde essa desgraça