quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Para além de ganhar e perder

«Era bom que o Barcelona deixasse de ser um objecto de adoração com o qual todos os adversários - menos um - ficam eufóricos por perder. É uma equipa de futebol, não o Dalai Lama
José Manuel Ribeiro, in O Jogo.

Não gosto do Barcelona. Foram várias as equipas desse clube que muito admirei - a de Romário, a de Ronaldo, a de Figo, a de Ronaldinho -, mas o clube nunca me fascinou. Impressiona-me a sua dimensão, desgosta-me a sua postura: a de eterno número 2.

Pressinto no Barcelona uma espécie de essência ressentida, um género de novo-riquismo com muito maus modos, a ambição de um desesperado, a deselegância de alguém a quem nunca assentarão bem plumas nem pérolas. Pode ser uma distorção minha, um erro meu de interpretação da massa e do espírito culé, que, decerto, terá muitas e portentosas virtudes. Não estou a defender uma teoria científica, estou apenas a partilhar a minha impressão.

O Barcelona ganhou a sua primeira Taça dos Campeões em 1992. Isto é, o Barcelona ganhou pela primeira vez aquilo que o Benfica ganhou pela primeira vez 31 anos antes. Contra o Barcelona. Depois de o Barcelona ter eliminado o poderoso Madrid - que seria, na época, um rival caso o Barcelona se pusesse em bicos de pés - e se preparava para lhe conquistar a coroa europeia. Esse momento definiu a nobreza da linhagem de um clube e a deformação, pelo ressabiamento, do espírito de outro. Ou seja, o Benfica tem a sua culpa nisto de o Barcelona ser um inequívoco mas perpétuo pretendente ao trono.

E é por tudo isto que me custa compreender que o Barcelona tem uma equipa muito melhor do que a nossa e que joga um futebol muito mais poderoso e difícil de contrariar. Entendam-me: eu percebo que é assim. Mas recuso-me a aceitar o facto com um encolher de ombros embevecido pela deslumbrante qualidade do meu adversário. Eu quero mais é que o Messi se foda e as melhoras do Puyol, temos pena - mas olha, acontece. Perder custa-me, por mais Barcelona que este adversário seja. E podíamos ter feito melhor. Tentando, lutando, honrando a nossa história e as nossas origens.

Aceitar racionalmente uma derrota é um gesto sensato, uma questão de justiça elementar; sentir orgulho nessa derrota é, num Benfiquista, uma falha de personalidade.

5 comentários:

Rui disse...

Até que enfim, um post decente sobre a merda da derrota de ontem. Eu também quero que o Messi se foda. Perdemos e não jogámos a ponta de um chavelho. Se há quem fique feliz com isso, também se pode ir f***r.

Germano Bettencourt disse...

Bom post, como sempre nos habituaste.

Um abraço

Tolan disse...

Concordo, também senti o mesmo, como que uma resignação. Não era caso para tanto.

pitons na boca disse...

Discordo em absoluto dos dois primeiros parágrafos.

No entanto, a ultima frase é em cheio no alvo. Mas há muita gente a não perceber isso, confundindo as duas coisas numa só.

Hattori Hanzo disse...

Também nunca gostei deles como clube, embora pratiquem actualmente o melhor futebol que alguma vez vi jogar.
Grande texto e, tal como o Pitons, concordo principalmente com o último parágrafo.