terça-feira, 30 de outubro de 2012

O mundo precisa de Marias

Em conversas deambulantes com a Lady Verde surge, por vezes, o tema "nomes para filhos". Não que estejamos a equacionar um investimento no alargamento familiar. O bom senso tem vindo a prevenir tal decisão e o facto de sermos, no presente, dois desempregados sob o mesmo tecto vem demonstrar por que razão lhe chamamos "bom senso" e não outra coisa qualquer. Mas pensamos no assunto, até porque tenho o sonho de alargar o universo Benfiquista, injectando-lhe sangue do meu. Nesta parte, discordamos, eu e a Lady. Porém, não creio que, chegada a altura de cumprir o sonho, ainda exista Sporting suficiente para me dificultar a missão.

Eu gosto do nome Maria Olívia. Olívia porque acho bonito, Maria porque o mundo carece claramente de Marias. É um nome que a modernidade foi votando ao desuso. Há quem considere, ainda, que os nomes compostos são uma invenção suburbana ou provinciana, resultado dos impulsos criativos de uma geração recém-libertada das tradições e costumes conservadores do nosso Estado Novo - e o meu próprio nome, que, por pudor, não revelarei, pode até atestar o acerto dessa opinião. Contudo, a minha avó chama-se Maria da Conceição e a sua filha, que é minha mãe, chama-se Maria João. São ambas nascidas num tempo em que o Presidente do Conselho esbanjava vigor e saúde. Portanto, não generalizemos.

Maria foi sendo substituído, sobretudo na minha geração, por Ana. Qualquer coisa se chamava Ana em 1985. E, se as Marias José, de Jesus, Francisca, Antonieta ou, lá está, Olívia foram desaparecendo dos recreios de escola primária, o seu lugar foi sendo tomado pelas Anas Catarina, Sofia, Cristina, Patrícia ou Isabel. Existe ainda uma franja de Carlas - de Alexandra a Susana - que prosperou nesse período em que o subúrbio e a província expandiam, cheios de convicção e crentes no glamour, o nome composto, eliminando a singeleza das Marias e reinventando a designação feminina recorrendo a novidades oriundas de outras paragens, respirando sofisticação globalizada, com inspiração que podia vir tanto do Brasil como da Checoslováquia.

No mundo do futebol - já o disse aqui - reconheço tanto o mérito como a utilidade ao recurso a nomes novos. Quem chama João - só assim "João" - a um filho não pode esperar que este venha a impor-se no belo desporto da mesma forma que um Fábio, um Cristiano Ronaldo (composto ao alcance de poucos) ou ainda de um Yannick, sendo que este desfruta da vantagem de ter raízes já de si exóticas, o que faz dele um nascido para vencer.

Já no mundo dos filhos, a situação é diferente. E das filhas é ainda mais delicado. O meu rapaz há-de chamar-se Xavier, sim. E poderia chamar-se com nome composto, se Saviola tivesse continuado a vestir de Encarnado: Xavier Pedro já se encontrava sob reserva para uma criança que teria, por certo, um destino maravilhoso pela frente. Quanto à Maria Olívia, não há Soraia Cristina que me demova.

4 comentários:

PB disse...

a minha chama-se Maria Caetana

Germano Bettencourt disse...

E eu se um dia for pai, e se for menina, conto chamar-lhe Laura. Acho que fica bonito, Laura Bettencourt.

Mas deixa-me retirar uma parte do texto, e aplaudi-a de pé...

"Porém, não creio que, chegada a altura de cumprir o sonho, ainda exista Sporting suficiente para me dificultar a missão."

Muito bom. LOLOLOL

pitons na boca disse...

A teoria que apresentas para os nomes de moços tem um senão: tanto dá para ser jogador de futebol como cantor pimba.


Se algum dia tiver filhos não há cá invenções: Anatólio Anacleto se for moço; Perpétua Felicidade se for moça.

Mr. Shankly disse...

Boa sorte nisso do Xavier Pedro. O apelido da minha Lady (também ela verde) é Cardoso, e portanto vi aqui uma oportunidade flagrante. Mas falhei de baliza aberta: ficou Pedro. Nem sequer consegui convencê-la a Óscar Pedro ou Pedro Óscar. O que vale é que, 4 anos depois de intensa luta pela alma do rapaz, o Sporting perdeu por falta de comparência. Conto com ele para me amparar na velhice, que é como quem diz para me levar à Luz.