quinta-feira, 4 de abril de 2013

Milan, o amor e os amigos

Li A Insustentável Leveza do Ser há uns 15 anos. Foi um livro que, na altura, mexeu um pouco comigo: lendo-o, fui sendo confrontado com determinadas situações, teorias, opiniões mais ou menos fundadas, conclusões várias, umas mais realistas, outras mais efabuladas - o amor e os tipos de amor, a traição e a fidelidade - conceitos que, de pessoas para pessoa, apresentam nuances, diferenças, interpretações e formas de sentir diferentes. Foi, talvez, o primeiro livro suficientemente sério que li acerca das pessoas umas com as outras. Não me recordo já de grandes detalhes, mas houve algumas coisas que guardei dele.

Existia por lá um cão chamado Karenine. Deveria chamar-se Karenina, como Anna. Porém, sendo macho, Teresa - penso que era este o nome da personagem - masculinizou-lhe o nome. A determinada altura, Milan Kundera, o autor, discorre, pela voz de Teresa (ou seria de Tomas a pensar na relação de Teresa com o cão?), acerca da singularidade do amor desinteressado que se estabelece entre uma pessoa e o seu cão, por oposição ao amor sempre exigente e crítico que os humanos desenvolvem entre si. No caso concreto, Teresa dava festinhas e comida a Karenine; este, por seu lado, fazia-lhe companhia e pedia-lhe comida e festinhas e pronto, aí estava o amor. E era um amor puro, só de estar e de ser um para o outro, um com o outro.

Recordei-me deste episódio enquanto terminava a leitura d' A Possibilidade de uma Ilha, de Michel Houellebecq, uma espécie de apocalipse pós-humano que recorda os humanos com alguma ternura e que, de uma maneira muito crítica e não encontrando nunca uma explicação aceitável para o fenómeno, acaba por revelar-se uma espécie de apologia do amor entre os humanos - eu, pelo menos, entendi-o assim: no amor, e apesar do que o amor implica, comporta e provoca, existe uma espécie de redenção para o absurdo injustificado da nossa existência. Mas isto já sou eu a especular. Voltando à passagem que importa: um neo-humano - são uma espécie de humanos geneticamente modificados, superiores e que não nascem nem se reproduzem - sai para o mundo pós-apoclíptico tentando entender algumas das particularidades dos humanos. São ascetas, lógicos e vazios de emoções estes neo-humanos. Mas este tinha um cão. Um daqueles iguais aos da Rainha de Inglaterra que custam um balúrdio. Durante uma pausa na sua caminhada, o cão desaparece. Quando o neo-humano o reencontra, o bicho está morto, trespassado por uma flecha. E então esse neo-humano sente a possibilidade residual do amor, ali, no momento da perda do seu cão.

É curioso verificar esta espécie de glorificação minimalista do amor entre homens e cães, como que assumindo que existe ali uma relação que, de tão simples e tão desinteressada, só pode ser pura. Aceito perfeitamente esta visão. Acho que o amor recíproco entre o homem e o seu animal merece a sua glória, sobretudo se esta chegar pela escrita de dois senhores que me merecem respeito.

Pensava eu em todas estas questões ao mesmo tempo que um amigo meu se preparava para partir para o Brasil. Não para ir de férias: o plano dele é mesmo ficar lá a trabalhar. E não tem, para já, uma ideia de quando volta. Ou mesmo se voltará para ficar por cá. E, um dia antes de este meu amigo partir, outro amigo meu chegava da Inglaterra, esse sítio aonde o sol nunca chega, mas que ele, mesmo assim, escolheu para viver. Com os meus amigos que estão longe - sobretudo com esses; com os que estão mais perto, sou um bocadinho desleixado, confesso (nota mental: cuida melhor dos teus amigos que estão perto, Diego) -, gosto de ter um comportamento de absoluta disponibilidade e transtorna-me quando não tenho a disponibilidade total, como desejava ter e estar com eles sempre que eles estão por cá. No fundo, extrapolando um bocadinho, tenho com esses meus amigos uma relação semelhante à que existia entre Teresa e Karenine ou entre Daniel25 e Fox. Gosto de estar com eles porque gosto de estar com eles, ao pé deles, porque é bom que eles estejam por perto. E isso basta-me. Basta-me imensamente.

Nos últimos tempos, foram muitos os amigos que fui perdendo de vista ou que passei a ver uma vez por ano ou até de dois em dois anos, quando não menos ainda. E todos eles me fazem muita falta.

Um deles, o Vareta Funda, foi a pessoa que me ensinou que, por vezes, «o mais importante é estar lá». Ora, o que é isto senão a tal maneira desinteressada e pura de dar amor? «Estar lá» é uma coisa fortíssima. E foi com ele que compreendi a importância deste ensinamento num caso muito concreto, experimentando a realidade. Estávamos em 2005 e o Sporting estava a começar a conhecer da pior maneira o significado de "peseirismo". Era quarta-feira e o Sporting jogava em casa com o CSKA de Moscovo. Já sabemos o desfecho desta história. O Vareta Funda, sportinguista tão convicto quanto digno, ligou-me passado talvez uma hora sobre o final do jogo e disse-me «shôr Diego... epá, não queres vir ver um concerto comigo? Não me apetecia mesmo estar sozinho». O concerto era do Momus, um songwriter escocês, salvo erro, com uma pala num dos olhos. Foi um concerto intimista, com muito pouca gente a assistir. Tudo isto no Santiago Alquimista, sala onde 200 pessoas parecem poucas. O Vareta pagou-me o bilhete - mas nem precisava, teria ido quantas vezes fossem precisas e pagando do meu bolso (se pudesse, o que, na época, não era uma coisa segura). A seguir fomos beber uns copos. Comportei-me com dignidade, fiz-lhe companhia, do jogo falámos pouco e nunca com profundidade: ele estava triste e eu estava ali a acompanhá-lo. Era apenas isto.

É bom ter amigos que nos fazem companhia. Por exemplo, amanhã (hoje, na verdade) um amigo meu sportinguista vai comigo ver o jogo à Luz. E paga ele o seu próprio bilhete. Ele vai porque gosta de futebol. Mas, seguramente, porque também gosta de acompanhar este seu amigo. Neste caso muitíssimo específico, no entanto, a minha relação com ele não é cemporcentozinho desinteressada, devo confessar - já o levei duas vezes comigo esta época a ver jogos europeus e, das duas vezes, ele deu sorte: o Benfica ganhou 2 a 1 e o Ola John marcou o primeiro golo da partida. Por isso, insisti para que ele viesse. Mas, fora isso, também tenho muito gosto em que me acompanhe e gostava de lhe agradecer aqui pela sua generosa companhia.

3 comentários:

Vareta disse...

Que o teu amigo sportinguista te traga boa sorte outra vez.

Espera lá por setembro de 2014 e logo estarás outra vez a contar os dias para que eu volte a abalar...

Abraços.

Germano Bettencourt disse...

Um texto à Diego.

Obrigado pela partilha.

mago disse...

Grande grande texto. Sao estes que me fazem mesmo querer comentar, ainda que nao saiba muito bem o que quero ou tenho para dizer.

Ainda nao li nenhum desses livros (o do Houellebecq ja' existe na caixa de livros por ler... em Portugal) mas agrada-me saber que sao livros que te agradaram.

Essa ideia da importancia do estar esta' spot-on, e' isso mesmo. E, sem querer parecer lamechas (que nao ha' razao para isso, afinal de contas o Benfica ganhou logo de manhazinha), mais o sinto com a distancia fisica de casa e nas ate' agora poucas oportunidades que tive de rever os amigos que deixei para tras. O mesmo se aplica ao Benfica, que nao tive a oportunidade de poder voltar a ver ao vivo quando ai' fui o ano passado, mas nao deixei de pass(e)ar no Estadio da Luz para estar um pouco com ele.

Abraco.