terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Preparar a jornada

-Chamaste, admirável Master?
-Sim, Pequeno Vermelho. Preciso de te falar.
-Oh... o que é aquilo? Um saco de areia? Não te sabia adepto das artes marciais, venerável.
-Conheces-me melhor que isso. Deverias saber que o meu espírito contemplativo e indagador almeja a serenidade em cada momento, a paz em cada gesto. Trata-se apenas de um saco para a roupa, daqueles da tropa.
-Hum... mas é...vermelho.
-...
-Obviamente... obviamente vermelho. Como as minhas faces, neste momento enrubescidas.
-Pequeno Vermelho, durante os próximos cinco dias serás o guardião desta nobre causa.
-Não sabia que tinhas ido à tropa.
-Não mexas no saco! Concentra-te no que te digo, micro-tom de desafinação de grito de golo do Benfica!
-Eu não quero ir à tropa.
-Eu não fui à tropa, fui só à inspecção. Podemos passar à frente?
-Foste dado como "inapto"?
-Não, minha formação XXS multicelular de matéria encarnada, não fui dado como "inapto". Passei à reserva.
-Porquê?
-Porque sim, opções do mister, ok? Podemos continuar?
-Era o Luís Campos?
-Pequeno Vermelho, eu não tenho a tarde toda. Não, não era o Luís Campos. Era um militar, não era um treinador de futebol.
-Era o Pedro Henriques?
-Ó, Cosme Damião me dê paciência... Pequeno... Pequenino Vermelho, vermelhinho... por favor, concede-me a tua atenção. Permite-me que te instrua.
-Querido Master, seria um gesto da mais elementar lógica a expulsão de um Benfiquista, e logo a de um garboso como tu, pela mão de Pedro Henriques.
-Porém, não foi o que sucedeu. Era um tenente-coronel qualquer, um psicólogo. E não me expulsou, teve apenas a amabilidade e o bom senso de não me convocar. Estou-lhe grato.
-Se não foste convocado para a tropa, como é que conseguiste este saco?
-Trata-se de uma história longa e complexa. Um dia contar-te-ei com detalhe a epopeia deste saco, da sua origem até às minhas mãos. Mas não hoje, que os minutos me esvoaçam da vida como um bando de andorinhas assustadiças.
-É da Feira da Ladra?
-Não, Pequeno Vermelho! Não é da Feira da Ladra! É uma herança, um testemunho. É um símbolo que me foi confiado e um instrumento do qual farei uso nesta jornada que se avizinha.
-Quem to deu?
-Um dia saberás. No dia em que eu to passar para as mãos, saberás.
-Posso ajudar-te nos preparativos da viagem, querido Master?
-Não. Agradeço o voluntarismo e a generosidade, mas "a verdadeira viagem começa...
-... ainda antes da viagem".
-Concretizas com a certeza de um Van Basten. Toda a preparação da aventura é um processo individual e egoísta que deve ser aproveitado para questionar e meditar, imaginar e formular expectativas, limpar da alma o passado obsoleto e enchê-la com o sonho do futuro próximo.
-Estás com nervos?
-Não posso esconder a minha agitação, sobretudo estando ela enfatizada pelos 13 dias que levo sem festejar um golo. A tensão acumula-se, a vontade cresce, a energia multiplica-se, a ansiedade dá sinais de vida... Imagina o limbo em que ficamos suspensos quando o Tacuara corre para bater um penalty: é precisamente nesse limbo que eu me encontro.
-Aterrador, aterrador...
-Sim, mas cheio de esperança. Pequeno Vermelho, vou dar-te agora as instruções.
-Os meus ouvidos são sorvedores ávidos das tuas palavras, o meu espírito é pleno de atenção.
-Então, é assim: primeiro, os coentros e os piripiris. Há que regá-los com pouca água, todos os dias, ao pôr-do-sol.
-Coentros... piripiris... pôr-do-sol...
-A água está naquela garrafa. Se se acabar, voltas a enchê-la e deixa-la ao relento, destapada.
-Encher... relento... sem tampa...
-Que é para o cloro evaporar e não melindrar os jovens rebentos.
-Cloro... rebentos...
-Precisas mesmo de escrever tudo isto? Cuidei que o teu espírito fosse pleno de atenção.
-Escrever... espírito... atenção...
-Nota que são dezoito frágeis pés de coentro e dois de piripiri. Se faltar um só que seja, serás tu o único responsável pela sua morte. São assuntos sérios.
-Morte... sérios...
-Deves ainda zelar pela arrumação e limpeza de todos os cachecóis, do gorro e da camisola de Aimar. Não vou levá-los comigo. Mas devem ser mantidos como se eu próprio cuidasse deles.
-Porque não os levas contigo, Master?
-Porque o lugar deles é nesta casa, nesta terra, não em território hostil. Além disso, ao separar-me dos nossos símbolos sagrados, conto impossibilitar a ocorrência de todo e qualquer tipo de maleita cósmica que possa assolar-me. Sabes que "uma maldição de criança...
-... seja à sexta ou ao sábado, jamais dorme ou descansa".
-E não te esqueças: no próprio dia, veste de vermelho, não bebas senão Sagres, não fales com canhotos, não leias O Jogo e nunca, jamais, comas carnes brancas que não sejam de peixe.
-Sim, querido Mestre.
-Pequeno, antes de te retirares... sabes que já não sou o jovem de outrora. Embora vigoroso, não possuo já a resistência que foi um dia o meu esplendor. A minha jornada será dura e desgastante, bem como a jornada dos nossos bravos. Conto voltar de espírito alegre, emanando felicidade. Mas não tenho como prometer-te a vitória.
-Ó, Master...
-Ouve-me. Não sei como reagiria o meu organismo ao insucesso ou o meu espírito clarividente ao fracasso dos fracassos. Se o pior dos cenários se concretizar e se eu não for suficientemente forte para o suportar, deves contactar esta pessoa através deste número.
-Como?! Grande Vermelho?! Quem... quem é?
-Agora vai.

11 comentários:

Éter disse...

Master, já que o espectáculo é depois do jogo e não há perigo de a maldição ter influência no resultado, por que não envergar orgulhosamente um qualquer adereço do Benfica durante o mesmo, ainda que correndo o sério risco de regressar a casa com alguns dentes a menos e nunca mais ser convidado para o evento?

Diego Armés disse...

Caríssimo, não és o primeiro a sugeri-lo. No entanto, seria uma provocaçãozinha barata e sem jeito, não seria? Não gosto disso. Respeitinho é bonito e há assuntos que não se misturam.

Éter disse...

Por acaso não acho falta de respeito nenhuma. Tal como não achei quando vi o Tim com uma camisola do Benfica, ou o Kalú com um cachecol do Porto, ou até o Noel Gallagher com uma camisola do City em Manchester.

Mas estás no teu direito de achar falta de respeito, claro.

Diego Armés disse...

Pequeno Éter, sejamos sensatos. Pensa comigo: eu não sou o Tim nem o Calu e muito menos o Noel Gallagher. Parecendo que não, tem influência no que respeita à "distância" entre mim e o público, por um lado; e à "tolerância" e respeito do público por mim, por outro.

Depois, se TU não achaste uma falta de respeito, outros poderão ter achado. É uma possibilidade remota, claro. Pura especulação. Mas pode mesmo ter sucedido.

Por último, em qualquer outra circunstância, é apenas um direito meu: vestir o que me apetece e, no caso, homenagear as cores que defendo. Sucede que a esta situação concreta combina vários elementos sensíveis: decorre no Porto, menos de 24 horas depois de um jogo entre Benfica e Porto que pode decidir uma época.

Mas estás no teu direito de achar que não são razões suficientes para ser considerado provocação, claro. Até porque não és portista, nem portuense, nem farás parte da plateia.

Éter disse...

Só por causa disso o que eu devia fazer era estar mesmo na plateia e atirar-te com um cachecol do Benfica para ver a tua reacção... Ahahah!

Diego Armés disse...

Força. Garanto que não o deixaria cair ao chão.

pitons na boca disse...

Quer dizer que nem a foto na guitarra??



"Não fales com canhotos". Fósnhasse, fizemos algum mal a alguém? Até parece que causámos um holocausto ou qualquer coisa do género. :/

Caper disse...

Estes diálogos são qualquer coisa de divinal. Mais, quero mais. E mais. E mais. E mais.

Diego Armés disse...

E eis que, um ano e um mês depois, este blogue consegue finalmente atingir e melindrar uma minoria.

Pitons, não és tu, sou eu. Eu é que, em conjugação com praticamente qualquer coisa, dou azar no Benfica - Porto. Com canhotos é certinho. É por isso que vou para longe.

Gostaria de pedir-te uma coisa: se pudesse ser, sexta-feira evitavas, enfim, o comentário aqui no estabelecimento...

pitons na boca disse...

Ainda por cima não posso comentar aqui? Parece que estou de volta aos anos 40, quando os canhotos eram vistos como um mal da sociedade, uma anomalia da genética... pfff! :(

Ok, vou evitar comentar mas... posso ao menos vir cá? Só para me sentir melhor e pensar que o meu dia não é em vão...

Diego Armés disse...

Serás sempre bem-vindo, claro. Só peço é a tal discriçãozinha, se não for pedir muito.