terça-feira, 4 de setembro de 2012

De roda dos milhões

Não sabia por onde começar até há uns minutos atrás, quando soube que «a tributação dos impostos deixa Cristiano Ronaldo triste» e começo mesmo por aqui: Cristiano, estou contigo. Se há coisa que me deixa triste é ter de pagar impostos e assistir ao que o Estado faz com esse dinheiro, que me custa a ganhar e que nunca me sobra: tapar buracos financeiros, compensar erros de gestão de outros governantes, pagar prestações de compras sem explicação, pagar indemnizações de irregularidades contratuais, pagar estudos de projectos, pagar estudos de estudos de projectos, pagar estudos de viabilidade de projectos depois de terem sido feitos os projectos, pagar auditorias ao pagamento de estudos e encomendar novos estudos de futuras auditorias que provem que todos os estudos foram bem estudados – exceptuando os casos de determinados governantes (não vou dizer nomes) cujos estudos ficaram assim um bocadinho por estudar. Posto isto, amigo Cristiano: a tua tristeza é a minha tristeza. Sendo que a tua tristeza é, precisamente à tua medida, uns milhões de vezes maior do que a minha, na proporção directa do que o Estado Espanhol irá reter à tua conta e do que o Estado Português irá cobrar à minha. Tenho, por isso, pena de ti.

O drama de hoje, já se deve ter percebido, é o dinheiro. O dinheiro faz o vocábulo ficar redondo, já cantava a Liza Minnelli. Por dinheiro os nossos jogadores fazem qualquer coisa – por menos dinheiro, como se pode ver pelo parágrafo acima, o Cristiano Ronaldo faz qualquer coisa, também, mas em muito melhor, como é seu apanágio. Por dinheiro, os jogadores chegam a jogar no Benfica, por exemplo. E isso é notável. O dinheiro é um instrumento de persuasão, em certos casos, pernicioso. Por exemplo, no meu caso: faz-me trabalhar e encarar o assunto com naturalidade, quando natural, mesmo, seria eu fazer coisas de que realmente gostasse. Tais como ir ao futebol. Porém, preciso de dinheiro para isso. É por esta razão que não olho nem com espanto nem com tristeza para o que o dinheiro fez fazer o Javi García ou o Axel Witsel. A minha pena termina aqui: eram bons jogadores e eu gosto de ter bons jogadores. De resto, por mim até podem ser as novas concubinas dos magnatas que lhes compram o corpo e a alma, tanto se me dá.

Agora que já saíram, a minha preocupação, a minha atenção, o meu carinho e a minha fé focam-se nos que ficam. Esses, os que vestem a nossa Camisola, são todos quantos me importam. A minha preocupação e a minha atenção – mas não o meu carinho e muito menos a minha fé – concentram-se também na falta de precaução em toda esta matéria. A venda destes dois jogadores não constituiu surpresa, eram nomes vistosos, futebolistas cheios de potencial, os pretendentes que tinham eram vários. E é na falta de surpresa que reside a minha insatisfação: porque não se acautelou a saída – já nem digo de ambos – de um deles? Esta pergunta não fui eu que a inventei; esta pergunta está a martelar a cabeça de todos os Benfiquistas desde há quatro dias para cá, com pancadinhas suaves, mas ritmadas. E eu repito-a para que aqueles a quem a pergunta não melindra possam, também eles, partilhar da nossa sensação: porque não se acautelou a saída de um deles?

Antes de terminar, e porque o texto está a ser mais previsível do que o desfecho do nosso próximo match em Camp Nou, queria deixar aqui o meu contributo criativo, de acordo com a gestão e planeamento dos nossos plantéis, ano após ano. E faço-o como contribuinte ronaldamente triste, porque também a mim me entristece este excesso de criatividade de quem nos conduz: com as saidas de Javi e Witsel, entraram 60 milhões de euros. A cláusula do Falcao é de 55 milhões euros. Só estou a dizer.

1 comentário:

moleculasdeamor disse...

O Cristiano tá na reinação mano... ele tá triste porque... ganha muito dinheiro, joga no melhor clube do mundo (ou num dos...) tem uma namorada lindíssima e aparentemente fofinha... e... é isto... tem um emprego nine to five e não consegue desfrutar do tempo livre... porque...sei lá porquê...porque não pode pronto!