sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Por Portugal

Hoje é dia da selecção e eu quero mais é que a selecção ganhe.

As selecções entristecem-me. Não posso gostar daquelas de que gosto muito e dou comigo obrigado a gostar de uma por quem, muito sinceramente, não morro de amores. Por que é que eu não posso ser da Argentina, essa lendária mãe de D10s e de Kempes, de Burruchaga e de Caniggia, de Aimar e Saviola e do Riquelme, o melhor jogador mais tímido do mundo, de Cambiasso e do principezinho que um dia será o rei dos reis? Por que é que eu não posso usar azul celeste e brindar aos golos do Messi, por que é que me fazem sentir mal se não ferver com o vermelho e verde, os golos à bruta do Ronaldo, os passes stressados do Carlos Martins, as idas à linha à pressa de um João Pereira qualquer, as entradas assassinas do Bruno Alves?

Eu, que nunca fui de outra coisa que não do Benfica, eu! – logo eu – obrigado a, daqui a horas, ficar ansioso por cada golo que o Postiga há-de falhar a três palmos da baliza. Ou a sentir-me agastado de cada vez que o Nani estragar uma jogada ao Cristiano só porque o protagonista não estava a ser ele próprio. Eu não gosto desta selecção. Gosto do meu país e habituei-me, desde sempre, a torcer por Portugal. Mas não consigo e nem sei se gostava de conseguir gostar genuinamente deste aglomerado inestético de jogadores sem pingo de classe.

Oh, tivesse eu um Rui Costa ali e um Figo acolá, um João Pinto lá à frente, o Pedro Barbosa a conduzi-los, o Paulo Sousa a guardar-lhes as costas. E lá atrás as paredes, Costa e Couto, as bestas. Eu tenho saudades de sentir paixão pela selecção. O Baía elegante a mandar subir.

Com esta gente, não consigo mais do que reconhecer-lhes o esforço e agradecer-lhes o empenho. Fico contente quando ganham, mas não exultante. Quando não ganham, não fico contente, mas raramente me lembro disso por mais do que um par de horas. Tenho pena quando falham as grandes competições – porque tenho pena sempre que Portugal não está lá – mas não sofro verdadeiramente por estes homens.

Eu sei que o Ronaldo é genial, um dos melhores de sempre. Também eu gosto de o ver jogar. Mas prefiro vê-lo quando ele não me diz nada, quando nada tenho para lhe exigir e posso simplesmente fruir do seu jogo. Aqui, junto com estes outros, não gosto de vê-lo. Parece um ídolo forçado. Quase um mártir, obrigado a jogar com quem não o merece.

Logo à noite joga a selecção. Mas eu, muito honestamente, quero mais é que a selecção ganhe.

6 comentários:

ZeduViana disse...

senti um arrepio quando falaste no Pedro Barbosa e no Baía. Já pelos Centrais tás perdoado, mas aqueles dois. A cena é que a nossa geração teve esses marmanjos alapados à selecção mais de 10 anos. Parece que tiveram lá a nossa vida toda até +/- 2002. Não será por isso que estranhas que agora estejam lá outros mais mercenários?

A mim faz-me mais confusão a infiltração "réptilinia" desta selecção que só tem treinadores lagartos em todas as categorias, em que um João pereira é titular e fica a classe do bosingwa em casa, em que há jogadores da casa e outros, que têm uns critérios muito mais difíceis de atingir.

Diego Armés disse...

Tenho para mim que é mais digno gostar do Barbosa do que dos miacéis e martinzes deste mundo. Quanto ao Baía, nem discuto: seguiram-se-lhe Ricardo, Quim, Eduardo e agora patrício. Queres mesmo comparar?

Quanto aos treinadores, há de facto um alapanço esverdeado na instituição. Porém, o Paulo Bento não me parece lagarto. Se alguém tiver informação mais precisa sobre o assunto, que se chegue à frente. Eu sempre o tive como Benfiquista.

Bettencourt disse...

Penso que muita gente se identifica com este post. Eu identifico.

Olho esta seleção e vejo falta de classe, simples como isso.

A palavra de verificação é "perde". Espero bem q seja coincidência.

Constantino disse...

Caro Diego,

Pessoalmente deixei a selecção no tempo em que ainda saiam as fotos dos jogadores na borracha de dentro das caricas. Arriscaria dizer Mexico 86, mas ainda me lembro de bater com a cabeça na parede com uma derrota na grécia onde assim de repente me lembro de ver um Leal na esquerda (euro 92, talvez). Ha muitas teorias para devolver a selecção aos portugueses, mas para mim só há uma que resultaria: um guarda redes do SLB a titular. Desde que o Silvino foi atirado para as catacumbas da suplencia, tanto na selecção como no SLB (ainda estou para ver o que foi mais humilhante, ser suplente de um puto ou ser suplente do unico gajo que saia pior aos cruzamentos que o Roberto) que nunca mais se pode utilizar o termo "selecção nacional". Aliás, foi sentindo isso que o madail passou a chamar àquilo o clube de portugal.... e nem o Jaquim conseguiu alterar a coisa. De qualquer forma, eu não tenho duvidas: o rui pato...icio que não se apegue muito à coisa porque o Mika vai chuta-lo para a bancada. É so uma questão de tempo.

Abraço.

Tolan disse...

será que isso também se deve ao facto dos jogadores da selecção actual terem vínculos relativamente francos com o campeonato e os clubes portugueses? Todas essas velhas glórias estavam muito associadas ano nosso campeonato, mesmo que depois tivessem ido para fora. Lembro-me que no último mundial a figura da nossa selecção foi o Fábio Coentrão mas talvez isso fosse a minha visão distorcida, por estar tão habituado a vê-lo jogar no meu benfica. Agora vejo jogadores na selecção que eu nem sei quem são, como aquele Eliseu, que joga no Málaga, pelos vistos, mas que não "tem história" comigo para criar mística, ou outros que são naturalizados... enfim...

Tolan disse...

não é "vínculos francos", mas "vínculos fracos"