terça-feira, 21 de agosto de 2012

Este texto foi escrito ontem

Este texto está a ser escrito em papel. Tenho o copo de vinho à frente, a luz de conforto na sala, a vista para o rio, a música lá ao fundo, não muito alta - não gosto de música muito alta (excepto em concertos). Podia estar a escrever poesias, romances ou cartas de amor. Não tenho como publicar este texto ainda hoje pelo que, quando o lerem, será coisa do passado.

Depois de jantar, aproveitei para revisitar o meu próprio passado em canções de um tempo a que, mais tarde ou mais cedo, acabarei por chamar meu. Comecei pelo Bubble & scrape, dos Sebadoh; a seguir passou o Washing machine, disco maior dos anos 90, obra dos Sonic Youth. Agora roda o Beck com o Mellow gold. Dói-me a mão de escrever e o coração de ler o que escrevo. Já não estou habituado nem à caneta nem a estas canções. Mas sentia saudades de todas elas - caneta incluída.

Hoje escrevi, pela primeira vez para uma publicação, a designação "Borussia Mönchengladbach". Ao tomar consciência do que fazia, senti que o cosmos se alinhava um pouco mais de modo a fazer sentido. Este nome é a minha infância - ou uma das formas que ela assume, resumindo-se (longamente, no caso). Dantes, quando o meu pai falava de futebol e do Benfica e dos clubes europeus, falava às vezes do Mönchengladbach. E eu sentia um regozijo inexplicável: aquela palavra complexa, germânica, distendida, continha em si a dimensão do que é estrangeiro, longínquo, diferente. Quando o meu pai a pronunciava, eu imaginava uma Europa distante onde o Benfica por vezes ia jogar em busca da glória. E esse Benfica tornava-se maior e maior, aumentava como um gigante instantâneo, viajava na minha cabeça como um aventureiro das terras esquisitas.

Mönchengladbach, a palavra, faz-me imaginar, apenas fantasiando, o Chalana de colants por baixo dos calções, de luvas postas, com farripas de neve nas pontas do bigode, a driblar entre homens louros, enormes, e a cruzar para a cabeça do Nené. Isto não é memória, é pura imaginação. Mönchengladbach desperta em mim uma noção de Benfica lá fora maior do que as minhas próprias memórias. Como se a sua estranheza, longa e complexa, fosse a chave para uma realidade paralela de quartas-feiras europeias distantes, quatro torres de holofotes, estádios repletos de gente vestindo gorros e cachecóis e gráficos televisivos muito rectangulares num ecrã com uma definição de 100 por 150 pixéis. Num canto "RTP2". E placards electrónicos muito grandes com fundo preto e letras e números castanho-bronze e um relógio de ponteiros enorme. Benfica Lisbon, Benfica Lissabon. O Benfica de Lisboa ao longe, eu ainda longe de Lisboa, eu ainda sonhar com Lisboa, eu ainda a sonhar com ser de Lisboa como o Benfica, eu com o coração em Mönchengladbach, boquiaberto perante aquele nome mágico, difícil, impronunciável, Molchen, não, filho, Mön-chen-glad-bach, e eu Moncheldag, não, filho, Mönchen-glad. Bach.

Bach como o compositor, Bach como bach, rio. E eu encantava-me com aquele nome e desejava escrevê-lo um dia, sem erros, por extenso, complexo e desavergonhado "Borussia Mönchengladbach". E hoje escrevi-o, sem erros, e um bocadinho muito pueril e genuíno do Benfica de que eu sinto tantas saudades reavivou-se em mim, animou-se em mim: o Borussia DE Mönchengladbach está de volta à Taça dos Campeões Europeus. Ao play-off, pelo menos. Espero que se apure e que possamos defrontá-lo algures na nossa caminhada pelas terras distantes em busca da glória.

6 comentários:

Meneldor disse...

"Espero que se apure e que possamos defrontá-lo algures na nossa caminhada pelas terras distantes em busca da glória."

Eu também, até porque o Borussia de Mönchengladbach é a "minha" equipa alemã. :)

Disparo disse...

Tive uma equipa num torneio do secundário que era o Borússia dos Montes Lá de Baixo. Um êxito (o nome, não a equipa).

moleculasdeamor disse...

As minhas moléculas de infância reconhecem esse cenário... existem simbioses entre seres humanos desconhecidos... é uma memória colectiva onde os estranhos se tornam assim do nada... irmãos!!!
Se eu soubesse escrever, escreveria um texto, exactamente assim... parabéns!!!

JNF disse...

Monteládebaixo.

Muito mais fácil.

pitons na boca disse...

Por aqui era o Borussia dos Moços lá Debaixo, que jogava no campeonato do Bayern Monchique e do Borussia Doutromundo.

ZeduViana disse...

Não querendo desconsiderar a qualidade do post no qual tu próprio fazes a ressalva mas....
O borussia de como o quiserem chamar perdeu 3-1 em casa no playoff ontem à noite.
Cheira-me que este impeto revivalista vai ficar para outra temporada qualquer. eu também fiquei desiludido.