sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Chatices da bola

Há quem defenda que uma pessoa não se deve chatear com amigos por causa de bola. Tendo a discordar. Se há bom motivo para eu me chatear com amigos é precisamente a bola. Por diversas razões. A primeira de todas deriva de uma questão prática: dificilmente me chatearia com amigos por quaisquer outros motivos, não sou uma pessoa de quezílias por dá cá aquela palha, de quid pro quo's ou melindragens por insignificâncias mundanas. Resta-me, assim, o futebol como refúgio, gatilho, rastilho e combustível - em última análise, como "um bom motivo" - para me chatear com a rapaziada.

Dizem-me que não, que isso não tem jeito. Eu considero o oposto. Por exemplo, já houve tempos em que me chateei com amigos por causa de dinheiro. Hoje compreendo que isso, sim, é uma chatice fútil. O dinheiro é uma coisa que, em si mesma, não é uma coisa. É um meio. A mim o dinheiro não me faz nem bem nem mal. Já o futebol tanto me faz bem como me faz mal. Aliás, é precisamente por isso que gasto dinheiro com o futebol - e faço-o sempre sem um pingo de remorso. E nunca considerei "caro" um bilhete de futebol. Posso ter ou não ter dinheiro para ele. Mas caro, propriamente dito, é, por exemplo, qualquer imposto que eu pague, porque sei que é um pagamento abstracto, sem consequência imediata e palpável - provavelmente, servirá para pagar uma nesga de um juro de uma dívida remota a uma banca que eu já, com a minha migalhinha, ajudei a financiar e que agora me cobra por uma razão qualquer que algum senhor especialista em assuntos de dinheiro conseguirá não só explicar como até entender. Agora, um jogo de bola é um investimento seguro: uma pessoa paga e vê golos, vê o Estádio, vê as pessoas, ouve o hino, festeja, aplaude, chama nomes ao árbitro, etc. Há uma série de bens e serviços diante dos nossos olhos, tudo em simultâneo, num espectáculo proporcionado por artistas que custam um balúrdio, ainda por cima, e que são, na sua generalidade, gente famosa, que dá na televisão e tudo. O futebol só será caro a partir da inacessibilidade por exorbitância obscena. Todos os preços abaixo disso serão aceitáveis, se compararmos com o tal imposto não sei quê da sobretaxa com os cabrões dos duodécimos ou lá o que é.

Se me dizem que não devo chatear-me com amigos por causa do futebol, fico logo um bocado chateado. Um amigo que seja verdadeiramente meu amigo saberá o quanto o futebol importa para mim. Se não souber, é porque não será assim tããão meu amigo e, então, dispenso aquela relação que eu julguei que tínhamos, chateio-me à minha vontade e sem pudores e até lhe posso chamar nomes. Se se tratar de um verdadeiro amigo, então saberá que não deve chatear-me a cabeça com assuntos futebolísticos e que, se o fizer, estará exposto à minha ira, à minha irracionalidade, enfim, ao meu direito legítimo a perder as estribeiras por causa de uma merda qualquer - como dizer que o Aimar é uma fraude, por exemplo, ou que o Cardozo é um coxo ou o Peseiro é melhor que o Jesus.

Atenção, não estou com isto a querer dizer que "devemos" chatear-nos com os nossos amigos por causa do futebol. Não estou a apelar à desavença, nada que se pareça. O que eu defendo é a consagração do direito à chatice por parte de quem gosta mesmo de bola. Porque uma pessoa às vezes chateia-se e há quem olhe para nós como se fôssemos uma besta qualquer que se está a chatear sem motivo razoável, que é um bruto porque dá demasiada importância a isso da bola. Essas pessoas têm a ignorância que merecem e o preconceito que lhe é inerente. Mas gostava que respeitassem o meu direito a nem sempre achar que está tudo bem se me dizem que o João Ferreira gamou a favor do Benfica - isso é que por amor de deus.

Agora é isto da Taça da Liga - lá anda o sacana do Benfica a manipular esta porra toda para ganhar mais uma taça daquelas, uma coisa valiosíssima e pela qual valerá a pena contornar regras, se possível, corromper, manipular, já que o objecto, quase raro nas estantes do Benfica, visto que ainda não ganhámos nem poderemos nunca vir a ganhar a primeira edição que se disputou, merece qualquer esforço ou enredo que permita a sua conquista. Portanto, temos um clube, que é o Porto, que fez uma coisa qualquer, que eu não sei nem quero saber o que foi - não me diz respeito - que, aparentemente, viola regras que estão escritas e publicadas há meia-dúzia de anos. A entidade que gere a coisa admite que, assim sendo, é capaz de haver lugar a uma punição, uma vez que as regras não foram cumpridas. "Ai que a culpa é do Benfica". O Benfica, vejam bem. Que está sossegadinho, a cumprir as regras. Depois querem que uma pessoa não se chateie.

2 comentários:

Germano Bettencourt disse...

Essa questão do chatear ou não por causa da bola, é deveras interessante. Realmente gostamos assim tanto do Benfica, então...

Tolan disse...

Uns queixinhas, eles!