domingo, 13 de janeiro de 2013

Eu e as minhas barbas

É dia de Benfica - Porto e eu não estou em Lisboa. É uma situação que se repete desde o tragicómico ano de 2011. Porém, ao contrário do que os meus amigos Benfiquistas pensam e acreditam, tal não sucede por eu pensar que a minha discreta presença no Estádio pode desencadear proençadas e benquerencices. Não. A presente situação deriva de estar no Algarve no âmbito dos festejos de aniversário da Lady Verde, distinta algarvia com genuíno amor pela sua terra. E se, na época que passou, eu me encontrava no Porto enquanto o Maicon cabeceava desavergonhadamente "isolado", foi porque havia para isso bons motivos extra-futebolísticos.

A minha ausência do Estádio é, portanto, não uma questão de superstição mas antes uma infeliz consequência de coisas, no geral, boas, felizes e positivas. Porém, mesmo sabendo-o, quando o árbitro apita para o pontapé de saída, sinto que está a assinalar a minha falta. Perante este peso na consciência, não me resta senão minimizar, tanto quanto me é possível, o sentimento de culpa. Em 2012, decidi ir assistir ao desafio na Casa do Benfica da cidade do Porto; este ano, encontrando-me no Sul, a opção só podria ser ver a bola com o Constantino.

E é aqui que toda a minha operação "'bora aí ver o Benfica ganhar de goleada" se complica: eu e o Constantino não nos conhecemos pessoalmente. De um modo geral, pode dizer-se que somos "amigos online" ou que "nos conhecemos da internet". É uma questão delicada. Para que não haja confusões na hora em que, finalmente, havemos de nos encontrar, decidi que seria apropriado fazermos, cada um, uma descrição de si mesmo. O Constantino foi sintético e pragmático, «sou um gajo assim extremamente Benfiquista, não tem que enganar». Já eu elaborei mais um pouco: «sou um tipo baixinho e com umas barbas muito grandes», disse eu. E ele «muito grandes como? À Jesus Cristo?».

Não costumo ser pedagógico ao domingo e, ainda menos, quando joga o Benfica. Mas como hoje o 227218 - o blogue, entenda-se - completa dois anos de existência e me sinto bastante confiante para o Benfica - Porto (festejarei o quarto golo com um sonoro «oppa gangam style!»), abro aqui uma excepção para conversarmos um pouco acerca de "barbas". Desde que, em Fevereiro de 2012, comecei a deixar crescer a barba com objectivos dostoievskianos, tenho-me deparado com diversos preconceitos e reacções de espanto, com incompreensões e imprecisões de interpretação. O exemplo da "barba à Jesus Cristo" é o mais vulgar: antes de o próprio Cristo ter, supostamente, usado fartas barbas, já toda uma humanidade o fizera ao longo de séculos, ao longo de milénios. A barba não é invenção do Nazareno. Aliás, os seus conterrâneos contemporâneos tinham por norma adoptar o mesmo look, o que se compreende, tanto pela dificuldade de acesso a lâminas decentes, por um lado, como pela coerência estética ao fazer pendant com o registo casual-andrajoso muito em voga na época, por outro. Importa, igualmente, deixar claro que Jesus Cristo não terá sido "o último dos barbudos", pela que a recorrente referência, por associação, ao Messias Cristão é manifestamente exagerada.

Ocorre-me, enquanto penso nestas matérias, que fazem falta no futebol homens com barbas à antiga. Que é feito dos Vítores Baptistas, dos Humbertos Coelhos, dos próprios Sócrates dos relvados? O futebol, enquanto palco mediático, actua pedagogicamente e, por isso, ajuda a reduzir os níveis de intolerância. Vejamos: os dramas do racismo são combatidos por clubes, jogadores e organizações do mundo futebolístico. A própria tragédia dos brincos de brilhantes tem sido combatida através da propagação de exemplares jogadores que demonstram inequivocamente, jornada após jornada, que isso de usar brinco não é assim tão «paneleirice de maricas». Pode até ser praticamente másculo. O meu próprio pai, por exemplo, que me dizia com a sua tranquilidade paternal «experimenta meter uma merda dessas na orelha e vais ver se voltas a pôr os pés nesta casa», contava-me com indisfarçável orgulho o episódio do Vítor Baptista à procura do brinco na relva da Luz. E depois ria-se, abanava assim a cabeça e retomava a conversa «mas tu não me metas uma merda dessa na orelha, ouviste?».

Há quem me chame vagabundo, há quem diga pareço um homem das cavernas. Tem dias em que me apelidam de "pescador". E, claro, na maior parte do tempo, acham que faço lembrar Jesus Cristo. Há uns tempos atrás, quando a minha barba era mais tímida, diziam-me «és igual ao Aimar». Mas agora, que a minha barba tem mais meio palmo do que a dele, o meu aspecto desvinculou-se em absoluto dos cânones futebolísticos. Pablo, se me estás a ler: deixa crescer essa barba. Vamos, juntos, eliminar estes preconceitos.

2 comentários:

Germano Bettencourt disse...

Caga nos preconceitos, que só a cortes em Maio!

artnis disse...

Pois é, o Constantino em vez desse gajo, bem podia ter-te comparado com o Barbas!