terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Redigir, auxiliar, adivinhar, entreter

O jornalismo desportivo é, para mim, o que o fair-play é para o Jorge Jesus: uma treta. Aliás, reformulo - a afirmação anterior era injusta para com os bons profissionais que existem no jornalismo desportivo (e existem muitos, felizmente): as notícias de transferências de jogadores na imprensa desportiva são uma enorme banhada - estamos todos de acordo neste ponto, certo? Dá a ideia de que um chefe de redacção pega nuns papelinhos com os nomes dos auxiliares administrativos da empresa e faz um sorteio. Os felizes contemplados terão o direito de dar aso à sua criatividade, exprimindo, muitas das vezes, desejos pessoais, ao ponto de ser ler na página xis d' O Jogo ou d' A Bola (confesso que raramente abro o Record) uma redacção que se aproxima mais de um diário pessoal ou de uma carta ao Pai Natal do que de uma notícia: «se pudesse ser, eu gostava muito que viesse aí o Anzhi ou uns chineses ou assim e que comprasse toda a frente de ataque do Benfica, mais o Matic. E o Artur».

A questão do entretenimento especulativo nas páginas de um jornal que se dedica, em grande parte, aos detalhes absolutamente desinteressantes e irrelevantes de plantéis de equipas de futebol, quando o dia não é de jogo, não costuma apoquentar-me. Leio A Bola ou o Jogo - ou ambos, se me sobra o tempo; ou ambos e ainda o Record se me levantar da cama antes das onze da manhã, o que me deixa tempo até para ler a Marca, se me apetecer saber a cor das cuecas do Pepe no treino de sexta-feira passada - como podia ler as 50 Shades of Grey, se eu fosse uma dona de casa de meia-idade pronta para descobrir as maravilhas da sexualidade plena, ou uma trafulhice literária qualquer do José Luís Peixoto, se eu fosse uma dona de casa da terceira idade sem qualquer tipo de expectativa ou optimismo no pouco que me restasse da vida. Sucede que, desta vez, o administrativo a quem calhou em sorte, n' O Jogo, redigir sobre "transferências quentes" (chamemos-lhe assim), foi demasiado longe.

Ando desde há quase duas semanas, se não me engano, a ler que Pablo Aimar arrumou o cacifo. E, já por diversas vezes, que o deixou "limpo". Não me custa crer que Aimar seja um exemplo de higiene e organização, de maneira nenhuma. Porém, quer-me parecer que estamos a entrar no domínio da compulsão, segundo este relato, que repetia que "Aimar já não treinava com os colegas" e que já tinha "limpo e arrumado o cacifo". E eu só imagino Pablo Aimar a sair para o Seixal e, em vez de se ir treinar com os companheiros, fechar-se no balneário a arrumar e limpar o próprio cacifo, todos os dias, obsessivamente. Imagino a senhora Aimar a perguntar-lhe «mas querido, onde vais»? e ele «tenho de ir ao Seixal» e ela «mas hoje não tens treino» e ele, com um ar transtornado, «mas tenho lá assuntos importantes a tratar» e ala, que lá vai ele, arrumar e limpar o cacifo outra vez. «Andas a gastar muito em detergentes», diria a senhora Aimar, em tom de queixa.

Esta indústria do "e se a gente dissesse qualquer coisa, assim ao calhas, sobre determinado assunto?" tem certas particularidades que me fascinam e, ao mesmo tempo, assustam um pouco. Existe, por exemplo, uma espécie de competição nisto da redacção aleatória. Aparentemente, os jornais tentam ser, cada um deles, não só aquele que acertou com um palpite bizarro no que viria a passar-se, realmente, num futuro mais ou menos próximo, como ainda pretendem ser os primeiros a fazê-lo, de modo a que possam exibir o dom da adivinhação nas suas páginas, segundo o molde seguinte: «como O Jogo avançou, em primeira mão, já em Janeiro de 2013, Aimar assinou esta madrugada pelo Al-Ahli e amanhã, primeiro dia de Agosto de 2017, o genial argentino apresenta-se ao serviço dos dubaienses». Nunca sei se é dubaienses ou dubaieses.

Os anos de experiência no entretenimento em páginas de jornal levou a que certos detalhes tenham evoluído, de maneira a assegurar que a informação veiculada é certeira. Assim, em conjunto com o seu editor ou redactor-chefe, o administrativo responsável pelo texto elabora uma espécie de sistema infalível: passados uns dias sobre a publicação do primeiro texto - dias em que, por toda a redacção, se fazem rezas e mezinhas no sentido de ajudar a que a coisa aconteça mesmo, mas sem que se obtenham resultados satisfatórios -, lança-se uma segunda composição em que se afirma o contrário do afirmado na anterior. Por norma, este passo não se executa desmentindo a primeira informação, mas antes levando o leitor a aceitar condescendentemente que a coisa não aconteceu agora, mas pode muito bem vir a acontecer, se calhar.

No caso específico, o único que, na realidade, me rala, diz-se agora que Aimar, depois de muito limpar e desinfectar o cacifo, após litros e litros de lágrmias em despedidas que se repetiram numa base quase diária, afinal não vai já para o Dubai. Vai só mais logo. E, assim, uma das duas notícias d' O Jogo estará certa - se não for a primeira, será a segunda, e vice-versa. Isto é um esquema muito esperto, há que dizê-lo. Aqui entre nós, espero que o administrativo que redigiu a segunda seja o do palpite bom.

3 comentários:

Hattori Hanzo disse...

Diego aconselho-te a ler o Record porque é o que tem as mais imaginativas: é quase impossível bater aquela em que o Ricardinho passaria do plantel de Futsal para o de futebol do Benfica, e como não se concretizou(o que foi estranho de facto) colocam no dia seguinte que não se tinha realizado devido à sua notícia em 1ª Mão.

Germano Bettencourt disse...

eheheh. Não vale a pena, há coisas que não mudam.

A culpa no entanto, não é exclusiva dos Jornais. Relembremos as noticias plantadas pelo Sr. Jorge Nuno sobre a desistência do Deco de ir à selecção caso se confirme o castigo de 10 dias. Mas este é só um exemplo. Dou-te outro. O Djanini, que jogava aqui na minha ilha no modesto Grupo Desportivo Velense, onde aliás, eu evolui desfavoravelmente no mundo do futebol, quando jogava no Leiria, apareceu no jornal abola que o Milan estava interessado nele. Nesse mesmo dia, é o próprio empresário do jogador, que ligou ao presidente do Velense a dizer para não ligarem à noticia do jornal abola (a ser verdade, um clube modesto como o Velense veria uns valentes cobres), pois tinha sido ele próprio a "plantar" lá a noticia.

Enfim, eu já não ligava muito às noticias dos jornais sobre transferências, embora seja sempre interessante de imaginar como seriam as coisas da forma como os jornais as pintam, mas a partir desse dia, passei a ligar ZERO.

Grande abraço Diego.

B Cool disse...

Quando não são empresários, são funcionários das sads, treinadores, adjuntos a alimentar os jornalistas que em vez de procurarem fazer uma verificação de factos se limitam a escrever as notícias com base apenas numa fonte, na ânsia de serem os primeiros.

O caso do Paulo César parece-me diferente. Desde o início, à semelhança do Javier Pedro, que começaram a aparecer notícias para criar condições para o empurrarem para fora do clube. Arranjaram comprador, que afinal parece que não podia comprar por ter a sua quota de estrangeiros completa e alimentaram os jornais com notícias da sua saída,
alimentando a novela.

No dia em que existirem jornalistas e editores a sério, a maioria destas novelas desaparece ou pelo menos aparecem notícias a dizer: "clube pretende colocar/transferir o jogador x".