quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Da esperança e do sofrimento

A Bwin dá odds de 1,85 para um pela vitória do Benfica no sábado (4,1 para 1 pela do Sporting), já me passou a indisposição – dormi até muito pacificamente esta noite – e os meus amigos sportinguistas vão estar abrigadinhos, protegidos do vandalismo tipicamente Benfiquista, numa confortável e arejada sala de pânico criada exclusivamente para os receber – quanta honra, hein? –, esse mesmos sportinguistas que estão cheios de moral, acreditando piamente numa vitória fácil-fácil em plena Luz… ou seja: será que se pode pedir mais?

Não, não, não, não… Isto é tudo demasiado bom para ser verdade. É tudo muito perfeitinho. A situação chegou ao ponto de termos a dona Regina, abençoada Mãe do grande David Luiz, a puxar pelo Benfica, em tempo real, em pleno facebook, enquanto assiste ao jogo, ao nosso jogo. Isto começa a ser simplesmente demais.

A pior coisa que me podem fazer é dar-me esperança. “A esperança é a última a morrer”, “enquanto há vida, há esperança”, blábláblá – conversa de enganos, motivação para masoquistas. Ricardo Reis escrevia “quem nada tem e nada deseja, homem, é igual aos deuses”, sendo que estes estão num patamar superior ao dos homens livres (esses, que nada querem mas que - e porque - possuem). A falta de esperança, no futebol, é a essência que permite ao aficionado sentir-se um deus – um deus barbudo e vestido com um lençol, sem preocupações, a comer uvas brancas debruçado numa chaise longue e a pensar “ora deixa cá ver”.

O contorcionismo que me ia nas entranhas e a agitação que me tornava o sono febril tinham uma origem saudável: eram feitos de tristeza e de perda, brotavam da minha dificuldade em resignar-me com o fado da derrota, com o fim da linha como destino próximo; o que me saía pelos poros, o que me subia ao esófago, tudo eram restos do meu espírito vencedor. A paz estava já ali, ao virar da esquina. Expelidos que fossem os demónios da ambição, restava-me fruir do futebol como se fosse apenas um desporto muito belo. Faltam três dias para o derby dos derbies e o que é que acontece? O Benfica sai de Old Trafford não com a pressentida derrota de peso, mas antes com um empate de equipa vencedora.

E eis que a agitação das noites se apronta para regressar e o estômago para se contorcer, a língua para gerir o excesso de saliva, a respiração para se desregular, tornar-se ora apressada, ora tão profunda e alongada que se esquece de inspirar. Tremem-me os dedos, misturam-se-me os pensamentos. Queria ser como Miller, não desejar coisas, aceitá-las apenas. Mas não consigo, sou demasiado fraco, demasiado pequeno. Demasiado humano. Sou de novo um Benfiquista perfeito e isso é tremendo: sinto uma angústia do tamanho do mundo porque hoje é quarta-feira e ainda não ganhámos o jogo de sábado!

4 comentários:

Bettencourt disse...

Como adoro ler o teu blogue. Sei que soa um bocado a gay, e que um bocado é favor, mas é a verdade, que queres que diga.

Partilho da tua angustia do último paragrafo. Sofro porque ainda é quarta e ainda não ganhei o jogo de Sábado. Será tudo uma questão de tempo? O tempo dirá.

Abraço dos Açores

pitons na boca disse...

Esta ultima frase é indescritível. Como aquelas musicas que são tão perfeitas ao ponto de, cada vez se que ouve, dar um arrepio na espinha que num milésimo de segundo alastra ao resto do corpo.
Também eu estou angustiado por ser quarta (ok, hoje já é quinta... pormenores) e ainda não termos ganho o jogo de sábado, mas não saberia dizê-lo tão bem como o fizeste.

Maria Flausina disse...

Já aqui o disse, sou fã incondicional deste blog, gosto muito do que aqui é escrito e como é escrito. Esta última frase é quase poesia, e eu estou contigo... mas do outro lado.
Que vença o melhor. O melhor mesmo, sem o ai os penalties que eram, ou não eram, ai os túneis, ai as bocas tapadas com a mão, ai o árbitro... e ai o etc. do costume.

Diego Armés disse...

Às vezes sinto que ando a enganar as pessoas. A ver se nos entendemos: este blogue não é nem quer ser de poesia. Aqui trata-se de culinária e do Benfica.