quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Os meus pés esquerdos

Soltando a língua como quem liberta a bola, vou-me meter a falar do jogo. Atacando.

Cheguei ao Alto dos Moinhos chovia muito e já não havia impermeáveis encarnados naquelas duas bancas. Não pude ir de chinelos ao jogo. Não que me fizesse impressão os pés molhados e frios. Sou um homem, não sou um rato. Mas eu ia trabalhar antes do jogo e, confesso, cedi à pressão da correcção comportamental em sociedade. Talvez nem toda a gente compreendesse o porquê de eu andar de chinelos de cabedal com 14º C e uma precipitação de dezenas de litros por metro quadrado.

Esta questão dos pés e dos chinelos deu-me que pensar. No fim-de-semana, tratei de ir tratar do assunto. Sabendo que a possibilidade de levar os chinelos ao jogo era cada vez mais remota, optei por investir em calçado imaculado, que ainda não tivesse cadastro desportivo, nada de historial pessimista ou de memórias desagradáveis. “Começar do zero”, pensei eu. E comprei uns Adidas brancos – tudo conforme, portanto. Há que ser rigoroso.

Um pouco abaixo das roulotes, havia impermeáveis. Dez números acima do meu. Todos encarnados mas não diziam Benfica. É pena. Por 5 euros, deviam dizer Benfica e ter o número 10 nas costas. E ser do meu tamanho. Fiquei a parecer uma tenda de campismo e, entretanto, com a imperial cheia de água, soube que o Luís Martins ia jogar na esquerda, que o Aimar era titular e que o Rodrigo ficava no lugar do Cardozo. Olhei para as Adidas brancas e pensei “estais a entrar de pé esquerdo”.

Era tudo pé esquerdo em toda a parte. Para onde quer que se olhasse, pés esquerdos atrás de pés esquerdos, pés esquerdos ao lado de pés esquerdos. No banco, o pé esquerdo do Cardozo. No campo, o pé esquerdo começava no Luís Martins, esticava-se pelo Matic, continuava para o Bruno César, subia pelo Gaitán e acabava no Rodrigo. Pé esquerdo pelo mundo inteiro, por toda a relva.

O melhor golo que alguma vez marquei foi de pé esquerdo, num amigável entre a FCSH – a minha faculdade - e uma faculdade qualquer que devia ser de gestão ou de novas tecnologias, a avaliar pelo talento dos seus jogadores. Apanhei um passe pouco depois do meio-campo, a bola vinha “redondinha” e, para minha surpresa, não hesitei: rematei de esquerda, a uns bons 30 metros, de primeira, para aproveitar o balanço da bola. Entrou no ângulo direito da baliza, com o guarda-redes a fazer uma figura tristíssima ao esticar-se todo, em grande esforço, para conseguir apenas cair com aparato numa poça junto à rede. Foi um golaço. Foi 75% de sorte e 25% de instinto sincronizado com biomecânica. Mas continuo sem explicação para o sucedido. Talvez tenha sido 98% de sorte.

Entrámos no Estádio e eu à procura do pé direito e não dava com ele. Talvez o David Lynch tivesse feito um remake d’ O Meu Pé Esquerdo e nós, estas 40 mil pessoas, entrássemos nesta nova versão. A meio do primeiro cigarro, o Rodrigo marcou. De pé esquerdo. Um golaço. 12% de sorte, 95% de talento. Um golo destes leva mais de 100%.

Eu gosto do Rodrigo e sei que ele é titular. Só não sei como. Ou onde. Não tenho esquemas de jogo preferidos. Os esquemas não me dizem muito e devem sempre depender do potencial de cada jogador em determinadas circunstâncias. Isto é, um esquema deve sempre servir uma determinada estratégia. E uma estratégia não é uma táctica. Uma estratégia é um plano de acção, um guião do jogo: devemos fazer isto para conseguir aquilo; os passos são este e este e depois este; ficam a cargo de fulano e do seu amigo e do outro companheiro ali ao fundo; tu fazes isto, tu aquilo e aquele a outra coisa; o objectivo em determinado tempo é este; noutro, a seguir, é aquele; tudo isto num contexto ideal; caso se alterem as circunstâncias, o plano é alterado aqui e aqui, assim e assado… Isto é uma estratégia. Uma táctica é só uma ferramenta de explicar posicionamentos, nada mais. É uma chave, um desenho, um código. O Benfica tem muitas tácticas. O Benfica tem muitas soluções e uma série de jogadores de grande mobilidade, rápidos, ágeis e inteligentes. Ao Benfica só falta uma estratégia.

Antes de comprar uns ténis novos – Adidas e brancos – vou esperar para ver se o Jorge Jesus reduz ou não o número de pés esquerdos em jogo. O excesso de pé esquerdo é pior do que a abundância de pé frio.

12 comentários:

Bettencourt disse...

lol...

Bom texto. Já tinha saudades de ler alguém que sabe escrever.

Um abraço e boa sorte nessa compra, mete 2 "Pé Direito" dentro da caixa, qdo "o caixa" estiver distraído.

Ricardo disse...

Que delícia de texto. As palavras como a bola nos pés do Barcelona.

Só uma coisa que me fez confusão: tu tens chinelos de cabedal? Não acho suficientemente másculo, tenho de reprovar tal escolha.

Diego Armés disse...

De cabedal mas à homem. Não é cá dolcegabanas ou assim. É daqueles do surf. E velhos!

BR disse...

Texto fantástico.
Parabéns ;)

pitons na boca disse...

Como canhoto "talentoso para a bola" (ou não) tenho de repudiar a mensagem final. Se um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais... e por aí fora, matematicamente falando. E o mesmo se pode aplicar aos pés esquerdos, mas no bom sentido do "incomodar". :P

Deixando de parte as minhas analogias parvas: magnifico, o paragrafo sobre estratégias e tácticas.

Constantino disse...

Diego,

Desde o 1º dia em que vi jogar Maradona sou sempre levado a creditar (levado por mim mesmo) que cnahoto é sempre bom jogador. Posso-te dizer que só admiti que o Lucio Wagner era fraquinho 3 anos após a sua saida do SLB. entretanto o tipo naturalizou-se bulgaro e foi internacional. Nesse momento eu só pensei: olha estes são piores que eu, tiveram o stoichkov, o balacov e o penev e só por isso pensam que cnahoto é smepre bom....palermas...
Actualmente já não sou totalmente vidrado no canhotismo: dão-me algumas recaidas com um Cardozo ou um ozil, mas nada que um chuto de emerson ou de shaffer não curem. No fundo, a minha infancia foi passada a sonhar com uma equipa como a do jesus, com 6 canhotos titulares, mas agora que concretizei o sonho.... bah, não é assim tão espectacular, mas tambem não é pesadelo. Come-se...

PS - a minha pancada com os canhotos chegava a isto: quando jogava ``a bola, entrava smepre em campo com o pé esquerdo e (sendo eu guarda redes) equilibrava-me muito discretamente no pé esquerdo para o apito inicial.

Abraço.

pitons na boca disse...

Eu entrava em campo com o pé esquerdo e pegava num punhado de relva/erva ou terra (dependendo da classe do campo) e atirava para trás de mim, por cima do ombro direito... pancadas.

Mas eu não era GR. Fui o nº10 mais desaproveitado da história do futebol, porque nunca me puseram a treinar essa posição. Andei a ser estragado a médio e defesa esquerdo (sendo esta ultima a posição que mais detesto). :P

El Hadrioui é canhoto... LOL

Constantino disse...

Pitons,

Nisso dos craques desaproveitados a lateral esquerdo, conheço um caso de um jogador, agora famoso, que jogou comigo: Pedro Cary (o do futsal). Devia ser o tipo com mais técnica em todos os escalões de formação do louletano, na altura, e sempre me lembro de o ver a defesa esquerdo... nunca entendi. Lembro-me (e isto é veridico, não é para fazer lenda) de ver este tipo, na altura para ai nos iniciados, a sair a jogar na sua grande área... a picar a bola por cima do adversario (o chamado cabrito).

Abraço.

Éter disse...

"e uma faculdade qualquer que devia ser de gestão ou de novas tecnologias, a avaliar pelo talento dos seus jogadores."

Olha aí o preconceito, pá! :)

Diego Armés disse...

Preconceito seria sugerir que era a equipa do ISPA.

Éter disse...

LOL

Batalheiro disse...

Olha lá meu, tu escreves bem c´mó raio.