sábado, 7 de abril de 2012

Um blogue de bola, mesmo

Ontem recebi, pela primeira vez desde que vivo nesta casa, um grande amigo meu, uma pessoa muito sportinguista. Não tenho pena dele. Mostrei-lhe as minhas propriedades, os meus microfúndios, repletos de piripiris e coentros, mas creio que não os viu bem, pois já era de noite e não tenho luz na varanda. Um dia destes tiro umas fotografias (aparte: se eu mandasse na língua portuguesa, “fotografia” passaria a ser escrita “fetugrafia”; é um preciosismo disparatado, talvez, mas sabe-me muito melhor pronunciar assim a palavra: fe-tu-grafia) e publico-as aqui para que possam apreciar o esplendor da brigada vegetal que eu coordeno com notável talento e, vá lá, alguma sorte.

Quando descemos para tomar um café, que afinal foi cerveja, fomos continuando – não foi bem continuando, foi antes prolongado, porque não havia grande continuidade; o que existiu foi uma sucessão, não uma continuação – a conversa, que era como uma árvore exótica de pensamentos, ideias, interrupções e mudanças de rumo, despontando a partir de um tronco, que seria provavelmente a língua portuguesa e a nossa amizade, em ramos das mais variadas espécies e feitios, vigorosamente e sem regras, sem leis e sem preocupações. É um encanto poder-se conversar divergindo, divagando, perdendo-nos sabe-se lá onde, no meio de pensamentos que não levam a lado algum e cuja beleza e encanto residem precisamente nessa falta de destino, nesse desprendimento pelo objectivo, nesse ingénuo mas convicto desapego pela conclusão.

Nós, eu e ele, quando conversamos não o fazemos para ter razão, provar que temos razão ou aprender qualquer coisa que nos permita, um dia, vir a ter razão. Nada disso. Ter razão é uma coisa absolutamente sobrevalorizada. Prefiro mil vezes ter ideias, mesmo que não me sirvam para nada. Ter razão é uma coisa aborrecida e estática porque culmina imediatamente ali: pois, tens razão. Uma chatice, no fundo. Ter pensamentos desordenados é muito mais divertido e, creio, enriquecedor, porque é uma espécie de mundo de fantasia no qual, magicamente, as coisas não existem porque têm uma função – não, existem porque existem e isso é bom só por si. No fundo é como tudo o resto. Passamos a vida a pensar “existimos porquê?” e parece-me uma questão disparatada e de interesse menor para a qual a resposta é a mais simples de todas: “ora essa, por que não haveríamos de existir?” e sinto-me plenamente satisfeito com esta inversão do raciocínio, bem mais optimista e bem menos quezilenta para com este nosso querido universo que nos pôs a existir.

Falámos, a dada altura, de futebol. E eu gosto muito quando falamos de futebol. É como se falássemos de finanças e eu defendesse a libra e ele o dólar. A libra é a minha preferida, é mais bonita e tal. Na verdade, nenhum de nós percebe patavina de finanças, como, aliás, o extracto de conta de cada um pode facilmente atestar. Com o futebol sucede o mesmo – com o futebol e com quase todos os outros assuntos, já que temos uma extraordinária capacidade para dizer coisas e pensar coisas abdicando, logo à partida, de detalhes insignificantes como “estar correcto”. Mas no futebol as conversas tornam-se particularmente agradáveis, pelo menos para mim, porque me sinto uma criança a dissertar sobre a conquista espacial: é um assunto deveras fascinante acerca do qual nos é permitido fantasiar abundantemente.

Perguntei-lhe então se ele conhecia este meu blogue e ele respondeu «não leio blogues de bola». Nesse momento, houve um misto de sensações: por um lado, tive pena que ele não me lesse; por outro, senti um imenso orgulho na classificação “blogue de bola” que ele atribui a este humilde canto da blogosfera. Penso que foi a primeira vez que tal aconteceu em mais de um ano de existência. É como se, até que enfim, este 227218 fosse “um blogue de bola, oficialmente”. Obrigado Zé.

5 comentários:

moleculasdeamor disse...

"Ter razão é uma coisa aborrecida e estática porque culmina imediatamente ali: pois, tens razão. Uma chatice, no fundo. Ter pensamentos desordenados é muito mais divertido e, creio, enriquecedor, porque é uma espécie de mundo de fantasia no qual, magicamente, as coisas não existem porque têm uma função – não, existem porque existem e isso é bom só por si. No fundo é como tudo o resto. Passamos a vida a pensar “existimos porquê?” e parece-me uma questão disparatada e de interesse menor para a qual a resposta é a mais simples de todas: “ora essa, por que não haveríamos de existir?” e sinto-me plenamente satisfeito com esta inversão do raciocínio, bem mais optimista e bem menos quezilenta para com este nosso querido universo que nos pôs a existir."
Isto é absolutamente BRUTAL! vOU COLOCAR NO MEU MURAL DO FACE SE NÃO TE IMPORTAS!!!!

Z disse...

Como é óbvio, não li. B)

Germano Bettencourt disse...

Prefiro pensar, que é um blogue sobre o Benfica.

Um blogue de bola mete muita "palha" à mistura, tipo, Porto, Sporting, Braga, entre outras "coisas" do género.

Abraço

Diego Armés disse...

Só agradeço que as citações sejam devidamente creditadas, se possível, com link (se não for possível o link, pelo menos o crédito).

moleculasdeamor disse...

Foi o que fiz... grato pela deferência...