sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Domingos e domingos de impaciência…

Ultimamente, tenho tido presença assídua no Estádio da Luz. Porém, nem sempre foi assim – e irei falar sobre o assunto, logo que consiga digerir uma passagem absolutamente notável do Fever Pitch de Nick Hornby a propósito do público e do jogo da bola. Esta digestão poderá processar-se, ou não, no decorrer da escrita deste texto. É um dos encantos com que a minha própria escrita me seduz: até a mim surpreende. Traçar um plano narrativo equivale, para mim, a abrir um novo documento em Word. Mas concentremo-nos.

Dizia eu que agora vou muitas vezes à Luz, se compararmos com o que me era normal. Este ano, assisti a três jogos da Europa e a um do campeonato. O ano passado, fui a 15 ou 16 encontros, no total da época. Há uns tempos atrás, era menino para ir meia-dúzia de vezes à Catedral durante um ano inteiro (houve um ano de excepção: na época 2009-2010, não vi um único jogo ao vivo; na primeira metade da época, por circunstâncias pessoais; na segunda, para não estragar uma coisa que estava a correr tão bem – assim, abstendo-me de azarar a equipa, fiz com que o Benfica fosse campeão. Não precisam de agradecer, o título é recompensa suficiente).

Isto de ir ver os jogos europeus é muito giro e muito bom, mas deixa-me uma sensação de que estou a perder algo. Surpreendido por esta impressão inesperada, mesmo após a exibição e o ambiente com o United, indaguei: de onde vens tu, ó ingrata impressão? Só no dia seguinte, ao ver os telejornais, é que cheguei a uma conclusão – não menos surpreendente do que a sensação em si.

Quando eu não ia tantas vezes ao Estádio, via os jogos, quase sem excepção, na Gelataria Típica de Alfama que, ao contrário do que o nome pode sugerir, de gelataria tem a arca da Camy e de típico tem o facto de ser uma tasca do mais charmoso que se pode encontrar, num registo simples e sóbrio (até ao intervalo dos jogos; depois disso, a coisa muda e o adjectivo deixa de poder ser usado com propriedade, a não ser que estejamos a fazer planos para o futuro). No entanto, é absolutamente verídico que se situa em Alfama.

Nestas incursões pelo futebol de balcão, havia vários momentos que eu considerava – e ainda hoje considero – sagrados: o entoar do Hino do Benfica, com a voz de Luís Piçarra diluída nas nossas, antes do pontapé de saída; as flash interviews e as conferências de imprensa no final do jogo. Podemos considerar, se formos muito rigorosos, três momentos, separando as flash das conferências. Para mim, no entanto, vai tudo dar ao mesmo. O meu interesse não é em saber que a equipa fez tudo o que estava ao alcance, que o grupo está unido, que o jogador está contente pelo golo mas o que importa é (sic) os três pontos ou que vão continuar a trabalhar, semana após semana, um jogo de cada vez porque, lamentavelmente, o futebol é assim mesmo e há que levantar a cabeça.

O que mais me importava nos momentos em que os protagonistas se acercavam de câmaras e microfones era mesmo ouvir Jorge Jesus. Jorge Jesus criou todo um novo e admirável léxico dentro do já de si riquíssimo e exótico mundo das palavras futebólicas. Eu ouvi Jesus dizer que viu um lance “nídito”. Isto, já depois de nos ter levado longe na “óroliga”, após termos sido eliminados da “champiõs liga”. Uma resposta de Jorge Jesus, a qualquer que seja a questão, é uma chapada de luva branca a quem perde tempo a discutir se o acordo ortográfico é bom ou é mau: para Jesus, simplesmente não se aplica. A língua muda, o povo escreve e fala diferente. Jesus nem dá por ela – nunca deu.

E eis que é isto que perco enquanto como uma bifana e bebo uma imperial naquele intervalo entre a Ti Rosa e o Manelito. Onde está o meu bom Jesus a encantar-me com suas palavras, tal como os seus discípulos me encantam com os seus passes, as suas fintas e os seus golos? No Estádio há a vantagem de o ver esbracejar e saltar e berrar como alguém que atravessa uma profunda crise de nervos e não se consegue fazer entender porque os jogadores não o ouvem – ou ouvem mas não lhe ligam. Percebe-se: nenhum é português. Porém, não estou seguro de que os jogadores o compreendessem melhor se o sangue que lhes corre nas veias fosse milenarmente lusitano.

Este ano, e apesar de me ter saciado com jogos internacionais frente a Trabzonspor, Twente e Manchester United, não saboreei aquele momento de clímax em que Jesus pronunciou, com a segurança de um Cardozo a bater um livre descaído sobre a direita, “tranzá-espór”, “twenty” – num claro revivalismo futriano – e “náite, máster náite”. Não é perda pouca. Gosto muito de assistir ao vivo à agitação do mister. Mas gostava de estar mais perto, porque não consigo ouvir o que diz. E gostava, sobretudo, de o ouvir discorrer sobre… enfim, sobre assuntos. Em geral. Gostava que a Judite de Sousa ainda estivesse na RTP1 e que Jorge Jesus conseguisse fazer do Benfica campeão europeu só – atentem: SÓ! – para poder ter o prazer de assistir a uma Grande Entrevista com o nosso treinador.

Perdidos, irremediavelmente perdidos, estes momentos de antologia, vejo-me a ficar impaciente pelo primeiro jogo entre Benfica e Sporting. Não é habitual em mim. Tendo, por norma, a desejar que este jogo não chegue – dá-me angústias, dá-me ansiedades, perco o apetite, tenho sonhos maus, fico confuso e stressado. Mas este ano dou comigo em pulgas. E o Benfica até pode ganhar só por quatro ou cinco a um, mas com uma condição: o golo do Sporting tem de ser apontado por Van Wolfswinkel. Só isso. E depois, venha a conferência de imprensa.

1 comentário:

João Barbosa disse...

decidi deixar aqui um comentário só para realçar a valente gargalhada que dei quando li Van Wolfswinkel.

Sou um seguidor assíduo. Do blog e do teu trabalho. Continua. Parabéns