quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O dia do equinócio

Começou tudo comigo a acordar e a pensar "isto não está nada bem". Não.

Começou tudo com um primeiro diagnóstico. Era pessimista. Eu fico pessimista quando as coisas me dizem respeito e são específicas. O diagnóstico era mau.

Primeiro, devia ter chegado ao trabalho às onze. Acordei já passava do meio-dia. Cheguei à minha secretária era quase duas. Fiz torradas com pão demasiado velho, seco. Incomestível. Um iogurte, uma banana: salvemos o dia. O shampoo estava no fim. Só me lembro destas coisas porque este dia me ficou na memória. Fiz as torradas ainda em casa. Não as comi. Lixo!

O dia era aquele especial em que as horas com sol são exactamente as mesmas que as horas sem sol. A humanidade cresceu a olhar para estas coisas. Quantas horas tem o sol? E quantas tem a escuridão? E a lua, cresce ou diminui? A humanidade deprime-me. Pessoas desorientadas, sempre à procura de uma referência.

Era dia de Porto - Benfica. E eu fiz a minha parte. Tentei acordar cedo - falhei -, vesti a t-shirt encarnada - já usada -, calcei os chinelos de couro. Aqueles que descalço no estádio, a fingir que sou a Cesária Évora. Para nos dar sorte

E ela ligou-me "a situação é grave... mesmo muito grave. Não sei o que fazer" e eu, ignorante, disse "calma, pode ser só uma coisa..."

Eu não sei coisas. Ou, sabendo coisas, sei muito poucas. Falo mais do que sei. O pouco respeito que fui tendo dos outros deve ter sido meramente fruto da compaixão - dizem que sim e eu fico contente. E então eu disse "não há-de ser nada, parece-me normal. Vamos esperar". Eu sou estúpido. Há coisas que não esperam.

A Cesária Évora anunciou oficialmente o fim da carreira. A Cesária. Logo hoje. Logo naquele dia em que havia tanto a perder.

O dia continuou e eu não fiquei mais apto. Saí do trabalho a tempo de ver o pontapé de saída. Na Típica. Foi lá que vi o jogo. Lembro-me de pouco. Fiquei com a sensação que o Benfica aguenta e pode reagir a este Porto. Mas não me lembro ao certo. No final do jogo, debatíamos, portistas e Benfiquistas, as incidências, as tácticas, as estatísticas e o golo do Gaitán. Não era mau. Mas algo não estava bem.

Meia-hora, talvez uns três quartos-de-hora depois do fim, chegou a mensagem: "a tia morreu". Simples e poderosa. Eis a frase que me há-de fazer recordar, sempre, este Porto - Benfica. O Outono começou.

2 comentários:

Bettencourt disse...

RIP

Abraço

Constantino disse...

Caro Aramés,

Isto do SLB é uma doença do catano. Por muitos acontecimentos que hajam no Mundo, a nossa memoria vai sempre dizer "ah isso foi no dia em que o SLB...".

Há uns anos acordei de manha com um telefonema "o primo despachou a pick up contra uma árvore no cmainho Alcains/Castelo Branco e esta todo esbardalhado em Coimbra" (o discurso era mais formal que isto, calma). Andei o dia todo soturno, fodido mesmo. Nessa mesma noite o SLB deu 4-1 em alvalade e eu, completamente alheado da realidade festejei os golos todos como se estivesse no estadio e a viver os melhores dias da minha vida. Passados uns anos em conversa com o primo, sobrevivente ao esbardalhanço, diz-me ele "dasse ninguem acredita, mas não me lembro de nada desse dia... aliás, nem sei em que dia foi". Logo ali atalhei "Cris, foi no dia em que espetamos 4 em alvalade e o bronco do Sousa até fez um golo.".

Pessoalmente desejo que a minha familia, passados 4 ou 5 anos de eu morrer possa dizer "epah faleceu no dia em que o SLB ganhou a sua 8º Liga dos Campeões. Coitado só viu 5.".

Abraço.