segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Esplendoroso sol de campeão

Saímos de Lisboa estava aquele sol de bronze dos nossos invernos. Não sei se outros sítios do mundo possuem, em Janeiro, um sol assim: castanho e suave, a embeber as coisas, fazendo-as brilhar com suavidade, sem histerismos. Mais tarde vim a pensar: “eis o esplendoroso sol de campeão”. Nestas alturas, pensamos em muitas coisas. Melhor: pensamos nessas coisas e não as censuramos. Tudo o que, em pensamento, é potencialmente disparatado ou sem jeito passa a ser justificado. A lua estava cheia - “para iluminar a liderança” -, a noite foi das mais frias – “revelando a têmpera do primeiro de todos” -, o sol todo ele era esplêndido – “o esplendoroso sol do campeão”. E, neste momento, tudo faz sentido, nada disto é mentira ou exagero. Há um dia em que todo o cosmos se alinha e se corrige, reencontrando o caminho da justiça. E esse dia foi ontem. Hoje é o primeiro dia da continuação.

Havíamos visto o duelo infame da noite anterior e o sentimento era generalizado: que injustiça! Como pode o Benfica não ser o primeiro deste campeonato – e destacado?! Digo-o sem pudores: há uma diferença muito grande entre este Benfica e os seus rivais mais próximos. O futebol que Um e outros jogam não merece traduzir-se em pontuações tão aproximadas. Enquanto o Benfica gere 90 minutos alternando classe e luxo com algumas cautelas e esforço moderado, os outros dois dão a sensação de que perdem quilos e quilos em campo para conseguirem um miserável e feio empate sem golos. Atenção: se há coisa que aprecio é o esforço e a abnegação dos jogadores, o espírito combativo em busca do resultado – não me entendam mal. Mas dá gosto perceber que o Benfica só precisa de entrar nesse registo se tudo – mas tudo – correr muito mal, porque até lá haverá charme e elegância de sobra para se ganhar jogos como se se desse lições de etiqueta.

Tal como este sol que me é dado pelo nosso Inverno, o regozijo e a satisfação que o Benfica me oferece não são histéricos. São, sobretudo, belos. Mas o espectáculo sobre a relva é ainda mais que isso: é prático e glamouroso, revigorante e concentrado. Há muito futebol neste Benfica, futebol de topo. E não falo da ilusão que foi 2009-2010 – degrau necessário na ascensão à excelência, talvez, mas ainda uma obra com demasiadas imperfeições. Falo de uma equipa amadurecida que soube transitar da vertigem do “rolo compressor” para a sumptuosidade sádica de quem sabe o quanto é valioso e pode ser letal. Há malvadez nesta equipa – para além de talentosos, eles são pacientes e eles são calculistas. Fazem questão de deixar que o adversário se iluda, que julgue, ingenuamente, poder discutir o resultado. E, depois, mostram-lhe que, afinal, não, não é bem assim. Segue-se, normalmente, um período de destruição pura – e, porém, nada sôfrega (isso eram hábitos de antigamente).

Hoje, um jogo do Benfica já não é só “para ganhar”; o momento deve ser aproveitado para que se demonstrem superioridade e nobreza. É um futebol snob, sim. Mas de uma aristocracia plenamente habilitada – e sobretudo poderosa.

8 comentários:

Éter disse...

Ora que belo regresso! Já chegava de férias, não?

Há, de facto, malvadez e snobismo nesta equipa. E é tão bom ver isso em campo.

Tolan disse...

Sim, é mesmo isso, malvadez e snobismo! Havia alguma necessidade do Cardozo mandar aquela bola a 100km/h e do Rodrigo enviar uma bola para a baliza com uma precisão de tacada de Golf ou de snooker que até parecia que o defesa ia lá chegar? E do Bruno Cesar fazer aquele passe que se fosse o Messi era um video no youtube com 450 mil views em meia hora? Sinceramente...

Constantino disse...

Diego,

Esta equipa quase podia dar um anuncio bem sucedido à Gillete: maturidade com pouca barba. E neste parametro temos que referir o Witsel. Dizer que nem faz a barba é banal no caso dele. O que se passa ali é que o jogo do SLB é liderado por um tipo que parece ainda ter dentes de leite mas que tem mais maturidade que o passos coelho. Faz-me um pouco de impressão e causa-me descontentamento olhar para mim, rapaz de barba farta e rija com 1 ou 2 dentes minados pela cárie (e 1 partido por um sugu) e ver que tenho a mentalidade de um puto comparando com o bom do Axel.

Abraço.

Ricardo disse...

Diego veio de lesão prolongada, recuperou bem e entrou no jogo para um poker. Todos os golos magistralmente acompanhados por passes de Bruno César.

Luis Rosario disse...

Nem mais.

Faz lembrar quando jogo à bola com o meu filho de 4 anos. Inevitavelmente ganho o jogo, se quiser, mas ele acaba todo contente porque partilhou o campo comigo e vai para a cama sonhar que quer ser como eu quando for grande.

o Leiria e o Cajuda pareciam o filho embevecido ontem.

PS: A verificação de palavras é "conas". Lol

Germano Bettencourt disse...

Bom texto como sempre me habituaste.

E o que achaste do nosso Djaniny?

Abraço

slb1958 disse...

Desde já quero aqui declarar veementemente que sou contra golos como o 1º do Rodrigo. Direi mais, o povo Português terá que demonstrar claramente ao SLB que está contra este tipo de golos, e pode faze-lo já no proximo jogo na Luz enchendo o estádio, sobe pena do governo vir com o argumento e neste caso comprovadamente válido de mais um desvio colossal.

SLB1958

mago disse...

Sabe bem voltar de ferias e ver que o o facto do Benfica estar no lugar devido inspira a qualidade de posts como este, do Ricardo ou do M.

Um bem-haja desde o outro lado do mundo, onde o sol brilha forte e quente para que a paixao nao se esfrie com a distancia (impossivel, eu sei, mas o sol nao).

PS - a verificacao de palavras e' "warred". E uma guerra vermelha comeca agora, de facto.