terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Okapi, Ka-píi

Fez ontem quatro anos que recebi a notícia da morte da minha cadela Okapi, também – ou mais – conhecida por “ka-píi”. Não me recordaria da data se não fosse o meu irmão a lembrar-se e, singela mas sentidamente, lembrar-nos a todos com uma simples frase no facebook.

É natural que tenha sido o meu irmão a lembrar-se. Okapi nunca foi uma cadela verdadeiramente “minha” e, com o tempo, tornou-se absolutamente do meu irmão. Tínhamos uma relação estranha e distante, mas havia amor entre nós. Víamo-nos uma, duas vezes por mês. Apesar da distância e de ter sido, desde sempre, uma enormíssima vagabunda sem vergonha, eu conseguia passeá-la tranquilamente e sem recurso a trela – coisa que não pode dizer-se do comum dos mortais, sobretudo se houvesse gatos, motas, bêbados ou tractores por perto (nunca consegui descobrir a característica comum a todos os seus ódios). O certo é que me mostrava obediência, não sob a forma amestrada mas antes, estou em crer, como demonstração de gratidão.

Ka-píi era uma cadela da rua que bebia das sarjetas e comia do lixo. Magra, fraca, de orelhas para trás da cabeça, olhava as pessoas com olhos de súplica, com expressão de pedinte que quer e vai lacerar-nos o coração. Há 16 anos atrás, tal como hoje, eu tentava manter os sentimentos em ordem e, por isso, desviava o olhar e pensava em coisas boas. Não dava para ignorar que a tristeza existe, mas evitava a perigosa queda no sentimento que nos oblitera a razão (e isto é-me hoje fundamental, quando vivo paredes meias com Santa Apolónia, acreditem em mim).

Um dia, Ka-píi seguiu-me até casa e não arredou pé e eu não resisti: na minha imensa bondade, ensopei três carcaças com 6 dias em água da torneira e servi-as num alguidar. O manjar não lhe sobreviveu dois minutos e então ofereci-lhe ainda uma taça de leite. Sorveu com a sofreguidão de quem não sabe se voltará a comer no dia seguinte ou mais alguma vez em toda a sua vida. Depois disso, enxotei-a. Não queria um cão, estava bem como estava, sozinho e adolescente; e, depois, não queria AQUELE cão, escanzelado, sofrido, esfolado e submisso e, ao mesmo tempo, chato, a ladrar e a correr atrás das motas...

No dia seguinte voltou. Dois meses depois, dormia no sofá lá de casa (“não quero cães cá em casa!” dizia o meu pai duas semanas antes de a deixar adormecer no seu colo, frente à televisão) e 11 anos passados era bem mais “da casa” do que eu próprio – companheira dos meus pais, fiel amiga do meu irmão, condessa territorial mais que legítima, patroa de refeições e feroz opositora de qualquer companhia feminina de qualquer um de nós irmãos, Ka-píi ganhou estatuto. Estatuto e peso – de lingrinhas capaz de abalar com o vento, transformou-se num batoque de generosas proporções: um cão vagabundo será sempre um cão vagabundo; pode comer em casa, mas nunca, nunca esquece o seu percurso de alimentação alternativa. Tal como o gato escaldado que de água fria tem medo, um cão uma vez esfomeado será sôfrego uma vida inteira, nem que seja por precaução.

Ontem, quando recordei Ka-píi, lembrei-me de como eu gostava dela e a admirava, aquela cachorra snob embora rude, astuta, refilona e prepotente e lânguida o bastante para saber como levar-nos à certa, na altura ideal. Uma cadela de eleição no corpo e na pele de uma vira-lata! E depois pensei: como seria ter outro cão agora? Certamente, iria gostar dele e educá-lo e fazer as cedências e as exigências de que uma relação cino-familiar necessita. Mas não seria a mesma coisa. Nunca mais será a mesma coisa.

E ia pensando nisto enquanto estendia a roupa, no intervalo de uma conversa com dois distintos blógueres “da cor” quando, quase por milagre e para justificar a inclusão deste post neste blogue, me lembrei de fazer uma inesperada analogia com Jorge Jesus no Benfica. O Benfica é a minha casa, Jesus é a Ka-píi. Salvo seja, isto é sem maldade.

Jesus era o vira-lata que eu desprezava e que eu gozava quando o ouvia na TV, treinava ele o Belenenses e outros menores. Da primeira vez que se falou da sua possível vinda para o Benfica (na pré-época de Quique), ri-me. Mas ri-me muito. Quando, um ano mais tarde, a conversa foi mais séria, não quis acreditar. O Benfica não podia ter um treinador “daqueles”, um bruto, um bronco, sem nível, sem educação, sem conseguir fazer concordar um sujeito com um predicado numa frase simples. Autistamente, recusei a ideia.

Mas Jesus foi ficando. E foi ganhando. E foi fazendo asneiras. E foi ganhando mais e foi fazendo mais asneiras. E foi perdendo. E eu senti compaixão por ele. E depois recuperou e esforçou-se e tentou ser melhor. E eu fui-me identificando com o Benfica dele. E o Benfica foi tendo uma identidade e foi ele que a construiu. E hoje, quase três anos depois, Jesus faz parte do Benfica. Deste Benfica. É curioso que a entidade que a todos une seja tão maleável a quem a marca, em determinada era: o Benfica de Eusébio, o Benfica de Eriksson, o Benfica de Artur Jorge, o Benfica de Simão. O Benfica de Jesus.

Esta reflexão despretensiosa e, muito provavelmente, inconclusiva é uma singela homenagem a estas figuras que, na vida quotidiana e no futebol, marcam a nossa existência e a nossa forma de estar. Mesmo que as recusemos, se elas vierem para ficar, ficam mesmo. E acabamos por adoptá-las e por ficar confusos quando imaginamos o nosso mundo sem elas.

9 comentários:

POC disse...

"Ah, o Diego escreveu! Deixa cá ver então..."

E pronto. Acontece sempre a mesma coisa.
Ouve lá oh Diego, se estás aqui para mandar um gajo abaixo, diz logo. Que esta brincadeira de escrever como ninguém tem de acabar, senão vejo-me eu obrigado a fechar o tasco, de tão vagabundo que é.

Mais um ano de Jesus e chamo o Benfica de Jesus como uma época. Mas é com final europeia, bolas :)

Ka-pii é eterna para ti. É o que importa.

http://simaoescuta.blogspot.com

Éter disse...

Este campeonato será também da Ka-píi. E do Jesus.





E do Emerson.

Ricardo disse...

Que bonito.

Que tremendamente bonito.

Saudades, muitas, da Ronny, do Sting e do Jim.

Ainda tenho a Joplin, só que só de mês a mês, também. Faço partilha de custódia com a minha irmã. Ela ganhou, eu levo as sobras. Mas dou-me por feliz.

Qualquer dia arranjo um cão. E não é substituir ninguém, como um estúpido qualquer um dia me perguntou, 1 ano depois de o Sting ter morrido e ter aparecido a Joplin ("então arranjou substituta?". É preciso ser muito estúpido, especialmente quando a pessoa leva malícia naquilo que diz.

O Jesus não tem substituto. Vai fazer falta. Mas um dia virá outro. É assim.

Germano Bettencourt disse...

É incrível como num post tão grande, chegamos ao fim e exclamamos, então, já acabou!

Por acaso nunca tiveste um gato? Escreve uma história sobre o gatinho e compara à vinda do djaló. :P

Agora mais a sério. LINDO.

Escreves bem como a porra. Um gajo chega ao fim, e tem de limpar a baba do canto da boca.

Parabéns pelo post.

Um abraço.

mago disse...

Grande texto.

E concordo em absoluto. Neste momento e'-me dificil imaginar um Benfica sem Jesus. E apesar de ter defeitos acho que este e' o maior elogio que se lhe pode fazer - e' a primeira vez que para mim o Benfica e' o Benfica de um treinador (sou da colheita de 82, lembro-me do Eriksson mas nao tinha idade suficiente para me aperceber das propriedades osmóticas que um clube e uma pessoa podem partilhar).

Mr. Shankly disse...

Nem vou dizer que o texto é lindo, porque são sempre. Só uma nota para dizer que te compreendo: há uns dias sonhei que o Jesus ia para o Sporting e acordei angustiado. Palavra de honra. O Jesus é nosso, como dizes foi-se fazendo nosso com o tempo, apesar de (ou precisamente por) ter sido um vira-lata (e até lagarto ao que consta).

pitons na boca disse...

Excelente texto.
É coisa que está ao alcance de poucos, a forma como foges ao erro fácil e quase infantil, escrevendo "autistamente", quando tinhas logo ali à mão um "autisticamente" erróneo a clamar por um lugar na equipa titular, sem o merecer. :)


Trinta e três festeja-se no Marquês. E que seja desta vez.

Diego Armés disse...

A vossa generosidade é o meu alguidar de água e carcaças duras, a minha malga de leite.

POC disse...

Trinta e três festeja-se no Marquês. E que seja desta vez.

@pitons na boca, lindo pah!